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SPRING BREAKERS: GAROTAS PERIGOSAS


Do subúrbio americano, onde a grama do vizinho já não é tão verde após inúmeras análises sobre o comportamento da classe alta americana, nasce o ideal crítico de Spring Breakers: Garotas Perigosas. Harmony Korine (que outrora dirigiu os esquizofrênicos Trash Humpers e Gummo) traz a percepção de um exorcismo às avessas da juventude americana.

Em um tempo onde tudo já foi provado e qualquer tabu foi destituído, cabe aos jovens banalizar os extremos; violência, sexo e drogas deixam de habitar o consciente comportamental para fazer parte da ostentação aguda dos novos tempos, junto ao egocentrismo e a sensação de domínio.

Portanto, Korine, mesmo com o voyeurismo que cabe ao filme repleto de meninas com poucas roupas e uso de drogas embalados pelas festas desregradas das férias de primavera (Spring Break) é ciente que o longa dita o caminho inverso. Do tédio à rotina estudantil à perdição previsível, Spring Breakers questiona a maturidade dos jovens criados sob julgo da religiosidade e o efeito inverso que a forma de ensino nos EUA produz aos adolescentes.

Para ilustrar este ideal da perdição, Harmony Korine faz das luzes de neon e o visual paradisíaco da Flórida, o peso que o paradigma da "boa vida" traz. A opressão vem em forma de dogmas, exterminados pela figura de Alien (James Franco), versão folclórica do maligno - o extremo, que de certa forma, as garotas procuram desde o início de suas férias. O encontro com uma forma abstrata de liberdade. 

★★★
Spring Breakers - Garotas Perigosas (Spring Breakers, EUA, 2012) de Harmony Korine


DESCOBRINDO O AMOR


Apesar do título de filme "acessível", Descobrindo o Amor nada mais é que um grande desafio em relação aos moldes narrativos do cinema americano. O filme de Whit Stillman (Metropolitan), selecionado para os festivais de Veneza e Toronto enfrenta convenções cinematográficas de maneira criativa: adota um gênero consagrado (comédia teenager) e nele constrói diversas armadilhas bem humoradas.

Através de um grupo de adolescentes amigas de quarto e que mantém o grupo de ajuda a alunos com pensamentos suicidas, Stillman, neste campo, subverte estruturas narrativas ao concentrar-se na verborragia para diluir conflitos e características de infinitos personagens. Caem os mitos e funcionalidades de um gênero.

Nele, vemos um filme em monocórdio – o que beneficia a fina ironia de Stillman em adotar outros gêneros como ferramenta crítica. O embate é direto com o público; O que ele consome? O que o edifica? Como gasta o seu tempo? Só não enxerga quem não quer – ou está ocupado sendo domesticado por mais um plano de grandes corporações.

Adotar a fórmula que mais angaria jovens para às salas de cinema, além de um grito contra dogmas e convenções, é a comprovação de Stillman em sintonia com a percepção contemporânea em usar o cinema como matéria-prima para seu discurso.

Descobrindo o Amor (Damsels in Distress, EUA, 2011) de Whit Stillman

BAD ASS: ACIMA DA LEI

Apesar de nunca extintos, os filmes exploitation tiveram resgate pelos idos de 2007 após o lançamento de Grindhouse, projeto de Quentin Tarantino e Robert Rodriguez que englobava À Prova de Morte e Planeta Terror, filmes de baixo orçamento com violência, nudez, palavrões e na técnica, péssimos efeitos especiais e finalização propositalmente ruim. De lá pra cá diversos gêneros se apoiaram nesta justificativa e muitos buscavam a essência destes filmes, que é a diversão e a falta de moral. Alguns, inclusive, conseguiram distribuição no Brasil como O Vingador e Machete.

