Indie - Mostra de Cinema Mundial 2014

Belo Horizonte e São Paulo recebem a 14ª edição do Indie que este ano felizmente volta com o programa de documentários musicais "Música do Underground". O punk é o tema do programa deste ano e tem este que vos tecla como curador. Além do MU, o Indie traz retrospectiva de Eugène Green - com uma interessante entrevista no catálogo da mostra - e inclui seu último filme, La Sapienza, exibido recentemente em Locarno. O diretor catalão Albert Serra também terá sua filmografia exibida no Indie, incluindo seu mais recente curta, Cuba Libre. A tradicional Mostra Mundial exibe títulos exibidos em Locarno, Rotterdam e Berlim. Já o residente programa Indie Brasil oferece sessões históricas de Matou a Família e Foi ao Cinema, O Bandido da Luz Vermelha e principalmente de Memórias de Estrangulador de Loiras, filme de Júlio Bressane que esteve perdido até o fim do ano passado.

Alguns filmes da Mostra Mundial comentados:

Anatomia de um Clipe de Papel (Yamamori Clip Koujou no Atari, Japão, 2013) de Ikeda Akira

O filme parte de um meandro usado com bastante intensidade no cinema de Hong Sang-Soo: a noção de rotina na repetição de gestos. O filme de Ikeda Akira parte desta certeza, que a vida dentro de um sistema se faz com repetições e, além disso, enganar e ser enganado - a segunda opção na maioria das vezes. Em tom de comicidade, Ikeda Akira acerta em suas duras críticas sociais, justificando a comédia como pavimento perfeito para a liberdade que ela oferece.

Buzzard (Idem, EUA, 2014) de Joel Potrykus

Da acidez comum e hilária de qualquer filme slacker, Buzzard vai da comicidade que cerca o diagnóstico da juventude americana à pertinente construção acerca da falsa liberdade que vivemos. Carregado de pessimismo e de um cinismo desconcertante, o longa de Joel Potrykus possui tempos elásticos que definem o desespero crescente da sociedade que se alimenta de trabalho, solidão e - muito - sódio.

Cartas Para Max (Letters to Max, França, 2013) de Eric Baudelaire

Há nas trocas de cartas que batizam o filme a ternura de Jonas Mekas e a postura política de Frederick Wiseman, diretores que tanto influenciam novos documentaristas e que claramente ampliam os limites de narrar - ou exibir - histórias. O caminho de Cartas, que tenta decifrar o paradoxo que é o território de Abkhazia, é o mesmo, em devidas proporções. Mesmo com a sensação de visita a um local já muitas vezes explorado, trata-se de um belo exemplar do conflito, neste caso literal, sobre a existência.

Dias Sombrios (Gui Ri Zu, China, 2014) de Zhao Dayong
  
O filme de Zhao Dayong pode parecer um filme de encontros por exibir um homem de volta à terra natal - completamente destruída pela guerra -, mas este raciocínio ganha outra sugestão conforme este homem é desafiado principalmente por sua idoneidade. Portanto, Dias Sombrios exibe os assombros como um conto de fuga, de vidas abortadas das mais variadas formas.

Eu Não Sou Ele (Ben O Deligim, Turquia, 2014) de Tayfun Piserlimoglu

Piserlimoglu parte da noção de justiça para abordar temas sociais agudos embasado em relações profissionais e pessoais. O filme, que parte de um contraponto ao cinema atual - concentrado no registro de um momento, como um fluxo comum da vida -, desenha o seu círculo de forma densa, podando ações e diálogos onde é pertinente, no qual personagens ganham nova identidade, mas não mudam suas personas.

Exibição (Exhibition, Reino Unido, 2013) de Joanna Hoagg



Primeiro, os retalhos. Deles são feitos a vida. Depois, a lenta construção da isolada rotina de um casal rodeado pelo paraíso. A relação, apoiada em trabalho e autoindulgência, aponta o fim através da ironia e da pungência traçada neste austero retrato da vida matrimonial.


Garotos do Leste (Eastern Boys, França, 2013) de Robin Campillo

O debut de Robin Campillo, outrora conhecido pela edição e roteiro dos filmes de Laurent Cantet se resume às tentativas de resumir a diagonal relação entre franceses e imigrantes. Das longas cenas de suspense que abrem o filme - provavelmente o que há de melhor nele - à relação de amor que permeia o filme enquanto o diretor cria fronteiras entre o bem e o mal, a bomba-relógio tem o momento exato para ser desarmada. E Campillo volta ao suspense - desta vez na forma mais tradicional para esta tarefa.  


