SIMPLESMENTE FELIZ


 
A escolha de Mike Leigh de seguir o cotidiano da professora Poppy em Simplesmente Feliz e não usar uma história fechada é o tiro no alvo para o filme não cair em clichês de comédias contemporâneas não só da terra do Tio Sam, mas como das comédias da terra da Rainha também, mas que também não garante um envolvimento total do espectador, que a certa altura do filme acaba virando um caso redundante.
 
Poppy, como diz o título, está sempre de alto astral. Nem mesmo quando sua bicicleta é roubada ou encontra um atendente grosso, ela deixa que isso estrague o seu dia. Aliás, isso é o que guia a narrativa do filme, os conflitos rotineiros que uma pessoa que nada contra a maré encontra, pois Poppy é uma pessoa que cativa os amigos, não está estressada e não está preocupada com as contas, nem com sua solteirice e totalmente levada pela esperança e vivendo bons momentos e com a ótima atuação de Sally Hawkins. Ela consegue dar um tom caricato, mas sem perder a rédea, deixando o personagem com os dois pés na terra.

E na rotina da professora que as barreiras criadas por pessoas vão aparecendo e são nestes conflitos que o filme garante seus bons momentos, quando Poppy enfrenta pessoas totalmente insatisfeitas e que escondem isso em suas personalidades, elevando ainda mais o grau de insatisfação quando se deparam com a alegria “irritante” de Poppy. O professor de direção “pseudo-satanista” (interpretado por Eddie Marsan, excelente!) de Poppy garante os melhores momentos do filme, fazendo das aulas uma intensa guerra. E também proporcionando o melhor momento do filme e provavelmente o único em que Poppy deixa seu sorriso de lado, questionando se o mundo é realmente demais para uma pessoa otimista.

Mas depois de que tudo é apresentado para o espectador, não podemos esperar nada novo, pois é, mesmo, uma rotina. Se você se pegar perguntando “Ué, de novo?” inconscientemente, provavelmente uma estrutura clássica de roteiro te fez criar raízes ao cinemão, tente o desapego. É difícil, mas é possível. E pode cansar.

O filme serve como alerta para como levamos a vida atualmente. Sempre com pressa, irritados, sem nos socializar, preocupados e sem tempo para aproveitar o que a vida nos oferece. E com esse otimismo que Poppy faz que sua vida melhore e lembrando aos espectadores que é melhor rir que chorar algo que parece ser imposto pelos padrões e regras da sociedade.
★★★
Simplesmente Feliz (Happy-go-lucky, Inglaterra 2008) de Mike Leigh

THE SPIRIT - O FILME

Frank Miller zomba dos super-heróis. Frank Miller zomba de si próprio. Frank Miller eleva o status de herói ao ridículo e zomba da ambição dos mesmos. Será que Frank Miller fez The Spirit apenas para zombar dos outros? Não.

Cercado pelo absurdo e pelo exagero do início ao fim, The Spirit vem com a atmosfera noir já esperada e pelo uso do já consagrado uso do preto, branco e vermelho, que foi usado na outra adaptação da obra de Miller, Sin City. Não há algum esforço para entregar a história do Spirit mastigada ao espectador não familiarizado com os quadrinhos, que deverá captar as informações cena a cena pela verborragia encorpada pela grave voz do herói.

É engraçado que Miller mesmo apostando pelo vômito sarcástico e não por uma metalinguagem mais elegante para criticar, ele também aposta por um modelo de roteiro moldado, com a historinha de amor entrelaçada ao conflito do personagem principal, que é o óbvio mocinho/bandido e a esperança da salvação do mundo. Coube a Miller em seu debut oficial como diretor, fazer algo diferente ao estilo de Sin City e também não encaixá-lo ao ‘cinemão blockbuster’ liderado por Homem Aranha e afins e logicamente fazendo um contra-peso. E fez bem.

Inserido no contexto natural de uma história de herói, ele questiona a boa índole de alguém que serve de bom exemplo e possui poderes especiais com humor inocente. Tão inocente que arranca sonoras gargalhadas do público. E não é usado para ‘quebrar’ a tensão do filme, pois tudo é dosado com inteligência, apesar da confusa seqüência inicial e da visível dificuldade de manter a condução do longa. A ambição de poder e força do ser humano é a aposta mais sensata de Miller, que rende a melhor cena do filme, elevando ao nível do absurdo com Samuel L. Jackson inspiradíssimo.

The Spirit não se esforça para agradar. Não tenta ser pop e não tenta ser aquilo que todos esperam de um filme desse porte após O Cavaleiro das Trevas. E talvez seja este o grande pulo do gato vindo de Frank Miller. Ele levanta o dedo do meio e diz “É assim, se você não gostou....” e consegue superar suas dificuldades.

