MARY E MAX - UMA AMIZADE DIFERENTE

 

O diretor Adam Elliot é pragmático em Mary & Max - Uma Amizade Diferente. Como Andrew Stanton em Wall-E, Elliot usa uma história singela onde o envolvimento de seus protagonistas nada mais é que um trampolim para disparar ácidas críticas ao modelo de vida contemporâneo. Ao contrário da obra de Stanton, Mary & Max – Uma Amizade Diferente é um filme que não se preocupa em maquiar suas intenções como subtexto ou utilizar entrelinhas para concretizá-los, por isso, talvez seja uma obra que fuja do gosto comum do público alvo das animações, ou seja, os jovens, ainda que sua plástica seja um irresistível convite para um delicioso deleite visual.

Se Mary, uma reclusa e amedrontada menina australiana desbrava um novo mundo (sem censuras ou moralismos) através de trocas de cartas com o americano Max, ao mesmo tempo o usa como fonte de reconhecimento. Em Max está a penca de problemas que ela teme se deparar no futuro. Max é um homem solitário, obeso, que sofre de dezenas de síndromes e representa muito bem o homem moderno. Ele a ajuda em suas prematuras crises existenciais, mas antes de tudo, encontra nas cartas uma nova saída, um motivo para viver.

A cada confidência trocada, um trauma é apagado, uma fobia é confrontada, um passo é dado para um deles. Mas ainda no primeiro ato, a trama de amizade ganha objetivos maiores. Mary e Max são vistos pelos olhos tragicômicos do narrador. E por agir concomitantemente nos dois lados com a mesma intensidade, Elliot nos obriga a ver o conto de uma maneira nova; Este que balanceia a riqueza de sua mensagem e sua forma de sua exposição e o delicioso ode à lealdade e a amizade (ainda que Mary, assim como a vida, perca graça conforme a idade passa) com momentos cativantes.

Mary & Max - Uma Amizade Diferente (Mary & Max, Austrália, 2009) de Adam Elliot

A RIVIERA NÃO É AQUI

 

Há muito tempo não vejo uma comédia francesa que carregue as características que consagraram o país como uma das maiores fontes  de filmes deste gênero. Em sua maioria, todas eram cativadas por um humor refinado, intelectual e desbravadas a partir de uma boa sinopse. É o caso dos filmes de Jacques Tati até os mais recentes de Francis Veber (O Closet, O Jantar dos Malas). E tudo indicava que A Riviera Não é Aqui iria pelo mesmo caminho, seguindo a tradição de uma boa premissa: Phillipe Abrams, diretor de uma agência dos correios, sonhava em ser transferido para o sul da França para melhorar sua vida e principalmente seu casamento. Mas para isso, teria que participar de uma fraude que é desmascarada em uma cena antológica. Como penitencia, ele é enviado para o norte, local temido por sua esposa não só pelo frio, mas pelo comportamento dos habitantes daquela região.

A aventura começa quando Phillipe pega a estrada. É a chance dele de se conhecer melhor e também explorar novos costumes e até um novo dialeto, este que o diretor Dany Boon faz questão de usá-lo como fonte de piadas de duplo sentido por todo filme. Com o passar dos dias e uma rapidíssima adaptação a um novo modelo de vida, ele consegue se livrar de fardos que mantinha no passado. É ai que Boon usufrui de uma narrativa enaltecida pela leveza da amizade e a descoberta de uma oportunidade mesmo que ainda tropece em momentos exagerados, onde o diretor utiliza longas sequências para debochar de males como o alcoolismo e a depressão.

Em A Riviera Não é Aqui não existe tempo para conflitos. Nem daqueles mais rasos e costumeiros em comédias. Tudo se resolve facilmente e com bom humor. O roteiro parece ser um emaranhado de situações corriqueiras de um tempo de adaptação e tramas paralelas que servem como uma ponte para o resto da história. Talvez isto venha das intenções do diretor que fez uma obra para entreter apenas, mas fica no meio do caminho na hora de elaborar uma mensagem para os seus espectadores. Assim, Dany Boon coloca em cheque o seu público: Entrar de cabeça na previsibilidade da trama e se divertir ou esperar por uma reviravolta genial e considerar o filme como uma verdadeira comédia francesa? Aconselho a escolher a primeira opção.