Bad Ass: Acima da Lei se vende como um filme deste segmento – seja na arte, na trilha ou na sempre pertinente escolha de Danny Trejo como protagonista, ator que é símbolo de filmes que estão à margem do grande público. Porém, o filme dirigido por Craig Moss curiosamente segue o caminho da moralidade. Há espaço para críticas – principalmente para a inversa intolerância às minorias na fronteira entre México e EUA. Bad Ass, o protagonista, filho de uma Mexicana e aposentado por invalidez após defender os EUA na guerra, nunca é anti-herói; sua posição é consequente, não uma escolha filosófica ou pura falta de amor à vida.

Há muitas justificativas em Bad Ass: Acima da Lei. Perde-se muito esmiuçando dramas e forçando empatia por personagens secundários. A consequência – ou a tão aguardada anarquia traduzida em violência e o característico pessimismo que ronda uma história composta somente por vilões, não acontece. Bad Ass: Acima da Lei, assim, nada mais é que uma propaganda enganosa, sem autenticidade, suportado pela linguagem de clipes e, de forma maquiada, busca a moral e a esperança. A famosa utopia americana.

 
Bad Ass: Acima da Lei (Bad Ass, EUA, 2012) de Craig Moss

MARGARET


Muitos tentaram usar a analogias como recurso político ou existencial como ferramenta narrativa apó os ataques de 11/09. Tal metodologia ganha nova identidade em Margaret, longa que marca o retorno de Kenneth Lonergan (Conte Comigo) à direção em um filme coeso, que lentamente disseca o posicionamento americano perante todos os poréns que justificam o ataque terrorista e seus desdobramentos.

Do acidente que traumatiza a estudante Lisa Cohen (Anna Paquin em performance impressionante), acompanhamos um filme-cotidiano com insinuações de duplicidade que aos poucos dominam a história até contaminar toda a tela numa pequena e brilhante cena - sem atores, sem diálogos, apenas Nova Iorque.
Lisa está longe de ser uma boa moça. Ela é a epítome da hipocrisia americana, acostumada a resolver e equiparar sentimentos com acordos judiciais geralmente associados às quantias astronômicas - e que pode manipular isso para o bem ou para o mal. O que importa mesmo é se sentir completo - pelo menos para quem vê de fora.

Lonergan utiliza elementos comuns como a rotina de um colégio ou relações amorosas para elaborar este raciocínio aberto ao julgamento do espectador; ego, dinheiro, sofisticação, arte e amizade parecem ingredientes para uma bomba-relógio pronta para ferir quem a produziu.

Como um círculo vicioso com discussões calorosas sobre crença e comportamento, Margaret levanta a bola e se esquiva de qualquer resposta grosseira. Seu intuito é instigar a explosão sem qualquer tipo de afirmação. E o dever é cumprido com louvor.

Margaret (Idem, EUA, 2011) de Kenneth Lonergan

HOTEL DA MORTE


Do raciocínio que coincide com a premissa de O Iluminado de Stanley Kubrick (a amplitude de um local para causar efeito contrário, ou seja, claustrofobia e conseqüente terror psicológico), Ti West faz de Hotel da Morte um exercício que se distancia do clássico de 1980 se concentrando novamente em estilo e remitências.

Desta vez, o fim dos anos 90 serve como referência direta, ainda que resquícios oitentistas estejam na narrativa. Também num hotel, Ti West se concentra mais na violência que o lado psicológico causa em seus personagens, com o tradicional jogo de tempo, movimentos de câmera e geometria cenográfica, porém muitas vezes sem dar o que o público espera a exemplo do famigerado The House of the Devil de 2009.

Através de discrepância visuais – cenários ou muito claros ou muito escuros, salas enormes e corredores apertados – e da representação mínima de personagens coadjuvantes, West usa eventos sobrenaturais e os justifica silenciosamente. Hotel da Morte exige que o espectador saia da tensão para decifrar sua natureza. Porém, no meio desta execução, estão momentos vazios onde o estilo é prioritário para o diretor, fato este que fez West angariar fãs por todo mundo. Uma pena que seja por seu lado dispensável.


Hotel da Morte (The Innkeepers, EUA, 2011) de Ti West

UM TIRA ACIMA DA LEI


Longe do exercício que reunia experimentalismos à narrativa composta de aspectos melodramáticos em O Mensageiro, Oren Moverman compôs Um Tira Acima da Lei sem excelência. Em vantagem, repete-se a parceria com Woody Harrelson, ator que dilui qualquer problema rítmico com atuações arrasadoras e desta vez a história se repete.

