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ECRÃ 2021

 

Canções Engarrafadas 1-4 de Chloé Galibert-Laîné e Kevin B. Lee



Certamente estamos cansados de resumir nossas vidas às telas durante a pandemia. O que era novidade há um ano atrás hoje já parece um terreno defasado. No entanto, creio que o pensamento que me incentivou na construção da lista de longas e médias do ECRÃ foi de um conceito em movimento com interesse antropológico inerente ao momento que vivemos. Desta maneira sugiro algumas sessões duplas ou triplas com os longas e médias selecionados para o ECRÃ 2021. 

A começar, obviamente, por Ken Jacobs e seus filmes dO Céu Socialista. É interessante notar que em 2019 Jacobs revisita um ensaio sobre uma cidade a mudar de cara com um sentimento de luto. Sugiro assistir os dois em sequência e o segundo é bem curtinho, é possível ver sem grandes problemas. Uma sessão tripla interessante daria com o novo de James Benning, em estreia mundial no ECRÃ, De Bakersfield Para Mojave, Centro de Peter Azen e Natalis de Raquel Monteiro. São filmes que utilizam do mecanismo da observação para arquitetar a noção de um espaço a compartilhar, porém, todos eles, com pouca ou nenhuma presença humana, logicamente uma relação com o momentos que passamos. O filme de Peter e o de Raquel juntos não dão 2h, ou seja, dá pra acompanhar com o do Benning sem grandes problemas também.

Filmes que se especificam por exercícios de textura, ruídos e experimentações unidos à linguagem como 52 Filmes Curtos de Frances Arpaia, Benjamin Zambraia e Autopanóptico de Felipe Cataldo, Imagem da Percepção de Guli Silberstein e Mudando de Sonhos de Mariana Dianela Torres casam e são filmes curtos. O maior deles, o de Arpaia, tem pouco mais de 90 minutos. 

Canções Engarrafadas 1-4 de Chloé Galibert-Laîné e Kevin B. Lee me remete aos primeiros minutos de Videogramas de uma Revolução e fica evidente a influência que a dupla tem de Harun Farocki. Como é um filme pesado sobre o contemporâneo sugiro um alívio com Edição de Vídeos Digitais com Adobe Première Pro: Guia do Mundo Moderno Para Configurações e Fluxo de Trabalho, um desktop movie de horror muito interessante sobre linguagem, sobretudo. 

Sombra de João Pedro Faro, Saxifraga, Quatro Noites Brancas de Nicolas Klotz e Elisabeth Perceval e Ste. Anne de Rhayne Vermette dão bons filmes para um sábado à noite, cada um a sua maneira. O filme de João Pedro é livre em sua essência, algo entre O Anjo Nasceu e Trash Humpers versão juventude black metal. O filme de Klotz e Perceval é uma declaração distópica sobre o passado e um (in)consequente futuro. O filme de Rhayne utiliza muito bem de seus métodos e da bitola para narrar uma deslocamento familiar - no emocional e na espacialidade. 

Toda Luz que Podemos Ver de Pablo Escoto e S4D3 de Raúl Perrone usam do barroco como córrego para o pesadelo. O filme de Escoto através do analógico e o de Perrone pelo digital, dialogam com a fantasmagoria e de alguma maneira se completam no diálogo do vazio que o poder, no fim das contas, nos entrega. Outros dois filmes que me parecem complementares são o de Gustavo Vinagre, Desaprendendo a Dormir e o de Caetano Gotardo, Você Nos Queima. Dois filmes paulistas que dialogam com o estático e com o movimento, com a poesia e o rudimentar. 

Existem os filmes que precisam de um espaço exclusivo independente de suas durações. É o caso de Apyawã (Tapirapé) Iraxao Rarywa, um filme-ritual de pouco mais de 40 minutos que guarda muito sobre resistência e força. Outro caso é o de Eu Ando Sobre a Água de Khalik Allah, uma epopéia de 3h20 sobre a amizade do diretor com o morador de rua Frenchie, um filme muito abrangente e que serve também como um confessionário do diretor. O novo filme de Michael Pilz, Como Amor Volume 1: 1987-1996 é um filme-tributo a Mekas e principalmente ao ato de debruçarmos sobre os filmes com tamanha paixão. Talvez um filme para encerrar o domingo. Liminal, a coletânea de curtas de Philippe Grandrieux, Lav Diaz, Óscar Henriquez e Manuela De LaBorde, por serem tão díspares, exige seu próprio lugar. Já Icemeltland Park de Liliana Colombo é como uma reação nervosa à uma reportagem que estabelece o nosso fim. 