A Riviera Não é Aqui  (Bienvenue chez les Ch'tis, França, 2008) de Dany  Boon

HALLOWEEN 2

halloween 2 

Acusado de oportunismo ao paralisar a produção de Tyrannosaurus Rex para filmar a continuação da saga de Michael Myers, Rob Zombie parece não ter sentido a pressão do público, nem da Dimension e muito menos dos irmãos Weinstein para entregar o filme oitos meses após assinar o contrato. Zombie fez um filme sobre traumas, fugindo da previsibilidade do gênero.

Após uma breve e abstrata explicação sobre a primeira parte de Halloween, Zombie elimina boa parte de sua habitual verborragia e utiliza o silêncio como fonte de desconstrução da força que o passado exerce na vida de Laurie Strode e de Myers. Mesmo dado como morto, o serial killer é o motivo de noites mal dormidas e surtos de Laurie. Para ela, existe um fardo a levar, que só ganha peso conforme os dias passam. O terror, em boa parte do filme, é psicológico e aumenta gradualmente. Myers, através de criativas inserções, consegue criar vínculo com a platéia ao se expressar e justificar seus brutais assassinatos, nos quais Zombie faz questão de enriquecer em detalhes.

Discreto, o diretor resolve depositar seu característico amor pela década de setenta em outros elementos do longa, deixando visível apenas resquícios de sua adoração pela cartilha white trash. Nela, estão suas marcas autorais junto com outros métodos construtivos como a fragmentação de sequências e a clássica câmera lenta, imortalizada no genial Rejeitados Pelo Diabo. Totalmente diferente do road movie citado, Halloween 2 é um longa que sugere o envolvimento do espectador por outros meios; Eles são largos o bastante para cada um ter sua conclusão sobre a história e julgar cada personagem, o que é algo completamente compensador, pois com tanta rapidez para filmar, seria óbvio esperar uma carnificina e como guia uma trama de gato e rato e nada mais. Mas não é o que acontece - Rob Zombie consegue criar uma média entre a matéria e espírito, sem tirar o foco principal da série de John Carpenter: Amedontrar sua platéia.

Halloween 2 (Idem, EUA, 2009) de Rob Zombie

HOMENS QUE ENCARAVAM CABRAS

 

A paranormalidade é o caminho para a paz. Pelo menos é o que o general hippie Bill Django, personagem de Jeff Bridges, tenta induzir em Homens Que Encaravam Cabras, filme baseado no livro homônimo de Jon Ronson. Em segredo, com ajuda de um grupo seleto de soldados (batizado de “Força Jedi”), ele aperfeiçoa esses poderes psíquicos para o bem e pretende cessar os conflitos que podem destruir uma nação. Lyn Cassady (George Clooney), anos após a criação dessa suposta receita para a paz está em uma missão secreta. E se depara com o frustrado Bob Wilton (Ewan McGregor) em um momento escapista, mas que se adequaria perfeitamente à palavra “suicida” também.

Grant Helsov domina sua narrativa com louvor. Tem o timing certo para debochar de todos os elementos que envolvem a guerra do Iraque. Seus personagens vão de grandes homens á palhaços desmoralizados em questão de segundos. A névoa que Helsov insere na trama para não julgá-los é o grande trunfo para o envolvimento do espectador. Para Bill, a guerra antes de se tornar algo palpável, começa na cabeça dos soldados e ações maniqueístas só elevam o sofrimento. Helsov faz o mesmo caminho e coloca a neura na mente dos soldados que consideram qualquer coisa como um golpe mortal ou uma maldição, criando cenas memoráveis entre George Clooney e Ewan McGregor.