Moverman é preguiçoso. Transforma uma sugestão em certeza e satura sequências com movimentos de câmera repetitivos que espelham a mesmice do tema – a corrupção policial e a relação com o racismo nas ruas da Califórnia.

David Douglas Brown (Harrelson) está numa montanha russa emocional onde se sabotar parece a única saída: família, amigos, amantes. Todos se tornam um vulto negro, um pesadelo constante. Entre um cigarro e outro, a pose de bad cop vai de encontro com a lei, com normas da sociedade e as responsabilidades de um pai de família. O conflito é entregue no primeiro encontro de Brown e sua família nada convencional.

Moverman busca incessantemente por cenas marcantes, principalmente nos encontros de Brown e suas filhas e com um general jogado às traças vivido pelo sempre excelente Ben Foster.

Latinos e negros são o objeto de estudo sem o desgrude da cartilha Hollywoodiana – enquanto Brown aparentemente é encurralado pela lei, destino, moral (como você achar melhor adjetivar), a câmera nunca deixou de o captar em contra-plongée. Ou seja, Um Tira Acima da Lei assinala o assunto, mas nunca largou as amarras do conforto e muito menos se virar contra quem se rebela.

★★
Um Tira Acima da Lei (Rampart, EUA, 2011) de Oren Moverman

O ABRIGO


Sintomático em relação à epidemia oriunda do sufoco que contemporaneidade oferta à sociedade, O Abrigo divide a imagem de Curtis (Michael Shannon) na posição de antagonista e protagonista de acordo com a ótica escolhida pelo próprio espectador. E daí surge a peça instigante do filme, só ela se sobressai dentro da narrativa horizontal (relacionado ao tempo) de Jeff Nichols.

Síndrome de pânico ou princípio de esquizofrenia traçam o diagnóstico de um homem assombrado por pesadelos enquanto o diretor figura com fidelidade e modismo analogias ao tempo onde o terror é rei pela iminência do fim dos tempos. Definí-lo como vilão por justamente ser vítima da autosabotagem criada pelo medo ou protagonista também vítima de maldição hereditária preso ao labirinto de sua doença sinalizam bons ganchos dramáticos.

O roteiro escrito por Nichols transparece a construção de sequências com destino traçado mais à frente. Tal ação destrói a idéia de fluidez do tempo e que vai de encontro à previsibilidade como os conflitos entre Curtis e sua fiel esposa Samantha amplificado ao drama da filha Hannah e espelham, nos dois caminhos, a busca pela sensação de proteção.  Esta, que é tão clara à primeira vista, se torna um monstro complexo refém de sintomas negativos não só das grandes cidades, segundo o diretor.

 ★★★
O Abrigo (Take Shelter, EUA, 2011) de Jeff Nichols

CORIOLANO


Coriolano surpreende em diversos aspectos: transpassa de forma sóbria para atualidade a tragédia homônima escrita por William Shakespeare em 1608 mantendo seus diálogos. Ralph Fiennes, em seu debut diretorial, impressiona pela ótica e tendência de cinema de autor, esquivando-se de gêneros e banalidades em um filme que envolve conflitos hoje exaustivamente usados. O diretor (e também protagonista em atuação expressiva) usa este método inusitado para subverter as idéias e colocá-las em seu local de origem. Simples e puro.

Sem destoar do tom trágico e da verborragia comum do autor, a luta de um homem contra sua natureza escorre para o embate com a corrupção de caráter e política – assunto que nunca será obsoleto - e analisa a vaidade como pedra de tropeço para o homem. Ela engole a justiça, os ideais e a paz.

Fiel à obra de inspiração e inteligente em sua adaptação no aspecto visual, Coriolano, ainda que seja prejudicado por conta de um epílogo desritmado e sem freqüência com o resto do longa, possui justificativas necessárias para sustentar sua qualidade até a belíssima sequência final, onde pessimismo e vísceras são colocados em cheque.