★★★★
The Spirit - O Filme (The Spirit, EUA 2008) de Frank Miller

GRAN TORINO

Dirty Harry está de volta. Não tem como não se lembrar dele. A semelhança de Walt, personagem vivido por Clint Eastwood em Gran Torino com o personagem que o consagrou como ator é realmente muito grande. Mas quem se importa com isso quando temos uma trama muito mais interessante que uma ‘mera’ semelhança? Para contar e desenvolver a história batizada por um carro, o trauma de um homem é o que serve como ponto de partida em Gran Torino. Walt participou da guerra da Coréia, onde tirou a vida de alguns soldados adversários. Também trabalhou para a Ford por cinqüenta anos, onde se apaixonou pelos automóveis.

A frieza dada por Eastwood ao seu personagem é impressionante. Consegue ir do amável ao total descaso sem mover os olhos. E desta frieza que Walt cria sua conduta para sobreviver. Agora viúvo, ele passa os seus dias junto com sua cachorra e suas latas de cerveja em frente a sua casa e se irritando com pequenas demonstrações de amor vindas de seus filhos e do padre do bairro. Mas o ex-soldado vive em um bairro hoje completamente tomado por imigrantes asiáticos e são estes que mais sofrem com as grosserias vindas do xenófobo Dirt...ops, Walt.

O seu amado carro Gran Torino - e toda bajulação em torno deste - é nada mais que um pequeno coadjuvante para um homem que reaprende a ter carinho e esquecer o que a vida o empurrou goela abaixo. Walt aos poucos com boas ações, luta por uma justiça que é cega, não apenas para o submundo no qual Walt agora é espectador, mas a mesma que ele viveu no passado, com atitudes completamente violentas e típicas de um justiceiro, mas sim, que escolhe algo novo para abastecê-lo com vida.

É sim uma trama sobre mudança e busca de paz. Seja no bairro - repleto de indiferenças - ou a paz interior. Eastwood aposta numa direção mais direta, se concentrando mais nas entrelinhas do roteiro, registrando um cotidiano que pode ser considerado como paraíso para uns, mas que também pode ser o completo inferno para outros. E Walt escolheu o que era para ele e também quem merecia a paz.
★★★★
Gran Torino (Idem, EUA 2008) de Clint Eastwood

O VISITANTE

O cinema independente americano parece sofrer de uma síndrome nos últimos anos: Grande parte deles explora – muitos calçados em traumas do passado – as histórias acentuando sua carga dramática apenas através da montagem. No caso de O Visitante, os cortes bruscos ganham a companhia do excesso do plano detalhe e a inserção da trilha sonora, que por vezes é justificada em cena, usada como grande elo do professor Walter Vale e do imigrante Tarek Khalil.
 
Walter carrega sua cruz por ser viúvo, não estar satisfeito com seu trabalho de professor na Universidade de Connecticut e não se esforça muito em criar laços de amizade com a amargura usada como barreira.

Mesmo com essa linha de montagem, a narrativa em uso é a clássica, dando tudo mastigado para o espectador. Mas não faz que o roteiro perca sua potência, para mostrar que as oportunidades estão onde a sua esperança está instalada. O amor pela música une Walter e Tarek, este que parou no antigo apartamento de Walter, que indo para Nova York a trabalho, se depara com Tarek e sua namorada Zainab morando em seu apartamento. Eles estão em situação ilegal nos Estados Unidos, mas nem isso é motivo de preocupação para eles, que trouxeram nas bagagens sonhos maiores.

O filme divide os dois mundos: O do privilegiado e de quem busca a chance. Em pólos diferentes e oportunidades distintas. Mas uma segurança selada pela paz nasce ao encontro desses pólos. Enquanto em suas entranhas, o filme trata o assunto da ilegalidade, a necessidade do Green Card para viver na “terra das oportunidades” e a perda do valor da vida embutido pelo governo americano após os ataques de 11 de setembro, somos testemunhas de uma nova brisa para a vida de Walter.

Thomas McCarthy (diretor do ótimo O Agente da Estação) sabe dosar muito bem a clareza das mudanças na vida do professor Walter e o que está inserido no subtexto baseado na atuação magnífica de Richard Jenkins (que recebeu uma indicação ao Oscar pelo seu trabalho), que carrega o filme nas costas e pela previsível tragédia, consegue fazer que isso passe batido na trama, dando espaço para conflitos e satisfações maiores em um mundo que parece estar cego para novas chances. O filme estréia hoje nos cinemas.

