DEZ ANOS. CEM FILMES.

Relutei para fazer minha lista dos melhores filmes da década passada (2000-2009) exibidos de alguma forma no Brasil, mas arrumei um modo divertido de lembrar e posicionar os filmes (mais conhecido como MUBI). Não vi muitos filmes, provavelmente esqueci-me de alguns e certamente não deixarei muitos satisfeitos. Enfim, espero suas opiniões e seus filmes prediletos que ficaram de fora. Here i go:

100. SWIMMING POOL (2003) de François Ozon

99. PACTO MALDITO* (2004) de Jacob Aaron Estes


98. OS SONHADORES (2003) de Bernardo Bertolucci


97. DIA DE TREINAMENTO (2001) de Antoine Fuqua


96. GLÓRIA AO CINEASTA! (2007) de Takeshi Kitano


95. ABRAÇOS PARTIDOS (2009) de Pedro Almodóvar


94. ADRENALINA II (2009) de Mark Neveldine e Brian Taylor


93. DIRIGINDO NO ESCURO (2002) de Woody Allen


92. O FANTÁSTICO SR. RAPOSO (2009) de Wes Anderson


91.  GERRY (2002) de Gus Van Sant


90. OS DONOS DA NOITE (2007) de James Grey


89. SHORTBUS (2007) de John Cameron Mitchell


88. SÍNDROME E UM SÉCULO (2006) de Apichatpong Weerasethakul


87. AS CINCO OBSTRUÇÕES (2005) de Lars Von Trier


86. ARRASTE-ME PARA O INFERNO (2009) de Sam Raimi


85. O HOSPEDEIRO (2007) de Bong Joon-Ho


84. A VIDA DOS OUTROS (2006) de Florian Henckel Von Donnersmarck


83. A PARTIDA (2008) de Yôjirô Takita


82. BATALHA REAL (2000) de Kinji Fukasaku


81. XXY (2007) de Lucía Puenzo


80. BEM VINDOS (2001) de Lukas Moodysson


79. A EXPERIÊNCIA (2001) de Oliver Hirschbiegel


78. AOS DOZE E TANTOS (2005) de Michael Cuesta


77. PARANOID PARK (2007) de Gus Van Sant


76. DESEJO E PERIGO (2007) de Ang Lee

75. INVASÕES BÁRBARAS (2003) de Denys Arcand


74. BOA NOITE E BOA SORTE (2005) de George Clooney


73. FILHOS DA ESPERANÇA (2006) de Alfonso Cuáron


72. NOTAS SOBRE UM ESCÂNDALO (2006) de Richard Eyre


71. NATUREZA QUASE HUMANA (2001) de Michel Gondry


70. A PASSAGEM (2004) de Marc Foster


69. REBOBINE, POR FAVOR (2008) de Michel Gondry


68. O ARCO (2005) de Kim Ki Duk


67. CLOSER (2004) de Mike Nichols


66. THIS IS ENGLAND (2006) de Shane Meadows


65. A QUEDA (2004) de Oliver Hirschbiegel


64. O HOMEM QUE COPIAVA (2003) de Jorge Furtado


63. O ÚLTIMATO BOURNE (2007) de Paul Greengrass


62. FONTE DA VIDA (2006) de Darren Aronofsky


61. O CORTE (2005) de Costa-Gravas


60. PROCURANDO NEMO (2003) de Andrew Stanton


59. O ESCAFANDRO E A BORBOLETA (2007) de Julian Schnabel


58. GRAN TORINO (2009) de Clint Eastwood


57. O GRANDE CHEFE (2006) de Lars Von Trier


56. JCVD (2008) de Mabrouk El Mechri


55. LAKE TAHOE (2008) de Fernando Eimbcke


54. SEPARAÇÕES (2002) de Domingos Oliveira


53. CACHÉ (2005) de Michael Haneke


52. CONTRA TODOS (2004) de Roberto Moreira


51. A ONDA (2008) de Dennis Gansel


50. ONDE OS FRACOS NÃO TEM VEZ (2007) de Joel e Ethan Coen


49. NOVE RAINHAS (2000) de Fabián Belinsky


48. QUASE FAMOSOS (2000) de Cameron Crowe


47. KILL BILL: VOLUME 2 (2004) de Quentin Tarantino


46. SIDEWAYS (2005) de Alex Payne