Hide and Seek (Idem, Reino Unido, 2014) de Joanna Coates

A partir de pilares do cinema de horror - a casa afastada e um grupo de jovens perdidos nela -, Joanna Coates desenvolve um filme sobre a representação em seu ápice, ou seja, a atuação. Hide and Seek se resume à mediação e organização de emoções através da busca de uma transparência que somente esta forma de arte pode trazer. O tom de Coates é econômico e esta contenção - um claro contraponto ao descontrole sugerido pelo filme - de formas traz a perspectiva de um filme de superfícies e estranhezas.

História do Medo (Historia del Miedo, Argentina, 2014) de Benjamín Naishtat

É comum que cinéfilos e críticos tenham o reflexo de catalogar e colocar filmes sobre um mesmo espectro ou nomeá-los como movimentos e ondas, mas é impossível não aglutinar História do Medo a filmes sul-americanos recentes que analisam o aspecto social em gêneros cinematográficos. Não só pela ótica de um cinema colaborativo, mas o filme de Benjamín Naishtat utiliza a gangorra social como eixo principal de um verão severo, no qual o desespero desenha o encontro de classes. O terror é identificado sob um tom adormecido outrora utilizado em O Som ao Redor (Brasil) e O Dia Trouxe a Escuridão (Argentina), para citar alguns de seus contemporâneos.



Ida (Idem, Polônia, 2013) de Pawel Pawlikowski

Um simples e eficiente resgate de pilares de formas e filosofias cinematográficas; Pawlikowski faz uma espécie de antítese do cinema de Ozu com rostos e tetos em longos planos de câmera fixa e aborda o paralelo entre verdade e mentira novamente em oposição, desta vez à postura de Dreyer utilizando  guerra e religião como pêndulos para a vida e a morte. 


La Sapienza (Idem, França, 2014) de Eugène Green


Os métodos são os que consagraram Green em filmes como A Religiosa Portuguesa e O Mundo dos Vivos. Neste o diretor abaixa a cabeça do homem, destitui o conhecimento e esvazia a postura de dono do mundo apontando para a real sabedoria com a simplicidade que lhe é característica. Mais uma obra de força descomunal munida de articulações fabulosas.



Nós Somos as Melhores! (Vi ar Bast!, Suécia, 2013) de Lukas Moodysson
A pré-adolescência e suas utopias permeadas pela rebeldia comum da época aqui justificadas pelo punk rock. Moodysson retorna à forma bruta de filmar, com correções de planos, movimentos  de câmera bruscos e, principalmente, reata o convívio com a ternura, deixado para trás no início dos anos 00.


O Ministério das Ferrovias (The Iron Ministry, China, 2014) de J.P Sniadecki

A sequência de abertura do filme exibe toda a sustentação da linha trem por onde o filme será filmado. O que vemos à priori é um filme de corpos envoltos pela trilha de suspense que logo torna-se um simples manifesto político ao unir carne e metal - em todas suas possibilidades. Tudo envolve o que é de fato "se sustentar". Os trilhos servirão como a melhor metáfora de um mundo que suporta tanta violência, sujeira e injustiça. 



A Princesa da França (La Princesa de Francia, Argentina, 2014) de Matías Piñeiro

Ao observar atos do dia a dia como uma simples de aula de futebol, Piñeiro aponta para a força da coreografia. Deste polo, vai ao outro extremo, na adaptação de Shakespeare sem pontos de convergência entre drama e narrativa. Priorizando o elo entre diversos dispositivos de comunicação - exceto a televisão -, o filme se suporta graças a sua finalidade básica: imaginar as possibilidades a partir dos intervalos desta história. Aguçar a função de cada meio para a cultura geral em boa parte construídos por planos fechados.

O Sétimo Código (Sebunsu Kôdo, Japão, 2014) de Kiyoshi Kurosawa


A simplicidade do filme é a primeira qualidade a se notar e comparar à filmografia de Kurosawa. O filme, de  apenas uma hora e que remete aos primórdios da carreira do diretor principalmente pela abordagem, toma proporções no qual gênero e política se emparelham para relativizar todo o naturalismo do filme junto à história de sobrevivência em campo desconhecido.
She's Lost Control (Idem, EUA, 2013) de Anja Marquardt

Provavelmente o mais "indie" da relação da Mostra Mundial. O filme que nasceu de um projeto do Kickstarter e premiado em Berlim traduz o perigo que as relações modernas que confundem o lado pessoal com o profissional trazem. O caminho utilizado por Anja Marquardt é o mais plausível para justificar um drama agridoce, de tempos espaçados e força dramática diluída em uma espécie de "esquetes" muito bem amarradas.

