Os Melhores Filmes de 2019

Nocturne, de Viktor van der Valk

A regra é a de sempre: filmes lançados entre 2017 e 2019. Repito a fórmula do último ano, com comentários sobre os cem  filmes listados. Espero que vocês tenham paciência para ler  tudo. Aguardo suas opiniões! 

English version here.

Ei-la:



100. Rachel (Scout Tafoya, 2019) 
Filme-carta visceral.


99. O que Arde (Oliver Laxe, 2019)
Homem-destroço.


98. Nietzsche Sils Maria Rochedo de Surlej (Júlio Bressane, Rodrigo Lima, Rosa Dias, 2019)
O espírito que cessa.


97. Those That, at Distance, Resemble Another (Jessica Sarah Rinland, 2019)
O filme que James Benning esconde em História Natural.


96. Cadê Você, Bernadette? (Richard Linklater, 2019)
Pequenas subversões.


95. Sophia Antipolis (Virgil Vernier, 2018)
Fascismo nas frestas da vaidade.


94. Projeto Gemini (Ang Lee, 2019)
Forjar ilusões e enfrentar memórias.


93. El Viaje Espacial (Carlos Araya, 2019)
Estrutura e política.


92. Reveries (Graham Mason, 2018)
À lisergia de Easy Rider.


91. Phantom Ride (Stephen Broomer, 2019)
Sobreposições do tempo.


90. Bridges of Time (Audrius Stonys, Kristine Briede, 2018)
Para um cinema que não existe mais.


89. McLuhan Esnobado: O Cínico Ocidental (Richard Altman, 2019)
Ao bombardeio, aos cliques e ao bombardeado.


88. Ridge (John Skoog, 2019)
Documento sobre o rigor.


87. No Portal da Eternidade (Julian Schnabel, 2018)
Respeito ao verdadeiro autor.


86. Esses Dias (André de Nervaux, 2019)
Jonas Mekas para Instagrammers.


85. The World is Full of Secrets (Graham Swon, 2018)
Whit Stillman dirige As Jovens Bruxas.


84. Atlantics (Mati Diop, 2019)
Espíritos antifascistas (ou Para Romero, com carinho)

83. Uma Corrente Selvagem (Nuria Ibañez, 2018)
Entre tensões.


82. Predadores Assassinos (Alexandre Aja, 2019)
Ao poder do mínimo.


81. So Long, My Son (Wang Xiaoshuai, 2019)
Em outros corpos e espíritos.


80. Ham on Rye (Tyler Taormina, 2019)
Mutações narrativas.


79. The Souvenir (Joanna Hogg, 2018)
Cinema: arte trambiqueira.


78. The Giverny Document (Single Channel) (Ja'Tovia Gary, 2019)
Pelo desejo de liberdade.


77. End of Season (Elmar Ivanov, 2019)
Um mistério para Pedro Costa.


76. Walden (Daniel Zimmerman, 2018)
Como e quando olhar.


75. Ghostbox Cowboy (John Maringouin, 2018)
Fitzcarraldo e o fim do neoliberalismo.


74. Alita: Anjo de Combate (Robert Rodriguez, 2019)
Mitologia Kitsch.


73. Forest Movie (Matthew Taylor Blais, 2017)
Do cinema estrutural ao filme de terror em 65 minutos.


72. El Angel (Luis Ortega, 2018)
Reler o cinema americano dos anos 60.


71. Pahokee (Patrick Bresnan, Ivete Lucas, 2019)
Ecos de Wiseman.


70. Vitalium, Valentine! (Jean-Charles Fitoussi, 2017)
Exumar e replicar. O sci-fi de Eugène Green.


69. Entre Facas e Segredos (Rian Johnson, 2019)
A mente do escritor.


68. Medo Profundo: O segundo Ataque (Johannes Roberts, 2019)
Movimento, luz e sangue.


67. Joan of Arc (Bruno Dumont, 2019)
Coreografias e monólogos de guerra.


66. Technoboss (João Nicolau, 2019)
Reger e ser regido.


65. Family Romance, LLC (Werner Herzog, 2019)
Ao digital.


64. Uma Casa à Beira-Mar (Robert Guédiguian, 2017)
Demolir um país.


63. La Mer du Milieu (Jean-Marc Chapoulie, 2019)
Godard reedita A Propósito de Nice.


62. Martin Eden (Pietro Marcello, 2019)
Realidade e retórica.


61. Killing (Shinya Tsukamoto, 2018)
Corpos em crise.


60. Greener Grass (Jocelyn DeBoer, Dawn Luebbe, 2019)
Monty Python no subúrbio americano.


59. I Do Not Care if We Go Down in History as Barbarians (Radu Jude, 2018)
História e estória.


58. Punk Samurai Slash Down (Sogo Ishii, 2018)
Ishii de volta à insanidade.


57. Fale Com Estranhos (Pedro Monte Kling, 2018)
Cortante exposição.


56. 中孚 61. Verdad interior (Sofía Brito, 2019)
Arte da prosa.