45. FROST/NIXON (2008) de Ron Howard


44. HEDWIG - SEXO, ROCK E TRAIÇÃO (2001) de John Cameron Mitchell


43. SOBRE MENINOS E LOBOS (2003) de Clint Eastwood


42. DURVAL DISCOS (2002) de Anna Muylaerte


41. ADAPTAÇÃO (2002) de Spike Jonze


40. A CASA DE ALICE (2007) de Chico Teixeira


39. A BANDA (2007) de Eran Korilin


38. CONDUTA DE RISCO (2007) de Tony Gilroy


37. ESTÔMAGO (2007) de Marcos Jorge


36. TIROS EM COLUMBINE (2002) de Michael Moore


35. DONNIE DARKO (2002) de Richard Kelly


34. ALTA FIDELIDADE (2000) de Stephen Frears


33. WAKING LIFE (2001) de Richard Linklater


32. ANTES QUE O DIABO SAIBA QUE VOCÊ ESTÁ MORTO (2007) de Sidney Lumet


31. CRONICAMENTE INVIÁVEL (2000) de Sérgio Bianchi


30. ROCKY BALBOA (2007) de Sylvester Stallone

30
29. BATMAN - O CAVALEIRO DAS TREVAS (2008) de Christopher Nolan


28. ASSIM ME DIZ A BÍBLIA (2007) de Daniel G. Karslake


27. TEMPO (2006) de Kim Ki Duk


26. BASTARDOS INGLÓRIOS (2009) de Quentin Tarantino


25. REJEITADOS PELO DIABO (2005) de Rob Zombie


24. WALL-E (2008) de Andrew Stanton


23. FALE COM ELA (2002) de Pedro Almodóvar


22. ÁGUAS TURVAS (2009) de Erik Poppe


21. LOREN CASS (2006) de Chris Fuller


20. OLDBOY (2003) de Chan Wook Park

19. VANILLA SKY (2001) de Cameron Crowe


18. AMNÉSIA (2000) de Christopher Nolan


17. KURT COBAIN - RETRATO DE UMA AUSÊNCIA (2007) de AJ Schnak 


16. CANÇÕES DO SEGUNDO ANDAR (2000) de Roy Andersson


15. BRILHO ETERNO DE UMA MENTE SEM LEMBRANÇAS (2004) de Michel Gondry


14. ANTICRISTO (2009) de Lars Von Trier


13. SANGUE NEGRO (2007) de Paul Thomas Anderson


12. NA NATUREZA SELVAGEM (2007) de Sean Penn


11. CIDADE DOS SONHOS (2001) de David Lynch


10. OS EXCÊNTRICOS TENENBAUMS (2001) de Wes Anderson


09. E O BUDA DESABOU DE VERGONHA (2007) de Hana Makhmalbaf


08. CIDADE DE DEUS (2002) de Fernando Meirelles


07. 21 GRAMAS (2003) de Alejandro González Iñárritu


06. A VIAGEM DE CHIHIRO (2001) de Hayao Miazaki


05. KILL BILL: VOLUME 1 (2004) de Quentin Tarantino


04. DANÇANDO NO ESCURO (2000) de Lars Von Trier


03. AMORES BRUTOS (2000) de Alejandro Gonzáles Iñárritu


02. IRREVERSÍVEL (2002) de Gaspar Noé


01. DOGVILLE (2003) de Lars Von Trier

* Pacto Maldito também foi lançado no Brasil como Quase Um Segredo.
É isso. Espero que tenham gostado da lista. :)

O ESCRITOR FANTASMA


Nove entre dez capas de DVD’s estampam frases como “o melhor filme do ano” ou “impactante e surpreendente” com intuito de te convencer a alugar ou comprar o filme. Pois é, assumo que seria capaz de escrever essas frases cafonas na capa de O Escritor Fantasma. Este é um caso onde podemos perceber claramente a diferença em ter um bom diretor à frente de um roteiro que poderia transformar o filme num show de pieguices. O filme não traz absolutamente nada de novo ao gênero policial, mas Roman Polanski dissolve qualquer previsibilidade ao ignorar macetes comuns e construir personagens como pilares na estrutura narrativa.

