O ESCRITOR FANTASMA


Nove entre dez capas de DVD’s estampam frases como “o melhor filme do ano” ou “impactante e surpreendente” com intuito de te convencer a alugar ou comprar o filme. Pois é, assumo que seria capaz de escrever essas frases cafonas na capa de O Escritor Fantasma. Este é um caso onde podemos perceber claramente a diferença em ter um bom diretor à frente de um roteiro que poderia transformar o filme num show de pieguices. O filme não traz absolutamente nada de novo ao gênero policial, mas Roman Polanski dissolve qualquer previsibilidade ao ignorar macetes comuns e construir personagens como pilares na estrutura narrativa.

O tal escritor fantasma foi contratado pelo ex-primeiro ministro britânico Adam Lang para escrever suas memórias e substituir o fantasma antecessor, morto em circunstâncias misteriosas. Obviamente, o novo escritor seria o próximo alvo, mas quando Lang é acusado de crimes de guerra, o escritor assume a postura de investigador e mediador do caso após achar brechas na história do político durante pesquisas para o livro. Metáforas sobre o caso de Tony Blair e o escritor Robert Harris (também roteirista do filme) à parte, Polanski cria um mosaico de teorias conspiratórias, apesar de seguir o mesmo fio narrativo, que é o do escritor fantasma, o mocinho, na busca de informações que possam ligar o passado do político e a morte do fantasma anterior de Lang.

Os diálogos sempre afiados sustentam e assumem parte da ação do filme, seja para reafirmar intenções do diretor a respeito de seus personagens ou justificar fugas para determinadas sequências. Algo que só um mestre como Polanski poderia fazer sem soar tendencioso. O clássico caso de ser implícito e tendencioso num roteiro de investigação policial pode parecer banal, mas o peso da direção pesa na hora de construir os personagens, suas personalidades e principalmente as possibilidades de desfecho da trama. Justamente nesses aspectos que O Escritor Fantasma se difere dos outros filmes que discutem manipulações políticas e conspirações. E o final, completamente pessimista, é prova disso.

O Escritor Fantasma (The Ghost Writer, França/Alemanha/Inglaterra, 2010) de Roman Polanski

OLHOS AZUIS

 

Totalitarismo, remorso e a busca por redenção guiam a narrativa de Olhos Azuis. Por mais contemporâneos (e de certa forma batidos) que tais assuntos possam ser, existe algo a mais no filme de José Joffily. Não só a coragem para peitar uma força chamada Estados Unidos da América ao mostrá-los com autoritarismo exacerbado na relação com estrangeiros, em especial, os da América Latina. Não é preciso sair da sala de departamento de imigração, onde os latinos buscam uma carimbada em seus passaportes e que autorizem a entrada na “terra das oportunidades”. De personalidades distintas e muito bem construídas, os policiais aqui têm o poder absoluto sobre o futuro de cada um que está na sala de espera.

Intercalando com esta sistemática que oferece aos policiais diversão durante o horário de trabalho, vemos a busca do policial Marshall em terras brasileiras pela filha de um homem que estava na sala de imigração. Aos poucos, Joffily vai construindo um quadro sócio-político brutal que envolve diversos aspectos. Por outro lado, o diretor mostra a entrega de um homem às suas fraquezas e sua última chance de redenção. A pose de um homem invencível dada por um núcleo é desfigurada pelo outro. O grande trunfo dessas duas esferas é que o diretor consegue fazer dois filmes diferentes, com dois gêneros diferentes. A primeira, um thriller explosivo, social. A segunda, um road movie contemplativo.

Ao fragmentar o filme dessa forma brusca, irregularidades no ritmo do filme parecem inevitáveis. Principalmente por se tratar de uma interação crescente à respeito de informações sobre Marshall. De qualquer forma, as intenções de Olhos Azuis são claras e bem sucedidas. Conflitos externos são comedidos na medida certa e os internos suficientemente implícitos para transformar o filme em entretenimento e fonte para reflexões.


Olhos Azuis (Idem, Brasil, 2009) de José Joffily

OS HOMENS QUE NÃO AMAVAM AS MULHERES

 

A adaptação cinematográfica de Os Homens Que Não Amavam as Mulheres escrita por Stieg Larsson já teve o seu remake americano anunciado para o próximo ano com a direção de David Fincher, curiosamente o diretor de Zodíaco, um dos melhores thrillers dos últimos anos. Compreensível, pois o filme faz o que há muito tempo não se vê na construção de filmes deste gênero: a simplicidade. A apuração de um caso policial não permite que a trama caia em complexidades maiores mas nem por isso justifica saídas previsíveis.