★★★
O Visitante (The Visitor, EUA 2008) de Thomas McCarthy

GLÓRIA AO CINEASTA!

Da “cabeça quebrada” de Takeshi Kitano surge Glória ao Cineasta, um surreal ode e também uma grande sátira ao cinema, que não são de fácil absorção, mas são geniais neste filme que passa do físico apenas, do óbvio e vai também para as sensações e reflexões e está em cartaz em poucos cinemas pelo país.

Tudo começa quando o diretor Takeshi Kitano – sem mudar de expressão facial por quase todo o filme - cansa de fazer filmes de gangster e procura um novo projeto, algo que faça sucesso de público e crítica, já que apenas um, de seus doze filmes fez sucesso, sempre acompanhado de seu “dublê”, importantíssimo para as analogias da trama. A partir daí, Kitano tenta vários gêneros e épocas diferentes para achar o seu hit, como filmes de terror (com remake em Hollywood), romances, filmes de ninja e de época, com um deboche claro, mas questionando a versatilidade de um diretor... Ou seria uma limitação? Takeshi debocha de si.
Quando o diretor acha uma nova saída para sua glória, o que vemos é uma sucessão surrealista de fatos referentes ao cinema. Tanto do que acontece na tela ou fora dela, como a obediência dos espectadores ao diretor, o tempo perdido pelos espectadores quando assistem algo ruim e o do diretor por ter feito, o dinheiro, a encenação, enfim, se trata mesmo de uma obra-prima.

Kitano comanda essa loucura toda com maestria, fotografia linda, direção de arte e figurino absurdos, mas nem isso o diretor poupa, quando temos a seqüência do trem, onde ele mostra que para tudo há um jeitinho. Um jeito de enganar. Outros aspectos como o ego e a culpa do diretor também são tratadas, todas elas de forma bastante bem humorada, muitas situações chegam ao limite do absurdo, sobrando até mesmo para o jogador Zidane vestindo o uniforme da seleção francesa (ou seria para a França, onde o cinema nasceu?) na mesma cena que o filme Matrix é lembrado e levado por um humor que acompanha efeitos sonoros e personagens caricatos.

Para quem está familiarizado com a obra do diretor, irá saborear Glória ao Cineasta de forma diferente e ainda melhor. Kitano faz questão de mostrar o diretor com fragilidade, um ser inseguro e que aceita opiniões. Mas como toda história tem um vilão, neste também não é diferente, representado aqui como um proto-vilão por um professor hilário, que também representa os erros de gravação e o merchandising em filmes. Esta tudo ali basta querer e ser. Glória ao Cineasta é debochado e debocha de si, já sabendo que não será exibido no grande circuito e não será sucesso de público, mas merecia. E muito.

★★★★
Glória ao Cineasta (Kantoku-Banzai!, Japão 2007) de Takeshi Kitano

FIM DOS TEMPOS

Não é a toa que M. Night Shyamalan escolheu os Estados Unidos para testemunhar a história de Fim dos Tempos. Não é a toa que muitas pessoas que acompanharam o filme como uma trama direta e sem profundidade tenham odiado tanto. Fim dos Tempos é sim um alerta, mas também um espelho para a sociedade. Uma espécie de “tome, olhe como você é ridículo”. 
 
Com tantos medos criados, o terror psicológico impera e logicamente as conseqüências são graves, como a grande analogia alavancada por uma arma. Mas o que é grave de verdade é chorar quando o leite já foi derramado. Ainda temos tempo. De mudar o que fazemos com nossa própria casa, nosso próprio quintal e como podemos fazer com que esse mundo siga outra trilha. Frank Darabont usou o terror com criaturas, mas utilizando da natureza como um grande aviso em O Nevoeiro. Shyamalan usou a natureza também, mas como um grande pai. Que precisa colocar de castigo seus filhos para que eles não voltem a errar. 

Sim, tudo é construído pelo método clássico de um filme suspense. O que pode decepcionar bastante. Mas o que vem neste filme são analogias e metáforas há todo o momento. Pessoas entregando a própria vida em cenas que não poupam o espectador com a ausência do corte é de fato algo chocante. Fim dos Tempos segue algo que A Vila fez, não deve ser interpretado pelo que se vê, mas para o que se vive por quem assiste. 

O filme possui falhas, por vezes não convence e informações parecem fantasiosas demais e algumas interpretações são de fato sofríveis, como a de Zooey Deschanel, por exemplo. Mas fica a sensação de que o trabalho foi feito e com sucesso, pois a mensagem foi passada e com muita clareza, basta você querer ver.

