JEAN CHARLES



Nas mãos de Henrique Goldman, Jean Charles, filme baseado na vida de Jean Charles de Menezes, brasileiro assassinado na Inglaterra em 2005, parece beber das fontes do diretor, que tem genuinidade nos documentários e usufrui dela para construir a história de Jean.

Mas como uma história envolvida por uma tragédia pode usar de um método documental e não tirar o envolvimento maior que a ficção proporciona através de seus elementos básicos? Goldman tenta manter as características dos dois gêneros, sem utilizar o caso como trampolim para um sensacionalismo barato.

O filme parece um ode ao “jeitinho brasileiro”. Nos sonhos e nas insatisfações, Jean ganha um dinheiro extra fora seu trabalho de eletricista. Esse dinheiro extra vem dos sonhos de uma vida melhor e da imediata insatisfação de quem cai em si e percebe que está fadado ao trabalho operário e que as oportunidades melhores são escassas. Mas ilusão que não aparece abater Jean. Outra característica dos brasileiros, que não parecem desanimar com tantos ataques e notícias ruins diariamente, que é pontuada pelos diálogos, principal guia da narrativa do longa.

Mas Jean sabe que a alegria não é sua fonte condutora de sua sobrevivência. É preciso tomar uma atitude, mesmo que ela não seja das mais honestas. O que acompanhamos é uma rotina e a luta pela sobrevivência na busca de uma identificação maior com o personagem vivido por Selton Mello. Mas na verdade o que cerca todo o filme é o suspense dado pela construção da tragédia, já que tal fato tornou Jean conhecido. Mesmo que tal rotina seja realçada pela estética escolhida que nos aproxima da realidade.

A revolta pela morte de Jean Charles é inevitável. Mesmo que o envolvimento seja mínimo e que o elenco irregular possa criar barreiras, Selton Mello eleva tal aproximação com a narrativa com excelência. O filme é dele. A construção da morte de Jean Charles passa longe de um show cinematográfico e mesmo que possa revoltar quem espera do filme um drama mais denso, ela é inteligente e a coloca no devido lugar, pois realmente não é um retrato da injustiça e sim a história de um brasileiro, que acorda cedo, trabalha, ganha pouco e se diverte como pode. Goldman acerta pela simplicidade e emociona em seu ápice e passa longe do oportunismo.
★★
Jean Charles (Idem, Inglaterra/Brasil, 2009) de Henrique Goldman

IMPORT/EXPORT


A característica apatia usada por Ulrich Seidl agora mostra para o resto do mundo o que o leste europeu parece esconder em uma condição muito conhecida pelos brasileiros:  A falta de oportunidade, sob um olhar demasiadamente negativo.

Acompanhamos a história de Olga e Pauli, dois jovens sem perspectiva de um futuro frutífero. Olga se sustenta a base de empregos alternativos fora o de enfermeira, que certamente o mantém para criar uma imagem imposta pela sociedade, pois seu trabalho como stripper pela internet é mais rentável. A infelicidade a domina e a leva para uma aventura na Áustria. Já Pauli faz o caminho inverso. Sem emprego e vivendo num país que ainda escuta os ecos da segunda guerra, viaja com seu padrasto levando máquinas caça níqueis para a Ucrânia.

Ulrich mantém o que o consagrou em Dias de Cão. Sua direção é levada pelas emoções, mas sem nenhum esforço em criar elos com seus personagens e os espectadores. Ulrich impõe duras críticas em cenas que podem parecer avulsas, mas na verdade são de uma força extrema maior que uma narrativa mais didática nos ofereceria, calçada em imagens que se utiliza de uma beleza fotográfica incrível, mas seus elementos e personagens de cena são completamente arruinados ou colocados na posição de ridículo, deixando explícita a idéia pessimista vinda do diretor.

Nesta fantasiosa esperança por uma vida melhor, principalmente no lado de Pauli, que é obrigado a aturar seu padrasto que se ilude a todo momento com uma boa vida, vemos uma urgência da parte dos protagonistas, que aparentemente usufruem de histórias opostas, mas ligados pela ilusão extrema que os colocam - pelo desespero - na mesma situação.

