AQUÁRIO



No subúrbio inglês, a diretora Andrea Arnold mostra que a influencia direta da mídia pode causar danos irreversíveis, enquanto desconstrói um sentimento claustrofóbico que faz uma clara metáfora com o título do filme. O sentimento vem de Mia, menina de quinze anos que faz as decepções rotineiras evaporarem pelos poros através da dança.

Mia é fruto de um lar disfuncional. Claramente criada pela TV e pela música, ela e sua irmã trocam farpas e xingamentos por motivos banais diariamente. Os valores distorcidos já são aparentes desde o início do filme. Ela se comporta como adulta.  Entre cenas de brigas e uso de drogas, o cinema de Larry Clark é lembrado, mas a comparação se esvairece em poucos minutos. Enquanto as meninas crescem rápido demais, a mãe faz o caminho inverso; faz festa diariamente, não procura as filhas e está mais interessada em garotos. Este amadurecimento de Mia talvez seja um simples instinto para não seguir o exemplo dado em casa, até mesmo para tratar o novo namorado de sua mãe, mas sua imaturidade é exaltada em momentos extremos.

Mia desce a ladeira na busca de uma saída, mesmo que possa parecer errado, o que importa é sair deste aquário, onde ela parece viver numa competição onde o ego é o ponto de largada. Andrea Arnold nos dá a sensação de acompanharmos a história pelas costas da garota, correndo junto com a menina com o exacerbado uso de steady cam e em overshoulder, mas principalmente quando as silhuetas dominam a tela.

A sensação que transparece é que tudo que Mia toca, morre. O sentimento pela família, pelos amigos, os sonhos e até mesmo por um indefeso cavalo, terminam de forma trágica. Quando se depara pela tão almejada vida adulta, ela percebe o quão nova é nessa altura que o aquário pode ter o seu valor ou realmente esquecido. Insegurança essa que a diretora também carrega em si para construir o seu filme quando se estende em detalhes já captados pelo público.

★★★
Aquário (Fish Tank, Inglaterra, 2009) de Andrea Arnold

MARADONA


 O diretor sérvio Emir Kusturica acerta quando escolhe estudar o lado mais obscuro do maior ídolo argentino, o ex-jogador Diego Armando Maradona. Quando digo “obscuro”, não me refiro aos escândalos envolvendo os vícios e brigas do ex-jogador, mas por tocar em assuntos esquecidos pela mídia e fazer o jogador refletir sobre sua vida numa espécie de análise itinerante.

Seria óbvio demais – mas não menos interessante – fazer um documentário contando a história do jogador com intuito de colocá-lo em uma posição que ele nunca saiu: a de herói. Kusturica compara sua carreira de diretor e métodos de filmagens com o comportamento de Maradona. Seja pelas inseguranças e os prós e contras de ser um documentarista ou através de metáforas, o diretor mostra suas identificações com o seu personagem principal. Segundo o diretor, se Dieguito não fosse um craque dos gramados, seria um grande revolucionário. A sede de justiça e senso político do ex-jogador parece ser o novo guia de sua vida. Ele afirma que pequenos países podem se vingar de tantas injustiças através dos esportes e lembra a incrível vitória da Argentina contra a Inglaterra durante a copa do mundo de 1986, que serve como alvo para Kusturica abrir diversos assuntos sobre a vida do jogador e suas reflexões.

Pela voz-off, Kusturica conta suas conclusões sobre esta figura peculiar que até uma igreja ganhou. O casamento pela igreja “Maradoniana” é surreal. Mesmo com esta forma interessante, o filme dá alguns tropeços por largar cenas avulsas, sem um norte para o público ter como guia, nem posição emocional, nada. As cansativas inserções de animação de Maradona fazendo justiça com os próprios pés também tiram o bom ritmo do filme, que busca apenas mostrar como Maradona é, sem procurar respostas e muito menos motivos para atitudes e escolhas do jogador. Maradona abaixa sua faixa de ídolo para mostrar que é feito de carne e osso, que tem fraquezas e que também erra por escolha própria, sem sensacionalismos maiores.