O tal escritor fantasma foi contratado pelo ex-primeiro ministro britânico Adam Lang para escrever suas memórias e substituir o fantasma antecessor, morto em circunstâncias misteriosas. Obviamente, o novo escritor seria o próximo alvo, mas quando Lang é acusado de crimes de guerra, o escritor assume a postura de investigador e mediador do caso após achar brechas na história do político durante pesquisas para o livro. Metáforas sobre o caso de Tony Blair e o escritor Robert Harris (também roteirista do filme) à parte, Polanski cria um mosaico de teorias conspiratórias, apesar de seguir o mesmo fio narrativo, que é o do escritor fantasma, o mocinho, na busca de informações que possam ligar o passado do político e a morte do fantasma anterior de Lang.

Os diálogos sempre afiados sustentam e assumem parte da ação do filme, seja para reafirmar intenções do diretor a respeito de seus personagens ou justificar fugas para determinadas sequências. Algo que só um mestre como Polanski poderia fazer sem soar tendencioso. O clássico caso de ser implícito e tendencioso num roteiro de investigação policial pode parecer banal, mas o peso da direção pesa na hora de construir os personagens, suas personalidades e principalmente as possibilidades de desfecho da trama. Justamente nesses aspectos que O Escritor Fantasma se difere dos outros filmes que discutem manipulações políticas e conspirações. E o final, completamente pessimista, é prova disso.

O Escritor Fantasma (The Ghost Writer, França/Alemanha/Inglaterra, 2010) de Roman Polanski

OLHOS AZUIS

 

Totalitarismo, remorso e a busca por redenção guiam a narrativa de Olhos Azuis. Por mais contemporâneos (e de certa forma batidos) que tais assuntos possam ser, existe algo a mais no filme de José Joffily. Não só a coragem para peitar uma força chamada Estados Unidos da América ao mostrá-los com autoritarismo exacerbado na relação com estrangeiros, em especial, os da América Latina. Não é preciso sair da sala de departamento de imigração, onde os latinos buscam uma carimbada em seus passaportes e que autorizem a entrada na “terra das oportunidades”. De personalidades distintas e muito bem construídas, os policiais aqui têm o poder absoluto sobre o futuro de cada um que está na sala de espera.

Intercalando com esta sistemática que oferece aos policiais diversão durante o horário de trabalho, vemos a busca do policial Marshall em terras brasileiras pela filha de um homem que estava na sala de imigração. Aos poucos, Joffily vai construindo um quadro sócio-político brutal que envolve diversos aspectos. Por outro lado, o diretor mostra a entrega de um homem às suas fraquezas e sua última chance de redenção. A pose de um homem invencível dada por um núcleo é desfigurada pelo outro. O grande trunfo dessas duas esferas é que o diretor consegue fazer dois filmes diferentes, com dois gêneros diferentes. A primeira, um thriller explosivo, social. A segunda, um road movie contemplativo.

Ao fragmentar o filme dessa forma brusca, irregularidades no ritmo do filme parecem inevitáveis. Principalmente por se tratar de uma interação crescente à respeito de informações sobre Marshall. De qualquer forma, as intenções de Olhos Azuis são claras e bem sucedidas. Conflitos externos são comedidos na medida certa e os internos suficientemente implícitos para transformar o filme em entretenimento e fonte para reflexões.