Mikael Blomkvist, jornalista investigativo da revista Millenium (que dá nome a trilogia que se completa com A Menina Que Brincava com Fogo e A Rainha do Castelo de Ar) é contratado para continuar a busca de mulher desaparecida há 36 anos. Mesmo em um momento delicado em sua vida, ele resolve se imergir no caso. Em outro pólo está Lisbeth Salander, investigadora particular, reclusa e traumatizada. Sem tendencialismos ordinários ao que diz respeito à fragmentação da narrativa e manipulação do suspense, os dois se tornam insólitos objetos de estudo quando se unem para resolver o caso.

Mas sem deixar que a simplicidade atrapalhe o desenvolvimento da trama, o filme busca se aprofundar em questões existenciais de forma subjetiva, de modo que o caso policial não saia do primeiro plano e complete um quadro sugerido pelo diretor Niels Arden Oplev. É verdade que esse quadro é retocado por clichês de um romance, o que é sintomático quando se trata de uma adaptação, mas exacerbam a duração do filme com informações sem relevância. Mas nada que atrapalhe o resultado final, pois a essa altura, a atenção do espectador está domada pela curiosidade e dá a Oplev a coerência almejada.

Os Homens Que Não Amavam as Mulheres (Man Som Hatar Kvinnor, Suécia/Dinamarca/Alemanha/Noruega, 2009) de Niels Arden Oplev

MARÉ DE AZAR

 

Mike Judge ficou conhecido em todo mundo durante os anos 90 por ser criador de uma das séries mais famosas da MTV. Beavis & Butt-Head teve durante quatro anos de exibição grandes marcas de audiência para a emissora e ganharam um longa-metragem para encerrar bem a saga da dupla de roqueiros descerebrados. Judge também foi produtor e roteirista da série O Rei do Pedaço, que durou doze anos na Fox. Nesse tempo, ele teve tempo para criar e dirigir o inesquecível Como Enlouquecer o Seu Chefe e o polêmico Idiocracy, que dividiu opiniões ao tratar com deboche o processo de “idiotização” do ser humano. Desta vez, a veia cômica do diretor floresce de forma mais acessível em Maré de Azar.

Como o título nacional entrega, trata-se de uma trama que conforme seu andamento, a vida do protagonista vai piorando. A influência das obras de Kevin Smith é clara. A composição de personagens, algumas referências musicais (incluindo a presença de Gene Simmons, vocalista do Kiss), o roteiro bem estruturado – que remete diretamente aos bons tempos de Smith e a inevitável lembrança pela presença de Ben Affleck no elenco, reforçando tal idéia. A narrativa é dinâmica e seus personagens caricatos só ajudam a elevar as situações em extremidades que Judge está acostumado a mostrar, através de Beavis e Butt-Head, especialmente.

Os pilares dessa grande maré de azar são o caso extraconjugal da esposa de Joel (Jason Bateman) e um processo que pode levar sua firma de extratos à falência por conta de uma grande oportunista que deseja levar a melhor em cima dos empregados da firma de Joel. Como ajudante, ele tem Dean (Affleck) que faz uma espécie de Jay & Silent Bob em versão econômica. Na busca de soluções nada práticas, eles só pioram as coisas e lógico, para nós é um prato cheio.
Tudo funciona muito bem no filme de Judge, principalmente o timing, mas a comparação inevitável com os filmes de Smith dura toda a duração de Maré de Azar. A sensação é de vermos um longa requentado mesmo com toda sagacidade de Judge para fazer o espectador um rir, esta que provavelmente é a arte mais complexa de ser bem sucedido.


Maré de Azar (Extract, EUA, 2009) Direção: Mike Judge

O MUNDO IMAGINÁRIO DO DR. PARNASSUS

 

De todas as particularidades que Terry Gilliam carrega em sua filmografia, arrisco em dizer que a maior delas é a maneira como o diretor inglês manipula o impactante visual de suas obras para tornar-los em uma poderosa analogia ou até mesmo num personagem. Brazil e o mais recente Contraponto são bons exemplos desta faceta de Gilliam. Em O Mundo Imaginário do Dr. Parnassus a história não é diferente. De um mundo melancólico, sujo e sempre em estado de alerta (coincidência?), Gilliam utiliza o mágico espelho de Parnassus para entrarmos num mundo dito perfeito por cada um que tem a chance de atravessá-lo.