Em cenas que o pudor é deixado completamente de lado, cada personagem exibe sua desconfortável relação com a rotina e o novo idioma. E onde cada suspiro de uma nova vida é devidamente cortado por um abrupto golpe do destino, isto é, o destino é o nome dado para a previsibilidade de vidas que não conseguem ver para onde remar, para onde seguir. O que o diretor Ulrich Seidl deixa claro para nós é que Import Export é um intercâmbio da miséria, não necessariamente financeira, pois parece que o vazio dentro de seus personagens vai muito além do vazio dos bolsos.

★★★
Import/Export (Idem Austria, 2007) de Ulrich Seidl

ROMANCE


O espetáculo que é o amor. Tragédia, comédia, seja lá o que for, é uma necessidade para cada ser humano. E assim, Guel Arraes utiliza o romance de Tristão e Isolda como referência e guia de seu longa Romance estrelado por Wagner Moura e Letícia Sabatella.

Na inconstante e instável dicotomia de gêneros e colocando as artes em um patamar de igualdade (leia-se TV, teatro e cinema) o filme não se insere explicitamente em nenhum deles na verdade. Se ele vive no núcleo mais descontraído – e ousado por criticar métodos televisivos, com a ajuda de Jorge Furtado - liderado pela ótima Andrea Beltrão, Wladimir Brichta e reforçado por Marco Nanini ou se apóia no drama guiado pela peça de teatro em que Pedro (Wagner Moura, excelente) e Ana (Letícia Sabatella, forçada até quando finge interpretar) produzem para o estopim de uma relação cheia de inseguranças e uma paixão desenfreada que fica por trás das cortinas do teatro.

E pelo sucesso de Ana, que vira uma celebridade graças a TV e a escolha mais radical de Pedro, que os dois se separam e colocam a questão do amor em cheque. O sofrimento, a felicidade, o tédio. Tudo é colocado em pauta, de uma forma peculiar e inteligente, que foge do convencional, mas consegue inserir todos os clichês possíveis de um romance, sem apelos.

Por outro lado, a veia cômica parece ser avulsa e consegue levar o filme a um patamar completamente inesperado, com as já citadas críticas que na verdade não convencem, mas como piadas servem muito bem entre diálogos rápidos e impactantes, essa quebra de narrativa do filme não fica bem clara.

Arraes tenta fugir do convencional e consegue, mas não justifica bem o seu objetivo, se por ousadia, crítica a métodos prontos ou se é, apenas, um conto de amor, com a clássica "pitada brasileira".

 ★★★
Romance (Idem, Brasil 2008) de Guel Arraes

LEONERA


A constituição familiar dentro de uma cadeia. Pablo Trapero consegue carregar de detalhes em pequenos planos e também em diálogos soltos para futuros ganchos em Leonera, filme que tem sua força concentrada nas reviravoltas do roteiro em um mundo exclusivamente feminino.

Quando Julia é condenada por um crime de precedentes duvidosos e vai parar na cadeia de uma maneira apática. Lá, ela desarma os dias a espera de seu filho, conseqüência de uma relação também duvidosa. O que pode ser o retrato de uma vida sem futuro tem sua chama acesa quando o pequeno Tomás vem ao mundo. A partir daí o que se vê é o amadurecimento de uma mulher, jorrando instinto e a necessidade materna de criar seu filho, com a atriz Martina Gusman brilhando, num filme que é apenas seu.

Mas Leonera parece ser uma história de lacunas. Julia tem grandes buracos em seu peito quando se relaciona com a mãe e com Ramiro, amante de seu ex-namorado, motivo para sua ida a cadeia. Estes buracos que ela reservou para ser preenchido pelo pequeno Tomás e mais ninguém. Um mundo que ela planejou apenas para os dois. Alimenta-se do vazio para se colocar no passado e de um possível trauma retratado no cotidiano do sistema carcerário.

Trapero acerta em manter-se longe de uma óbvia vulgaridade na necessidade da sobrevivência e colocando o sistema carcerário apenas como pano de fundo para problemas e relações mesmo que seja em extremos e saídas que podem custar caro para a narrativa, fazendo que o filme perca sua força em certos momentos, ela ainda soa coerente.

★★★★

Leonera (Idem, Argentina/Coréia do Sul/Brasil, 2008) de Pablo Trapero

DE REPENTE, CALIFÓRNIA


Marcado pela morna relação entre o texto e os conflitos para não cair na obviedade do assunto, o filme de estréia de Jonah Markowitz, De Repente, Califórnia ser torna em um filme singelo, com a estética de um seriado de TV.