 ★★★
Maradona (Maradona by Kusturica, Espanha/França, 2008) de Emir Kusturica

CHUVA


 Na fria e chuvosa Buenos Aires, vemos uma cena comum nas grandes metrópoles: um generoso engarrafamento. Alma está em seu carro, esperando, sozinha e angustiada. Roberto entra desesperadamente no carro, sangrando. A diretora Paula Hernández utiliza a chuva para unir os dois personagens que se não estivessem tão próximos e unidos por uma cobertura, buscando proteção do frio e da chuva, não teriam chances para se conhecer e utilizar a falta de intimidade para se expor, sem utilizar proteções emocionais causados pelo conhecido, pela previsibilidade de um julgamento e um convívio mais calculista.

Se expor para um desconhecido talvez seja conveniente numa situação como essa. A decepção não é a primeira coisa que vem em mente. Os dois podem assim, se ajudar, mutuamente, apesar da insegurança comum que também criado pelo desconhecido. O “desconhecido” aqui ganha status enigmáticos criados por lombadas que por um lado mudam o rumo do longa, mas pontuam um sentimento unânime da população das grandes metrópoles: a solidão e o interesse na vida alheia. 

Aos poucos deixamos as primeiras impressões causadas por uma apresentação morna dos personagens, para afundar no emocional de Alma e Roberto que infelizmente são embarreirados pela diretora Paula Hernández novamente. Ela nos impede de situar a posição de cada um referente ao problema do outro, expondo apenas o fervor do momento para liberar informações em um momento que ela achou ser oportuno. Separando Alma e Roberto em mundos distintos por conta do exarcebado uso de "plano e contra-plano", a diretora cria um cansativo ping pong em sua montagem.

Apesar desta forma quadrada para desenvolver o longa, Paula Hernández tem a sutileza na hora de construir o lado psicológico de sua ação, aos poucos convencendo a nós que esta aproximação veio de uma escolha da natureza, como uma chance de recomeço para cada um, mesmo que essa história vire uma grande dicotomia quando a pós-produção os coloca em dois mundos particulares.
★★
Chuva (Lluvia, Argentina, 2008) de Paula Hernández

POLYTECHNIQUE


 Inacreditável como somos tão vulneráveis a ponto de deixar um sentimento incrustado dominar nossas vidas. Em Polytechnique, Denis Villeneuve reconstítui os fatos ocorridos em uma faculdade em Montreal, em 1989. De fato não existe um motivo plausível para essa história ser contada a cores. O frio e a constante neve que cai é  conivente à ausência de cores. A vida de um garoto dessa faculdade também é sem cores e dominada pelo rancor. Este que foi crescente conforme a falta de oportunidades para uma volta por cima iam aparecendo.

Para este garoto, a única chance que existe, é no mínimo, ficar do mesmo nível das feministas, que segundo ele, destruíram sua vida. Já é o norte suficiente para questionarmos o radicalismo presente já naquela época. A partir daí, infelizmente, Villeneuve perde a mão e o fio narrativo de seu filme e o que faz é um jogo de gato e rato com a mesma. Enquanto o rancoroso aluno entra na faculdade que mais parece um clube noturno para se vingar das meninas, o diretor ousa em fragmentar a história. A escolha não é acertada, pois ele aproxima e afasta nosso envolvimento com Jean François e Valérie, protagonistas do longa.

Entre os bucólicos takes de uma fria Montreal e o brutal acerto de contas de um jovem rancoroso, o que Villeneuve nos oferece de melhor em Polytechnique é mostrar uma compaixão contrária a toda arbitrariedade deste personagem, que é dominante na narrativa. Infelizmente, o seu resultado é irregular. Talvez pela escolha da ação pelo aspecto físico e não pelo psicológico ou simplesmente por não aproximar os personagens de forma coesa com a platéia.

 ★
Polytechnique (Idem, Canadá, 2009) de Denis Villeneuve

DISTANTE NÓS VAMOS



A versatilidade de Sam Mendes é admirável. Da catarse emocional de Foi Apenas Um Sonho para a leveza espiritual de Por Uma Vida Melhor, Mendes mostra sua capacidade de passear por assuntos e diferentes formas de se fazer cinema. É certo que estamos diante do próximo filme-cult-com-fãs-pentelhos. Mas o longa faz por onde. Ele tem sua base fincada numa forma contemporânea de se fazer comédias do chamado “cinema independente americano”.