Desta vez as analogias são religiosas e políticas. A primeira é mais escrachada e até onde pode Gilliam não poupa críticas às doutrinas religiosas e que sua posição sobre elas é que tudo não passa de um conto de fadas. As políticas são mais discretas e se confundem com todo aparato cômico para a trama se tornar numa aventura acessível ao público mais jovem.

Na trama, Dr. Parnassus (Christopher Plummer) vive das apresentações de seus espetáculos falidos pela cidade e já conformado com o fracasso que durará a eternidade, ele vê sua sorte mudar quando encontra Tony (Heath Ledger), aparentemente morto numa ponte da cidade. Parnassus faz uma segunda e arriscada aposta com o demônio (Tom Waits, muito bom vê-lo em cena) e quem conseguir conquistar cinco almas em primeiro, terá posse da filha do Doutor, Valentina (Lily Cole). Pelos mandamentos, ela pertencerá ao tinhoso ao completar os dezesseis anos de idade. A partir daí, sobre a previsibilidade de uma separação brutal de comportamento para cada personagem, o filme se desenvolve.

A mesmice em relação às outras obras de Gilliam acaba por enfraquecer a persuasão do roteiro ao envolvimento do espectador. Tudo parece calculado o suficiente para parecer uma obra de autor. Já a tão comentada atuação de Heath Ledger, é de fato, uma potência considerável para o filme. Infelizmente, teve de ser substituído pelos nada inspirados Johnny Depp, Jude Law e Colin Farrel.
De qualquer modo, o visual continua sendo um personagem e também um espetáculo a parte. Nele, boa parte da potência do filme é depositada e consegue uma resposta a altura. Já o roteiro não consegue conduzir com a mesma equivalência a atenção do espectador. Consequentemente, o resultado final de O Mundo Imaginário de Dr. Parnassus é irregular. 

O Mundo Imaginário de Dr. Parnassus (The Imaginarium of Doctor Parnassus, Inglaterra/Canadá/França, 2009) de Terry Gilliam

A ESTRADA

 

Baseado no livro homônimo de Cormac McCarthy, John Hillcoat monta um cenário pós-apocalíptico para inverter valores em A Estrada. Hillcoat faz questão de lembrar que certos instintos reacendem em situações de sobrevivência e que o raciocínio fica em segundo plano. A trama é costurada após o nascimento de um menino. O mundo já havia sido destruído e não importa como e porquê. Ao lado de seu pai (Viggo Mortensen em total entrega ao personagem e provavelmente a maior força do filme), eles vagam pelas ruas com um só objetivo: Saírem ilesos de todos os riscos à sua volta.

Neste momento o dinheiro não vale mais nada. O medo, a pobreza e a violência são consequências de um cenário anárquico que faria qualquer homem desabar. Para o homem, sua única motivação em continuar a caminhada em direção ao sul é a sobrevivência de seu filho, mesmo que ele não entenda muito bem o porquê. Suas forças ficaram no passado com o desaparecimento de sua esposa. Longe da pieguice, John Hillcoat utiliza a ausência de elementos básicos de uma narrativa moderna para salientar o valor de pequenas coisas do cotidiano, suas motivações e os instintos que as cerca.

A Estrada pode, em partes, ser comparado a Gerry, de Gus Van Sant. É uma trama focada na procura do desconhecido, enfatiza suas intenções na escassez de diálogos e transforma seus enquadramentos de câmera em pinturas. E, assim como o longa de Gus Van Sant, A Estrada foi feito para ser interpretado lentamente, enquanto foge completamente dos clichês do cinema americano quando o assunto é fim do tempos.

A Estrada  (The Road, EUA, 2009) de John Hillcoat

ALICE NO PAÍS DAS MARAVILHAS

alice 

Tim Burton representou por muito tempo o que era incomum, rejeitado e subestimado. Seus personagens eram encarnações do que era avesso a um padrão. Por isso, o diretor ganhou o respeito de geeks, freaks, freqüentadores de cineclubes e afins. Da segunda metade dos anos 90 pra cá essa representação foi se diluindo enquanto a força de Burton para ganhar novos fãs vinha diretamente de duas de suas maiores características: A estética sombria e a eterna parceria com o ator Johnny Depp, que se repete em Alice no País das Maravilhas, adaptação do clássico conto de Lewis Carrol.

