31 (Rob Zombie, 2016)




31 é o ápice da relação fetichista de Rob Zombie com a cinefilia. Já em seu sétimo filme, Zombie emulou até então Ken Russel, Tobe Hooper, Jodorowsky, Stanley Kubrick, Murnau, entre outros pilares do gênero, sem falar, claro do reboot/adaptação de Halloween de John Carpenter, muito criativo, por sinal. Em especial o segundo filme, sem amarras de produtores e com a identidade de Zombie mais explícita. Pois, em 31, o jogo perverso que reflete a moral americana sob a cultura da tragédia e seus desencadeamentos, da morte como a saída mais fácil e prazerosa para quem faz e quem vê, é um tributo completo ao gênero. Se a solução é cultivar o sadismo como única forma de sobrevivência, 31 é um filme basicamente de atores ao redor de um imenso altar do terror e que não é feito apenas de imagens. Entre palhaços, monstros e psicopatas, a aura é o coração do filme que corajosamente vai da irônica afirmação da cultura white trash americana (muito próximo ao clima pastelão-gore de The Devil’s Rejects na primeira parte do filme) ao mais brutal slasher e ao jogo de sobrevivência dentro de um ambiente claustrofóbico. Rob Zombie consegue adormecer a sensação de que o filme é guiado por um fio narrativo regressivo ao entregar seu filme aos rostos. São rostos, closes extremos, montagem pulsante. Tudo isso para apropriação dos personagens por Zombie, que em certo momento do filme abdica de um diálogo mais claro com o que se vê – é difícil afirmar o que acontece entre o caos que luzes e cortes produz. É um filme, portanto, de sensações. Ao contrário de um filme de Gaspar Noé, por exemplo, 31 exige vigor em cada corte sem que caia apenas no prazer estético. Nem todos eles funcionam, mas é interessante ver Zombie indo em outra direção e reforçando sua identidade, criando assim uma duplicidade que incomoda - mas nesse ponto, 31 já se tornou em um filme essencialmente sobre incômodos e que é direto na associação política com cada gesto registrado e menos narcísico.

Rua Secreta (Vivian Qu, 2013)




Em entrevista a Grazia Paganelli, então programadora do Museu de Cinema de Turim publicada em Sinais de Vida: Werner Herzog e o Cinema (Indie Lisboa 70, 2008), Werner Herzog comenta sobre a principal percepção de Fata Morgana (1971): "Para recordar". Tal afirmação partiu de uma sugestão de Grazia sobre o filme: o que os olhos vêem e o que imaginam são dois caminhos diferentes. Em casos de registro de um estado de espírito, seja ele de um local, grupo ou apenas um personagem, pouco influenciaria a cronologia ou a quantidade de arcos narrativos ou subterfúgios dados ao padrão de simbolismos quando se trata de uma experiência metafísica. Rua Secreta é um caso de estrutura que se toma consciência à medida que este espírito é revelado. Este espectro é apresentado de forma que a política é parte indivisível das coisas e que a corrupção estará na direção do olhar (a cidade como nossa extensão), mesmo que o objetivo de uma vida seja fugir desta entidade. 

Desta forma é feita a transposição das ruas da China para um microorganismo - uma torta espécie de gangue -  cujo valorização do que se vê está atrelado ao diálogo direto com gêneros cinematográficos. Rua Secreta é, em síntese, feito de associações, justificado pela transformação de um roteiro linear em híbrido hermenêutico ao habitual escape da própria vida quando a colocamos em risco, diariamente, sem percebermos. Para isso, o filme de Vivian Qu, adormece esta percepção com outro diálogo ligado à essência e que transpassa a rotina com desejos de intensidades diversas. Um paradoxo ligado às mutações cabíveis muito mais ao roteiro que às emoções do dia-a-dia, e por isso, Rua Secreta é um filme que sobrevive na superfície.

Há a simetria para que Rua Secreta seja um filme de gangsteres, um romance inflado e ainda que contido, um discurso social. Um jogo comum e batido sobre o que se vê e o que se entende, como afirmara Grazia Paganelli, quando boa parte do que é visto aqui é colocado às avessas a cada "mudança de gênero". Inevitável é à associação ao discurso social em função de um tipo de panorama apressado mas suficiente para a noção de quem e como governa o país. Tudo passará por um "crivo", este que sempre terá o poder e o dinheiro como balança. Um serviço a queda de mitos aos quais nossos olhos estão acostumados a ver a cada esquina. Este olhar, objetivo, afirma que pouco importa o local; trata-se de um diagnóstico geral e extremamente pessimista.

E demorará para a tênue linha de equilíbrio narrativo ser transformada em decoração. O que em algum momento foi narrativa é logo transmutado para uma espécie de montes complementares, ou, como é dito e cabível a este, uma teia, um quebra-cabeça, quando todos seus elementos são exibidos. O fim do mistério do tal espírito, por fim, leva ao que mais importante Rua Secreta guarda: o diálogo com que há na tradição do cinema chinês contemporâneo (Jia Zhang-Ke, Wong Kar-Wai e Hou Hsiao-Hsien, em especial). É o fim da zona de conforto e da mudança em função da mobilidade que interessou a Vivian Qu.

O filme, por fim, está debruçado em um tipo de controle da História, de um sintoma geral (o desespero) aplicado às convenções, dadas as proporções, aos cineastas citados. Se vive na inospitalidade de Em Busca da Vida, se deseja como 2046 e sonha como Café Lumière.  Porém, não há espaço para discutir a memória em Rua Secreta. Há, no máximo, o instinto de sobrevivência, quando, enfim, o que está diante de nossos olhos, diariamente, é transformada em ameaça - nem constatação ou imaginação. O passado, está incrustado nas interferências e desconfortos de uma cidade (nunca identificada) que reverbera todas as ruas do mundo, que necessitam de uma reação - antes mesmo de enxergarmos ou respirarmos estas ruas.