Olhos Azuis (Idem, Brasil, 2009) de José Joffily

OS HOMENS QUE NÃO AMAVAM AS MULHERES

 

A adaptação cinematográfica de Os Homens Que Não Amavam as Mulheres escrita por Stieg Larsson já teve o seu remake americano anunciado para o próximo ano com a direção de David Fincher, curiosamente o diretor de Zodíaco, um dos melhores thrillers dos últimos anos. Compreensível, pois o filme faz o que há muito tempo não se vê na construção de filmes deste gênero: a simplicidade. A apuração de um caso policial não permite que a trama caia em complexidades maiores mas nem por isso justifica saídas previsíveis.

Mikael Blomkvist, jornalista investigativo da revista Millenium (que dá nome a trilogia que se completa com A Menina Que Brincava com Fogo e A Rainha do Castelo de Ar) é contratado para continuar a busca de mulher desaparecida há 36 anos. Mesmo em um momento delicado em sua vida, ele resolve se imergir no caso. Em outro pólo está Lisbeth Salander, investigadora particular, reclusa e traumatizada. Sem tendencialismos ordinários ao que diz respeito à fragmentação da narrativa e manipulação do suspense, os dois se tornam insólitos objetos de estudo quando se unem para resolver o caso.

Mas sem deixar que a simplicidade atrapalhe o desenvolvimento da trama, o filme busca se aprofundar em questões existenciais de forma subjetiva, de modo que o caso policial não saia do primeiro plano e complete um quadro sugerido pelo diretor Niels Arden Oplev. É verdade que esse quadro é retocado por clichês de um romance, o que é sintomático quando se trata de uma adaptação, mas exacerbam a duração do filme com informações sem relevância. Mas nada que atrapalhe o resultado final, pois a essa altura, a atenção do espectador está domada pela curiosidade e dá a Oplev a coerência almejada.

Os Homens Que Não Amavam as Mulheres (Man Som Hatar Kvinnor, Suécia/Dinamarca/Alemanha/Noruega, 2009) de Niels Arden Oplev

MARÉ DE AZAR

 

Mike Judge ficou conhecido em todo mundo durante os anos 90 por ser criador de uma das séries mais famosas da MTV. Beavis & Butt-Head teve durante quatro anos de exibição grandes marcas de audiência para a emissora e ganharam um longa-metragem para encerrar bem a saga da dupla de roqueiros descerebrados. Judge também foi produtor e roteirista da série O Rei do Pedaço, que durou doze anos na Fox. Nesse tempo, ele teve tempo para criar e dirigir o inesquecível Como Enlouquecer o Seu Chefe e o polêmico Idiocracy, que dividiu opiniões ao tratar com deboche o processo de “idiotização” do ser humano. Desta vez, a veia cômica do diretor floresce de forma mais acessível em Maré de Azar.

Como o título nacional entrega, trata-se de uma trama que conforme seu andamento, a vida do protagonista vai piorando. A influência das obras de Kevin Smith é clara. A composição de personagens, algumas referências musicais (incluindo a presença de Gene Simmons, vocalista do Kiss), o roteiro bem estruturado – que remete diretamente aos bons tempos de Smith e a inevitável lembrança pela presença de Ben Affleck no elenco, reforçando tal idéia. A narrativa é dinâmica e seus personagens caricatos só ajudam a elevar as situações em extremidades que Judge está acostumado a mostrar, através de Beavis e Butt-Head, especialmente.

Os pilares dessa grande maré de azar são o caso extraconjugal da esposa de Joel (Jason Bateman) e um processo que pode levar sua firma de extratos à falência por conta de uma grande oportunista que deseja levar a melhor em cima dos empregados da firma de Joel. Como ajudante, ele tem Dean (Affleck) que faz uma espécie de Jay & Silent Bob em versão econômica. Na busca de soluções nada práticas, eles só pioram as coisas e lógico, para nós é um prato cheio.
Tudo funciona muito bem no filme de Judge, principalmente o timing, mas a comparação inevitável com os filmes de Smith dura toda a duração de Maré de Azar. A sensação é de vermos um longa requentado mesmo com toda sagacidade de Judge para fazer o espectador um rir, esta que provavelmente é a arte mais complexa de ser bem sucedido.