O mundo macabro de Burton parecia convidativo o bastante para a imersão em três dimensões. Mas tal tecnologia não faz um filme. É preciso o trabalho de sempre para envolver o espectador, ou seja, desenvolver seus personagens, conflitos, o ritmo e uma resolução convincente. No caso, por ser uma adaptação, Burton só deixa explícita a sucumbência da estética sobre o texto, como um truque ilusionista qualquer.

As metáforas e paralelos do conto original são praticamente esquecidos. Seus personagens não são bem desenvolvidos o bastante para fugirem de uma posição caricata. Burton aponta diversas lacunas para uma nova visão sobre o conto de Carrol que não fosse apenas sustentado pelo aspecto visual (bem batido, convenhamos), mas depositou todas as forças do filme nos ombros de Helena Bonham Carter (Rainha Vermelha) e Johnny Depp (Chapeleiro Maluco), que parece uma versão do Capitão Jack Sparrow vestido de Bozo.

Mas nem tudo é tragédia em Alice no País das Maravilhas. Fora as boas atuações, o diretor tem boa noção rítmica e sua montagem é eficiente o bastante para que o filme passe sem que o espectador sinta em demasia a ausência de um texto ao invés de objetos voando da tela e a composição do previsível “estranho mundo de Tim Burton”.

Alice no País das Maravilhas (Alice in Wonderland, EUA, 2010) de Tim Burton

AS MELHORES COISAS DO MUNDO

 

A melhor coisa do mundo é viver. Laís Bodanzky já havia afirmado tal sentença com a terceira idade em Chega de Saudade e agora celebra o fato de passar pelas lombadas colocadas pela vida em As Melhores Coisas do Mundo, filme baseado na série de livros “Mano” de Gilberto Dimmenstein e Heloísa Prieto. Laís registra o cotidiano dos jovens do nosso tempo. Sim, o jovem precoce, auto proclamado independente, que já vive a cultura autodestrutiva e egoísta tão latente no novo século. Esses jovens nasceram e foram criados em um mundo que não exige tanto esforço para se conseguir o que se deseja.

Em certo ponto do longa fica impossível não associar a obra de Bodanzky aos filmes de John Hughes (principalmente Clube dos Cinco), que ao mesmo tempo que usava sua trama à um viés despretensioso, estudava uma geração. A relação dos jovens ao sexo, entorpecentes, imaturidade, novas formas de relacionamento, meios de comunicação e problemas familiares é vista por Laís de uma maneira que foge completamente de um modelo formulado por emissoras de TV, que geralmente utilizam os jovens como meros coadjuvantes ou simplesmente abusam do mau gosto para construir uma realidade distorcida. A idéia da diretora carrega resquícios de uma maneira mais “analógica” de se ver a vida, pois seus personagens prezam pelo contato ao vivo, que aos poucos e naturalmente brinda o espectador mais velho com uma sensação nostálgica.

Mano (interpretado pelo estreante Francisco Miguez, ótimo), irmão mais novo, mais introspectivo e que não parece ter medo de viver à moda antiga, passa justamente o inverso de seus colegas; Seu conflito principal é justamente o de ser jovem. Mano não é apresentado como um menino que não faz parte de um grupinho do colégio. Ele faz parte sim da vida social dos estudantes, dos grêmios e das baladas, mas que sente a reverberação dos problemas familiares à flor da pele. Pedro (Fiuk), irmão mais velho, é mais recluso e tem saídas mais radicais para cada contratempo que possa afetá-lo. Eles estudam no mesmo colégio, mas a idade os coloca em realidades distintas que só se juntam por um grande problema. Aos poucos inseguranças e medos são apresentados ao mesmo tempo em que outros personagens deixam de ser coadjuvantes para tomar importância enorme para a trama, principalmente quando estão longe das lentes da diretora. Sendo uma analogia da imperceptível importância que situações e pessoas tomam depois para nossa formação adulta ou não, Laís induz a identificação para aqueles que já passaram pela adolescência.