 O trampolim de suas piadas e situações é criado a partir de choque de culturas ou pelo conflito entra a suma importância e a displicência de costumes diferentes. Recheada com trilha sonora folk e aura modernosa, o filme preza pela compaixão e respeito mútuo e ainda acha espaços para fazer pequenas criticas a maneira comodista de se manter um relacionamento.

É uma tarefa difícil conseguir envolvimento total da platéia quando se constrói um filme em um formato que é usado aos borbotões na atualidade. Mas, por se focar no cotidiano e na naturalidade para conduzir seus diálogos e a narrativa, Mendes nos entrega algumas pérolas saídas dos coadjuvantes, sem tirar o brilho dos protagonistas. Estes que enfrentam a chegada da filha e a falta dos pais para ajudar na criação. Sem obrigações sociais, os dois, resolvem ir atrás  do lugar ideal para criar sua filha.

Sem mexer no time que começa ganhando já de goleada, conhecemos as fraquezas de cada um e o que almejam da vida, sempre rodeado de situações que levam ao riso. Sem rostinhos bonitinhos ou exageros para ganhar uma empatia urgente, Sam Mendes nos presenteia - depois de tanta tensão em seus filmes anteriores -  com um filme delicioso.

★★★★★
Distante Nós Vamos (Away We Go, EUA/Inglaterra, 2009) de Sam Mendes

VIDAS QUE SE CRUZAM


Guillermo Ariaga é conhecido pelo seu trabalho em parceria com o diretor mexicano Alejandro Gonzáles Iñárritu. Ariaga assinava os roteiros e Iñarritu os moldava em imagens, rendendo filmes memoráveis como Babel, 21 Gramas e Amores Brutos. The Burning Plain, debut de Ariaga como diretor, é um filme sobre distância. É um filme sobre causa e conseqüência. Infidelidade, traumas, indiferença e a óbvia mudança de valores e guias.

A narrativa é desconstruída em três núcleos, na fronteira dos EUA com o México, com a desculpa conveniente para Ariaga escalar nomes como Charlize Theron e Kim Basinger para atuar com atores desconhecidos de sua terra natal. No deserto entre os dois países, Ariaga une esses núcleos da forma que já conhecemos pelos trabalhos dirigidos por Iñárritu. A ilusão de um labirinto criado pelo texto em alguma hora do filme deixa pistas explícitas para unirmos os núcleos. Ariaga desta vez falha para escrever e dirigir. O roteiro tem lacunas exageradas e resolvidas de forma abrupta.

Novidades não existem em The Burning Plain, mas a forma particular de fragmentar histórias de Ariaga ainda surte efeito de maneira positiva, mesmo que Hollywood tenha saturado essa forma. Na busca por respostas e acordos, os personagens rondam por caminhos obscuros, como um martírio, uma forma de se obter perdão através do sofrimento. Alguns escolhem a apatia, outros escolhem buscar respostas, mas de uma forma ou de outra, o peso criado por escolhas alheias afetam de forma irreversível em suas vidas.

★★★
Vidas que Se Cruzam (The Burning Plain, EUA/Argentina, 2008) de Guillermo Ariaga

LONDON RIVER - DESTINOS CRUZADOS



2005. Atentados mudam a sorte da Inglaterra que é marcada por bandeiras a meio mastro. Elisabeth liga pra saber se está tudo bem com a filha. Ela não atende. À procura da filha, ela vai até Londres e vê que ela mora em um bairro onde a população em sua maioria, é muçulmana. Elisabeth leva em si a doutrina protestante. Estes valores ficam obsoletos durante a busca por informações que ela só encontra um norte quando Ousmane (interpretado por Sotigui Kouyaté, vencedor do prêmio de melhor ator no Festival de Berlim) entra na história.