Tal proximidade dos seriados é pelo visual e takes que favorecem a fotografia do longa, que seriados como The O.C e outros apresentam, acompanhado de uma trilha sonora propícia e elenco vindo de seriados. A proximidade também acontece na faixa etária de seus personagens, que além de mostrarem um pouco mais de maturidade, se colocam em uma posição importante na vida, em momentos de decisão.

Markowitz se limita para não afetar seus protagonistas com a reação óbvia que nós estamos acostumados a ver e sim, colocar a relação de Zach e Shaun em um patamar diferenciado,não apenas a tais reações à descoberta sexual , mas também da posição de homens perante suas famílias. O longa é um conto de amor, sem características que poderiam elevar (ou apelar) para alcançar um patamar diferente.

E dessa escolha pela simplicidade que o filme ganha seus pontos por se aproximar do espectador, que assim como Ang Lee em Brokeback Mountain, não necessita de levantar uma bandeira ou investir no exagero da pretensão e da urgência, mas sim na posição de humanos e não de objeto de estudo.

★★

De Repente, Califórnia (Shelter, EUA, 2007) de Jonah Markowitz

DEIXA ELA ENTRAR


Numa época que vampiros estão em alta com o sucesso de Crepúsculo, a comparação imediata com o suéco Deixa Ela Entrar fica para trás em poucos minutos de filme. Não é para pouco. Contado de uma maneira mais introspectiva, mas não menos ágil, Tomas Alfredson consegue dosar com perfeição a ternura e o horror e ainda tem a técnica a seu favor, pois o filme é construído com a ajuda de Hoyte Van Hoytema, deixando o filme esteticamente perfeito com sua direção fotográfica.

Baseado no livro de John Ajvide Lindqvist e com o roteiro escrito pelo próprio, os recados políticos ou sociais ficam de fora. Temos aqui uma genuína trama vampiresca, envolvida num romance, sem aquela papagaiada que alavancou a carreira de Catherine Hardwick no fim do ano passado e consegue passar imune a todos os obstáculos criados por tramas deste gênero.

O que torna Deixa Ela Entrar mais envolvente é o fato de eliminar o suspense por total e deixar a narrativa mais próxima de um drama. Assim, nosso envolvimento com o menino Oskar, reprimido no colégio e solitário é contaminado pela ternura e assim também pela garota Eli, uma vampira que o dá a oportunidade de socializar e crescer. A trama de vingança seria a mais óbvia. Alfredson consegue inserir a vingança sem que ela se torne o prato principal deste roteiro.

Todo o clima soturno é imposto com sabedoria e sempre justificada. Deixa Ela Entrar é um filme que se preserva, não cai no gratuito e no apelo, o que seria algo perdoável. Mesmo assim, a narrativa é para nos envolver e descobrirmos os sentimentos dos personagens para atos posteriores e uma rápida reflexão.

 ★★★★
Deixa Ela Entrar (Låt Den Rätte Komma In, Suécia 2008) de Tomas Alfredson

A FESTA DA MENINA MORTA


Até onde os seus hábitos são certos e os meus são errados? O que uma doutrina e valores impostos e até mesmo criados podem fazer pelo escape de tamanha dor e vazio sob um povo sofrido? A Festa da Menina Morta do estreante na direção Matheus Nachtergaele vai além de um retrato sofrido da população brasileira e os embala sob questões espirituais e da necessidade de se apoiar em algo e alguém.

É um filme que também faz pesar a quem está assistindo. Matheus usa as duas pontas de uma gangorra na mesma cena por diversas vezes e coloca o espectador em cheque para qual lado seguir, dando a opção de você ser um sádico ou não. Se estamos sob a manta espiritual que guia o filme ou pela carne, aumentando nossas dúvidas sobre a conduta de Santinho, vivido pelo excepcional Daniel de Oliveira.

Sob um jogo de câmera esplendido, tão delicado e faz o espectador se mover e por vezes sob um nauseante estado de espírito, o filme consegue passar pelo que modelo de desdramatização ala Tchekov, mas também, vai além e utiliza de metáforas nada agradáveis aos olhos e um lado introspectivo, criado por sua construção narrativa.

A Festa da Menina Morta no fim das contas é o canto de desespero por uma vida melhor, pois sem opções, quem não olharia para o passado ou quem não inventaria histórias? É um retrato de um país tão perdido como o nosso, mas que precisa ter provações a todo o momento.