Shirley - Visões da Realidade (Shirley - Visions of Reality, Áustria, 2013) de Gustav Deutsch

A premissa é interessante: Gustav Deutsch parte da série de treze pinturas de Edgar Hopper que traçam a construção da sociedade americana no último século (1929-1963) ao encontro com o lúdico espaço cênico - se envergando à esperança para o futuro.  A síntese de arte a partir do cinema, pintura, história, política e conflitos pessoais encanta com a mesma velocidade que se esvazia pela repetição do método. 

Viagem ao Oeste (Xi You, França/Taiwan, 2014) de Tsai Ming-Liang

A suposta despedida de Ming Liang do cinema se faz no desafio outrora iniciado em Walker (2012) e que atravessa os meandros de filmes como Adeus, Dragon Inn e Cães Errantes. Reinterpretar o espaço e o tempo dedicados à rotina apressada na construção de um filme de poucos planos, com a câmera estática, dedicada às (a)feições de um mundo em colapso.

Lucy (Luc Besson, 2014) e Magia ao Luar (Woody Allen, 2014)

Para tirar a poeira do blogue, comentários sobre as duas estreias da semana:



É curioso como Lucy fixa seu raciocínio básico: abre com uma sequência-epítome do cinema moderno, influenciado pela montagem televisiva e pela velocidade dos games (não a toa os nomes de Brian Taylor e Mark Neveldine vêm à mente em diversos momentos do filme). Dela, parte para o que atende ao olhar "domesticado", ou seja, uma reportagem televisiva aos moldes de Discovery Channel justificada por uma palestra que se aprofunda na mente humana. Estes dois pêndulos refletem o conflito do homem e seu avanço, o desejo pelo domínio (ego) e a eterna falta de resposta para algumas questões. O filme, tão sintético quanto o primeiro pêndulo - o cinema "modernoso", desenha em meio às sequências apressadas uma história de redenção da espécie humana - que de uma forma ou outra busca um Salvador.

Magia ao Luar parece um recado de Woody Allen à ciência de ser o cerne de seus próprios filmes há pelo menos 20 anos - e que quando sai dele é sucedido, a exemplo de Match Point e Meia Noite em Paris. O filme, que parece um passeio delicioso pela filmografia de Allen a partir da última década, vai dos habituais mágicos e trapaceiros ao sempre interessante e bem humorado conflito envolvendo existência e religião - que de certa forma se equipara ao de Lucy. Tudo parece tão simples e tão direto que em certo ponto do filme não há mais exigências - comum para quem faz filmes similares - e nele Allen faz a reviravolta de seu roteiro. É o grande golpe de um mestre.

Happy Christmas (Joe Swanberg, 2014)




Em doze anos Joe Swanberg dirigiu vinte e sete filmes entre longas e curtas-metragens. Em 2011, Swanberg dirigiu quatro longas, entre eles o Autoerotice Uncle Kent, exibidos no Brasil. O incansável diretor é responsável por filmes como Hannah Sobe as Escadas, Um Brinde à Amizade e LOL, mas seu nome é constantemente citado por ser um dos precursores do movimento de cinema independente mumblecore, no qual ajudou a disseminar ao lado dos irmãos Duplass e Andrew Bujalski.

O mumblecore se configura por filmes de baixo orçamento, de rápida duração e conta com a colaboração entre elenco e diretores – são diversos os filmes onde os diretores servem de atores em filmes uns dos outros e dão espaço para atores começarem a carreira atrás das câmeras. No início da década de 00, o Festival de Sundance foi responsável pela aposta e divulgação destes filmes que, por conta da divulgação do festival, corriam o mundo. Os filmes “mumblecore” não tinham qualquer preocupação comercial e logo eram lançados na internet pelos próprios diretores.

Happy Christmas, enfim, o vigésimo quinto filme de Joe Swanberg (sim, dois estão em pós-produção neste momento!), segue a fórmula agridoce que o consagrou. Assim como Um Brinde à Amizade, vemos um filme de fluxo rotineiro, aqui curiosamente a partir de uma suposta ruptura – a chegada da irmã mais nova de Kevin (Mark Webber) para o Natal, disposta a fazer de tudo para esquecer o recém-terminado namoro. Os dias que precedem a noite de Natal são feitos de atos corriqueiros, como idas ao trabalho, cuidados ao bebê e pela parte da irmã, Jenny (Anna Kendrick), pensar em formas de reestruturar sua vida e aproveitar o quanto puder em um local que lhe é desconhecido.