Rachid Bouchareb constrói com delicadeza o embate de valores e a claustrofóbica rotina da busca de Elisabeth e Ousmane pelos seus filhos ultrapassando fronteiras religiosas e costumes quando o acaso e a compaixão podem levar os dois a novos horizontes e conclusões sem se prolongar e muito menos fazer uma exploração maior de assuntos já tão saturados pela mídia em cenas que a única reação é o riso, pois é ridículo como nós podemos ser tão extremistas em casos que não existe diferença alguma. Não é o foco de Rachid achar falhas nos comportamentos guiados pela fé, mas sim mostrar que não existe necessidade para radicalismos.

Com ótimas atuações e uma direção elegante, sem exageros ou macetes para interferir na posição da platéia, London River é uma pequena pérola, sem apontar para politicagens e mesmo que posicione o seu norte na diferença religiosa, não é isso que o seu texto quer discutir. Pelo contrário, suas metáforas tendem a uma saída, um acordo, pois prejudicados pelo terror, todos serão.

 ★★
London River (Idem, Inglaterra/França/Algéria, 2009) de Rachid Bouchareb

MOTHER - A BUSCA PELA VERDADE


Bong Joon-Ho é um diretor que tem como uma de suas características achar a poesia onde ela praticamente não existe. Em Mother - A Busca Pela Verdade, ele faz o caminho inverso. Nesta história de uma mãe em busca da redenção do filho que tem problemas mentais, Joon-Ho monta seu filme de forma linear, sem muitos momentos de contemplação e coloca a necessidade acima de qualquer problema, pois quando a agonia dessa mãe pelo convívio inerente com seu filho explode, Joon-Ho cria diversos finais para o filme a cada meia hora.

Yoon Do-Joon é daqueles meninos conhecidos por toda vizinhança e que por alimentar uma inocência não costumeira por garotos de sua idade, é usado como um pano quente para os delitos cometidos por um amigo de Do-Joon. A mãe, sempre de olho no filho, serve como catalisador de apuros, mas não é sempre que ela pode estar presente. Quando o garoto é acusado de assassinato, essa mãe, vivida por Hye-Ja Kim, é a adaptação necessária para cada nicho em que se envolve em busca de provas para inocentar o seu filho.

Talvez por guiar essa narrativa de forma mais comum, o longa de Bong Joon-Ho perde suas forças, pois acaba virando mais um filme sobre um instinto protetor. É um filme bem amarrado e realizado, afinal, não estamos falando de um diretor qualquer, pois quando se trata de Joon-Ho, a expectativa é grande. Mas em momentos oportunos, mesmo com a falsa sensação de resolução, a índole da mãe é questionada. Se ela é capaz de qualquer coisa, a questão do certo ou do errado é jogada para o espectador. Se esta mãe é vilã ou heroína depende do critério adotado pelo público, se a empatia criada com esta mãe é mesmo é um fator de peso para o espectador formar sua opinião.

★★★
Mother - A Busca Pela Verdade (Madeo, Coréia do Sul, 2009) de Bong Joon-Ho

EU MATEI MINHA MÃE


A mãe que provoca o filho. O filho que não se esforça para entender a carência da mãe. Em Eu Matei a Minha Mãe, o que vemos é uma relação contemporânea usando a urgência de se obter respostas e de se adaptar a realidades distintas, que obviamente calham em explosivos conflitos.

O embate entre os dois é intenso e diário. Um tenta manipular o comportamento do outro através de chantagens emocionais e com o efeito da culpa. Os abismos da idade e de costumes só exaltam a sensação de asco de Hubert pela mãe. Ele abriga em sua mente uma confusa relação com sua mãe, enquanto vive uma época de descobertas. A mãe parece distante de ter um sentimento materno. Hubert se sente a vontade na casa de seu namorado, mas também carrega um sentimento avesso quando vê sua sogra feliz, mantendo um harmonioso lar.

A manipulação de Chantale às vezes passa da pré-destinação. O cotidiano serve de trampolim para mais uma explosiva briga. A relação entre os dois oscila entre a mais ofensiva discussão ao repentino acordo de paz, concedida sem esforço de palavras feitas para selar tal amor entre mãe e filho com cenas artesanais sem elementos artificiais e outras que seguem a cartilha oposta. O talento na direção de Xavier Dolan é exaltado por dividir a câmera e o posto de protagonista do filme com louvor. O texto também escrito por Dolan garante a dinâmica do filme, enquanto a estética tem resultado irregular.