Maré de Azar (Extract, EUA, 2009) Direção: Mike Judge

O MUNDO IMAGINÁRIO DO DR. PARNASSUS

 

De todas as particularidades que Terry Gilliam carrega em sua filmografia, arrisco em dizer que a maior delas é a maneira como o diretor inglês manipula o impactante visual de suas obras para tornar-los em uma poderosa analogia ou até mesmo num personagem. Brazil e o mais recente Contraponto são bons exemplos desta faceta de Gilliam. Em O Mundo Imaginário do Dr. Parnassus a história não é diferente. De um mundo melancólico, sujo e sempre em estado de alerta (coincidência?), Gilliam utiliza o mágico espelho de Parnassus para entrarmos num mundo dito perfeito por cada um que tem a chance de atravessá-lo.

Desta vez as analogias são religiosas e políticas. A primeira é mais escrachada e até onde pode Gilliam não poupa críticas às doutrinas religiosas e que sua posição sobre elas é que tudo não passa de um conto de fadas. As políticas são mais discretas e se confundem com todo aparato cômico para a trama se tornar numa aventura acessível ao público mais jovem.

Na trama, Dr. Parnassus (Christopher Plummer) vive das apresentações de seus espetáculos falidos pela cidade e já conformado com o fracasso que durará a eternidade, ele vê sua sorte mudar quando encontra Tony (Heath Ledger), aparentemente morto numa ponte da cidade. Parnassus faz uma segunda e arriscada aposta com o demônio (Tom Waits, muito bom vê-lo em cena) e quem conseguir conquistar cinco almas em primeiro, terá posse da filha do Doutor, Valentina (Lily Cole). Pelos mandamentos, ela pertencerá ao tinhoso ao completar os dezesseis anos de idade. A partir daí, sobre a previsibilidade de uma separação brutal de comportamento para cada personagem, o filme se desenvolve.

A mesmice em relação às outras obras de Gilliam acaba por enfraquecer a persuasão do roteiro ao envolvimento do espectador. Tudo parece calculado o suficiente para parecer uma obra de autor. Já a tão comentada atuação de Heath Ledger, é de fato, uma potência considerável para o filme. Infelizmente, teve de ser substituído pelos nada inspirados Johnny Depp, Jude Law e Colin Farrel.
De qualquer modo, o visual continua sendo um personagem e também um espetáculo a parte. Nele, boa parte da potência do filme é depositada e consegue uma resposta a altura. Já o roteiro não consegue conduzir com a mesma equivalência a atenção do espectador. Consequentemente, o resultado final de O Mundo Imaginário de Dr. Parnassus é irregular. 

O Mundo Imaginário de Dr. Parnassus (The Imaginarium of Doctor Parnassus, Inglaterra/Canadá/França, 2009) de Terry Gilliam

A ESTRADA

 

Baseado no livro homônimo de Cormac McCarthy, John Hillcoat monta um cenário pós-apocalíptico para inverter valores em A Estrada. Hillcoat faz questão de lembrar que certos instintos reacendem em situações de sobrevivência e que o raciocínio fica em segundo plano. A trama é costurada após o nascimento de um menino. O mundo já havia sido destruído e não importa como e porquê. Ao lado de seu pai (Viggo Mortensen em total entrega ao personagem e provavelmente a maior força do filme), eles vagam pelas ruas com um só objetivo: Saírem ilesos de todos os riscos à sua volta.

Neste momento o dinheiro não vale mais nada. O medo, a pobreza e a violência são consequências de um cenário anárquico que faria qualquer homem desabar. Para o homem, sua única motivação em continuar a caminhada em direção ao sul é a sobrevivência de seu filho, mesmo que ele não entenda muito bem o porquê. Suas forças ficaram no passado com o desaparecimento de sua esposa. Longe da pieguice, John Hillcoat utiliza a ausência de elementos básicos de uma narrativa moderna para salientar o valor de pequenas coisas do cotidiano, suas motivações e os instintos que as cerca.

