Baby Invasion (Harmony Korine, 2024)

 


“Niilismo em HD” diz um dos espectadores do espetáculo que se justifica como gameplay e que atravessa certos limiares a respeito de narrativas cinematográficas e formalismo, sobretudo visual. A recepção discreta de Baby Invasion em Veneza reflete um incomodo com a possível assimilação de um exercício feito à base de superficialidades para narrar uma gangue de gamers em tarefa subversiva neste mundo paralelo. O que chama atenção é que o filme de Korine vai pelo caminho oposto desta suposta interpretação. Este talvez seja o filme definitivo a respeito da imagem das primeiras duas décadas do século XXI. A banalização da imagem é inerente à vida moderna. E Korine parte da justificativa do game, mas se esmera nos cortes e nos efeitos visuais sem grandes amarras. O gameplay que remete a dois trabalhos recentes do diretor, Aggro Drift (2023) e Spring Breakers (2012), se falarmos como trama, mas ao longo que Baby Invasion espaça acontecimentos narrativos, sobram os comentários sobre todos os mecanismos e dispositivos que fizeram ou fazem parte da vida de todos. Das transmissões em streaming, webcams, câmeras de baixa resolução, VR, glitches, inteligência artificial e celulares, o filme é um mostruário de funcionamento destes meios e que mudam por completo a relação com o mundo e a vida. Importante lembrar que falamos de uma vida paralela, mas, ironicamente, Korine faz o final mais analógico possível.

Grand Theft Hamlet (Sam Crane, Pinny Grylls, 2024)

 

 

Como um filme que se justifica a partir do confinamento pandêmico, Grand Theft Hamlet é um teatro-videogame (como os realizadores o chamam durante o filme) que está mais interessado em salientar, mesmo que indiretamente, como a linguagem cinematográfica domina novas formas de consumo de imagem e entretenimento. O jogo GTA, como apresentado, é um jogo em que "tudo pode acontecer". Já o ensaio e execução em total liberdade de adaptação para Hamlet, que como grande atração tem o uso do jogo, não está interessado em grandes experimentações quando falamos do cinema em machinima ou até do gameplay. Ele se resume à uma festa à distância (encenada) com amigos conversando (e atuando) enquanto os diretores têm a árdua tarefa de esclarecer quem é quem, como cada um se comporta e a relação com o jogo em si. Este labirinto emocional-digital é interessante por algum tempo e logo é inflado já que o método é justamente achar paisagens cinematográficas, planos estonteantes ou a sugestão de vermos uma adaptação cinematográfica e não teatral de Shakespeare. No filme o GTA se dilui como atração neste caminho definido por Crane e Grylls. É um filme de uso de paisagens digitais e não dos mecanismos do game em si - e quando os usa, são visuais, como um integrante alienígena ou tiros disparados. Tampouco as usa com sua real função a partir de um novo conceito como Phil Solomon, por exemplo. No fim, o game é usado pela impossibilidade do encontro, de construir proximidades num momento de distância implantada pelo perigo da morte. E Hamlet parece ser a escolha ideal, ao menos.

OS MELHORES FILMES DE 2024


 The Order de Justin Kurzel
 
Este ano marca uma intensidade tamanha em lançamentos e produções, sobretudo nos filmes independentes, o que sinaliza um norte muito interessante na busca por alternativas além do circuito de cinema e plataformas de streaming estabelecidas. O aumento na velocidade dos lançamentos do cinema para o video on demand foi significativo no mercado internacional, enquanto muitos cineastas encontraram no YouTube, Vimeo e TubiTV alternativas para lançar seus filmes de baixo ou sem orçamento para além de exibições modestas em eventos espaçados. Parte dos filmes aqui listados passam por isso. Por outro lado, cineastas como Clint Eastwood, Mati Diop, Soi Cheang e Peter Farrelly foram direto para VOD no Brasil. Filmes que corriam para o lançamento já que sua data de estreia no serviço por demanda estabelecida pelo mercado internacional não deixa outra escolha para distribuidores como os novos de Richard Linklater, Tim Burton e Coppola. E, claro, aqueles que foram direto para a  TV como Free LSD de Dimitri Coates, As Três Filhas de Azazel Jacobs e One More Shot de James Nunn. Completam a lista, claro, muitos filmes que se limitam ao circuito de festivais e que chegarão aqui - quiçá - via streaming, os independentes que acharam outras formas para chegar ao público como The Foreground de Ty Jacob, aqueles que ganharam, com folga, algum espaço para sua carreira nas salas de cinema como Armadilha de M.Night Shyamalan ou Furiosa de George Miller e os que chegam ao circuito já sob a exigência de algum resultado como Greice de Leonardo Mouramateus, Los Colonos de Felipe Gálvez e Todas as Estrada de Terra Têm Gosto de Sal de Raven Jackson. Espero que gostem da lista e sintam-se à vontade para comentar.
 
A única regra para a composição desta lista é filmes lançados entre 2022 e 2024. Vamos a eles, os melhores filmes de 2024. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

  
 
 
 
 
 
 
Pedro Tavares é doutorando em comunicação pela PUC-RJ, mestre em estudos contemporâneos das artes pela UFF-RJ, diretor e curador do Festival ECRÃ, realizador e membro da Federação Internacional de Críticos de Cinema (FIPRESCI) e Associação Brasileira de Críticos de Cinema (ABRACCINE).

Baby Invasion (Harmony Korine, 2024)

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