A busca de Mano é de expurgar suas frustrações de alguma forma. Consequentemente e inconscientemente ele ajudará a todos ao seu redor a fazer o mesmo. Essa busca é da maneira mais adolescente possível – frenética e inquietante. Para ele fica a incógnita como se portar, talvez esse o maior conflito de um jovem garoto, pois sua imaturidade o impede de ser um homem. Como a história se desenvolve e se soluciona é de fácil previsibilidade, mas isso só aproxima mais ainda o filme de Laís aos de Hughes: É um filme para se degustar lentamente, cada corte, cada gesto, cada diálogo e cada sorriso que brota dentro e fora da tela. O gosto final é o melhor possível: Aquele dos tempos de colégio.

As Melhores Coisas do Mundo (Idem, Brasil, 2010) de Laís Bodanzky

ZONA VERDE

 

A nova parceria entre Paul Greengrass e Matt Damon (a última aconteceu em O Ultimato Bourne) chega aos cinemas em um momento delicado, onde diversas produções metralham diretamente ou não mensagens sobre a guerra do Iraque. Zona Verde parece um resgate ao cinema-denúncia ao assumir a responsabilidade de não utilizar a câmera como dispositivo de protesto e sim de tomar para si uma verdade absoluta, no caso, os falsos motivos para os EUA entrarem no Iraque.

A estética documental consumida pela câmera na mão por toda duração do filme, apesar de batida, figura a proximidade do soldado Miller (Damon) à realidade. O filme se passa nos primeiros momentos da guerra, em 2003, quando ainda existia uma inocência necessária para o governo americano proliferar seus ataques sob a busca de armas de destruição em massa. Enquanto Greengrass perdura em mostrar que a guerra é um bom negócio para o exército e soldados, o personagem de Damon assume o papel de herói como nos velhos tempos para buscar a unificação do governo iraquiano e o crescimento independente do país antes comandado por Saddam Hussein e sem a intromissão dos EUA após os conflitos.

É o momento para o diretor alargar as estacas de sua corajosa saga: A imprensa ganha o corpo de vilão junto a pilares do exército e do governo americano. Miller representa aqueles que gostariam de peitar autoridades e mudar o curso de um plano comandado pela ganância. Revestido como um filme ação, onde chantagens e trocas guiam os planos traçados por Millerm, Zona Verde não enfrenta contratempos para justificar tiros e sequências violentas. Apesar do entretenimento garantido com tais sequências, as forças do longa de Greengrass estão na coragem necessária para adotar uma posição e expor, com clara indignação, a sua verdade.

Zona Verde (Green Zone, França/EUA/Inglaterra/Espanha, 2010) de Paul Greengrass

MARY E MAX - UMA AMIZADE DIFERENTE

 

O diretor Adam Elliot é pragmático em Mary & Max - Uma Amizade Diferente. Como Andrew Stanton em Wall-E, Elliot usa uma história singela onde o envolvimento de seus protagonistas nada mais é que um trampolim para disparar ácidas críticas ao modelo de vida contemporâneo. Ao contrário da obra de Stanton, Mary & Max – Uma Amizade Diferente é um filme que não se preocupa em maquiar suas intenções como subtexto ou utilizar entrelinhas para concretizá-los, por isso, talvez seja uma obra que fuja do gosto comum do público alvo das animações, ou seja, os jovens, ainda que sua plástica seja um irresistível convite para um delicioso deleite visual.

Se Mary, uma reclusa e amedrontada menina australiana desbrava um novo mundo (sem censuras ou moralismos) através de trocas de cartas com o americano Max, ao mesmo tempo o usa como fonte de reconhecimento. Em Max está a penca de problemas que ela teme se deparar no futuro. Max é um homem solitário, obeso, que sofre de dezenas de síndromes e representa muito bem o homem moderno. Ele a ajuda em suas prematuras crises existenciais, mas antes de tudo, encontra nas cartas uma nova saída, um motivo para viver.

A cada confidência trocada, um trauma é apagado, uma fobia é confrontada, um passo é dado para um deles. Mas ainda no primeiro ato, a trama de amizade ganha objetivos maiores. Mary e Max são vistos pelos olhos tragicômicos do narrador. E por agir concomitantemente nos dois lados com a mesma intensidade, Elliot nos obriga a ver o conto de uma maneira nova; Este que balanceia a riqueza de sua mensagem e sua forma de sua exposição e o delicioso ode à lealdade e a amizade (ainda que Mary, assim como a vida, perca graça conforme a idade passa) com momentos cativantes.