Mesmo que passe pela excentricidade e pelo exagero diversas vezes, o filme tem uma peculiaridade e ele não passa dos limites no que é mais valioso pro filme: A fidelidade com os costumes do povo.  Debaixo de uma direção coesa e almejando um futuro como diretor, Nachtergaele nos brinda como um filme mais do que necessário para o cinema nacional, indo além de um padrão e de uma linguagem já saturada.
 
★★★★
 A Festa da Menina Morta (Idem, Brasil, 2008) de Matheus Nachtergaele

APENAS O FIM


Talvez pela ousadia, coragem e toda história que o cerca tenha levado o longa do estreante Matheus Souza a entrar no circuito de festivais com a tendência de cair no gosto do público. E assim foi feito. Apenas o Fim levou o Prêmio do Júri Popular no Festival do Rio e na Mostra de São Paulo. Matheus fez seu filme em poucos dias, com ajuda de sua faculdade onde estuda cinema e que também serviu de locação do filme.

Mas na verdade o filme oscila bastante e deixa claro: É um filme de apostas. Aposta na estética, nos movimentos de câmera e no roteiro atrapalhadamente simples, preso aos diálogos. Matheus deixa grosseiros rastros de sua vida no roteiro de maneira explícita e sem muita elegância para contar a história de Adriana, que decide abandonar a rotina e seu namorado, dando apenas uma hora para Antônio se despedir e de alguma forma desencadeia os motivos para a fuga de Adriana de uma maneira bem humorada e registrando o mundo dos jovens da zona sul carioca de uma forma tão particular e peculiar que pode distanciar quem não está familiarizado com os hábitos dos estudantes da PUC.

Fora os rastros deixados no roteiro, ele é pontuado por diálogos que Gregório Duvivier consegue tirar água de pedra, transformando a pretensão em gargalhadas, mesmo com todas as forçadas referências típicas de um diretor de cinema, o que soa forçado e pretensioso demais. Tais referências vão além dos diálogos e ficam mais claros com o andar do filme virando uma grande senilidade.

Podemos passear pela universidade com movimentos de câmera acertados. Seqüências coerentes e planos criativos acentuam as confusões na mente de Antônio. Infelizmente existem buracos bem claros tampados pela pós-produção, mas nessa altura Adriana e Antônio já nos conquistaram e isso não vira um grande problema.
Apenas o Fim é um filme de diálogos, dirigido por alguém que vive tal realidade e a identificação pode ser imediata ou com uma breve estranheza. Mostra uma geração com influência direta da TV e filmes e com bons e singelos momentos, mas tropeça por sonhar alto demais e parecer algo que poderia passar longe de ser.

★★
Apenas o Fim (Idem, Brasil 2008) de Matheus Souza

DUPLICIDADE


Em seu segundo filme na direção, Tony Gilroy (mais conhecido por seu trabalho como roteirista) mostra versatilidade em Duplicidade, uma trama de investigação que cerca, na verdade, uma história de amor entre dois espiões. Através da narrativa não linear acompanhamos como Ray Koval (Clive Owen) e Claire Stenwick (Julia Roberts) se conheceram e como mantém a relação através dos anos, enquanto o trabalho corrupto dos dois impede uma relação comum.

É interessante como Gilroy liga os fatos, principalmente pela relação do casal com o trabalho, que envolve sabotagens de informações secretas de grandes empresas. A química entre Owen e Roberts é perfeita. Como se não bastasse, Gilroy tem a seu favor o sempre ótimo Paul Giamatti e Tom Wilkinson, como chefes de grandes empresas, que em filmes como esse, ganham mais destaque.
Nessa multiplicidade de fatos, Gilroy nos remete a Onze Homens e Um Segredo, Snatch – Porcos e Diamantes pela junção da trama de investigação com toques de humor e Sr. & Sra. Smith pelo relacionamento e posição do casal, que obviamente, em algum momento da trama, teriam uma colisão profissional.

Gilroy também se comunica com os elementos de cena, com a luz e locação para refletir o emocional e posição de cada personagem. Mas no meio de tantas informações dadas pela trama, isso acaba ficando em segundo plano. Assim como em seu primeiro filme Conduta de Risco, Gilroy acaba usando muitas informações para levar a matemática da construção narrativa mais além, junto com o espectador após a exibição.