Deste ponto Swanberg destrincha e subverte a noção de entretenimento, algo que John Cassavetes fez durante sua carreira. Porém, não se trata de uma reinvenção ou uma pobre sugestão de comparação entre os diretores. Há a noção em Happy Christmas que os conflitos são construídos sob a carcaça do tempo e da dormência que a rotina traz. 

São nas conversas entre Jenny e Kelly (Melanie Lynksey), esposa de Kevin e descontente com a posição de mãe e dona de casa, imersas na ideia de submissão e subestimação, sempre com o curioso contraponto vindo da presença de Carson (Lena Dunham) que Swanberg aponta um conflito. É na busca de Jenny por um novo lar e a percepção de amplitude, de enxergar enfim um novo mundo, que o filme oferece a contemplação, enfim, do que pode ser um “feliz natal”. Ao contrário de filmes como Hannah Sobe as Escadas ou Alexander The Last, as conversas são acompanhadas de ações, indo além de constatações sobre diversos assuntos e em especial, a vida em trocas de planos básicos do cinema como o plano-americano e o plano geral. 

Tudo em Happy Christmas parte de algum compromisso – cuidar do bebê, esperar a pizza no forno, ir à festa, trabalhar, escrever, se reinventar. São responsabilidades, que por menor que elas possam parecer e independente do tamanho do desejo de quem fará, trarão consequências. E só a rotina para ensinar estes valores, e por isso a aposta de Swanberg em subverter até mesmo o apelo comercial que um filme como esse traria, supostamente ideal para criar arcos dramáticos com ápices de comicidade. E é a escolha certa. Portanto, trata-se de um filme de família que tenta se aproximar – e que assume o fato de apenas “tentar” – de uma família de fato, sem a exigência da construção de personagens como pilares ou referências.  

Happy Christmas (Idem, EUA, 2014) de Joe  Swanberg

Amar, Beber e Cantar (Alain Resnais, 2014)



 

É com certa ironia que Alain Resnais nos deixa com um filme como Amar, Beber e Cantar. Por talvez ser o mais simples e paradoxalmente complexos de sua carreira. A formula de contrastes como sugestão – ou obrigação – como partida para análise de seus filmes, cada um com sua intensidade e particularidade, se repete. Como um complemento à mutação ou breve epílogo que o cinema que o próprio Resnais obrigara a enfrentar. Do olhar frio do início de carreira, aos tempos americanos ao interesse por outras formas de expressão, em especial o teatro popular, Amar, Beber e Cantar de diversas formas é um ríspido retrato da realidade.  Amar, Beber e Cantar é fruto de mais uma parceria do diretor com o dramaturgo Alan Ayckbourn, baseado na peça Life of Riley, de 2010.


O que vemos aqui é a noção simples de um mundo obscuro de Hiroshima Mon Amour ou Ano Passado em Marienbade igualmente fantástico como nos recentes Vocês Ainda Não Viram Nada! ou Beijo na Boca, Não! Na tela, temos a parte que está iluminada e a que está sombreada, como um globo – ou um palco. Nelas Resnais dissolve a função da mise en scène. Afinal, ela é uma grande farsa, assim como o ideal de vida que almejamos e catapulta perfeita para conversão da realidade para um plano fantástico onde tudo se torna duvidoso. O que é real e o que é teatro se divergem sobre o mesmo fundo, com o mesmo olhar, como um eclipse.


Em Amar, Beber e Cantar, Resnais exibe um grupo de amigos, que não são tão amigos e a história deles, que não é sobre eles em momento algum. São todos atores, que vivem o real – sempre em questão -, com o mesmo espaço cênico. E talvez o mais importante elo de um filme denso como este é a forma de um sitcom de quinta categoria. Estas contradições apagam os limites de um desenho profundo sobre a humanidade para enfim levar ao diagnóstico que é melhor ser levado pela correnteza enquanto se vive. É com um olhar extremamente leve que se deve encarar o choque de estar vivo, do mais obscuro desejo às estranhas manias. Deve-se respeitar, admirar e brindar a vida a cada segundo. Resnais nos deixa com otimismo, ainda que transpareça com humor negro o tom de preocupação em uma de suas locações prediletas – o cemitério.

NOVO ENDEREÇO

 Amigos, agora estou neste endereço: www.7a1filmes.com/blog Deixarei este blog aqui como arquivo de quase 20 anos de blogs, sites e revistas...