Mary & Max - Uma Amizade Diferente (Mary & Max, Austrália, 2009) de Adam Elliot

A RIVIERA NÃO É AQUI

 

Há muito tempo não vejo uma comédia francesa que carregue as características que consagraram o país como uma das maiores fontes  de filmes deste gênero. Em sua maioria, todas eram cativadas por um humor refinado, intelectual e desbravadas a partir de uma boa sinopse. É o caso dos filmes de Jacques Tati até os mais recentes de Francis Veber (O Closet, O Jantar dos Malas). E tudo indicava que A Riviera Não é Aqui iria pelo mesmo caminho, seguindo a tradição de uma boa premissa: Phillipe Abrams, diretor de uma agência dos correios, sonhava em ser transferido para o sul da França para melhorar sua vida e principalmente seu casamento. Mas para isso, teria que participar de uma fraude que é desmascarada em uma cena antológica. Como penitencia, ele é enviado para o norte, local temido por sua esposa não só pelo frio, mas pelo comportamento dos habitantes daquela região.

A aventura começa quando Phillipe pega a estrada. É a chance dele de se conhecer melhor e também explorar novos costumes e até um novo dialeto, este que o diretor Dany Boon faz questão de usá-lo como fonte de piadas de duplo sentido por todo filme. Com o passar dos dias e uma rapidíssima adaptação a um novo modelo de vida, ele consegue se livrar de fardos que mantinha no passado. É ai que Boon usufrui de uma narrativa enaltecida pela leveza da amizade e a descoberta de uma oportunidade mesmo que ainda tropece em momentos exagerados, onde o diretor utiliza longas sequências para debochar de males como o alcoolismo e a depressão.

Em A Riviera Não é Aqui não existe tempo para conflitos. Nem daqueles mais rasos e costumeiros em comédias. Tudo se resolve facilmente e com bom humor. O roteiro parece ser um emaranhado de situações corriqueiras de um tempo de adaptação e tramas paralelas que servem como uma ponte para o resto da história. Talvez isto venha das intenções do diretor que fez uma obra para entreter apenas, mas fica no meio do caminho na hora de elaborar uma mensagem para os seus espectadores. Assim, Dany Boon coloca em cheque o seu público: Entrar de cabeça na previsibilidade da trama e se divertir ou esperar por uma reviravolta genial e considerar o filme como uma verdadeira comédia francesa? Aconselho a escolher a primeira opção.

A Riviera Não é Aqui  (Bienvenue chez les Ch'tis, França, 2008) de Dany  Boon

HALLOWEEN 2

halloween 2 

Acusado de oportunismo ao paralisar a produção de Tyrannosaurus Rex para filmar a continuação da saga de Michael Myers, Rob Zombie parece não ter sentido a pressão do público, nem da Dimension e muito menos dos irmãos Weinstein para entregar o filme oitos meses após assinar o contrato. Zombie fez um filme sobre traumas, fugindo da previsibilidade do gênero.

Após uma breve e abstrata explicação sobre a primeira parte de Halloween, Zombie elimina boa parte de sua habitual verborragia e utiliza o silêncio como fonte de desconstrução da força que o passado exerce na vida de Laurie Strode e de Myers. Mesmo dado como morto, o serial killer é o motivo de noites mal dormidas e surtos de Laurie. Para ela, existe um fardo a levar, que só ganha peso conforme os dias passam. O terror, em boa parte do filme, é psicológico e aumenta gradualmente. Myers, através de criativas inserções, consegue criar vínculo com a platéia ao se expressar e justificar seus brutais assassinatos, nos quais Zombie faz questão de enriquecer em detalhes.

Discreto, o diretor resolve depositar seu característico amor pela década de setenta em outros elementos do longa, deixando visível apenas resquícios de sua adoração pela cartilha white trash. Nela, estão suas marcas autorais junto com outros métodos construtivos como a fragmentação de sequências e a clássica câmera lenta, imortalizada no genial Rejeitados Pelo Diabo. Totalmente diferente do road movie citado, Halloween 2 é um longa que sugere o envolvimento do espectador por outros meios; Eles são largos o bastante para cada um ter sua conclusão sobre a história e julgar cada personagem, o que é algo completamente compensador, pois com tanta rapidez para filmar, seria óbvio esperar uma carnificina e como guia uma trama de gato e rato e nada mais. Mas não é o que acontece - Rob Zombie consegue criar uma média entre a matéria e espírito, sem tirar o foco principal da série de John Carpenter: Amedontrar sua platéia.