Mesmo sem fugir da obviedade de filmes do gênero, Gilroy consegue fazer um produto de qualidade, em meio a tantos outros genéricos que respiram ambição e falta de talento.
★★★
Duplicidade (Duplicity, EUA 2009) de Tony Gilroy

VOCÊS, OS VIVOS



Depois do insano filme-poema Songs From the Second Floor, Roy Andersson volta à ativa com Vocês, os Vivos, mantendo o poder de suas metáforas e uma construção que oscila entre o abstrato e o bê-a-bá da narrativa e com belíssima fotografia.

Andersson tem uma peculiaridade em suas construções. Os takes são sempre com a câmera parada, personagens sempre apáticos e reações mornas as situações do cotidiano, mas apostando no lado ‘tragicômico’ da coisa. No meio disso, encontramos espaço para uma larga crítica aos “vivos”. Obviamente essa maneira pode criar uma urgente sensação de estranheza ou a revolta pintada de tédio, sensações totalmente previstas pelo diretor que obtém as respostas para elas durante a exibição.

Andersson nos mostra de uma forma que só ele sabe fazer, que nós, os vivos, estamos perdendo nosso tempo com coisas banais, depreciando a vida em momentos que deveríamos aproveitar ou reclamando e cuspindo a falta de compaixão. É engraçado pois o povo sueco salienta tais sensações, logicamente influênciado pelo clima e o natural distanciamento do povo do leste europeu.

Nós, os vivos, precisamos de remédios para viver, deixamos de viver para ver a vida dos outros passarem na nossa frente e pedimos ajuda para reclamarmos depois. Andersson não grita e nem deixa explícito, pelo contrário. Ele prefere uma marchinha de uma banda do exército para nos mostrar quão ridículos nós somos. O filme está em cartaz em alguma salas do Brasil.

★★★★
Vocês, os Vivos (Du Levande, Suécia, 2007) de Roy Andersson

BUDAPESTE


Quando se trata de adaptações de livros, raramente algum filme consegue chegar perto da qualidade da obra literária, não só pela riqueza de detalhes que o livro trás, mas também pela questão da interpretação do diretor e a forma de se construir tais idéias em imagens.

Em Budapeste, Walter Carvalho - mais conhecido como diretor de fotografia de filmes como Carandiru, Central do Brasil e outros filmes bem sucedidos por aqui – mostra claros problemas para conduzir o que Chico Buarque colocou através das palavras e o exercício de metalinguagem.
Partindo do conceito que é uma história narrada em primeira pessoa, mas aparentemente conduzida por alguém que não existe, já que o personagem de José Costa, interpretado por Leonardo Medeiros é um escritor fantasma (escritor que dá a autoria de sua obra encomendada a quem o paga), o filme tenta parecer como uma viagem introspectiva da crise de um homem, sobre reconhecer e ser reconhecido.

A verdade é que o filme oscila bastante nas propostas e nesta confusão, ele por vezes parece bem artificial e moldado até demais. Existe uma proximidade maior com o cinema argentino ou europeu pela linguagem cinematográfica e narrativa, mas é uma escolha ordinária, caindo na previsibilidade diversas vezes, apesar de alguns acertos aqui ou ali.
Por mais que o projeto pareça ousado, o que falta no filme é ousadia. Em seu último ato, o filme coloca em prática a metalinguagem e parece funcionar melhor, mas não consegue tirar o peso colocado por todo o resto completamente.

Faltou ao filme uma clareza maior para guiar o espectador sobre o que é o texto e o que é a realidade do personagem. Pois, o espectador pode seguir um fio condutor e parar em algum ponto, confuso e em seu último plano, achar que se trata de uma piada. Talvez com um pouco mais de ousadia e clareza entre o texto, o filme teria funcionado de uma forma mais eficaz.

★★
Budapeste (Budapest, Brasil/Hungria/Portugal, 2009) de Walter Carvalho

A EDUCAÇÃO DE CHARLIE BANKS


Caro leitor, caso você tenha algum sentimento ruim por Fred Durst, vocalista do grupo Limp Bizkit, é necessário voltar ao zero para assistir a estréia do cantor como diretor de cinema em The Education of Charlie Banks. Durst dirigia os vídeos de sua banda e os marcava pela ousadia técnica e a fuga dos clichês. E em seu primeiro filme a história se repete.