55. Doutor Sono (Mike Flanagan, 2019)
Luz, trevas e descarrego.


54. Casa (Letícia Simões, 2019)
Do intímo para um sentimento geral.


53. State Funeral (Sergey Loznitsa, 2019)
O fim de uma era e Intervalo de Harun Farocki.


52. Sibyl (Justine Triet, 2019)
Triet e a manipulação Hitchcockiana.


51. Autumnal Sleeps (Michael Higgins, 2019)
Epstein visita o inferno.


50. Deerskin (Quentin Dupieux, 2019)
Execrar o cinema clássico e a glória do cinema independente.


49. Estação do diabo (Lav Diaz, 2018)
Didatismo necessário.


48. O Traidor (Marco Bellocchio, 2019)
Retratação moral.


 47. Daniel (Marine Atlan, 2018)
O filme infantil de Brisseau.


46. O Laboratório (Fernando José Pereira, 2018)
A inglória luta diária.


45. Psychopaths (Mickey Keating, 2017)
French giallo.


44.O Olho e a Faca (Paulo Sacramento, 2018)
Khouri e Reichenbach discutem o Brasil.


43. Amazing Grace (Alan Elliott, Sydney Pollack, 2018)
Ritmo, ritual e uma cinebiografia definitiva.


42. Take me Somewhere Nice (Ena Sendijarević, 2019)
Divisa geométrica.


41. Um Homem Fiel (Louis Garrel, 2018)
Lovenoir.


40. A Cidade Escondida (Victor Moreno, 2018)
A Cidade é uma só?


39. Chorão: Marginal Alado (Felipe Novaes, 2019)
Sobre ser um personagem.


38. Auto de Resistência (Natasha Neri, Lula Carvalho, 2018)
Montagem como prova.


37. Danses Macabres, Skeletons, and other Fantasies (Rita Azevedo Gomes, Pierre Léon, Jean Louis Schefer, 2019)
Encontro de mestres.


36. Nocturne (Viktor van der Valk, 2019)
A consciência do realizador (ou Ford faz um sci-fi).


35. Mirante (Rodrigo John, 2019)
Do tédio ao esplendor.


34. Tommaso (Abel Ferrara, 2019)
Ferrara, myself.


33. The Forest of Love (Sion Sono, 2019)
Obsessão pela morte, sangue e cinema.


32. Era uma vez...em Hollywood (Quentin Tarantino, 2019)
Flutuar pela apoteose.


31. Vidas Duplas (Olivier Assayas, 2018)
Filme análogico, ética digital.


30. Corsario (Raul Perrone, 2018)
Pasolini procura os rostos de Cump4rsit4 e os corpos de P3nd3j05.


29. Bem-vindos a Marwen (Robert Zemeckis, 2018)
Zemeckis segue como um grande narrador.


28. Dor e Glória (Pedro Almodóvar, 2019)
O autor no divã.


27. The Beach Bum (Harmony Korine, 2019)
Tensionar a narrativa e destruir formalismos.


26. Um Filme de Verão (Jô Serfaty, 2019)
O mais próximo que chegamos de Prazeres Desconhecidos de Zhang-Ke.


25. Vermelha (Getúlio Ribeiro, 2019)
A grande novela masculina.


24. Étang Noirs (Pieter Dumoulin, Timeau De Keyser, 2018)
Sobreposição de gêneros cinematográficos.


23. O Fim da Viagem, o começo de tudo (Kiyoshi Kurosawa, 2019)
Liberdade arrebatadora.


22. John McEnroe: In the Realm of Perfection (Julien Faraut, 2018)
Cinema para Godard.


21. A Bread Factory (Patrick Wang, 2018)
Performance, imagem, palavra e a política dos autores.


20. Bacurau (Kleber Mendonça Filho, Juliano Dornelles, 2019)
À frontalidade.


19. Uncut Gems (Benny & Josh Safdie, 2019)
Mitomania e o conto da solidão no cinema noventista de Abel Ferrara.


18. O caso Richard Jewell (Clint Eastwood, 2019)
War on Errorism.


17. Diary of Rooftop Water Towers (Nobuyuki Asai, 2019)
No piscar dos olhos.


 16. Ad Astra (James Gray, 2019)
Um homem no espelho.


15. Filme Catástrofe (Paul Grivas, 2018)
Metodologia e maestria.


14. John Wick: Parabellum (Chad Stahelski, 2019)
Aos corpos em movimento e suas crises.


13. Demain et tous les autres jours (Noémie Lvovsky, 2017)
Organismos da imaginação.


12. Vitalina Varela (Pedro Costa, 2019)
Nas portas do purgatório.


11. O Irlandês (Martin Scorsese, 2019)
Musical em fade out.


10. Histoire(s) du Temp(s) (Eli Hayes, 2019)
Arqueologia das imagens.


09. 8 Caminhos para o Colégio (Jean-Marc Boulard, 2019)
Às leituras de Straub, Huillet e Godard.