Termino com três filmes que dialogam diretamente com os corpos e espaços e cada um aborda filosoficamente e que cabem numa sessão tripla: A Última Imagem de Benedito Ferreira, Um Gato Sonha com o Norte de Diogo Oliveira e Venha Aqui de Anocha Suwichakornpong, filmes muito fortes sobre processo e arte. 

O ECRÃ acontecerá online e gratuitamente entre os dias 15 e 25 de julho em www.festivalecra.com.br. 

Bom festival a todos!




ECRÃ 2020

Prazeres Circunstanciais de Lewis Klahr
Prazeres Circunstanciais de Lewis Klahr

Aproveitando que o ECRÃ esse ano será online por circunstâncias que nos deixam trancados em casa há meses para escrever um pouco sobre os longas e médias do festival no qual sou curador. Obviamente indico todos os 26 filmes da seleção, mas aqui pretendo resumir rapidamente caso o espectador precise de um norte para escolher. Como a proposta inicial era fazer o nosso tradicional panorama mundial de experimentações audiovisuais na Cinemateca do MAM, com a mudança de cenário, eu e Gabriel, curador dos curtas, decidimos seguir com ela via streaming e sugerirmos alguma sessões duplas através das redes sociais. Nessa lista tem filmes de Rotterdam, Berlim, Locarno, Tiradentes e Cinéma Du Reel, para citar alguns festivais, mas acredito a grife é o que menos interessa na hora de indicar ou falar sobre os filmes, mesmo que rapidamente.

Seguindo somente com os longas e médias, a primeira complementação óbvia é o de Telemundo do James Benning, figura carimbada no ECRÃ, com o filme da Sofia Brito, A Verdade Interior. Dá uma linda sessão, a começar com o filme da Sofia e o do Benning como produto final. Outra sessão interessante é A Densa Nuve, o Seio do Vinicius Romero com Estático Após o Verão do Eli Hayes. Os dois juntos dão uma espécie de tempestade e bonança de atmosfera e imagens, entre o caos e a melancolia.  O mesmo posso dizer de Sono de Outono e Viagem Fantasma de Michael Higgins e Stephen Broomer, respectivamente. Neste caso, são filmes monocórdicos que intrinsecamente provocam um caos interno e a relação dos dois com a película é muito interessante. 

Ariadne de Jacky Connolly e Pressão Atmosférica de Peter Treherne são dois médias que usam a tensão estética como o mote de seu desenvolvimento - seguem por caminhos diferentes, mas costumo dizer nas reuniões de curadoria que, se visto primeiro, o filme de Treherne é uma espécie de bad trip para a crise de pânico que é filme de Jacky Connolly. Feito majoritariamente em machinima com o jogo The Sims, o filme de Connolly tem uma sugestão ao horror muito interessante. Já o de Peter é um filme melancólico e mais próximo do que gostam de chamar de slow cinema - que tem sua parcela bem representada com A Casa de Plástico de Alisson Chhorn. Talvez uma sessão tripla com os três médias caia bem. 

A união de experimentações e o discurso do pertencimento está em filmes como Calidris de Peter Azen, Cavalo de Rafhael Barbosa e Werner Salles, Estratos Fantasmas de Ben Rivers, O Documento Giverny (Canal Único) de Ja'Tovia Gary, É Rocha e Rio, Negro Leo de Paula Gaitán e A Forma do que Está por Vir de J.P Sniadecki e Lisa Malloy. Todos assumem o tom documental para debater questões raciais, imigratórias e espirituais. Diria que em comum todos eles tem uma força descomunal e têm ao menos uma sequência a levar por muito tempo na mente.

Outra tradição do ECRÃ é o diálogo direto com gêneros formalistas do cinema e que geralmente tem suas regras subvertidas: CidadeFantasma de Jon Cates, um filme narrativo feito majoritariamente de sobreposições e glitches e Sertânia de Geraldo Sarno, certamente o filme mais afiado da seleção. Filmes de imagens encontradas também são tradicionais no festival e sugiro a sessão dupla de Meu Pretzel Americano da Nuria Gimenez, uma espécie de carta-drama com imagens encontradas e 4lgunxs Pibxs do Raul Perrone, que usou seus arquivos para montar um filme sobre a juventude durante a quarentena. O filme do Erik Negro, Não Há Lado Sombrio eu recomendo que seja assistido sozinho, não pelo alto de seus 206 minutos, mas pela grande camada de informações que o filme oferece, com imagens do arquivo do próprio Erik, imagens de terceiros, músicas de diversas épocas, uma parabólica sensorial muito potente. E Eléonore Weber usa imagens de guerra para mostrar seus despropósitos em Não Haverá Mais Noite, um dos filmes mais fortes da seleção.

