FLORES RARAS



Adaptação da obra Flores Raras e banalíssimasde Carmen L. Oliveira, Flores Rarasfaz parte do filão que coloca o Brasil como produto de exportação. Vende-se as locações, o diretor e enfim, o filme. Nele, há o recorte que sinaliza a impossibilidade de diálogo do país com o restante do mundo, algo regularmente feito pelos americanos.  Não por acaso, Bruno Barreto é um diretor que flerta com o cinema comercial dos EUA – por estilo, estruturas ou até mesmo dirigindo filmes encomendados por estúdios, como o caso de Voando Alto. 

O romance entre a arquiteta Lota de Macedo Soares (Glória Pires) e a poeta Elizabeth Bishop (Miranda Otto) que possui sua terceira ponta representada por Mary (Tracy Middendorf), é abraçado pelo cunho institucional e turístico. Lá está a beleza do Rio de Janeiro e também a Bossa Nova, farofa, picolé e até mesmo o futebol em primeiro plano. Tão vendável quanto seu extremo oposto, o cinema que exibe a miséria e a violência de Última Parada: 174. 

Mesmo que a narrativa seja norteada pelo panorama histórico do Brasil do início dos anos 50 até o período da ditadura, os conflitos são coadjuvantes, usados como suporte em momentos apropriados. Bem sucedidas, Lota e Elizabeth se esquivam do preconceito em um sítio paradisíaco em Samambaia, interior do Rio de Janeiro. O status também as protege, mas definitivamente este não é o foco de Flores Raras. A poeta lentamente exibe suas fraquezas que são refletidas de forma desenfreada em Lota quando Barreto enfim percebe que o filme deve acabar. Até este momento, Barreto exibe um filme distante sobre o legado de mulheres que tiveram, cada uma à sua forma, relevância para a história.

Com a estrutura de telefilme, Flores Raras é a peregrinação de Lota ao drama que sempre evitou com postura de bon vivant e domínio próprio; à primeira vista uma mulher bem sucedida e resolvida até a revelação de suas fraquezas e dependências, caminho contrário feito por Elizabeth. Para Barreto, seguir as convenções que eliminem a ideia de casal dentro do meio político e da sociedade e principalmente ilustrar o mundo que as cerca é o mote principal. 

 ★★
★★
★★
Flores Raras (Idem, Brasil, 2013) de Bruno Barreto

CÍRCULO DE FOGO



O primeiro pensamento que guia Círculo de Fogo é que estamos diante de um tributo; portanto, a essência de filmes e seriados onde  monstros Kaiju e robôs gigantes se enfrentam pelo domínio do mundo é presente, mas sem o bom senso em seu uso. Com um conjunto de regras e tradições a seguir, Guillermo del Toro aproveita este campo para fazer uma releitura moderna.  E pouco faz além de permear fragmentos do clássico plot entre novos perfis de personagens e  ode à estética.


Círculo de Fogo é um filme de potenciais adjetivos elogiosos, ao menos nos primeiros minutos de filme – onde sua apresentação ensaia uma epopeia repleta dos nuances que empolgam o espectador e do terror iminente que sustenta o clima de suspense. E Círculo de Fogo peca quando apetece aos novos padrões. 


Ambientada em Hong Kong, a trama é leve e angustiante. A partir desta ambivalência nasce uma exigência inocente, pois a magnitude dos monstros é o grande atrativo do filme. É a destruição que enche os olhos, neste caso. E Círculo de Fogoé repleto de “planos médios”, onde pouco se vê, pois a linguagem de vídeo domina as cenas de ação – com exceção da melhor sequência do filme, onde o terror e um trauma de infância são usados na mesma medida. 


Entre tantos cortes rápidos, luzes de neon e escuridão, cabe o reforço da trama – fragilizada desde o primeiro ato, fazer jus ao clímax do filme. Nele, Del Toro dosa o tom lisérgico do visual com o drama comum destas aventuras e a sugestão  de diálogo com a ficção cientifica. O tom anárquico, talvez o que divertira ao máximo o público anos atrás, foi substituído pelo atrativo maior dos novos tempos: a chamada “experiência”. É o pensamento do espetáculo ante à narrativa, pois de certa forma exige que este seja externalizado com aparatos como o óculos 3D ou a tela gigantesca do IMAX. Intrínseco é sua funcionalidade independente de dispositivos. 