★★★
Fim dos Tempos (The Hapenning, EUA 2008) de M.Night Shyamalan

RIO CONGELADO

 
Nos minutos iniciais de Rio Congelado, o que podemos tirar deles é a imagem da decadência. Essa que está nas entrelinhas que correm por todo o filme. Pela objetiva direção de Courtney Hunt, a bruta edição e pela (quase total) ausência de trilha sonora, o filme sugere uma intensa reflexão.Perto da fronteira dos Estados Unidos com o Canadá e próxima do território dos índios Mohawk é onde Ray Eddy (Melissa Leo) mora com seus dois filhos. 

Recém abandonada pelo marido viciado em jogos, que fugiu com o dinheiro que faltava para pagar a última parcela de uma nova casa, ela se vê sem saída. É algo que estamos acostumados a ver no cinema nacional, elevado a centésima potência dramática, recheado de lágrimas ou tiros. Aqui vemos o oposto, mesmo que Ray tenha que partir para uma atividade ilegal para manter suas contas pagas, por acidente.

Enquanto a decadência continua a seguir toda aura do filme, atormentada pelas pressões diárias e do risco de suas atividades junto com a índia Lila (Misty Upham) em uma relação de ódio e interesse, a vida segue. No silêncio, o constrangimento realçado pelas brilhantes atuações. O constrangimento é onipresente, pelas obrigações do cotidiano e pelas regras de sobrevivência criadas.

O natal se aproxima e mais obrigações familiares estão por vir, Ray necessita de dinheiro e de mais riscos. Aos poucos a relação com Lila é retalhada pela submissão das necessidades. Rio Congelado é nada mais que a decadência pela luta de uma sobrevivência que vai contra qualquer comodidade, que surge apenas quando o sonho imposto é realizado.
Ray e Lila por mais que mantenham a distância entre dois abismos na relação, possuem algo em comum, o que é o suficiente para uma identificação e para uma ajuda, mas que parece uma grande falha no roteiro, que foi escrito também pela diretora. Esta que mantém sua objetiva direção por todo o filme, mas que mostra uma falta de ousadia para se alongar em planos ou de movimentar sua câmera.

Fica para o espectador o ato de julgar, já que todos os fatos e lados são mostrados pela diretora sem colocar os personagens em alguma posição fixa. Rio Congelado é um filme que funciona que tem seu roteiro realçado por boas atuações – ambas as atrizes foram indicada ao Oscar – mesmo com pequenas falhas e a falta de ousadia, ele faz o que é mais importante para o cinema: Sugere uma reflexão durante e após o filme.

★★★
Rio Congelado (Frozen River, EUA, 2008) de Courtney Hunt

O CASAMENTO DE RACHEL


Pelo figurino de Kym, vivido por Anne Hathaway, temos certeza que ela é a ovelha negra da família. E sua volta para o Casamento de Rachel, sua irmã, causa uma incômoda sensação pela casa, intensificada pelas atuações de um elenco afiado e pelo foco de ação e reação das emoções de cada personagem.

Kym está em sua casa por poucos dias, pois terá que voltar para a clínica de reabilitação onde está internada. Mas a volta da irmã trás fantasmas do passado para a convivência familiar, o que causam momentos embaraçosos e conflitos diretos entre Kym e Rachel. A tensão é tão grande que fica impossível criar uma imagem sólida de vilã e mocinha nesta relação. Entre este conflito repleto de remorso, inveja e traumas, estão os pais, separados, mas que servem como peças importantes para o filme.

A direção de Jonathan Demme é peculiar, pois, ao mesmo tempo em que parece ser bastante inspirado pelo Dogma 95, no aspecto dos movimentos de câmera – que chegam a ser nauseantes por vezes – ausência de trilha e também por acusar uma história parecida - nas devidas proporções - com Festa de Família de Thomas Vinterberg em seus primeiros minutos, ele também não abre mão de uma infra estrutura que não opta pelo acaso. O que é desfavorável, pois ficar em cima do muro não dá razão para justificar certas escolhas estéticas.

Em situações específicas Kym tira seu manto pesado e parece ser aceita pela sua família em suas festividades. Mas não consegue fugir da sua eterna culpa e de criar momentos de intenso constrangimento que vão desdobrando assuntos pesadíssimos. O que parecia não ter fim acaba por ter uma saída brusca, mudando o filme de ritmo por completo em seu epílogo, prolongando informações sem muita utilidade para a trama e uma resolução morna, que infelizmente tira algo positivo que o filme havia carregando desde o seu início.