Neste martírio diário, ambos tentam se livrar ou acertar as contas a sua maneira. Enquanto Hubert vive o ápice de sua juventude, Chantale parece usar de saídas mais urgentes para não se render a um pensamento depreciativo. A latente pergunta de Eu Matei a Minha Mãe é: Hubert não está preparado para se relacionar com pessoas que vivem outra realidade ou sua mãe que não está preparada, mesmo dezessete anos depois para criar um filho?

★★
Eu Matei Minha Mãe (J'ai Tué Ma Mère, Canadá, 2009) de Xavier Dolan

OS INQUILINOS


Sérgio Bianchi: ame ou odeie. Os últimos filmes do diretor Cronicamente Inviável e Quanto Vale ou é Por Quilo? vinham com além de ácidas críticas ao caminho que o país toma pela necessidade de se manter vivo  doses cavalares de pessimismo. Os Inquilinos, adaptação do conto homônimo de Vagner Ferrer, o novo longa de Bianchi não muda essa forma. Afinal, ainda não existe motivo para que o diretor pense diferente. O filme conta a história de Valter, um homem que levanta cedo, trabalha e vai para a escola à noite, pois não teve chances de terminar os estudos quando era jovem. É casado, pai de dois filhos e agora se vê obrigado a preservar a vida de sua família através da política da boa vizinhança, ou para ser mais claro submisso a ordens do crime. Quando chega em casa, atura reclamações da esposa que, refém do ócio, nada faz além de espionar a vida dos tais “inquilinos”.

Bianchi acerta, pois se concentra numa história “de comunidade”, mas as questões são existenciais e não sociais, logicamente elas se embaralham, pois aqui, Valter recebe os novos vizinhos, três homens de índole suspeita, e a cada novo dia, existe um novo motivo para a convivência virar uma guerra. O barulho é alto, a linguagem dos vizinhos é chula e o abuso cresce junto com  o número de horas mal dormidas pela família e a necessidade de resolver este problema. Bianchi ao invés de se focalizar numa história que seria óbvia para usar a violência sob uma carga dramática para mais um debate sobre o assunto, prefere estudar o que leva uma situação como essa acontecer e suas conseqüências dentro desta comunidade.

A liberdade das crianças é amputada pela tensão nas ruas. A confiança dos moradores é comprada, através de agrados a mando dos “chefes”. Essa prostituição vem da óbvia relação de interesses mútuos. Logicamente essa confiança leva a outros fatores como o silêncio e obrigações sociais. Enquanto José Luiz Datena anuncia mais um estupro seguido de morte, o filme para de lamentar na cena seguinte para mostrar um forte motivo para isto ter acontecido. Querendo ou não, é uma indústria que se forma. “Você incentiva dali, que eu lamento daqui”. Cabe a sociedade lutar contra. Mas, quem é sociedade? Quem é bandido? Enfim, questões que Bianchi coloca sob sua característica aura pessimista e resume seu longa numa cena dentro de uma sala de aula, onde os alunos viram mocinhos, bandidos e reféns.

Um filme como Os Inquilinos merece ganhar atenção por não discutir a conseqüência e sim a causa e bater de frente com tabus – provavelmente por motivos comerciais – do cinema nacional, mesmo sem inovações maiores em comparação a outros filmes do diretor.

★★★★
Os Inquilinos (Idem, Brasil, 2009) de Sérgio Bianchi

ALMAS À VENDA


Quem nunca sentiu indisposição apenas por ter o peso de sua alma? Ou uma fadiga espiritual? Aliado a estafa física e psico, Paul Giamatti resolve entregar os pontos para a ciência em Eu, Ela e Minha Alma, filme que carrega o argumento perfeito para um denso drama, mas Sophie Bartes faz o caminho oposto e insere doses de humor despretensioso no texto e consegue uma boa equivalência de gêneros, mas tem sérios problemas para manter esta continuidade por todo filme.

O filme é uma sucessão de grandes erros e acertos. Ele questiona como apenas "levamos" a vida e  como a tratamos com tamanho desdém. Giamatti (vivendo ele mesmo...argh!) se livra de sua alma para dar continuidade em uma peça de Tchekov, algo que a dita cuja o impedira anteriormente. Com efeito fantasioso, nada melhor que rir do cotidiano do ator para novamente manter uma média com a realidade. O humor usado por Bartes é tão inocente que as vezes, o riso é de pena.

