Batem à Porta (M. Night Shyamalan, 2023)


Batem à Porta em primeiro contato pode parecer um tradicional filme de Shyamalan visto que seus temas prioritários estão lá, mas o que mais instiga aqui é como o filme é quase uma obra warburguiana sobre sua filmografia. As referências que levaram crítica e público adorá-lo e posteriormente odiá-lo em filmes como Sinais e depois Fim dos Tempos estão lá. Até seu “retorno” ao cinema com A Visita fica evidente quando a casa serve de ponto de encontro para a disposição de comentários sobre o que Shyamalan criou até então. Batem à Porta é um filme de construção de evidências verbais e que se utiliza das imagens como reforço sem qualquer afeto por elas – rapidamente, uma a uma, caem. Um tipo de espelhamento muito simbólico que ganha forças conforme o filme anda. A predileção pelo lado fantástico é evidente, mas os resultados, a julgar as reações dos filmes de Shyamalan entre Dama Na Água e Depois da Terra o fazem costurar ironicamente sinais tão claros sobre uma trama apocalíptica que o mais prosaico dos espectadores comprará sua ideia. Em paralelo ao ótimo escárnio há uma trama sobre a sinalização de um apocalipse já em andamento e que nosso comportamento pode acelerar este andamento a partir de diversas esferas de conduta e filosofia – o que o coloca como uma peça involuntária a ser acoplada a Fim dos Tempos e Sinais. A ironia pelo lado de Shyamalan é tão pungente que a escolha é simples: não criar alegorias para uma trama e sim tratar o produto como um enigma geral.

Melhores Filmes de 2022

English version here.

Tár de Todd Field

Este é um longo post. 2022 marcou o retorno em definitivo às salas de cinema para eventos como mostras e festivais. Por outro lado, foi o ano que nos levou Bogdanovich, Deodato, Straub e Godard. Sobre os filmes, o critério é o de sempre com filmes a partir de 40 minutos e de lançamento nos últimos dois anos (20-22 neste caso). Vamos a eles:

100.  A Black Rift Begins to Yawn (Matthe Wade, 2021)
Equivaler o cinema estrutural ao horror moderno.
 
99. Foot Note (Zhengfan Yang, 2022)
Complementar a imaginação: Janela Indiscreta às avessas.
 
 
98.    Unrest (Unrueh, Cyril Schaublin, 2022)
O mais próximo que um drama histórico chega de Godard.    

97. Onde Fica Esta Rua? Ou Sem Antes e Nem Depois (João Pedro Rodrigues, João Rui Guerra da Mata, 2022)

Filmando fantasmas.

 
96. Noites Alienígenas (Sérgio de Carvalho, 2022)
Um filme-OVNI que está a contextualizar a destruição de um país em diversas frentes.
 