Halloween 2 (Idem, EUA, 2009) de Rob Zombie

HOMENS QUE ENCARAVAM CABRAS

 

A paranormalidade é o caminho para a paz. Pelo menos é o que o general hippie Bill Django, personagem de Jeff Bridges, tenta induzir em Homens Que Encaravam Cabras, filme baseado no livro homônimo de Jon Ronson. Em segredo, com ajuda de um grupo seleto de soldados (batizado de “Força Jedi”), ele aperfeiçoa esses poderes psíquicos para o bem e pretende cessar os conflitos que podem destruir uma nação. Lyn Cassady (George Clooney), anos após a criação dessa suposta receita para a paz está em uma missão secreta. E se depara com o frustrado Bob Wilton (Ewan McGregor) em um momento escapista, mas que se adequaria perfeitamente à palavra “suicida” também.

Grant Helsov domina sua narrativa com louvor. Tem o timing certo para debochar de todos os elementos que envolvem a guerra do Iraque. Seus personagens vão de grandes homens á palhaços desmoralizados em questão de segundos. A névoa que Helsov insere na trama para não julgá-los é o grande trunfo para o envolvimento do espectador. Para Bill, a guerra antes de se tornar algo palpável, começa na cabeça dos soldados e ações maniqueístas só elevam o sofrimento. Helsov faz o mesmo caminho e coloca a neura na mente dos soldados que consideram qualquer coisa como um golpe mortal ou uma maldição, criando cenas memoráveis entre George Clooney e Ewan McGregor.

Homens Que Encaravam Cabras é um filme que não preza por um senso rítmico definido. As sequências oscilam entre momentos explosivos, onde o humor é intencionalmente mais escrachado e não menos inteligentes que os momentos contemplativos, onde a obviedade vira motivo de piada. Neles, o sarcasmo é inserido de forma quase imperceptível. Por isso, talvez não seja um filme de fácil digestão. Porém, é uma das formas mais gostosas de assistir a um manifesto anti guerra, que vai além da subjetividade óbvia e panfletária para assumir um radicalismo ímpar ao debochar e lapidar sentimentos característicos de conflitos armados.

Homens Que Encaravam Cabras  (Men Who Stare At Goats, EUA/Inglaterra, 2009) de Grant Helsov

10 FILMES PARA 2010

Passada a temporada do Oscar, a programação dos cinemas volta ao normal, com blockbusters e comédias românticas tomando espaço dos filmes que concorreram a estatueta. Agora cabe a nós ficarmos de olho nas boas estreias e nos festivais que acontecem pelo país. Fiz uma lista de dez filmes esperados para este ano.

ENTER THE VOID (2009) de Gaspar Noé

Exibido no Festival de Cannes no ano passado, o novo filme de Gaspar Noé (Irreversível) passou em branco nos festivais por aqui. Fica a torcida para uma estreia em circuito limitado ou lançamento em DVD.

MACHETE (2010) de Robert Rodriguez

A adaptação de um dos fake trailers de Grindhouse (projeto de Quentin Tarantino e Robert Rodriguez) promete. Robert De Niro, Cheech Marin, Steven Seagal, Danny Trejo, Jessica Alba e Lindsay Lohan compõem o elenco. Tudo joga a favor, caso Robert Rodriguez não resolva fazer mais do que deve.

OS MERCENÁRIOS (2010) de Sylvester Stallone

A realização do sonho de todos os fãs de filmes de ação dos anos 80. Fora toda confusão que o filme arrumou por aqui, Stallone, Bruce Willis, Mickey Rourke, Dolph Lundgren, Eric Roberts, Jet Li e Jason Statham já dão motivos suficientes para esse filme entrar para a lista dos mais esperados. Previsto para 20 de agosto.

THE KILLER INSIDE ME (2010) de Michael Winterbottom

Após virar alvo de polêmicas e acusações durante o Festival de Sundance, no inicio do ano (por não censurar cenas brutais de violência e abuso sexual, muitas pessoas saíram durante as projeções do filme, incluindo Jessica Alba, que está no elenco), o longa será lançado nos EUA sem cortes, mas com indicação para maiores de 18 anos.