Homens Que Encaravam Cabras é um filme que não preza por um senso rítmico definido. As sequências oscilam entre momentos explosivos, onde o humor é intencionalmente mais escrachado e não menos inteligentes que os momentos contemplativos, onde a obviedade vira motivo de piada. Neles, o sarcasmo é inserido de forma quase imperceptível. Por isso, talvez não seja um filme de fácil digestão. Porém, é uma das formas mais gostosas de assistir a um manifesto anti guerra, que vai além da subjetividade óbvia e panfletária para assumir um radicalismo ímpar ao debochar e lapidar sentimentos característicos de conflitos armados.

Homens Que Encaravam Cabras  (Men Who Stare At Goats, EUA/Inglaterra, 2009) de Grant Helsov

10 FILMES PARA 2010

Passada a temporada do Oscar, a programação dos cinemas volta ao normal, com blockbusters e comédias românticas tomando espaço dos filmes que concorreram a estatueta. Agora cabe a nós ficarmos de olho nas boas estreias e nos festivais que acontecem pelo país. Fiz uma lista de dez filmes esperados para este ano.

ENTER THE VOID (2009) de Gaspar Noé

Exibido no Festival de Cannes no ano passado, o novo filme de Gaspar Noé (Irreversível) passou em branco nos festivais por aqui. Fica a torcida para uma estreia em circuito limitado ou lançamento em DVD.

MACHETE (2010) de Robert Rodriguez

A adaptação de um dos fake trailers de Grindhouse (projeto de Quentin Tarantino e Robert Rodriguez) promete. Robert De Niro, Cheech Marin, Steven Seagal, Danny Trejo, Jessica Alba e Lindsay Lohan compõem o elenco. Tudo joga a favor, caso Robert Rodriguez não resolva fazer mais do que deve.

OS MERCENÁRIOS (2010) de Sylvester Stallone

A realização do sonho de todos os fãs de filmes de ação dos anos 80. Fora toda confusão que o filme arrumou por aqui, Stallone, Bruce Willis, Mickey Rourke, Dolph Lundgren, Eric Roberts, Jet Li e Jason Statham já dão motivos suficientes para esse filme entrar para a lista dos mais esperados. Previsto para 20 de agosto.

THE KILLER INSIDE ME (2010) de Michael Winterbottom

Após virar alvo de polêmicas e acusações durante o Festival de Sundance, no inicio do ano (por não censurar cenas brutais de violência e abuso sexual, muitas pessoas saíram durante as projeções do filme, incluindo Jessica Alba, que está no elenco), o longa será lançado nos EUA sem cortes, mas com indicação para maiores de 18 anos.

OS LIMITES DO CONTROLE (2009) de Jim Jarmusch

O novo filme de Jim Jarmusch está para estrear no Brasil há tanto tempo que dou como certo seu lançamento direto em DVD, apesar de ainda existir uma previsão para seu lançamento nos cinemas. No elenco do thriller estão Gael Garcia Bernal, Tilda Swinton e claro, Bill Murray. Previsto para 25 de junho.

THE SENTIMENTAL ENGINE SLAYER (2010) de Omar Rodriguez Lopez

O debut de Omar Rodriguez Lopez na direção teve première no Festival de Rotterdam, foi selecionado para Tribeca, ganhou críticas favoráveis e comparações à Alejandro Jodorowski. Como fã de seu trabalho como músico (Omar é guitarrista do grupo The Mars Volta e do extinto At The Drive-In) minhas expectativas só aumentaram.
tetro
TETRO (2009) de Francis Ford Coppola

Após alguns tropeços nos últimos filmes, as críticas confirmam que Tetro é a volta de Francis Ford Coppola à sua boa forma. Precisa de mais alguma explicação? Previsto para 7 de maio.

LIFE DURING WARTIME (2009) de Todd Solondz

Se tem algum filme que eu nunca imaginei que ganharia uma sequência este filme é Felicidade. Pois é, Todd Solondz, o louco dos loucos, fez uma sequência de sua obra-prima. E que parece ser tão grotesco quanto o primeiro.