Durst retrata com fidelidade a atmosfera de Nova Iorque durante os anos setenta, época que o inteligente Charlie Banks testemunha um brutal espancamento durante uma festa, por Mitch, um garoto de sua vizinhança, que se interessava em caçar garotas e bater em garotos. Com as imagens presas à sua mente, ele decide ir até a polícia e contar o caso.

Em devidas proporções, é algo que muitos adolescentes encaram; que é o convívio com uma espécie de trauma intenso e que pode aparecer quando você menos espera. O relacionamento de Banks e Mitch, que se reencontram anos depois, quando ambos já estão na faculdade é com uma bomba relógio, apenas esperando para jogar tudo pro alto. E é ai que a mão do diretor pesa, acompanhado de um elenco bem preparado.

O desespero de Banks é conduzido de uma forma que o espectador entre de fato nesse suspense, não com uma simples ansiedade de que tudo se resolva no clímax e uma fácil resolução e sim por um envolvimento completo na trama. Jesse Einsenberg se mostra um digníssimo ator, pois a naturalidade parece passar dos poros da face do ator.

Enquanto nós, espectadores, esperamos por tal explosão, acabamos ganhando uma história de reconstrução e renovação de vida. Com a mente conturbada, Banks parece preso a um pré-julgamento e sem forças para uma nova chance. É uma história sobre uma fase de transição, onde a brutalidade dos fatos moldam o caráter do personagem principal.

É lógico que como todo diretor estreante, Durst quer mostrar para o que veio – Ele aposta em movimentos de câmera, elipses, trilha sonora classuda, planos bem estudados e se dá bem. Consegue a naturalidade necessária para um bom andamento.

A história de Charlie Banks foi feita para ser desconstruída como o próprio personagem sugere durante o filme. É uma história sobre crescer; Sobre um período conturbado, sobre a submissão, misericórdia e a falta de limites que os jovens só aprendem mesmo na prática. A descoberta sexual e o uso de drogas estão lá também, mas não foram feitas para causar alarde, são meros coadjuvantes, pois o que está fora dos personagens não importa muito para Durst e sim, o que está prestes a explodir dentro deles. Durst mostra um futuro promissor atrás das câmeras. E não espere alguma música do Limp Bizkit...

★★★★

A Educação de Charlie Banks (The Education of Charlie Banks, EUA, 2008) de Fred Durst 

CAOS CALMO



Não é só pela nacionalidade que o diretor Antônio Luigi Grimaldi se aproxima com os diretores do neo-realismo italiano. O novo filme de Grimaldi, Caos Calmo, usufrui da influência do movimento cinematográfico pós-guerra por quase toda exibição.

Para contar a história de Pietro Paladini, profissional de uma empresa em crise, marido e pai, que ao perder a sua esposa repentinamente, resolve mudar os seus valores. O diretor usa o exercício de desdramatização e resolve focar a ação toda na mente do espectador apenas. Na tela, o retrato do cotidiano e da rotina de Paladini, que passa seus dias sentado em um banco da praça em frente ao colégio de sua filha.

As pessoas vêm e vão. É lógico que o diretor utiliza alguns personagens fixos para fugir um pouco do neo-realismo e alguns momentos de emoções explícitas do personagem, Porém, o caos sugerido pelo título vem do espectador, mesmo com a percepção do personagem principal. Em paralelo, vemos os interesses desses personagens secundários em relação a Paladini, seja profissionalmente ou emocionalmente.

O encadeamento frouxo da narrativa sugere uma participação total do espectador durante a exibição. Pois durante a espera de Paladini, o filme mostra momentos de uma ternura diária, de uma rotina que serve para Paladini se colocar em um ponto necessário para não explodir, algo que os humanos estão acostumados a fazer: Esconder da própria dor com fatores urgentes e muitas vezes superficiais.

★★

Caos Calmo (Idem, Itália, 2008) de Antônio Luigi Grimaldi

MILAGRE EM ST'ANNA


Adaptado do romance de James Mcbride, Milagre em St'Anna mostra como Spike Lee consegue colocar o seu foco em diversos aspectos sociais contemporâneos em um filme que se passa durante a segunda guerra. Mas o que poderia usar a guerra apenas como pano de fundo, Lee consegue usar a luta contra o exército de Hitler como uma grande lavanca para justificar a carga dramática entre a relação dos soldados.