No mais o filme garante bons momentos de aflição durante um possível acerto de contas por um meio trágico guiado por traumas, mas que escorrega ao apostar em saídas mais sóbrias, carregado pelas boas atuações, tanto que Hathaway foi indicada ao Oscar deste ano por sua atuação.

★★★
O Casamento de Rachel (Rachel Getting Married, EUA 2008) de Jonathan Demme

O LUTADOR


Construído com incrível competência técnica, o novo filme do diretor Darren Aronofsky, mostra um diretor menos ousado mas tão brilhante como em seus trabalhos anteriores, O Lutador reinventa Mickey Rourke - que levou o Globo de Ouro e uma indicação ao Oscar por esse papel - para a mídia em um papel brilhante, mas que possui similaridade com um famoso personagem do cinema. Explico a seguir.

Randy “The Ram” Robinson foi um famoso lutador de telecatch durante a década de 80 e agora totalmente esquecido, Randy luta no circuito underground para poucas pessoas. Com a saúde debilitada e com a situação financeira instável, o lutador sustenta seus vícios, noitadas e mal consegue pagar o aluguel de seu pequeno apartamento, onde vive sozinho.

A exposição da vida de Randy é explícita e obscura, sem restrições dramáticas para mostrar um solitário homem em crise, o fiel retrato da decadência de um homem. O prestígio do personagem de Rourke é menor, mas existe uma proximidade clara com Rocky Balboa,  este que também reinventou Stallone, que vinha de uma seqüência de fiascos ao contrário de Rourke que fez filmes bem sucedidos como Sin City e Chamas da Vingança, mas não obteve reconhecimento como coadjuvante. E não pelo fato dos personagens de Rourke e Stallone usarem o ringue como fonte de renda, existe nas entrelinhas uma proximidade maior. Os problemas são similares e como eles são colocados pelo roteiro e a partir da atuação de Rourke, mas como disse antes, os de Randy são mais densos e explícitos. A história de superação sobre os fantasmas do passado, o lado familiar e profissional, colocado em devidas proporções, liga a saga dos personagens, mas isso tudo deve ser visto de forma positiva em relação a este dejá vu “Stallonesco”.

Rico nos diálogos e bastante humano, o filme convida ao mergulho completo e com sucesso, mantendo uma simplicidade narrativa, linear, porém denso e emotivo, com a ajuda de Rourke e Marisa Tomei e um diretor inspirado pelos irmãos Dardenne, segundo o próprio Aronofsky. E com sua segurança habitual que ele comanda o drama, sempre incrível que nos proporciona um belo espetáculo visual.

A fotografia traz uma textura e um jogo de cores bonitas. É de fato, impossível não se envolver neste drama tão humano, construído com tanto talento, porém peca pela falta de originalidade.

O longa estréia no Brasil nesta sexta-feira, dia 13 de Fevereiro.

★★★
O LUTADOR (The Wrestler, EUA/França, 2008) de Darren Aronofsky

FROST/NIXON


O apresentador de talk show sem credibilidade David Frost (que é britânico) não só investiu o futuro de sua carreira, mas também todo seu dinheiro para entrevista Richard Nixon e em troca conseguiu um dos momentos mais marcantes na história dos Estados Unidos, imortalizado e dirigido pelo metódico Ron Howard, mas que sabe agradar à todos e ganhou a indicação de melhor filme no Oscar deste ano.

Richard Nixon deixou o país traumatizado e renunciou a presidência após inconseqüentes escolhas e se envolver em escândalos, principalmente o que o levou a renuncia e o mais famoso deles: O Watergate, este que provava que o presidente tinha conhecimento das operações ilegais contra a oposição durante a campanha eleitoral. Nixon havia sido eleito pela maioria esmagadora durante a eleição e foi poupado por uma anistia. Já Frost, a beira da falência, acompanhou a renuncia de Nixon da Austrália, único país que ainda o mantinha nas grades de programação. A beira da falência, Frost resolveu cruzar o mundo e sem apoio de nenhuma emissora e patrocínios, teve que investir todo seu dinheiro para entrevistar o ex-presidente dos Estados Unidos.

O grande foco do filme está na ousadia de Frost, mas também garante o trunfo para os momentos seguintes, onde estudamos a personalidade do entrevistado e do entrevistador, com um roteiro dinâmico e atores muito bem preparados.