Vulgar What?

Tropas Estelares (Paul Verhoeven, 1997)
Infelizmente só descobri recentemente esse Tumblr dedicado ao chamado Vulgar Auteurism. Ele existe desde junho de 2012 com a função de catalogar stills de filmes inseridos na abrangente lista de diretores/filmes que em comum têm apenas o fácil acesso ao público - casos de John Carpenter, Brian De Palma, John Woo, Walter Hill e Rob Zombie a se discutir - e a justificativa de fazer cinema de gênero. Muito se debate sobre a força das imagens estáticas e sua função perceptiva em comparação ao conjunto como forma de celebração às obras de tantos cineastas - destaco a comparação entre Falstaff - O Toque da Meia Noite de Orson Welles e Mortal Kombat de Paul W.S Anderson - e pouco se nota os parâmetros para inclusão de diretores com obras tão distintas como Abel Ferrara e M.Night Shyamalan, por exemplo. Este termo tampouco trata de um panorama do cinema comercial contemporâneo, pois em listas espalhadas pela internet nomes como Samuel Fuller e Michael Cimino aparecem com "autores vulgares" ao lado de Clint Eastwood, Paul Verhoeven, Farrelly Brothers e John Hyams. Talvez este seja o primeiro termo (movimento?) cinematográfico "batizado" pela internet, sem qualquer margem; não há  limites de data, estética ou filosofia, ainda que se discuta que tudo começou com a adoração dos críticos/realizadores da Cahiers du Cinéma pelos autores ("não vulgares") americanos. Em rápida checagem da página é notório que nesta lista existem diretores com preocupações distintas em relação à imagem (referências, o diálogo com a tecnologia, encenação/reencenação, plástica) e enfim, um ponto para dar o nó: todos eles se apoiam em discursos artísticos coesos com usos díspares de seus dispositivos, independente do conceito de marketing que os entregou ao público. E se pensarmos que, aos meandros de definição, poucos movimentos cinematográficos foram batizados por quem fazia os filmes e sim por críticos e pesquisadores os definindo por margens e similaridades - data, abordagem, discurso... O Vulgar Auterism é sim, uma ótima ferramenta de marketing para cinefilia ainda que a questão para onde os olhos miram realmente cabe a cada quadro, inclusive deste Tumblr. Discutir a qualidade de cada um destes filmes e diretores seria trabalho demais. Vale a visita ao site.

Mr. Turner (Mike Leigh, 2014)



Curioso ver Mr. Turner lançado direto em home video no Brasil ao mesmo tempo que Mais um Ano (2010), penúltimo longa de Leigh, estreia em circuito nacional. Mais uma questão de logística e falta de confiança no espectador, pois apesar de ambos seguirem a fórmula de diluição do drama através da trivialidade tão funcional quanto nos tempos de A Vida é Doce (1990), Mr. Turner mais parece uma catalogação natural de imagens em função do implícito conto de um homem contra o academicismo e qualquer farsa embutida em discursos críticos. Leigh opta por planos abertos - a pintura dentro do escopo, muitas vezes, literalmente -, não se priva em esbarrar em Pialat e Visconti e menos ainda para abordar um descontraído diálogo com a chegada do cinema. Mas, sim, há uma explicação para Mais um Ano chegar às telas no Brasil, mesmo com muito atraso: embora tão monocórdico quanto seus outros filmes, há uma ignorante dose de empatia na relação dos vizinhos e amigos, bem mais que o citado A Vida é Doce. Já Mr. Turner é o encontro de mais uma possiblidade para Leigh, que já foi de Simplesmente Feliz (2008) a Naked (1993) sem que sua marca fosse alterada; Mr. Turner pode ser o primeiro passo para um formato ainda mais aguçado e desafiador para Leigh como um grande compositor do indivíduo prosaico sobre a carcaça do mito.

Melhores Filmes de 2015 (Primeiro Semestre)

Filmes lançados no Brasil (circuito de cinema e home video) no primeiro semestre de 2015:

Menções honrosas: 

Leviatã (Andrey Zvyagintsev), Mad Max - Estrada da Fúria (George Miller),  Da Sweet Blood of Jesus (Spike Lee), Dois Dias, Uma Noite (Jean-Pierre e Luc Dardenne), Batguano (Tavinho Teixeira), Mr. Turner (Mike Leigh) e Éden (Mia Hansen-Love).

10. O Pequeno Quinquin (Bruno Dumont, 2014)

 09. Sniper Americano (Clint Eastwood, 2014)

 08. 14 Estações de Maria (Dietrich Bruggemann, 2014)

 07. Acima das Nuvens (Olivier Assayas, 2014)

  06. Foxcatcher (Bennet Miller, 2014) 

 05. Jornada ao Oeste (Tsai Ming-Liang, 2014) 

 04. Casa Grande (Fellipe Barbosa, 2014)

 03. Últimas Conversas (Eduardo Coutinho, 2015)

 02. Jauja (Lisandro Alonso, 2014)

 01. Branco Sai, Preto Fica (Adirley Queirós, 2014)

NOVO ENDEREÇO

 Amigos, agora estou neste endereço: hellocinephilia.substack.com Deixarei este blog aqui como arquivo de quase 20 anos de blogs, sites e re...