Gerações de Lynne Siefert é um filme estrutural apocalíptico que dá uma sessão interessante com Prazeres Circunstanciais de Lewis Klahr, quase uma antítese do filme de Siefert mas que colocam vida e morte em soslaio. 

 Encerro falando sobre os filmes narrativos com intervenções experimentais como Sofá de Bruno Safadi, Passou de Felipe André Silva e Revolução Lavanderia de Mark Chua e Lam Li Shuen, que sugiro como sessões de sábado à noite. 

Torço para que aproveitem e vejam o máximo de filmes no ECRÃ.

 

Festival do Rio (Parte 2)

 O Ornitólogo (Idem, João Pedro Rodrigues, 2016) 

O evangelho segundo João Pedro Rodrigues é exatamente o que se espera dele; percorre terreno do indevido, da solidão, das representações visuais e de um discurso a favor da tradição, porém contra a religiosidade. Onírico e igualmente assustador, o caminho no deserto é o lugar para ver uma vida inteira – das tentações à crucificação, de Judas a Tomé. Ornitólogo pode ser uma análise científica do que não se vê. 

 Tramps (Idem, Adam Leon, 2016) 

Adam Leon faz mais um filme de aventura pelas ruas de Nova Iorque após seu tributo involuntário a Spike Lee em “Gimme the Loot”. A premissa é a mesma, englobar o ambiente e tensão justificados por um fio narrativo. Em Tramps trata-se da busca por uma maleta que desenvolve como um romance bem humorado com as amarras deo suspense justificados por uma gangue do Brooklyn. 

 Personal Shopper (Idem, Olivier Assayas, 2016) 

O filme americano definitivo de Assayas. E não surpreende que ele pareça com um filme de M.Night Shyamalan. Um jogo de espectros, inclinado à cafonice, um completo controle de direção – uma sequência de 20 minutos dividida em ação e uma longa conversa por celular, por exemplo – que justifica sua trama com um interesse muito maior no lado espiritual sem amarras com a subjeção. 

 De Palma (Idem, Noah Baumbach, 2016) 

Brian De Palma frente à câmera, livre para comentar sua filmografia cronologicamente e sem opinião de terceiros. O monólogo tem alguns bons momentos, especificamente os detalhes sórdidos de filmagem e repercussão dos filmes, que não tiram o ar superficial de extra de DVD. 

 Dog Eat Dog (Idem, Paul Schrader, 2016) 
A degradação moral da América. Schrader faz um inventário completamente despudorado e hilário sobre o que já foi filmado sobre o assunto. Dog Eat Dog encontra-se na crítica direta ao sensacionalismo que o cinema americano cria como manobra para vender ingressos, sem apegar ao que há de mais importante – o lado soturno de seus personagens. E por isso Schrader gerou repulsa de críticos e público, porém o que se vê é um registro inflexível de um país. 

 Os Garotos nas Árvores (Boys in the Trees, Nicholas Verso, 2016) 


O imaginário adolescente sobre o terror. Um filme muito particular de Nicholas Verso, permeado pela nostalgia – ilustrada por canções de bandas dos anos 90 – e de cuidado estético primoroso. Ainda que tudo seja resolvido na primeira hora e que o filme anda para o caminho de uma saudosa declaração, há uma força em cada plano do filme para justificar este sentimento. 

 Boris Sem Beatrice (Boris San Béatrice, Denis Coté, 2016) 

Uma comédia sobre a consciência burguesa ou a completa falta da mesma. Coté é mais conciso num jogo de chiaroscuro – só existem cenas em ambientes extremamente claros ou escuros – a caminho do inevitável. Um filme de corpos encostados das mais diversas maneiras. 

 A Região Selvagem (La Région Salvaje, Amat Escalante, 2016) 

Filme que faria sessão dupla com Boris Sem Beatrice, pois também aborda a consciência, dessa vez pelo lado visceral. Escalante continua sua abordagem social, talvez mais perto de Bastardos do que Heli onde o realismo fantástico é chave moral para costurar questões minuciosas do “mundo cão” de Escalante. 

 Capitão Fantástico (Captain Fantastic, Matt Ross, 2016) 

O primo distante de Pequena Miss Sunshine. É o sucesso indie do ano, a aventura da família diferentona e tão caricata ao mesmo tempo, a do bem contra o mal, ou melhor, o capitalismo. Capitão Fantástico sobrevive graças às alegorias, sempre elas sustentadas por uma justificativa: é possível viver de outras formas. E como se espera, há conflitos sobre o que é “viver de maneira correta”. Um exemplar do que há de pior no cinema americano atualmente.

NOVO ENDEREÇO

 Amigos, agora estou neste endereço: www.7a1filmes.com/blog Deixarei este blog aqui como arquivo de quase 20 anos de blogs, sites e revistas...