DOGTOOTH (2009) de Giorgios Lanthimos

Vencedor do Festival de Mar Del Plata e do prêmio Um Certo Olhar em Cannes, o filme tem um dos trailers mais doentios dos últimos tempos. Foi exibido na Mostra de São Paulo ano passado, mas torço pelo lançamento em circuito limitado.
KABOOM (2010) de Gregg Araki

Só pelas fotos do filme que estão disponíveis na rede, dá pra termos noção que Gregg Araki voltou às suas origens neste filme. Cores cítricas, viagens alucinógenas, jovens perdidos e surrealismo.

HISTÓRIAS DE AMOR DURAM APENAS 90 MINUTOS


 

Pequenas peculiaridades constróem Histórias de Amor Duram Apenas 90 Minutos. O longa que marca a estréia de Paulo Halm na direção, tem uma poderosa veia cômica, porém, não se assume como uma comédia. Apresenta conflitos e devaneios emocionais de seu protagonista, mas também não veste a camisa de um drama existencial. Assim, fica clara a intenção de Halm de unir gêneros dentro de um mesmo texto. Quando o jovem e inativo escritor Zeca é aterrorizado pelo fantasma da infidelidade, sua estagnação vira o céu e o inferno, representados pela Lapa, berço da boemia carioca.

Se tal paralisação criativa coloca Zeca numa posição submissa ao acaso (este sempre disposto a acionar a bomba que é a mente libidinosa do rapaz), o mesmo não se pode dizer quando a neura permite exibir todas suas fraquezas. É aí que Paulo Halm abusa do humor, criando cenas memoráveis, explicitando a catalisação das frustrações de Zeca, principalmente quando o escritor está com seu frio, monossilábico, plúrimo e totalmente identificável pai, vivido por Daniel Dantas de forma excepcional.

Se o lado cômico é pulsante, Halm estuda os sintomas do desespero de forma mais singela, os usando às vezes como escada para o riso e não se limita a fronteiras, abusando de referências da cultura brasileira; por vezes ele as chacota, outras são estampadas pelo diretor como uma espécie de resgate de costumes que a violência das grandes metrópoles nos impede de cultivar. Em certo momento do filme, Halm consegue congregar em uma mesma sequencia a decadência, funk carioca, humor pastelão e o poeta francês Charles Baudelaire sem parecer pretensioso.

Histórias de Amor Duram Apenas 90 Minutos desconstrói a urgência contemporânea de amar e se sentir amado, mesmo que isso só alimente um sentimento vazio, mas sem colocá-lo sob uma visão pessimista. Na verdade, em todo seu envolto, o filme de Halm é uma divertida contemplação sobre esse desespero e que ao mesclar elementos de variados gêneros, consegue trazer frescor ao cinema nacional.

Histórias de Amor Duram Apenas 90 Minutos (Idem, Brasil/Argentina, 2009) de Paulo Halm

ILHA DO MEDO

ilha do medo 

O cinema é fonte de entretenimento e também serve como válvula de escape para mensagens e pontos de vista sobre situações particulares. Enquanto o fantasma da guerra do Iraque (ou "Operação Liberdade do Iraque", como preferir) não se afastar de vez dos Estados Unidos, veremos obras que refletem sobre tal fato. Alguns vão direto ao ponto como Guerra ao Terror e Guerra Sem Cortes. Outros são mais subjetivos como Avatar e agora, Ilha do Medo, de Martin Scorsese.

Travestido como um thriller (como deveria ser, pois se trata da adaptação do livro de Dennis Lehane), o filme narra a busca de um ex-enviado de guerra que atua como detetive para a polícia pelo suposto assassino de sua esposa dentro de um manicômio. Aos poucos, Scorsese dá uma nova concepção para o medo e a insanidade, sintomas comuns de quem esteve ou está em uma guerra, seja ela qual for. Teddy Daniels, vivido por Leonardo DiCaprio se imerge em uma vertiginosa saga, onde sua maior certeza é uma dúvida. Para construir o clima de suspense, Scorsese não esconde as influencias de Hitchcock, principalmente no início do longa. Aos poucos, o filme ganha marcas autorais e toma um viés esquizofrênico para metralhar alusões à situação vivida pelos Estados Unidos e muda o ritmo de sua narrativa, para melhor.