A premissa era de uma luta, um combate entre um inexperiente lutador contra o dono do cinturão, e não de uma entrevista. Ela teve regras, movimentos estudados pelos dois lados e intimidações feitas também pelos dois lados. Pelo lado de Frost, vivido por Michael Sheen, elas eram mais explícitas, porém um número muito menor, pois o poder estava nas mãos de Nixon, vivido pelo sensacional Frank Langella em uma atuação incrível. A mídia divulgava a entrevista muitos dias antes e a tensão foi aumentando a medida que a hora do primeiro dia da entrevista se aproximava. Frost, sempre inseguro quanto a sua aposta, tinha uma equipe corajosa, já o frio Nixon, uma calculista equipe.
Aos poucos vamos conhecendo o que cada um pensa e vive, de fato estudando a personalidade de cada um, conhecendo aos poucos cada oponente e suas fraquezas. É impossível não se envolver com uma história tão absurda e humana ao mesmo tempo. A cada intervalo da entrevista, vemos o cuidado dos assessores, que opinavam e cuidavam da imagem de cada um, como uma luta de boxe em proporções e emoções equivalentes. E nos dias que intercalavam as entrevistas, os conflitos continuavam o que deixa o filme mais humano e ritmado.

Howard comanda o filme com competência, no seu já clássico “método cinematográfico”, mas mesmo assim, consegue fazer um filmasso, focado em pequenos detalhes que também podem ser grandes como um monstro. Frost/Nixon é o registro de um momento importantíssimo para os Estados Unidos, um momento de acerto de contas com a sociedade, esta que soube se segurar nos momentos difíceis, porém não mediu esforços para tirar quem comete injustiça, mesmo que de uma forma educada, algo que Nixon teve sorte de lidar.

★★★★

FROST/NIXON (Idem, EUA/Inglaterra 2008.) de Ron Howard

WHAT WE DO IS SECRET


Citado entre os vinte maiores filmes “punks” da história pela revista Premiere e posteriormente na matéria O Punk na Tela aqui postada, o longa What We Do Is Secret faz jus as indicações e é uma das mais fiéis e centradas cinebiografias sobre um ícone musical.

Derby Crash tinha um plano de cinco anos, influenciado por David Bowie, de criar um fenômeno e terminar rápido. Assim como Kurt Cobain, Crash também achava que era melhor evaporar antes de virar um peso. E assim Derby Crash junto com seu amigo Pat Smear (hoje guitarrista dos Foo Fighters) eles formaram os The Germs. Crash cresceu entre as loucuras da mãe, a perda do irmão e do pai, mas isso é o que podemos refletir e concluir rapidamente para as atitudes de Crash, mas o filme nem de longe quer centrar em dramas e muito menos se aprofundar neles para uma narrativa “Hollywoodiana”.Os Germs cresceram através do marketing, pois eles não sabiam tocar seus instrumentos e não ligavam para a política. E para piorar, Crash tendia para o fascismo pois só assim as coisas funcionariam, segundo o próprio.

Intercalando o processo de ascensão e queda obrigada – pois eles foram banidos de todos os clubes de Los Angeles - dos Germs, vemos a vida de Crash sem um mergulho proposital, mas suficiente para tirarmos nossas conclusões, recheado de diálogos ácidos e humor negro. Crash propôs e viveu o caos e seu plano foi posto em prática. O elenco está à vontade em frente à tela e a direção de arte foi competente ao manter a fidelidade da época, sem escorregões. A direção de Rodger Grossman é competente, porém, não se arrisca. Faz muito bem o que é proposto, mas não ultrapassa a linha da ou
sadia por momento algum e isso também vale para a técnica em geral do filme.No mais, What We Do Is Secret é um ótimo filme sobre uma trágica história que sempre esteve em ebulição. Sempre nos limites de uma vida determinada e com data para acabar.


Dinâmico, simples, sem frescuras e draminhas meia-boca. Vai direto ao ponto e resolve-se com facilidade e inteligência e usa o conflito principal de Crash como uma bonita metáfora, explícitamente cuspida ao final do filme, mas também se preocupa em mostrar delicadamente tais conflitos e analogias durante o filme.

★★★
What We Do Is Secret (Idem, EUA 2008) de Rodger Grossman

MILK - A VOZ DA IGUALDADE


Sem atrativos estéticos maiores, porém com toda sua força concentrada no roteiro e principalmente nas atuações, Milk – A Voz da Igualdade, novo filme de Gus Van Sant, vem com grandes chances de ganhar indicações ao Oscar deste ano.

Harvey Milk foi um ativista homossexual que lutou para fazer a diferença não só dos homossexuais, mas das minorias como um todo. Milk enfrentou o preconceito violento da polícia e a crueldade de religiosos e políticos que diziam seguir a risca a palavra de Deus. E com muitas ameaças de morte, ele gravou um discurso, sozinho em casa e é dele que vem o roteiro para acompanharmos a história do ativista, este que vem intercalado por elipses para nos situar na história, algo que não seria muito necessário, mas de qualquer jeito tem o apelo dramático necessário para um envolvimento maior.