A Estrada pode, em partes, ser comparado a Gerry, de Gus Van Sant. É uma trama focada na procura do desconhecido, enfatiza suas intenções na escassez de diálogos e transforma seus enquadramentos de câmera em pinturas. E, assim como o longa de Gus Van Sant, A Estrada foi feito para ser interpretado lentamente, enquanto foge completamente dos clichês do cinema americano quando o assunto é fim do tempos.

A Estrada  (The Road, EUA, 2009) de John Hillcoat

ALICE NO PAÍS DAS MARAVILHAS

alice 

Tim Burton representou por muito tempo o que era incomum, rejeitado e subestimado. Seus personagens eram encarnações do que era avesso a um padrão. Por isso, o diretor ganhou o respeito de geeks, freaks, freqüentadores de cineclubes e afins. Da segunda metade dos anos 90 pra cá essa representação foi se diluindo enquanto a força de Burton para ganhar novos fãs vinha diretamente de duas de suas maiores características: A estética sombria e a eterna parceria com o ator Johnny Depp, que se repete em Alice no País das Maravilhas, adaptação do clássico conto de Lewis Carrol.

O mundo macabro de Burton parecia convidativo o bastante para a imersão em três dimensões. Mas tal tecnologia não faz um filme. É preciso o trabalho de sempre para envolver o espectador, ou seja, desenvolver seus personagens, conflitos, o ritmo e uma resolução convincente. No caso, por ser uma adaptação, Burton só deixa explícita a sucumbência da estética sobre o texto, como um truque ilusionista qualquer.

As metáforas e paralelos do conto original são praticamente esquecidos. Seus personagens não são bem desenvolvidos o bastante para fugirem de uma posição caricata. Burton aponta diversas lacunas para uma nova visão sobre o conto de Carrol que não fosse apenas sustentado pelo aspecto visual (bem batido, convenhamos), mas depositou todas as forças do filme nos ombros de Helena Bonham Carter (Rainha Vermelha) e Johnny Depp (Chapeleiro Maluco), que parece uma versão do Capitão Jack Sparrow vestido de Bozo.

Mas nem tudo é tragédia em Alice no País das Maravilhas. Fora as boas atuações, o diretor tem boa noção rítmica e sua montagem é eficiente o bastante para que o filme passe sem que o espectador sinta em demasia a ausência de um texto ao invés de objetos voando da tela e a composição do previsível “estranho mundo de Tim Burton”.

Alice no País das Maravilhas (Alice in Wonderland, EUA, 2010) de Tim Burton

AS MELHORES COISAS DO MUNDO

 

A melhor coisa do mundo é viver. Laís Bodanzky já havia afirmado tal sentença com a terceira idade em Chega de Saudade e agora celebra o fato de passar pelas lombadas colocadas pela vida em As Melhores Coisas do Mundo, filme baseado na série de livros “Mano” de Gilberto Dimmenstein e Heloísa Prieto. Laís registra o cotidiano dos jovens do nosso tempo. Sim, o jovem precoce, auto proclamado independente, que já vive a cultura autodestrutiva e egoísta tão latente no novo século. Esses jovens nasceram e foram criados em um mundo que não exige tanto esforço para se conseguir o que se deseja.

Em certo ponto do longa fica impossível não associar a obra de Bodanzky aos filmes de John Hughes (principalmente Clube dos Cinco), que ao mesmo tempo que usava sua trama à um viés despretensioso, estudava uma geração. A relação dos jovens ao sexo, entorpecentes, imaturidade, novas formas de relacionamento, meios de comunicação e problemas familiares é vista por Laís de uma maneira que foge completamente de um modelo formulado por emissoras de TV, que geralmente utilizam os jovens como meros coadjuvantes ou simplesmente abusam do mau gosto para construir uma realidade distorcida. A idéia da diretora carrega resquícios de uma maneira mais “analógica” de se ver a vida, pois seus personagens prezam pelo contato ao vivo, que aos poucos e naturalmente brinda o espectador mais velho com uma sensação nostálgica.