Nesse momento é quando o filme nos faz duvidar da índole de todos os personagens e consegue com êxito usar antigas artimanhas do suspense, como instigar a curiosidade do espectador e também novos macetes como a sugestiva inserção do sobrenatural, mas não se afasta de um mal comum do cinema americano: o herói individualista. Por outro lado, não menos interessante, está a subjetividade na direção de Scorsese para dar ênfase a uma mensagem anti-guerra sem patriotismo ou radicalismos ao prender em seus fios narrativos ao terror psicológico e colocar a instabilidade emocional como catalisador da trama.

Ilha do Medo (Shutter Island, EUA, 2009) de Martin Scorsese

CORAÇÃO LOUCO

 

Adaptado do livro homônimo de Thomas Cobb, Coração Louco é um filme de detalhes, que apresenta seus conflitos de maneira clara, mas os desenvolve de forma abstrata. A coluna da trama é a frustração. Dela surgem diversos nichos sentimentais do tal coração de Bad Blake, um músico de pequeno porte na cena country, interpretado com maestria por Jeff Bridges.

Como um diário de turnê, o filme se assume como um road movie que enquanto registra a dança dos dias, também exibe a consciente autodestruição de Blake. A direção do estreante de Scott Cooper surpreende por ser minimalista. Cooper se limita até em usar elementos de cena justificáveis, uma sabia decisão para salientar a explosão sentimental em momentos decisivos para a trama.

Sem verborragias ou insinuações maiores, o filme de Cooper prefere mostrar como Blake mantém uma aparência tranqüila, mesmo que sua vida seja decadente. A incansável mente do músico é desconstruída com grande sensibilidade pelo o que existe em seu envolto.

A mente de Blake é explosiva, pois 57 anos se passaram e ele se vê sem um porto seguro. A incapacidade de lidar com suas frustrações deixou rastros pela vida do músico e de quem está por perto. O alarme havia tocado na sua casa, ou seja, na estrada. Nela, foram deixados sonhos, humilhações, a saúde e até um filho. Coração Louco também é sobre redenção; sobre dar alguns passos para trás e recomeçar.

Coração Louco  (Crazy Heart, EUA, 2009) de Scott Cooper

O SEGREDO DE SEUS OLHOS

 

Alguns eventos são devastadores em nossas vidas. Deixam tantos rastros que por vezes é impossível viver o presente. Mas para deixarmos o passado literalmente para trás, enfrentar seus fantasmas seja a melhor maneira. A premissa que O Segredo de Seus Olhos carregava era de um filme sobre um acerto de contas, mas ao fragmentar o tempo na narrativa não apenas para registrar a redenção de um homem, mas para discutir leis e valores dentro de um thriller, a adaptação do romance de Eduardo Sacheri ganha novas interpretações.

O diretor Juan José Campanella bebe da decadência característica dos personagens dos filmes noir e do ritmo de filmes de ação americanos para traçar uma trama completa e claustrofóbica. Nela, a pena de morte é citada em alguns momentos, mas é atrelada a cada quadro do filme que também discute o abismo entre as palavras “existência” e “vivência” com bons diálogos e movimentos de câmera precisos.

Mas Campanella se importou apenas com o lado ativo. Por isso, O Segredo de Seus Olhos é um filme que se preocupa em condensar ritmo e intensidade dramática, com subtexto pesado, mas não menos instigante que o thriller que digerimos. Para viver, passamos por momentos extremos, intensos, onde tomamos decisões precipitadas e colhemos seus frutos. Existe o tempo para o arrependimento e a busca de um novo caminho, para outros, a existência torna-se um martírio por viver cativo das conseqüências de seus atos.