 ★★
Círculo de Fogo (Pacific Rim, EUA, 2013) de Guillermo del Toro
★★

Lançamentos em Video on Demand

Vertente para consumo de filmes em rápida ascensão no Brasil, o Video on Demand já possibilita novas opções além da programação dos cinemas e de lançamentos nas locadoras. A exemplo dos ótimos Margaret de Kenneth Lonergan e Na Carne e Na Alma de Alberto Salvá. Portanto, alguns filmes que merecem atenção serão comentados daqui por diante em parágrafos.


Frango com Ameixas (Poulet Aux Prunes, França/Alemanha, 2011) de Vincent Paronnaud e Marjane Satrapi

A dupla que gerou a pequena pérola chamada Persépolis traz em Frango com Ameixas a transformação da ternura e paixão pela vida na figura do músico Nasser Ali (Mathieu Almaric) em amargura completa. Em retrospectiva, Paronnaud e Satrapi remetem aos filmes de Jean-Pierre Jeunet pelo cunho ilustrativo e infantil, algo que aos poucos domina a  narrativa e se torna em exercício cansativo para exibir o que reverberou nos últimos dias de vida do protagonista.
★★ 

Inquilino Desajeitado (Small Apartments, EUA, 2012) de Jonas Åkerlund

Conhecido pela direção de video-clipes, Jonas Åkerlund retorna ao cinema com uma comédia de erros sobre a escória da sociedade. Representados por diversas estirpes e  vividos por nomes como Juno Temple, Johnny Knoxville, Billy Cristal e Dolph Lundgren, Inquilino Desajeitado é, a rigor, a vitória da estética sobre a linguagem. É notório o esforço de Åkerlund em apresentar de forma definitiva sua marca autoral - principalmente pelo fino humor, preso às entrelinhas, em claro embate com todo aparato estético.  Ainda não é a reação, mas é o sinal de inconformação do diretor à fórmula que ainda o prende.
★★ 
★★

★★★★
Cru (Idem, Brasil, 2011) de Jimi Figueiredo

Exibido na Première Brasil do Festival do Rio e lançado em circuito apenas em Brasília, Cru é um filme de assumido baixo orçamento e usa suas deficiências como justificativa para o dialogo com a estética. Repleto de referências a gêneros - em especial o western e o cinema de terror -, a história de vingança num mundo de personagens à margem até mesmo das relações humanas desemboca em retóricas sobre remorso e violência. Mas não escapa do  bruto ajuste, exibindo suas fragilidades.
★★
 Lola Contra o Mundo (Lola Versus, EUA, 2012) de Deryl Wein

Em expansão, o mumblecore deixa de ser vertente do cinema independente americano para virar referência de linguagem. O que antes era ousadia para esconder o baixo orçamento, hoje é apenas atrativo visual. Lola Contra o Mundo utiliza os elementos mais acessíveis deste cinema - incluindo a escalação da "musa" do movimento, Greta Gerwig - e mantém os devaneios sobre a vida adulta, desta vez em Manhattan. Em relação aos filmes de Joe Swanberg ou aos irmãos Duplass, referências e hoje também residentes em Hollywood, o filme de Deryl Wein nada mais é que adaptação deste meio ao grande público.
★★

Smashed - De Volta a Realidade (Smashed, EUA, 2012) de James Ponsoldt
Não tão distante da forma de Lola Contra o Mundo, Smashed - De Volta a Realidade utiliza a acessibilidade com outro intuito - descrever o primeiro ano de tratamento de uma mulher contra o alcoolismo. O filme de James Ponsoldt tem força graças a sinceridade em que aborda o tema, porém não há cuidado algum quanto ao teor melodramático da história. O conto do renascimento, neste caso, é dormente.
★★
O Homem que Não Dormia (Idem, Edgard Navarro, Brasil, 2011)

WRONG




  Do mesmo subúrbio que serviu de embrião para filmes de John Waters e Todd Solondz surge a estranheza de Wrong. Porém, o filme não se trata explicitamente sobre o que casas bonitas e gramados perfeitos escondem. Quentin Dupieux, diretor do estranhíssimo – e igualmente divertido – Rubber, parte do sumiço do cachorro de Dolph (Jack Plotnick) para se apropriar com lucidez às críticas comuns ao local, mesmo que isso não signifique originalidade discursiva.