95. Old Henry (Potsy Ponciroli, 2021)
Novas atmosferas para Billy the Kid.
 
94. Caught in Time (Lau Ho-Leung, 2020)
Elétrico conto de caça de gato ao rato.

 
93. The Cure (La Cure, Clément Schneider, Simon Rembado, 2021)
Teatro Rohmerista. 

92. Ambulância (Michael Bay, 2022)
Bay atualiza o seu próprio caos com drones e celulares.


91. Saturn Bowling (Patricia Mazuy, 2022)
Um filme sobre a instabilidade dos instintos.
 
90. The Roundp (Lee Sang Yong, 2022)
Produto pop de efeitos precisos. 
 
89. Incredible but True (Incroyable mais vrai, Quentin Dupieux, 2022)
No analógico ou no digital o tempo destrói tudo. 
 
 
88. The Cathedral (Ricky D’Ambrose, 2021)
Contra a tradicional dramaturgia dos filmes de família americanos.
 
87. Neptune Frost (Anisia Uzeyman, Saul Williams, 2021)
Afrofuturismo
como saída.        
  
    
86. Harvest (Thomas Roberts, 2022) 
Pesadelo entre molduras.
 
85. Kind Hearts (Gerard-Jan Claes, Olivia Rochette, 2022)
Anti-filme de amor. 
 
84. I Have Been Not Afraid of Going Blind for a Long Time (Yannick Mosimann, 2022)
Cine-olho em versão literal.
 
83. Raquel 1:1 (Mariana Bastos, 2022)
Culpa, submissão e medo: neo-pentecostalismo em encontro frontal.
 
82. Fresh (Mimi Cave, 2022)
Desejo elitista é o principal elemento gore. 
 
81. Cinéfilos (Los Visionadores, Néstor Frankel, 2022)
Nostalgia para uma divertida sessão de meia-noite.
 
80. SuperNatural (Jorge Jácome, 2022)
Funções básicas da vida.
 
79. The Eyes Below (Les yeux dussous, Alexis Bruchon, 2021)
Um desencargo de consciência em versão metafísica. 
 
78. EO (Jerzy Skolimowski, 2022)   
Sr. Hulot no apocalipse.
 
77. Stratum 2: The Asthenosphere (Cong Feng, 2021)
Zeitgeist do olhar e a morte do cine-olho.
 
76. Filme Particular (Janaína Nagata, 2022)
Em nome da perpetuação da imagem.
 
75. Lucie Loses Her Horse (Claude Schmitz, 2021)
O screwball como via ideal para comentar o mercado artístico.
 
74. Um Disco Normal (João Kombi, Tomás Moreira, 2022)
Reproduzir com exatidão a aura do artista registrado. 
 
73. Great Freedom (Sebastian Meise, 2021)
Ótima equivalência de um drama de presídio e um filme de amor.
 
72. Silver Bird and Rainbow Fish (Lei Lei, 2022)
Memórias animadas.
 
71. Gensan Punch (Brillante Mendoza, 2021)
Mendoza volta ao naturalismo em ótima forma. 
 
70. Um Pequeno Pacote de Amor (A Little Love Package, Gastón Solnicki, 2022)
Como atravessar composições fílmicas.
 
69. The Blue Rose of Forgetfulness (Lewis Klahr, 2022)
O filme musical de Lewis Klahr. 

68. Human Flowers of Flesh (Helena Wittman, 2022)
Narrar e observar à beira-mar. 
 
67. Onoda: 10 mil noites na Selva (Arthur Harari, 2021)
Uma vida a assistir partidas. 
 
66. Didier’s Letters (Les Lettres de Didier (Noelle Pujol, 2022)
Musical das leituras Straubianas.
 
65. Racionais MC’s: Das Ruas de São Paulo Para o Mundo (Juliana Vicente, 2022)
Criar e amplificar vozes.
 
64. Shin Ultraman (Shinju Higuchi, 2022)
Divertido exercício de subversão às funcionalidades dos filmes de herói contemporâneos. 
 
63. A Vida São Dois Dias (Leonardo Mouramateus, 2022)
O golpe do colonizador.
 
62. Propriedade (Daniel Bandeira, 2022)
Perde-se a alma e ganha-se o mundo.
 
61. Wim Wenders, Desperado (Eric Friedler, 2020)
Wenders contra o divã.
 
60. Terra Que Marca (Raul Domingues, 2022)
Filme-poema para o homem-natureza.
 
59. Murina (Antoneta Alamat Kusijanovic, 2021)   
Nos limites da tensão.
 
58. Stars at Noon (Claire Denis, 2022)
Denis prova sua versatilidade e entrega um bom thriller político.
 
57. Seguindo Todos os Protocolos (Fábio Leal, 2022)   
Dos poucos filmes de pandemia que possui sensibilidade para embutir nossos desejos e saúde mental ao horror da claustrofóbica rotina.

56. Aftersun (Charlotte Wells, 2022)
Exorcismo.
 
55. Guardiões da Eternidade (The Timekeepers of Eternity, Aristotelis Maragkos, 2021)
Manipular um filme até termos algo completamente novo.
 