Em certo momento do filme, a torcida grita “academia” diversas vezes em um estádio de futebol, já profetizando a indicação do filme ao prêmio de melhor filme estrangeiro na cerimônia do Oscar. Coincidência ou não, o filme tem tudo que a academia gosta: é um filme que agrada a quem digere uma obra aos poucos de forma contemplativa (por enriquecer o subtexto e suas tramas paralelas) e também aqueles que procuram um filme como uma diversão escapista (um thriller bem amarrado e romanceado). Pena, que no meio do caminho, havia uma fita branca...

O Segredo de Seus Olhos (El Secreto de Sus Ojos, Argentina/Espanha, 2009) de Juan José Campanella

UM HOMEM SÉRIO


Dizer que o trabalho dos irmãos Coen é sinônimo de qualidade chega a ser óbvio, mas em Um Homem Sério arrisco a dizer que os diretores chegaram ao auge de suas carreiras. Neste conto sobre a passividade totalmente revestido de deboches, Joel e Ethan Coen conduzem o longa com tamanha maestria que fica impossível não se impressionar com a plástica do filme. Sim, a plástica é incrível, mas o que me levou a fazer tal afirmação no início do texto é como eles conseguiram amarrar a beleza e o texto e justificá-los para logo depois tirar sarro da linguagem do cinema.

Joel e Ethan podem gozar de tais mecanismos, mas o alvo principal é de quem consome esta linguagem. Eles fragmentam conflitos e até desistem de contar histórias, pois se for preciso, eles darão uma justificativa aleatória para lembrar que eles podem fazer o que bem entendem. O mais incrível dessa gigantesca alfinetada é que ela é elaborada e executada no silêncio e usam o protagonista Larry Gopnik, intepretado por Michael Stuhlbarg, como um espelho de nossa passividade.

Gopnik é um judeu que tenta seguir normas e manter a paz ao seu redor, mas serve como um receptor de desgraças ao se relacionar com manipuladores a todo instante. Se Gopnik propositalmente lembra a jornada de Jesus Cristo, os irmãos Coen usam a manipulação para representar o princípio básico da linguagem audiovisual. A história de Gopnik dá margem para uma narrativa dinâmica, que não deixa imunes valores e costumes da sociedade que são exaltados pela direção de Joel e Ethan. É assustadora a composição de quadros e movimentos de câmera para acentuar emoções.

Toda beleza e sarcasmo de Um Homem Sério são necessários para uma contemplação livre, pois metáforas são freqüentes na trama. A maior e mais brilhante delas, na última cena do filme, é para lembrar que no cinema, Deus está sentado na cadeira de diretor.

Um Homem Sério (A Serious Man, EUA, 2009) de  Joel e Ethan Coen

EDUCAÇÃO

 

Não é de hoje que o cinema questiona os moldes da vida ideal imposta pela sociedade. A diretora Lone Scherfig não coloca explosivos conflitos para buscar uma óbvia lição de moral em Educação, pelo contrário, ao longo do filme ela faz um caminho oposto e deixa claro que sua intenção é de mostrar com certa indiferença um momento específico da vida que pode trazer consequências para a protagonista Jenny por tomar uma decisão na qual os jovens não têm maturidade necessária para tal e mostrar o desvio de um caminho aparentemente perfeito.

Até onde um jovem pode alimentar-se de desejos que vão além dos costumes de um cidadão padrão? As incógnitas tão batidas em filmes deste segmento são logo eliminadas por Lone, que novamente usa a indiferença à conflitos e resoluções surpreendentes, pois Educação é exatamente sobre isso: subverter valores da dramatização. O filme não impõe um crescente envolvimento do espectador. No lugar de macetes comuns do cinema, ficam as sugestões dentro de uma história linear, mas que ainda se agarra em clichês narrativos para caminhar.

Dentro desses clichês, a trama desbrava um novo mundo para Jenny e deixa brechas desnecessárias para que a previsibilidade transpareça mais que transição da adolescência para a vida adulta. Lone Scherfig conseguiu mesmo com tropeços exaltar sua intenção maior: manifestar-se sobre os limites de idade e maturidade para se aventurar e se “educar” por conta própria, de colher e plantar e saber as consequências de cada ato. De aprender pela dor e pelo amor.