A nonagésima segunda divisão de infantaria americana, mais conhecida como Buffalo Soldiers, composta por soldados negros apenas, após ultrapassar a fronteira do exército alemão vão parar em um vilarejo italiano e são obrigados a enfrentar não só o racismo vindo do próprio exército americano, mas a desconfiança clara dos fascistas não declarados da terra da macarronada através do convívio obrigatório.

E como em toda guerra, inocentes são atingidos pela opressão, pelo ódio, por balas e por interesses. Alguns perdem pessoas mais próximas e outras viram álibis. E destas duas formas que o diretor conduz o exército a revelar o que há em qualquer coração de maneira bastante emotiva: O amor e o ódio.

E na Itália, um país que tem sua esmagadora maioria católica, quem mostra ter fé mesmo são os soldados americanos, que no geral não se desprendem do espiritual e da inocência sugerida por Jesus. Mas todo o peso da guerra parece ameaçar a inocência do coração do garoto Ângelo, que assistiu a terríveis massacres do exército de alemão, mas que se acalma quando o amor ao próximo surge o mantém vivo e são no meio do até então desconhecido caos.
Mas não se trata de uma história sobre a perda de inocência. Spike Lee não tem um único foco, ele consegue abrir um leque e cria laços com cada personagem a ponto de criar pequenos núcleos para cada um deles, com personagens e emoções distintas, mas que possui uma automática ligação com o resto do grupo.

A influência do cinema de Martin Scorsese é explícita. A atmosfera e cada plano do filme respiram elegância, mesmo com a imundice humana clara a cada corte. Milagre em St'Anna é mais que a união entre a fé e o desespero. É uma detalhada forma de se retratar a segunda guerra e os interesses maiores que ordens dos respectivos chefões. Os lados da moeda e o que cada um há de colher.

★★★★
Milagre em St'Anna(Miracle at St. Anna, EUA/Itália 2008)de Spike Lee

A BANDA



Para analisarmos os comportamentos e as idéias de homens de idades diferentes, nada melhor que colocarmos todos eles juntos e isolados do resto do mundo. E daí vem o grande ponto para a explosão contida do roteiro de A Banda, filme dirigido por Eran Kolirin, com bastante delicadeza, mas sem perder o fio da dramaturgia.

Esta banda tem uma apresentação marcada na inauguração de um centro cultural árabe em Israel. Já nos segundos iniciais, a primeira barreira burocrática, já os coloca no caminho errado. As barreiras sociais e comportamentais são apenas leves brisas que se tornam em uma tempestade para quem não perde a rédea principal do filme. No jogo de cintura a banda consegue chegar a Israel, mas logo percebem que estão perdidos, no meio do deserto. Por mais que possa haver uma conotação religiosa e política no meio dessa jornada, ela se confunde com a urgente modernidade e a tecnologia falha desta perdida cidade Israelense pálida, sem muitas cores e distante.

Entre a barreira da língua da banda e dos nativos, a diferença de idade entre os integrantes e traumas da vida, poderiam criar o conflito necessário que é trocado pelo silêncio. O que, de certa forma, trás um desespero maior para a banda e para o espectador. Obrigados a passar a noite em locais diferentes, podemos conhecer um pouco mais de cada integrante, com leves pinceladas de acordo com a importância do personagem para a trama, mas sem tirar o brilho de cada um.

Os mais novos inexperientes tiram proveito da noite de folga para aprender ou adquirir mais experiência. Os mais velhos, contemplam por quanto tempo ainda estarão na terra. Isso tudo é da interpretação de cada um na verdade, pois Eran prefere deixar um livro aberto para diversas interpretações.

O filme é como uma viagem de ônibus ou um passeio na rua, onde podemos olhar para uma pessoa e tentar adivinhar de onde ela é, por que ela está ali e como ela se sente. Tudo com extrema delicadeza, mas sem perder por um momento o fio condutor de toda história, que é o amor pela música, que por quase todo filme é inexistente, apenas as que estão justificadas em cena. E esse passeio pode ser político, sentimental, para sobrevivência, amor ao próximo, o que for. Erin fez uma delicada obra-prima em sua estréia como cineasta e que merece atenção.
 
★★★★
  A Banda (Bikur Ha-Tizmoret, Israel 2007) de Eran Korilin

NOVO ENDEREÇO

 Amigos, agora estou neste endereço: hellocinephilia.substack.com Deixarei este blog aqui como arquivo de quase 20 anos de blogs, sites e re...