★★★
Coriolano (Coriolanus, Reino Unido, 2011) de Ralph Fiennes

O VINGADOR


Na onda do resgate de gêneros, O Vingador utiliza o seu tempo a favor: o clássico modelo do exploitation aqui abraça a tecnologia, onde a definição da imagem pode ser até uma antítese de filmes que eram vendidos justamente pela falta de técnica e qualidade.

O Vingador jorra sangue e anarquia. O preceito está intacto, juntamente com o fiapo de história que engloba gangsters, prostitutas, mendigos e claro, muita violência. No âmago, a discussão sobre a banalização da vida e da imposição do corte na linguagem de cinema imposta pela TV. Mas, o filme que segue a risca o dogma do sleaze e do gore, coloca em seu título (no original Hobo With a Shotgun, algo como “Mendigo com uma Espingarda”) a pretensão em entregar cenas grotescas e igualmente impecáveis com um único motivo: diversão.

O filme de Jason Eisener é um raro caso de amplitude da ótica dentro de um gênero: caso o espectador leve o filme a sério, ele será convencido em poucos minutos a abraçar a idéia que tudo é elevado com justificativas plausíveis. Caso você dê o play disposto a esquecer do mundo, pronto: você fez a escolha certa.

 ★★★★
O Vingador (Hobo With a Shotgun, EUA, 2011) de Jason Eisener

CINEMA VERITE


Vencedor do Globo de Ouro 2012 de melhor filme feito para TV, Cinema Verite em sua totalidade não possui moldes televisivos. Sua narrativa não encontra espaços para inserções comerciais ou ritmo para a possibilidade de eventuais distrações do espectador durante o filme. Dirigido por Shari Springer Berman e Robert Pulcini, vemos a reconstituição dos bastidores do programa An American Family – destruindo por completo a idéia de perfeição das famílias dos subúrbios americanos futuramente analisados por nomes como Todd Solondz, Sam Mendes e Larry Clark.

Berman e Pulicini são ousados. Não titubeiam para manter-se na superfície mesmo com conflitos profundos que traçariam mais tarde o novo modelo de família para o mundo inteiro. Não há necessidade para análises aqui. Basta olhar para o lado. Portanto, Cinema Verite torna-se um jogo de cena sobre o espetáculo televisivo e a amplificação do drama utilizando a câmera como peça-chave.

Todos são protagonistas e antagonistas – alusão clara, novamente, ao novo modelo de família em todo o mundo: presas à televisão das mais variadas formas e em geral, destruídas e sem comunicação. Porém, para os que pensam que a tragédia rege o longa, ledo engano: os diretores alinham muito bem humor e sabem muito bem para quem vende o seu peixe; encontram o espaço necessário para dialogar, prender e entreter. Como a vilã da história deveria fazer. A TV.

★★★
Cinema Verite (Idem, EUA, 2011) de Shari Springer Berman, Robert Pulcini

O DUBLÊ DO DIABO


Viver na pele de um monstro. Latif Yahia morreu simbolicamente e viveu como alterego de Uday, filho de Saddam Hussein, conhecido pelas barbáries que cometia em Bagdá. Campo para Lee Tamahori analisar a natureza do extremismo da família Hussein e do abuso de poder no Iraque, porém, O Dublê do Diabo aos poucos se configura como um filme de superfície, tendencioso ao narrar uma batalha no velho molde good cop/bad cop através da loucura de um homem que não conheceu os limites e um voyeur que aos poucos se destina à reação.

A construção de personagens e o sensacionalismo em torno do enigma que envolvia a real identidade de Uday tencionam o filme pela narrativa caricata, sustentada graças à entrega de Dominic Cooper e Ludivine Sagnier. Para Tamahori é obrigação ter o conhecimento de protagonismo e antagonismo com raras variações ao longo do filme que é baseado no livro escrito pelo próprio Latif.

