O Nascimento de uma Nação (Nate Parker, 2016)



Via Crucis no Primeiro Testamento

O título, apesar da ligação direta, é uma provocação; o filme homônimo de D.W. Griffith de 1915 é baseado em "The Clansman: An Historical Romance of the Ku Klux Klan" de Thomas Dixon Jr. O filme de Nate Parker, não. É resumidamente uma gigantesca falha em impor o ponto de vista sobre o material. E para encerrar qualquer tipo de comparação entre os dois filmes, vamos a mais importante delas: o filme de Griffith, ainda com suas brechas às questões sobre ser um manifesto racista, é distante de seus personagens, sem intenções maniqueístas sobre eles e mais interessado em fazer um registro histórico. Já as intenções de Parker são básicas como peças de marketing e não como plausível resistência.

O Nascimento de uma Nação do ator e agora diretor Nate Parker se passa no início do século XIX e acompanha o escravo Nat Turner e suas relações dicotômicas com absolutamente tudo que há ao seu redor. Esta é a única base do filme. E dela Parker faz o que pode com os maneirismos e olhar retido do melodrama, sem inspiração entre tantos blocos de plano/contra-plano/plano geral. Para Nat Turner, o mundo é mínimo e suficiente para refletir a hipocrisia em cada fresta de tempo e silêncio com a cínica intenção de reverberar o presente. 

Da relação com os patrões, talvez o ponto mais interessante do filme por ser o mais adormecido por Parker, à interpretação da palavra de Deus, Nat é como Cristo no tempo de guerra e ira. Nat é testemunha e vítima do mal diariamente, ainda que ele possua diversas facetas e em certos momentos seja difícil de identifica-los. E se O Nascimento de uma Nação é a representação geral do evangelho, o filme também serve como a compreensão ideológica da religião e da retribuição violenta como partes que se completam. 

Ao contrário da posição de  um Cristo de ágape, Nate Parker circula Nat com seu ego. O Nascimento de Uma Nação é o que se espera de um "rebelde hollywoodiano" e que levanta naturalmente a questão sobre o que é, afinal, o filme. Sobre Parker ou sobre Turner. Até o filme se encontrar com  a rápida perspectiva sobre o embrião da milícia negra como resposta à opressão, o que se vê é uma teorização básica e rasa sobre as saídas e o sofrimento - ainda que toda sua ação seja reforçada pela fé. Portanto, Cristo está, de verdade, enfim, no sangue e entranhas das minorias. Partindo desse olhar, o filme de Parker é um chute certeiro na cabeça de um defunto, pois não é feito para provocar e afirma o que é óbvio. 

*texto originalmente publicado no Cineplayers.

Festival do Rio (Parte 2)

 O Ornitólogo (Idem, João Pedro Rodrigues, 2016) 

O evangelho segundo João Pedro Rodrigues é exatamente o que se espera dele; percorre terreno do indevido, da solidão, das representações visuais e de um discurso a favor da tradição, porém contra a religiosidade. Onírico e igualmente assustador, o caminho no deserto é o lugar para ver uma vida inteira – das tentações à crucificação, de Judas a Tomé. Ornitólogo pode ser uma análise científica do que não se vê. 

 Tramps (Idem, Adam Leon, 2016) 

Adam Leon faz mais um filme de aventura pelas ruas de Nova Iorque após seu tributo involuntário a Spike Lee em “Gimme the Loot”. A premissa é a mesma, englobar o ambiente e tensão justificados por um fio narrativo. Em Tramps trata-se da busca por uma maleta que desenvolve como um romance bem humorado com as amarras deo suspense justificados por uma gangue do Brooklyn. 

 Personal Shopper (Idem, Olivier Assayas, 2016) 

O filme americano definitivo de Assayas. E não surpreende que ele pareça com um filme de M.Night Shyamalan. Um jogo de espectros, inclinado à cafonice, um completo controle de direção – uma sequência de 20 minutos dividida em ação e uma longa conversa por celular, por exemplo – que justifica sua trama com um interesse muito maior no lado espiritual sem amarras com a subjeção. 

 De Palma (Idem, Noah Baumbach, 2016) 

Brian De Palma frente à câmera, livre para comentar sua filmografia cronologicamente e sem opinião de terceiros. O monólogo tem alguns bons momentos, especificamente os detalhes sórdidos de filmagem e repercussão dos filmes, que não tiram o ar superficial de extra de DVD. 

 Dog Eat Dog (Idem, Paul Schrader, 2016) 
A degradação moral da América. Schrader faz um inventário completamente despudorado e hilário sobre o que já foi filmado sobre o assunto. Dog Eat Dog encontra-se na crítica direta ao sensacionalismo que o cinema americano cria como manobra para vender ingressos, sem apegar ao que há de mais importante – o lado soturno de seus personagens. E por isso Schrader gerou repulsa de críticos e público, porém o que se vê é um registro inflexível de um país. 

 Os Garotos nas Árvores (Boys in the Trees, Nicholas Verso, 2016) 


O imaginário adolescente sobre o terror. Um filme muito particular de Nicholas Verso, permeado pela nostalgia – ilustrada por canções de bandas dos anos 90 – e de cuidado estético primoroso. Ainda que tudo seja resolvido na primeira hora e que o filme anda para o caminho de uma saudosa declaração, há uma força em cada plano do filme para justificar este sentimento. 

 Boris Sem Beatrice (Boris San Béatrice, Denis Coté, 2016) 

Uma comédia sobre a consciência burguesa ou a completa falta da mesma. Coté é mais conciso num jogo de chiaroscuro – só existem cenas em ambientes extremamente claros ou escuros – a caminho do inevitável. Um filme de corpos encostados das mais diversas maneiras. 

 A Região Selvagem (La Région Salvaje, Amat Escalante, 2016) 

Filme que faria sessão dupla com Boris Sem Beatrice, pois também aborda a consciência, dessa vez pelo lado visceral. Escalante continua sua abordagem social, talvez mais perto de Bastardos do que Heli onde o realismo fantástico é chave moral para costurar questões minuciosas do “mundo cão” de Escalante. 

 Capitão Fantástico (Captain Fantastic, Matt Ross, 2016) 

O primo distante de Pequena Miss Sunshine. É o sucesso indie do ano, a aventura da família diferentona e tão caricata ao mesmo tempo, a do bem contra o mal, ou melhor, o capitalismo. Capitão Fantástico sobrevive graças às alegorias, sempre elas sustentadas por uma justificativa: é possível viver de outras formas. E como se espera, há conflitos sobre o que é “viver de maneira correta”. Um exemplar do que há de pior no cinema americano atualmente.

NOVO ENDEREÇO

 Amigos, agora estou neste endereço: www.7a1filmes.com/blog Deixarei este blog aqui como arquivo de quase 20 anos de blogs, sites e revistas...