Se sentindo vazio, a saída é se apossar de uma alma alheia. Sobra para uma poeta russa. O desenrolar de Eu, Ela e Minha Alma é linear, sem desembaralhar a construção, algo que o similar -  intensamente lembrado durante o filme - Charlie Kaufman faria em algum momento oportuno para não deixar o filme cair no tédio. Bartes ainda tem problemas para domar a narrativa e como pontuar os momentos certos para posicionar as viradas do roteiro. Outro ponto ausente é a ação interna de Giamatti, que com tantos problemas para trocar de alma, não tem os mesmos estudados à fundo.

Neste processo de criticar a contemporaneidade entre uma piadinha e outra peca pela originalidade. Giamatti está bem, se esforça, mas o resto do elenco não parece em sintonia com o protagonista. Vale pela tentativa de Bartes, mas escorrega em erros bobos.

 ★★
Almas à Venda (Cold Souls, EUA, 2008) de Sophie Bartes

BELLINI E O DEMÔNIO

bellini

Sai a estética noir de Bellini e a Esfinge, que enriquecia o visual das ruas paulistanas e colocava Bellini numa posição de um real detetive brasileiro com seu charmoso Fiat Uno. Entra a estética moderna, picotada e avulsa para mostrar um detetive atormentado e imerso na letargia em Bellini e o Demônio, filme que guia a aventura do detetive Remo Bellini, agora com a psique desviada, pelo misticismo. Na verdade o filme ameaça seguir a estética do primeiro filme em seus minutos iniciais, mas acaba se destrambelhando para outro caminho.

Se por um lado, o filme não consegue transparecer sensações em cenas que seriam tão óbvias para isso acontecer, Marcelo Galvão consegue retrair o espectador em sua poltrona quando tende a explícita tentativa de se aproximar do cinema de horror americano. A esfera policial do longa toma um novo rumo. Não deve ser esquecida por completo, afinal Bellini é um detetive, mas entre um drama de um homem que simplesmente não consegue trabalhar e o horror dos crimes que estão nas mãos dele, a tensão é grande, mas o apelo visual (sangue, animais mortos e etc.) e técnico (trilha sonora, montagem) para que isso aconteça é exacerbado. Entre suas dinâmicas cenas, a tensão dá lugar a reações dormentes no meio de tantas tentativas de criar um clima claustrofóbico.

Em certo momento, essa dormência parece perder alguma informação passada pelo filme, pois a relação entre os personagens e de Bellini com o seu caso é incompreensível. Um quebra-cabeça foi montado. Fábio Assunção joga a favor. Detalhes meramente bobos parecem virar sérios motivos para a catarse de Bellini. Sua índole é colocada em prova. Infelizmente já é tarde demais para o filme ganhar o ritmo necessário, mas consegue dar um grande respiro antes dos créditos finais.

★★

Bellini e o Demônio (Idem, Brasil, 2008) de Marcelo Galvão

MATADORES DE VAMPIRAS LÉSBICAS



Edgar Wright fazendo escola. A temática mais sombria para se fazer comédia é o ponto de partida para Matadores de Vampiras Lésbicas, dirigido por Phil Claydon, que nos remete claramente à Todo Mundo Quase Morto de Wright, com o característico humor inglês, mas inserido numa trama que se força a ser como uma comédia para jovens americanos.

O uso do corpo feminino como manjar para os jovens Jimmy e Fletch é só uma das proximidades a comédias teenagers. E por elas que eles vão parar numa casa assombrada no meio de uma floresta durante as férias. E mal sabem eles por que estão no alvo das sensuais vampiras lésbicas. Algo que certamente é um atrativo e tanto para o filme, não pela beleza apenas, mas pela estética escolhida por Claydon. É um filme bem feito demais, com efeitos propositalmente trash, no limite para se inserir na proposta sem cair no ridículo.