OS LIMITES DO CONTROLE (2009) de Jim Jarmusch

O novo filme de Jim Jarmusch está para estrear no Brasil há tanto tempo que dou como certo seu lançamento direto em DVD, apesar de ainda existir uma previsão para seu lançamento nos cinemas. No elenco do thriller estão Gael Garcia Bernal, Tilda Swinton e claro, Bill Murray. Previsto para 25 de junho.

THE SENTIMENTAL ENGINE SLAYER (2010) de Omar Rodriguez Lopez

O debut de Omar Rodriguez Lopez na direção teve première no Festival de Rotterdam, foi selecionado para Tribeca, ganhou críticas favoráveis e comparações à Alejandro Jodorowski. Como fã de seu trabalho como músico (Omar é guitarrista do grupo The Mars Volta e do extinto At The Drive-In) minhas expectativas só aumentaram.
tetro
TETRO (2009) de Francis Ford Coppola

Após alguns tropeços nos últimos filmes, as críticas confirmam que Tetro é a volta de Francis Ford Coppola à sua boa forma. Precisa de mais alguma explicação? Previsto para 7 de maio.

LIFE DURING WARTIME (2009) de Todd Solondz

Se tem algum filme que eu nunca imaginei que ganharia uma sequência este filme é Felicidade. Pois é, Todd Solondz, o louco dos loucos, fez uma sequência de sua obra-prima. E que parece ser tão grotesco quanto o primeiro.

DOGTOOTH (2009) de Giorgios Lanthimos

Vencedor do Festival de Mar Del Plata e do prêmio Um Certo Olhar em Cannes, o filme tem um dos trailers mais doentios dos últimos tempos. Foi exibido na Mostra de São Paulo ano passado, mas torço pelo lançamento em circuito limitado.
KABOOM (2010) de Gregg Araki

Só pelas fotos do filme que estão disponíveis na rede, dá pra termos noção que Gregg Araki voltou às suas origens neste filme. Cores cítricas, viagens alucinógenas, jovens perdidos e surrealismo.

HISTÓRIAS DE AMOR DURAM APENAS 90 MINUTOS


 

Pequenas peculiaridades constróem Histórias de Amor Duram Apenas 90 Minutos. O longa que marca a estréia de Paulo Halm na direção, tem uma poderosa veia cômica, porém, não se assume como uma comédia. Apresenta conflitos e devaneios emocionais de seu protagonista, mas também não veste a camisa de um drama existencial. Assim, fica clara a intenção de Halm de unir gêneros dentro de um mesmo texto. Quando o jovem e inativo escritor Zeca é aterrorizado pelo fantasma da infidelidade, sua estagnação vira o céu e o inferno, representados pela Lapa, berço da boemia carioca.

Se tal paralisação criativa coloca Zeca numa posição submissa ao acaso (este sempre disposto a acionar a bomba que é a mente libidinosa do rapaz), o mesmo não se pode dizer quando a neura permite exibir todas suas fraquezas. É aí que Paulo Halm abusa do humor, criando cenas memoráveis, explicitando a catalisação das frustrações de Zeca, principalmente quando o escritor está com seu frio, monossilábico, plúrimo e totalmente identificável pai, vivido por Daniel Dantas de forma excepcional.

Se o lado cômico é pulsante, Halm estuda os sintomas do desespero de forma mais singela, os usando às vezes como escada para o riso e não se limita a fronteiras, abusando de referências da cultura brasileira; por vezes ele as chacota, outras são estampadas pelo diretor como uma espécie de resgate de costumes que a violência das grandes metrópoles nos impede de cultivar. Em certo momento do filme, Halm consegue congregar em uma mesma sequencia a decadência, funk carioca, humor pastelão e o poeta francês Charles Baudelaire sem parecer pretensioso.

Histórias de Amor Duram Apenas 90 Minutos desconstrói a urgência contemporânea de amar e se sentir amado, mesmo que isso só alimente um sentimento vazio, mas sem colocá-lo sob uma visão pessimista. Na verdade, em todo seu envolto, o filme de Halm é uma divertida contemplação sobre esse desespero e que ao mesclar elementos de variados gêneros, consegue trazer frescor ao cinema nacional.

Histórias de Amor Duram Apenas 90 Minutos (Idem, Brasil/Argentina, 2009) de Paulo Halm

NOVO ENDEREÇO

 Amigos, agora estou neste endereço: www.7a1filmes.com/blog Deixarei este blog aqui como arquivo de quase 20 anos de blogs, sites e revistas...