Educação (An Education, Inglaterra, 2009) de Lone Scherfig

UM OLHAR DO PARAÍSO

 

Provavelmente nenhum outro tema dê tantas opções para sua desconstrução quanto a morte. Em Um Olhar do Paraíso, Peter Jackson explora a ligação sobrenatural de Susie, uma menina brutalmente assassinada e sua família, mas não sabe bem por qual via seguir para concretizar uma visão sobre o luto e a perda na adaptação da obra de Alice Sebold.

Jackson separa sua trama em dois núcleos de maneira tão brutal que ambos perdem forças. O drama psicológico vivido pela família de Susie tem seus fios narrativos presos à tensão, no qual o diretor chega a criar sequências que remetem ao velho Peter Jackson de Fome Animal. Quando as câmeras se aproximam de Susie, a trama ganha plástica fantasiosa para apresentar o óbvio, que é um novo, mas nada convincente mundo. Dessa vez, nos aproximamos de Jackson conhecido pela trilogia Senhor dos Anéis.

A equivalência desses dois extremos é irregular. Buracos são deixados propositalmente para que esses mundos se completem de forma lírica, mas não evita a pieguice, pois logo onde o filme teria sua força maior - que é a de explorar o desconhecido -, é onde o filme tem suas maiores falhas. A força que a trama onde Mark Wahlberg e Rachel Weisz protagonizam possui é absurdamente superior à tentativa de Jackson de fazer um paralelo da vida e a morte para desconstruir-las de forma contemplativa com toda ajuda da pós-produção.

Mas seria um exagero dizer que Um Olhar do Paraíso é uma sucessão de erros. O filme levanta a discussão sobre males contemporâneos e o valor da vida. Sendo mais claro, o filme acerta justamente quando Jackson resolve largar as amarras do peso de seu passado e busca inovar na sua maneira de fazer cinema.

Um Olhar do Paraíso (The Lovely Bones, EUA/Inglaterra/Nova Zelândia, 2009) de Peter Jackson

BRILHO DE UMA PAIXÃO

 

Em algum momento da sua vida você assistiu alguma novela que enclausurava lições de moral em relação aos valores familiares, um amor impossível e uma história de mocinho e bandido num mesmo roteiro. Brilho de Uma Paixão é exatamente isso, uma trama novelesca, com a vantagem de se resolver em duas horas e não cair num labirinto que tem compromisso com a popularidade de cada personagem. A história do poeta John Keats reúne elementos básicos na construção de roteiros e por eles, tenta resgatar diretrizes lacrimosas do melodrama. Mas o resultado é desastroso.

O ponto de partida logicamente é o amor impossível, que curiosamente a diretora Jane Campion mantém certa distância para não exacerbar suas intenções sentimentais. Dificuldades financeiras e a abstrata (e ótima) figura de um vilão são os maiores contratempos para esse caso acontecer. Talvez por quebrar esse paradigma de um romance, Campion impede a total imersão na história, mas utiliza todos os clichês possíveis do gênero para construir seu roteiro.

Sendo assim, a trama cai na armadilha da pieguice romântica: entre poesias e momentos de desespero pela ausência de sua alma gêmea, a única coisa que Campion arranca de seu público é a vergonha alheia. Ela ensaia um novo caminho para o filme em sua segunda metade quando faz pequenas metáforas à materialização do amor, mas que logo são esquecidas. Infelizmente, as intenções da diretora alimentaram irregularidades irreversíveis para a trama que só desce a ladeira conforme o tempo passa.

A coibição da natural evolução de um sentimento transparente como o amor poderia se transformar numa angustiante e envolvente história, mesmo num molde melodramático, mas toda a distância sugerida serve como uma catapulta para a atenção do espectador.