A trivialidade que rege O Dublê do Diabo – com clara intenção de o tornar um filme de fácil acessibilidade e interpretação – acaba parecendo como um tiro no pé. Dinâmica e interatividade nesse caso colocam o longa preso à cartilha dos filmes de ação, com todos os eixos que o gênero exige.


★★
O Dublê do diabo (The Devil's Double, Bélgica/Holanda, 2011) de Lee Tamahori

GUERREIRO

Quando redenção e lutas dividem a narrativa, a referência automática a Rocky – Um Lutador estará lá sempre para fazer sombra. Não é por menos que o filme vencedor do Oscar de 1977 é citado durante o primeiro ato de Guerreiro. Ao contrário do apogeu de Sylvester Stallone, o filme dirigido por Gavin O´Connor amplifica a volta por cima de dois lutadores e de um treinador, que formam uma família.

Paddy Conlon, o pai, convertido ao cristianismo e livre do alcoolismo ainda carrega o peso do passado; Brendan (Joel Edgerton) é um professor falido e Tommy (Tom Hardy) voltou do Iraque cheio de traumas. Em comum, os irmãos têm a paixão pela luta, assuntos mal resolvidos e o desprezo pelo pai.

Guerreiro é um filme de narrativa regressiva, como qualquer outro filme que envolva lutas. Afinal, é no ringue que tudo será resolvido. Assim, cabe a técnica e a excelência com o que O´Connor comanda seu elenco, principalmente Nick Nolte, que vive Paddy e de longe é o ponto alto do filme.

O campeonato, batizado de Sparta e que coloca o reinicio da carreira e da vida dos três em cheque, ainda que de forma torpe, dura 50 minutos dentro do filme. Claro desprezo com a idéia de desenvolvimento narrativo e montagem. O prestígio de Tommy e a fraqueza de Brendan tornam-se armadilhas para a história; posturas caricatas e claros remendos narrativos com personagens secundários enfraquecem em muito o filme. Se cabe a nós notar algo de positivo no filme, que seja a fidelidade com o esporte – o MMA, no caso, a estrondosa atuação de Nick Nolte e o esforço de Tom Hardy.

Guerreiro (Warrior, EUA, 2011) de Gavin O´Connor

50%


Jonathan Levine, diretor de pequenos filmes como Doidão e All the boys loves Mandy Lane adota a costumeira cartilha que seu grupo de amigos liderado por Judd Apatow (responsável direto por filmes como Superbad – É hoje!, Segurando as Pontas e Ligeiramente Grávidos e pela direção de Tá Rindo do quê? e O Virgem de 40 anos) utiliza ao aliar um tema incompatível – neste caso, o câncer – às comédias agridoces. 50% à priori serve ao modelo de celebração à vida e que o positivismo serve como mecanismo de renovação em tempos difíceis. Após o primeiro ato, o longa de Levine se mostra tendencioso ao desfrute da audácia do alicerce entre a comicidade narrativa e uma doença.

Adam (Joseph Gordon-Levitt) é um roteirista de programas de rádio de 27 anos e é diagnosticado com um tipo raro de câncer na coluna. Então, ele é submetido a sessões de quimioterapia e psicoterapia. O quadro de otimização de amizades, hoje tão imediatistas e fúteis, aqui ganha uma faceta dicotômica: a amizade pode ser rasteira, porém de marcas eternas. E de onde não se espera fidelidade, lá ela está. Nada inovador, mas ainda funcional para o gênero.

Quando Adam e Kyle (o maior representante da era Apatow, Seth Rogen) estão juntos, Levine consegue compor (ou se aproximar ao máximo dela) a química da real amizade - onde a cumplicidade é costurada com palavras torpes e codificada entre eles. Tudo é rapidamente compreendido e aqui, o humor tem justificativa sã ao invés de um simples gancho para a fuga do melodrama, caminho tão óbvio para esta temática. Infelizmente uma idéia pouco utilizada pelo diretor, apesar da intensa presença de Rogen nas cenas.