Do estigma da derrota tão explorado nos últimos anos – principalmente nas comédias independentes americanas - sai um grupo de personagens folclóricos. E a partir desta característica, uma sequencia de situações grotescas ligadas ao sumiço do cão, mas nem sempre presas à lógica, dão rumo à narrativa. Justamente por este motim que Wrong se mostra como filme frágil. Pois a análise irônica através da revisita ao subúrbio se dilui na tentativa frustrada ao riso. O diálogo com o ambiente que rodeia os personagens é esquecido, apenas sinalizado quando convém. A derrota, neste caso, é maior até mesmo que o mundo em que se vive.


É notório o desconforto com a rotina, o trabalho, a carência, o número de vendas e a preocupação em denegrir o trabalho alheio, sempre motivado pela representação do “ser e ter” ou pela inveja – dois típicos casos da derrota implícita. Para Dupieux isto não parece importante, tanto que escolhe o caminho surrealista para desenvolver e encenar Wrong. Um passo de coragem à procura de autenticidade, mas pouco funcional, afinal não existe suporte para qualquer sugestão que não seja a da análise corporativa, como se Wrong fizesse parte de um filão de sucesso, sem pulso e sem identidade. 

★★
Wrong (Idem, França/EUA, 2012) de Quentin Dupieux

AMOR PLENO



No menor intervalo entre filmes de sua carreira, Terrence Malick transfere a mensagem cristã implícita de A Árvore da Vida (2011) para em Amor Pleno (To the Wonder, À Maravilha, na tradução literal) transparecer intenções a partir do mesmo modelo de seu antecessor. Conforme o título nacional entrega, a plenitude é o norte do filme, que coloca novamente o paraíso como habitat de personagens angustiados. 


A partir da narração no passado que abre o filme, é possível compreender a noção de lembrança e nostalgia na relação de Neil (Ben Affleck) e a francesa Marina (Olga Kurylenko). O casamento, tão sagrado quanto enigmático, é o objeto de estudo – que aos poucos passa por mutações onde o amor ganha diversas representações, inclusive pelo seu mediador, o padre Quintana (Javier Bardem). Quintana é um homem que domina o amor em sua teoria, mas vive infeliz pela escassez do mesmo. Da mudança da França para os EUA, Malick cria espaços para ironizar o estado de falsa proteção vivida pelos americanos ao hospedar o casal num subúrbio de beleza estonteante. 


Malick desafia o público através da estética. Exagera na aproximação da câmera aos personagens – praticamente os engole. Os condena no prólogo ao coloca-los de costas por boa parte das sequências. Aos poucos, conforme a relação muda, o diálogo com a câmera também sofre transformações. Apesar de seguir cronologicamente uma história, pouco há de narrativa em Amor Pleno. A graciosidade é o elemento que comunica o público a intenção Malick de diálogo com a divindade. As ações dos personagens são fotográficas – são propositalmente enferrujadas, como se estivessem prontos para a eternidade entre as molduras de uma pintura ou uma fotografia. 


Pois se A Árvore da Vida e outros trabalhos de Malick seguem a premissa de permear qualquer constrangimento quanto a criação - e relação - com a linguagem, Amor Pleno rompe com esta proposta desigual entre o divino e o mundano. A existência está na mesma posição que os pensamentos sobre dilemas abstratos como o amor e a eternidade.


★★★
Amor Pleno (To the Wonder, 2012) de Terrence Malick

NOVO ENDEREÇO

 Amigos, agora estou neste endereço: hellocinephilia.substack.com Deixarei este blog aqui como arquivo de quase 20 anos de blogs, sites e re...