O filme não tem a beleza absurda de outros filmes de Gus Van Sant, como Gerry (uma grande homenagem à Antonioni) ou o show de imagens do mais recente Paranoid Park, mas Van Sant tem a preocupação em manter um trabalho fotográfico competente, principalmente em cenas à noite e no uso de planos detalhe.

Mas o que certamente faz o filme andar é o carisma de Sean Penn, muito fiel ao verdadeiro ativista, comovente e também muito a vontade em cena, sem perder o peso e a intensidade de um personagem como esse. Os coadjuvantes James Franco e Emile Hirsch também mantêm a intensidade criada no roteiro em seus personagens e Diego Luna está bem como o lunático namorado de Milk. Mas não deixa de ser uma cinebiografia linear e sem muitas novidades para o gênero. Josh Brolin, como Dan White é a oposição em carne e osso em uma inspirada atuação.

Milk tentou por diversas vezes chegar ao poder como supervisor da ponta de Castro, situada em São Francisco – esta que depois virou referência para os homossexuais - para fazer a diferença e como uma grande resposta ao preconceito mandato foi grande. O filme mostra ao contar a história dos últimos anos de vida de Harvey Milk um grande protesto pela igualdade e pelo direito de todos de ter uma vida digna sem importar a escolha de cada pessoa, ainda mais em um país como os Estados Unidos.
★★★
MILK - A VOZ DA IGUALDADE (Milk, EUA 2008) de Gus Van Sant 

O CURIOSO CASO DE BENJAMIN BUTTON


Com ares de superprodução e que parecia ser mais um roteiro excêntrico para uma competente direção de David Fincher, o filme O Curioso caso de Benjamin Button é uma reflexão e celebração à vida, sem exageros dramáticos, apresentando um diretor realmente versátil, Brad Pitt afiado até mesmo para ser apático e Cate Blanchett talentosa como sempre.

Seguindo a risca o nome do filme, acompanhamos o a vida de Benjamin Button, que nasceu com problemas no corpo semelhantes à de um idoso de oitenta anos e tem a vida literalmente vivida ao contrário. Abandonado pelo pai com poucos minutos de vida, Benjamin foi criado em um asilo, mas o que poderia criar alarde e curiosidade por parte dos vizinhos, ciêntistas e da mídia simplesmente não acontece. Talvez o sensacionalismo foi deixado de lado para mergulharmos na humanização total do personagem vivido por Pitt e os efeitos desse curioso caso são deixados de lado.

Benjamin vai ficando mais jovem e vai vendo seus amigos e familiares perderem a vida e como consequência uma base estável, mas é algo que ele esteve preparado, pois sabe que não poderia amar todos para sempre. O costume das perdas e valores é tocada. Morte natural ou não, ou apenas o abandono. Seja ela traçada por Deus ou pelo acaso. A morte aqui é um personagem. É através dela que temos a referência para a narração da vida de Benjamin. Mas ele tinha um motivo para acordar todos os dias, o filme usa tal narração reforçada por elipses bem montadas, onde os fios narrativos são comandados pelo amor, obviamente.

Button aproveitou a vida como pode numa espécie de Forrest Gump, tão recluso e apático quanto o personagem de Tom Hanks, porém mais astuto em certas ocasiões e nos mostra que mesmo com tudo que passamos pela vida, tudo volta para o seu devido lugar, onde realmente deveriam estar, mesmo quando tentamos mudar o curso natural da vida. E o auge dela é provavelmente a mais interessante e também a mais próxima com o filme de Robert Zemeckis, aqui tratado com a medida certa entre o humor e o drama. Reencontros são permitidos e apropriados para mais lições e analogias. Button não mediu esforços do corpo e de seu espírito e desbravou o amor e a guerra, literalmente falando, construídas por cenas de uma beleza estonteante e um trabalho de maquiagem impressionante.

Mesmo com a previsibilidade em momentos importantes para a trama que é linear por três horas, o filme comove. Button foi até onde sua idade permitiu, no caso, até quando tinha maturidade suficiente para enfrentar a vida sozinho. O filme é muito bem construído e de técnica invejável e coloca David Fincher no topo novamente após o tropeço em Zodíaco, lugar este que Fincher não deveria ter saído.