★★
50% (50/50, EUA, 2011) de Jonathan Levine

SEITA MORTAL


Em certo momento de Seita Mortal, Kevin Smith utiliza um versículo bíblico, que conta em forma de parábola o fim de um momento ruim usando a passagem da primavera para o verão. Serve como alusão à carreira do próprio Smith, que sucumbe às tentativas frustradas de resgate ao êxito de críticas na década de 90 para um recomeço, mesmo que seja breve, afinal o diretor anunciou sua aposentadoria para 2014, ano que pretende terminar as filmagens da segunda parte de Hit Somebody.

Seita Mortal denuncia a distorção de mandamentos religiosos como sustentação para a intolerância e conseqüentes ataques contra homossexuais. O escracho outrora usado em Dogma se transforma em fina ironia enquanto analisa a facilidade de resolução de casos policiais envolvendo religião após os ataques de 11 de setembro. O cerne da história está numa igreja localizada num condado distante de Nova Jersey (cidade natal de Smith), comandada pelo pastor Abin Cooper (Michael Parks), entusiasta da condenação eterna para os pecadores e que usa sua “aproximação” de Deus para configurar seus seguidores e familiares como um grupo terrorista.

Smith além de abordar novas linguagens para sua obra – planos, desenho de câmera, edição – e que condizem com a força narrativa que flerta com o terror, mas que se explicita como um manifesto e assim não traça fronteiras para expor suas idéias; compara o radicalismo religioso ao nazismo, os princípios de bom senso que são quebrados por conta do ilusionismo que um homem pode trazer (onde as trombetas de Apocalipse regem a melhor cena do filme) e a influência da TV e da imprensa nesses casos.

Compacto, o roteiro evita gratuidades e utiliza o menor dos artifícios para costurar a história. Cada segundo serve como um impulso para mais tarde ser desconstruído como uma forma de protesto contra o abuso de poder, seja policial, de imprensa ou da religião. É muito bom ver Kevin Smith de volta. Mesmo que seja longe das comédias.

★★★★★
Seita Mortal (Red State, EUA, 2011) de Kevin Smith

VAMOS FAZER UM BRINDE


De entusiasta a realizador, passando pela produção e distribuição de filmes como L.A.P.A e Riscado e direção de incontáveis curtas-metragens, Cavi Borges chega ao seu debut diretorial de um longa de ficção pelo mesmo caminho que construiu sua carreira; o baixo orçamento de Vamos Fazer Um Brinde aspira a aura do it yourself e que consequentemente instiga a criatividade e o espírito de equipe. Uma vertente do cinema independente.

Vamos Fazer Um Brinde vem da utopia que o réveillon representa o recomeço. Em uma locação, Cavi e a co-diretora Sabrina Rosa unem personagens que dividem desta esperança sobre diferentes óticas. Um aspecto favorável para o filme, que preserva uma avalanche de saídas imediatas – ainda mais que o filme já faz. Porém, a visão destes personagens é superficial, ainda que sua intenção de quebra de estereótipos de raça e de orientação sexual seja bem sucedida – apenas a sobreposição do costumeiro erro de casting de novelas que utilizam negros como parte do núcleo periférico. Algo que Jorge Furtado faz em seus filmes há algum tempo.

A personagem Susana, vivida por Cintia Rosa, é a única que expõe duplicidade de conflitos. Sua insegurança transparece além das inúmeras ligações que faz para seu marido. De resto, o esforçado elenco composto por Ana Miranda, Fabricio Santiago, Juliana Alves e Roberta Rodrigues é imerso em lembranças rasas e temas corriqueiros como fidelidade, sexo e claro, amizade. A falta de empatia consumida pela rápida duração do filme vem da abordagem desses temas: impregnados pelo humor demarcado aos estereótipos de cada personagem (um tiro no pé de quem se intenciona a subverter esta ideia) e claro, a falsa ilusão do consumo de um momento dito especial. Ser feliz até meia noite é o que importa.


Vamos Fazer Um Brinde (Idem, Brasil, 2011)  de Cavi Borges e Sabrina Rosa

A OUTRA TERRA

 

Uma segunda chance. O espelho de nosso planeta ou “Terra 2” como ele é chamado em A Outra Terra representa um novo começo para Rhoda Williams (Brit Marling), jovem imersa numa realidade ardilosa após quatro anos presa por um acidente de carro que matou a mulher e o filho do músico John Burroughs (William Mapother).