54. Vida Férrea (Manuel Bauer, 2022)   
Um grande road movie.
 
53. Babi Yar. Context (Sergei Loznitsa, 2021)
Releitura não é arquivo, mas a dor se repete. 
 
52. Lost Illusions (Illusions Perdues, Xavier Giannoli, 2021)
Relações em fluxo.

51. Tierra en Transe (Los Ingrávidos, 2022)
Mixtape ancestral.
 
50. Full Time (À Plein Temps, Eric Gravel, 2021)
Vida sob o regime do capital: pressa e medo. 
 
49. The Killer (Choi Jae-Hoon, 2022)
O midnight movie do ano.
 
48. History of HA (Lav Diaz, 2021)
Fábula da destruiçào do capital.
 
47. Confess, Fletch (Greg Mottola, 2022)   
Um divertidíssimo episódio de série detetivesca. 
 
46. Tales of the Purple House (Abbas Fahdel, 2022)   
Sentir a proximidade da morte. 
 
45. The Novelist’s Film (Hong Sang-Soo, 2022)
Confessar-se em um filme a ponto de ter o real em suas mãos.
 
44.  Com Amor e Fúria (Claire Denis, 2022)
Denis e seu imenso talento para controlar narrativas. 
 
43. Dark Glasses (Dario Argento, 2022)
A ópera do filme B. 
 
42. When the Waves Are Gone (Lav Diaz, 2022)
Teatro da culpa.
 
41. Padre Pio (Abel Ferrara, 2022)   
Um homem como receptador do mal fascista: o retorno de Cristo. 
 
40. Walk Up (Hong Sang-Soo, 2022)
Sang-Soo está no cinema pois este não tem limites.
 
39. Tár (Todd Field, 2022)
Poder e fragilidade em uma só nota.
 
38. Pacifiction (Albert Serra, 2022)
Dos reis libertinos à milícia: um mar de covardes. 
 
37. Cantochão (Vinicius Romero, 2022)
Luz e texturas: cinema sacrosanto.
 
36. The Adventures of Gigi Law (Alessandro Comodin, 2022)
Jacques Tati faz um filme policial. 
 
35. Alan (Daniel e Diego Lisboa, 2022)
Duas camadas: debate social e um personagem gigantesco. 
 
34. Herbaria (Leandro Listorti, 2022)
Natureza fílmica.
 
33. Nobody’s Hero (Alain Guiraudie, 2022)
Nas cruéis fissuras da sociedade francesa. 
 
32. Noites de Paris (Les Passagers de la nuit, Mikhael Hers, 2022)
Aos fins e recomeços.
 
31. Fogo-Fátuo (João Pedro Rodrigues, 2022)
Um musical antirrepublicano. 
 
30. Coma (Bertrand Bonello, 2022)
Declínio emocional e um manifesto em forma de sitcom.
 
29. Sol in the Dark (Mawena Yehouessi, 2022)
Para um diálogo com o mundo moderno é preciso extrapolar o seu conceito.

28. O Amparo do Céu (El Amparo del Cielo, Diego Acosta, 2021)
Alinhar a rotina de trabalho ao western e ao horror.


27. Kimi (Steven Soderbergh, 2022)
Ansiedade e um neothriller.
 
26. Inverno (Zima, Vadim Kostrov, 2021)
Sinfonia da solidão.
 
25. Fabian: Going to the Dogs (Dominik Graf, 2021)
A ópera da desgraça.
 
24. The Plains (David Easteal, 2022)
Jeanne Dielman e Cenas de um Casamento juntos em um filme estrutural. 
 
23. No Shark (Cody Clarke, 2022)
Um caso raro no cinema underground americano: o diretor assertivo sobre si e que rejeita a mudança, ou melhor, um ataque de tubarão. 
 
22. Magdala (Damien Manivel, 2022)
Morrer por amor: uma narrativa.
 
21. Animal Macula (Sylvain L’Esperance, 2021)
Cinema artesanal: pesquisar, cortar e colar.
 
20. Apollo 10 ½: A Space Age Childhood (Richard Linklater, 2022)
Ode à memória e ao narrador.
 
19. Lago Gatun (Kevin Jerome Everson, 2021)
Um novo mundo e as imagens em mutação.
 
18. See You Friday (Mitra Farahani, 2022)
Aparência da vida na performance da morte. 
 
17. The Fire Within: Requiem for Katia and Maurice Krafft (Werner Herzog, 2022)
Morrer pelas imagens. 
 
16.  RGNCNTRL (Alvin Santoro, 2022)
Repensar Michael Snow: esculturas em machinima.
 
15. Astrakan (David Depesseville, 2022)
Poética da dor. 
 
 14. Il Buco (Michelangelo Frammartino, 2021)
O homem a operar a alma de Deus. 

13. The Fabelmans (Steven Spielberg, 2022)
Cinema a observar a inexatidão da vida.
 
12. Don Juan (Serge Bozon, 2022)
Onde começa a performance e termina a vida. 
 
11. O Sonho e o Rádio (Le rêve et la radio, Ana Tapia Rousiouk, Renaud Deprés-Larose, 2022)
Transformar narrativa, estética e gênero em liberdade.
 
10. Armaggedon Time (James Gray, 2022)
Um filme de família para exibir as fissuras do sonho Americano. 
 
09. Rewind & Play (Alain Gomis, 2021)
O suor e olhar de um homem. O talento de um deus.
 
08. Os Estados Unidos da América (The United States of America, James Benning, 2021)
Filmes possíveis que escorrem pelas imagens estáticas.
 
 
 07. Mato Seco em Chamas (Adirley Queirós, 2022)
O processo de transformação da distopia em realidade.
 
06. Paixões Recorrentes (Ana Carolina, 2022)
Brasil a balançar e a sequência involuntária de A Primeira Missa.
 
05.  Licorice Pizza (Paul Thomas Anderson, 2021)
Era uma vez em Los Angeles.
 
04.  Skinamarink (Kyle Edward Ball, 2022)
O filme de quarentena de Michael Snow.
 
03.  Fairytale (Aleksandr Sokurov, 2022)
Acima da nuvem de decomposição de corpos.
 
02. Nope (Jordan Peele, 2022)
De Muybridge ao 4K, um contra golpe na história do cinema.

01.    XCXHXEXRXRXIXEXSX (Ken Jacobs, 2022)
O experimento como matéria-prima do cinema: ilusões e histórias autônomas ao meio.
 

Pedro Tavares é integrante da ABRACCINE - Associação Brasileira de Críticos de Cinema, diretor e curador do Festival ECRÃ, mestrando em estudos contemporâneos das artes pela UFF-RJ e realizador. Dirigiu o longa "Cena do Crime", premiado como melhor filme no Festival de Cinema Independente de Madrid.

 

 

Batem à Porta (M. Night Shyamalan, 2023)

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