★★
O CURIOSO CASO DE BENJAMIN BUTTON (The Curious Case of Benjamin Button, EUA, 2008) de David Fincher


A TROCA

O que falta no novo longa de Clint Eastwood, A Troca, é o sal. E explico tal afirmação, pois Eastwood é um mestre e não há como negar, mas o roteiro de J. Michael Straczynski para adaptar a real história de Christine Collins, que tem o seu filho raptado e após meses de espera, quando tem seu filho de volta, suspeita de que o menino não seja o seu verdadeiro filho é irregular, dividindo o filme em tópicos e gêneros diferentes.
Por sinal a primeira e que se encaixa na sinopse acima é a melhor, onde Eastwood esbanja uma elegância ímpar em movimentos de câmera, amarrada e mostra Angelina Jolie em sintonia com a história em um drama envolvente. Mas com o andar da história isso se perde e vemos propositalmente uma estagnação emocional vinda da parte de todos os personagens, que são colocados a situações monstruosas, porém, sem que isso se eleve para o espectador, este que assume o posto sugerido por Eastwood.

Porém essas situações têm o mesmo alvo, que é Christine Collins, personagem de Jolie. Pois a polícia de Los Angeles, incompetente, forja o resgate do garoto e durante a segunda parte do filme, vemos Collins tentando provar de todas as maneiras que não é de fato o seu filho. Para passar por cima da polícia, Christine é submetida a situações que fariam o espectador criar um elo maior com a personagem e uma revolta natural, na parte sugerida como um filme político, onde temos o bem e o mal separados explicitamente representados por um pastor interpretado por John Malkovich e o chefe de polícia de Los Angeles, interpretado por Colm Feore, canastra como o seu personagem deve ser, mas sem o tal sal que falta, continuamos como meros espectadores.

Para o desfecho, temos algumas analogias e o retorno do fôlego adquirido nos primeiros minutos do filme, mas não por completo. A forma que a justiça é tratada é interessante e Jason Butler Harner vem tapar o buraco que faltou por quase toda a história e Jolie consegue entrar em sintonia com sua personagem. Eastwood comanda por todo filme com a citada elegância, mas nem o peso de sua direção consegue o salvar por completo o roteiro, que oscila muito não apenas nos gêneros, mas se perde entre a morna estagnação emocional e uma justiça envolvente separadas em tópicos.

★★
A TROCA (The Changeling, EUA, 2008) de Clint Eastwood

QUEM QUER SER UM MILIONÁRIO?

Vencedor da escolha dos críticos de Los Angeles, o maior termômetro para os indicados ao Oscar e agora também do Globo de Ouro, o longa Quem quer ser um Milionário? do diretor inglês Danny Boyle é o maior exemplo que a competência e bom senso podem tomar guarda e cativar o público mesmo com a promessa de um final previsível, o filme não apenas é um ode à superação, mas uma obra sobre escolhas.
Ao contar a história de Jamal Malik, um garoto que veio da favela e virou o improvável vencedor do programa “Who wants to be a millionaire?” e cadenciando com muita coerência - através de uma edição clichê, porém, funcional - a saga do rapaz no programa com a história do mesmo até sua ida ao programa, Boyle consegue domar o público com uma direção exemplar, sem oscilar ritmo e mas deixa de arriscar em planos. O filme registra a diferença social na Índia com maestria aliado a uma bela fotografia e um elenco em sintonia, o que parece realmente é que o filme veio embalado e pronto para o sucesso, deixando claro que Boyle esta mais para o diretor de Caiu do Céu que o diretor consagrado por Trainspotting.

Surpreendendo à todos ao acertar perguntas que médicos, escritores e outros não acertaram, Jamil é acusado de fraude. Mas para sabermos o que aconteceu com Jamil para acertar essas perguntas que o levariam ao prêmio final, acompanhamos a infância no bairro pobre de Mumbai, cidade da Índia, a tensão social, a xenofobia e a urgência pela sobrevivência fizeram que Jamil e seu irmão Salim escolhessem seus caminhos muito cedo e sem consciência das conseqüências. A adolescência, onde a malícia e o amor são descobertos e questões existenciais são tratadas com delicadeza, mas sem que vire um drama. Os irmãos são submetidos por conta da sobrevivência a situações de risco e outras que só a ousadia de quem cresceu rápido demais pode fazer, sem esquecer o lado bom e sem fazer da vida dos irmãos um pesadelo completo.

Com o mundo indo contra suas escolhas, Jamil teve que lutar e muito para chegar até o seu objetivo – que não vale se citado para não estragar o filme – que para muitos já não vale mais que o prêmio final de um programa de TV.

★★★★


Quem quer Ser um Milionário? (Slumdog Millionaire, Inglaterra, 2008.) de Danny Boyle

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