Apesar do conflito entre realidade e um argumento fantástico, o estreante Mike Cahill utiliza câmera na mão, ajustes de foco e correções de quadro sem cortes ante a mise en scène como contraponto das cenas de plástica estonteante e remetente ao contemporâneo Melancolia, de Lars Von Trier. Abertamente uma escolha estilística, apesar de assimilar-se demais com o filme de Von Trier em certos momentos.  O longa de Cahill diversas vezes cai no evitável sintoma sentimentalista de analisar a descoberta de uma nova Terra pelo paralelo existencial com as questões que nos perseguem há anos quando o assunto é a vida em outros planetas.

Enquanto Rhoda e John se aproximam através de uma fraude criada pela moça – que curiosamente concorre a um prêmio que levará o vencedor a nova Terra, A Outra Terra flerta com a ficção científica, finalmente utilizando a relação entre os planetas, e exibe as falhas do roteiro para um final coerente e emergencial. Ah, se não fosse a dinâmica narrativa...

★★
A Outra Terra (Another Earth, EUA, 2011) de Mike Cahill

GANHAR OU GANHAR - A VIDA É UM JOGO


O retorno de Tom McCarthy à direção após o tocante O Visitante é uma gigantesca e morna alusão ao “jogo” da vida – no caso, o título em português faz o mesmo que o original: entrega o jogo logo de cara. Não que Ganhar ou Ganhar – A Vida é um Jogo fuja da mesmice lírica e esteticamente. McCarthy circunda sua obra da aura que identifica o dito cinema independente americano atualmente.

A história se passa no subúrbio americano, com personagens fracassados escondidos atrás de belas fachadas, com abordagem agridoce da dormência emocional do protagonista com trilha sonora proto-circense e a representação da esperança num personagem atípico a tal realidade.
Neste caso, o garoto Kyle (Alex Shaffer), que vai até Nova Jersey atrás de seu avô como refúgio do desdém de sua mãe, se torna a motivação para o advogado Mike Flaherty (Paul Giamatti) encontrar o êxito na carreira de técnico de luta greco-romana, além de ser um ótimo plano B para seu falido trabalho de advogado. A sucessão de alusões aos “Ganhar” do título são banais e desenvolvidas sem surpresas, porém, McCarthy sabe, mesmo com os contratempos da saturação narrativa, criar sustentações pertinentes e que ajudam o longa a escapar da prolixidade.

Os ótimos coadjuvantes dão o tom necessário para McCarthy ilustrar sua fábula moderna sobre o fracasso ao guardar a inerência ao tema na ironia e no rancor. Sem eles, a passividade dos personagens de Shaffer e Giamatti transformariam Ganhar ou Ganhar num filme dormente. Se o longa passa longe da originalidade, por outro tem coragem de largar vícios duvidosos de se fazer humor através do peso melodramático – principalmente pelo silêncio constrangedor em situações igualmente delicadas e grotescas. McCarthy quer diálogos e ação. Nada de ser implícito. E, se por acaso alguém possa se ofender, bem, é ponto para ele.

★★★
Ganhar ou Ganhar - A Vida É Um Jogo (Win Win, EUA, 2011) de Tom McCarthy

CONFIAR


É preciso considerar as duas vias que Confiar impõe ao espectador: a primeira e mais importante, é o alerta de como se configuram os casos de abuso sexual atualmente e todas as suas dobraduras e hipóteses. A outra é como o filme se porta como arte/entretenimento.

O longa dirigido por David Schwimmer mostra a facilidade à exposição e a vulnerabilidade ao perigo possibilitado pelo avanço tecnológico quando Charlie (Chris Henry Coffey), um homem na faixa dos quarenta anos que,  para alimentar suas fantasias consideradas doentias, se passa por um jovem numa sala de chat e mente até o assombroso encontro com Annie (Liana Liberato), uma garota de 14 anos. Schwimmer coloca em pauta se o consenso entre o homem e a menina considera o ato como estupro, se o nível de maturidade pode ser estudado nesses casos e a reverberação intensa na família da garota que motiva sequências de violência psicológica intensas regidas por Clive Owen em ótima atuação.