Mano (interpretado pelo estreante Francisco Miguez, ótimo), irmão mais novo, mais introspectivo e que não parece ter medo de viver à moda antiga, passa justamente o inverso de seus colegas; Seu conflito principal é justamente o de ser jovem. Mano não é apresentado como um menino que não faz parte de um grupinho do colégio. Ele faz parte sim da vida social dos estudantes, dos grêmios e das baladas, mas que sente a reverberação dos problemas familiares à flor da pele. Pedro (Fiuk), irmão mais velho, é mais recluso e tem saídas mais radicais para cada contratempo que possa afetá-lo. Eles estudam no mesmo colégio, mas a idade os coloca em realidades distintas que só se juntam por um grande problema. Aos poucos inseguranças e medos são apresentados ao mesmo tempo em que outros personagens deixam de ser coadjuvantes para tomar importância enorme para a trama, principalmente quando estão longe das lentes da diretora. Sendo uma analogia da imperceptível importância que situações e pessoas tomam depois para nossa formação adulta ou não, Laís induz a identificação para aqueles que já passaram pela adolescência.

A busca de Mano é de expurgar suas frustrações de alguma forma. Consequentemente e inconscientemente ele ajudará a todos ao seu redor a fazer o mesmo. Essa busca é da maneira mais adolescente possível – frenética e inquietante. Para ele fica a incógnita como se portar, talvez esse o maior conflito de um jovem garoto, pois sua imaturidade o impede de ser um homem. Como a história se desenvolve e se soluciona é de fácil previsibilidade, mas isso só aproxima mais ainda o filme de Laís aos de Hughes: É um filme para se degustar lentamente, cada corte, cada gesto, cada diálogo e cada sorriso que brota dentro e fora da tela. O gosto final é o melhor possível: Aquele dos tempos de colégio.

As Melhores Coisas do Mundo (Idem, Brasil, 2010) de Laís Bodanzky

ZONA VERDE

 

A nova parceria entre Paul Greengrass e Matt Damon (a última aconteceu em O Ultimato Bourne) chega aos cinemas em um momento delicado, onde diversas produções metralham diretamente ou não mensagens sobre a guerra do Iraque. Zona Verde parece um resgate ao cinema-denúncia ao assumir a responsabilidade de não utilizar a câmera como dispositivo de protesto e sim de tomar para si uma verdade absoluta, no caso, os falsos motivos para os EUA entrarem no Iraque.

A estética documental consumida pela câmera na mão por toda duração do filme, apesar de batida, figura a proximidade do soldado Miller (Damon) à realidade. O filme se passa nos primeiros momentos da guerra, em 2003, quando ainda existia uma inocência necessária para o governo americano proliferar seus ataques sob a busca de armas de destruição em massa. Enquanto Greengrass perdura em mostrar que a guerra é um bom negócio para o exército e soldados, o personagem de Damon assume o papel de herói como nos velhos tempos para buscar a unificação do governo iraquiano e o crescimento independente do país antes comandado por Saddam Hussein e sem a intromissão dos EUA após os conflitos.

É o momento para o diretor alargar as estacas de sua corajosa saga: A imprensa ganha o corpo de vilão junto a pilares do exército e do governo americano. Miller representa aqueles que gostariam de peitar autoridades e mudar o curso de um plano comandado pela ganância. Revestido como um filme ação, onde chantagens e trocas guiam os planos traçados por Millerm, Zona Verde não enfrenta contratempos para justificar tiros e sequências violentas. Apesar do entretenimento garantido com tais sequências, as forças do longa de Greengrass estão na coragem necessária para adotar uma posição e expor, com clara indignação, a sua verdade.

Zona Verde (Green Zone, França/EUA/Inglaterra/Espanha, 2010) de Paul Greengrass

NOVO ENDEREÇO

 Amigos, agora estou neste endereço: www.7a1filmes.com/blog Deixarei este blog aqui como arquivo de quase 20 anos de blogs, sites e revistas...