Brilho de Uma Paixão (Bright Star, Inglaterra/Austrália/França, 2009) de Jane Campion

PRECIOSA - UMA HISTÓRIA DE ESPERANÇA

 

Em um plano geral, Preciosa - Uma história de Esperança, segundo filme da carreira de Lee Daniels é sobre um mal comum que assola países considerados de primeiro mundo: a deturpada escolha de prioridades. Se a idéia principal na narrativa de Lee Daniels tem foco no inevitável inconformismo gerado por situações extremas na vida de Clareece Precious, o diretor não se priva em adotar o cunho social e deixar claro que o filme carrega uma bandeira panfletária.

A assistência social dos EUA não está num pedestal, mas aparece de uma nova forma para o público ao ajudar aqueles que têm como prioridade o marasmo – comer, ver TV e dormir. Neste solene quadro, os demônios são exaltados pelo vasto tempo livre. Clareece Precious é vítima deste modelo de vida. E o pior, não por iniciativa dela. Ela é violentada de diversas maneiras e sobra a inconsciente conseqüência de ver a vida com um olhar rústico, pessimista. Ela guarda respostas grosseiras para qualquer situação como defesa, com aval de um radical pré-julgamento.

Por trás do escudo, Precious guarda um sentimento primordial para sua vida no meio de tantas tragédias: o amor. Nele, ela tem poder para sonhar, mesmo que a realidade a interrompa bruscamente. Este conto de perseverança vem em forma linear e de certa forma, óbvia, criando uma dormência perante as fatalidades emocionais e físicas de Precious. Mas Daniels tem um afiado elenco jogando a favor, que aos poucos ganham a materialização de um sentimento em relação à protagonista.

Quando o filme assume uma estética artesanal, com correções de foco e planos enquanto a cena acontece, a proximidade com a realidade é natural e uma força bruta é adicionada à Preciosa - Uma história de Esperança. São nesses momentos que o filme tem suas emoções alavancadas, debates sugeridos e ganha momentos memoráveis.

Preciosa - Uma história de Esperança  (Precious: Based on the novel "Push" by Sapphire, EUA, 2009) de Lee Daniel

ZUMBILÂNDIA

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Se a palavra de ordem é diversão, Zumbilândia é um prato cheio. Rodeado de clichês do gênero "terrir" e caminhando pelo legado de Edgar Wright (Todo Mundo Quase Morto), o que o diretor Ruben Fleischer faz é um trabalho com extrema excelência, pelo menos nos elementos estéticos. Preso a dois personagens estereotipados, o filme cria suas dobraduras quando Wichita (Emma Simpson) e Little Rock (Abigail Breslin) entram em cena e conseguem fugir um pouco da previsibilidade do texto, mesmo que seja por pouco tempo.

A história é a de sempre: Narrado em primeira pessoa por Columbus (Jesse Einsenberg), que é um dos poucos sobreviventes ao ataque de zumbis nos EUA. Ele encontra Tallahassee (Woody Harrelson) e segue para um lugar que até então é imune à presença dos mortos-vivos. Fleischer doma não só a narrativa muito bem, mas aspectos de som, maquiagem, cenografia, fotografia e timing dando a impressão de Zumbilândia ser um filme completo em sua proposta.

É de fato completo, mas também não tem o temor em mergulhar em clichês e parecer como uma releitura de outros filmes. Fleischer sabe aproveitar bem as situações para recriá-las com bom uso da tecnologia. Até mesmo uma pequena homenagem à Os Caça Fantasmas existe, com a presença de Bill Murray.

Zumbilândia não tem a intenção de satisfazer fãs de terror, pelo contrário, com a escassez de brutalidade, a epidemia que se dilacera pelos EUA toma outro rumo. Na fuga para o lugar onde os zumbis não existem, a trama evita em encaixar temas em seu subtexto ou diálogos subjetivos, pois o que Fleischer quer mesmo é incentivar o riso com personagens caricatos, boas piadas e boa técnica.

Zumbilândia (Zombieland, EUA, 2009) de Ruben Fleischer

NOVO ENDEREÇO

 Amigos, agora estou neste endereço: www.7a1filmes.com/blog Deixarei este blog aqui como arquivo de quase 20 anos de blogs, sites e revistas...