Sustentado por Liberato e Owen, Confiar não consegue equivaler o roteiro excessivamente melodramático à força do assunto. Tudo parece forçado demais para criar a sensação de compaixão solidariedade da plateia para a família que em questão de segundos, vão da paranoia completa à dormência, distorcendo o quadro trágico composto por Schwimmer. O cunho institucional tem mais valia por não ser justiceiro e vai de encontro com o excesso melodramático e a previsibilidade do roteiro de Andy Bellin e Robert Festinger.

★★
Confiar (Trust, EUA, 2010) de David Schwimmer

ATERRORIZADA


Dez anos após Os Fantasmas de Marte, John Carpenter resolveu voltar à cadeira de diretor. E mostra que não perdeu a majestade. Aterrorizada se passa em um centro psiquiátrico e acompanha Kristen (Amber Heard), jovem recentemente internada após atear fogo em uma casa sem motivo aparente.

Na relação de Kristen com as internas, Carpenter cria a atmosfera de suspense. Abstrata, a representação de cada personagem é mutante. Entre o ativismo e a total submissão ao tratamento, uma teia conspiratória ganha forças sobrenaturais para relatar o caos que a reabilitação implanta às pacientes. Carpenter não se atreve em posicioná-las como heroínas ou vilãs, dando força maior para o mistério.

Aterrorizada marca o retorno ao básico, longe das pretensões de criar ícones, e sim a de reunir o suprassumo das invenções que o terror passou nas últimas décadas, em especial a de setenta. A de unir o impacto imagético à crescente atmosfera de suspense sem gratuidade e ser visceral, à priori.

★★★★
Aterrorizada (The Ward, EUA, 2010) de John Carpenter

FOO FIGHTERS - BACK AND FORTH

 
Fora o talento, o êxito comercial dos Foo Fighters se deve ao carisma de seu líder e assumidamente chefe do grupo Dave Grohl. Reconhecido por seus anos no Nirvana, Grohl é desdenhoso com o passado. James Moll, vencedor do Oscar por The Last Days trata de passar rapidamente por este conturbado período para analisar conflitos comuns de uma banda em Foo Fighters – Back and Forth.

E novamente o carisma os salva. Composto apenas por depoimentos dos integrantes do grupo (ex e atuais) - com exceção de Butch Vig, produtor do último álbum do grupo e do clássico Nevermind do Nirvana – e imagens de arquivo, o longa acompanha os grandes contratempos – em sua maioria iniciada durante o processo criativo – da história da banda. Brigas, drogas, turnês intermináveis e demissões são expostas com a maquiagem do característico bom humor de Grohl, e Cia. No fim das contas, o impacto de qualquer intenção dramática criada por Moll é dormente à frente das piadas no melhor estilo “do passado eu dou risada”.

Conquistada a força, a perda de foco garante bons momentos, como Grohl citando o dia em que descobriu que poderia ter músicas pesadas e acústicas no mesmo álbum ou as formas de expurgar sua ansiedade pelo resultado final de Wasting Light, lançado neste ano.
É evidente o comando de Grohl sobre a banda, mas Back and Forth também se sustenta pela franqueza com que Nate Mendel, Pat Smear, Chris Shiflett e Taylor Hawkins falam sobre a relação com o “chefe”. Salientam o talento e dedicação e sem ressalvas lembram que ele não é tão legal quanto parece. E, como o próprio se refere às turbulências do grupo: “prefiro lembrar-me das coisas boas”. E é isso que James Moll adota para Back and Forth: um filme sobre um sonho realizado.

Foo Fighters - Back and Forth (Idem, EUA, 2011) de James Moll 

NOVO ENDEREÇO

 Amigos, agora estou neste endereço: www.7a1filmes.com/blog Deixarei este blog aqui como arquivo de quase 20 anos de blogs, sites e revistas...