As piadas também ficam no limite, com o timing perfeito para não ser exageradamente apelativas, pois apelativas quando se trata de um “pastelão-gore” elas sempre serão. Mas dividindo o filme nesses rótulos, o filme não chega a um bom resultado em nenhuma das duas, talvez pela exagerada dose de cada um deles, principalmente pela inexperiência mostrada por Claydon para domar seu elenco e a narrativa de seu filme.

Como diversão o filme serve muito bem, apesar de seu último ato ser exageradamente cansativo e por ser um filme de óbvia resolução, alongar suas amarras é uma idéia que só pode afastar o fio narrativo com a mente do espectador. Mas, se divertir é a palavra de ordem, as vampiras lésbicas servem e bem.

★★
Matadores de Vampiras Lésbicas (Lesbian Vampire Killers, Inglaterra, 2009) de Phil Claydon

AMARGO


Diria que assistir ao novo longa de Hélcne Catett e Bruno Forzani, Amargo é uma experiência nova e interessante. É um filme que constrói sua narrativa pelo sistema sensorial de Ana, que em nenhum momento oferece informações maiores sobre sua vida. O som é o guia desta narrativa junto com a montagem “videoclipada”.

O trauma da infância, o desejo de liberdade adolescente, a libido e a busca de um caminho na vida adulta são colocadas de uma maneira que o corpo pode nos contar. O olhar, o suor, o ranger de dentes. A erotização do método está presente, afinal, era só uma questão de tempo. Diálogos são dispensados no filme. A linguagem corporal aliada a já citada montagem pode nos situar do estado emocional da protagonista, mesmo que ele possa parecer abstrato, em forma de delírio, com a ajuda do visual do longa.

Esta aventura experimental trás bons frutos, mas em certo momento, cai na mesmice. Esta mesmice era previsível, pois uma aposta como esta não tem muitos caminhos a seguir. O filme pede uma reviravolta estética ou ao menos em sua construção narrativa. Esta saturação do método acaba prejudicando o andamento do longa, pois ele não se preocupa em se aproximar da protagonista e muito menos revelar detalhes maiores em seu texto. Apenas um trauma, um grande trauma.

★★★
Amargo (Amer, Bélgica/França, 2009) Direção: Hélcne Catett e Bruno Forzani

ÁGUAS TURVAS

aguasturvas
Quando um diretor de cinema levanta um debate e sugere o julgamento para o espectador, ele também lembra que seremos julgados. Erik Poppe faz com maestria um intenso jogo de amor e ódio em Águas Turvas.

Thomas viu um pequeno garoto morrer em sua frente. Foi preso por assassinato. Foi solto por bom comportamento e busca redenção tocando órgão em uma igreja. Poppe faz ai a primeira alusão a julgamento. Lá, Thomas conhece a pastora e seu filho Jens com quem cria laços de amizade. Thomas é constantemente atormentado pelos fantasmas do passado, sejam impostos ou por acaso. Sua reação é sempre morna e a suspeita é uma conseqüência para a platéia.

Aparentemente acompanharemos uma história linear de superação, mas a ditadura hollywoodiana nos educou de uma forma que Poppe contorna, nos situando dentro de outra esfera: A da mãe do menino assassinado. A partir daí a montagem é picotada de forma mais explicita, mas não menos genial. É importante ressaltar a importância desta mudança, pois os sentimentos vão se alternando conforme as sugestões do diretor. Agnes, vivida pela brilhante Trine Dyrholm vive uma mulher traumatizada e que não se importa em passar por cima dos outros para se sentir segura, algo que não acontece desde a morte de seu filho. Estepes são usadas, situações constrangedoras são criadas por ela, mas nada a tira a dor. Neste núcleo, a construção funciona de maneira mais intensa.

A igreja é o palco do encontro para um desenrolar incrivelmente denso. O espectador não sabe quem é vilão e quem é mocinho. Se deve julgar ou ser julgado, o que é certo ou o que é errado. Crie suas respostas após os créditos finais.

★★★★★
Águas Turvas (De Usynlige, Noruega, 2008) de Erik Poppe

NOVO ENDEREÇO

 Amigos, agora estou neste endereço: hellocinephilia.substack.com Deixarei este blog aqui como arquivo de quase 20 anos de blogs, sites e re...