08. Synonyms (Nadav Lapid, 2019)
Jesus não tem dentes no país dos banguelas.


07. Parasita (Bong Joon-Ho, 2019)
O fim da sensibilidade ou como dois mundos nunca se encontrarão.


06. A Mula (Clint Eastwood, 2018)
Autoretrato no reflexo do vidro.


05. Dragged Across Concrete (S. Craig Zahler, 2018)
Como a câmera guia os corpos - e a lei.


04. Alabastro (Jacques Perconte, 2018)
Pintar com glitch.


03. Vidro (M.Night Shyamalan, 2019)
O pedaço do mundo que crê.


02. A Portuguesa (Rita Azevedo Gomes, 2018)
A culpa como miragem.


01. La Flor (Mariano Llinás, 2018)
O prazer em narrar com exatidão.

O Irlandês (Martin Scorsese, 2019)


O êxito do cinema em dar intensidade às experiências teatrais ao potencializar o aspecto visual encontra uma lombada curiosa em O Irlandês. Aqui há a proximidade desses eixos, e o sentido de um não-isolamento no rigor da mise en scène com o mundo coagido por empresários e pela máfia criam um norte instigante. O Irlandês é uma espécie de musical em fade out, que se mostra qualificado em sua primeira hora apressada e que aos poucos toma consciência da passagem do tempo para seus personagens. O mundo preenchido pelo jazz e bluegrass sinaliza que está apto ao apagamento e Scorsese, obedecendo a cartilha do roteiro clássico, dedica os respiros finais a este desligamento geral - da vida e do legado, principalmente. O que cerca o filme, de certa maneira são alicerces comuns da filmografia de Scorsese: o pão, o vinho, as cores da bandeira. O que é intrínseco às questões éticas e morais num núcleo de ações deliberadamente indecorosas e seus detentores cobram princípios a todos que os cercam. Ali está a história da América do último século, nos ecos da primeira guerra e na compreensão de nova visão após a segunda, principalmente com a TV e imigrantes. Da construção de escândalos na penumbra para não chocar turistas e virar uma notícia que será diluída rapidamente. O que Scorsese filma é um tipo de pensamento que não coloca a bandeira a meio mastro e tampouco tem consciência que negar a morte não o torna imortal.

Um dia de Chuva em Nova York (Woody Allen, 2019)


Gatsby Welles diz: "É bom voltar à cidade!"

Como um filme de retorno a Manhattan, Woody Allen faz da atual adaptação de sua grife cômica a mais equilibrada entre em seus alicerces. A neura e sua afincada persona, espalhadas na trinca de protagonistas junto à cidade estão muito bem niveladas. Há muito o que dizer a respeito da escolha de nome e sobrenome do personagem de Timothée Chalamet, principalmente por seus cursos de autodestruição semelhantes a de Orson Welles e do cineasta inseguro que faz cinema de arte, mas o que prevalece aqui é o conjunto de esquetes e referências à recente polêmica de Allen com Mia Farrow, muito bem acobertadas pela trama que por natureza é dormente; A comicidade aqui é eixo para bocas taciturnas, colocando o que Allen faz de melhor à margem - os diálogos. O famoso "tapa com luva de pelica" fica mais evidente conforme o desfecho se aproxima e Nova York não é mais apresentada como o paraíso para os turistas e também dona de problemas, incluindo dias chuvosos e diretores neuróticos - e sempre haverá quem goste deles.

Coringa (Todd Phillips, 2019)


Há a tendência de sombrear o meio e manter a mensagem quando se fala da "nova" configuração do Coringa. Discute-se muitos os efeitos da violenta protuberância na manifestação, do personagem como grande representação de posturas e efeitos sociais através da vilania. Nota-se, por outro lado, que Coringa é um tipo de cinema feito na base da segurança, que sua tendência supostamente anárquica está guardada em molduras que Todd Phillips nunca atravessa. Há a noção de legado, do personagem de Joaquin Phoenix como um primeiro rei, de um trono deixado para tantos outros como Jack Nicholson e Heath Ledger e que a grande escolha deste filme é que ele esteja inclinado, entre seus limites, à performance. No espelho, nas danças, nas corridas e nos discursos, as fagulhas de uma discussão acerca da psique e de respostas imediatas no espectro social ficam em primeiro plano já nos primeiros minutos e o que se desenvolve a partir disso são maneiras de iniciar e terminar justificativas numa sensação vertiginosa até o um ato mais explícito, que vai do Édipo às relações afetivas e o fracasso profissional. Encarnar a essência é o que se tira de Coringa, mas estudá-la a fundo ou deslocar o pensamento lógico da sequência de imagens que o filme oferece não está como prioridade para Todd Phillips.

Era uma vez...em Hollywood (Quentin Tarantino, 2019)


O que há de mais interessante no filme novo do Tarantino é como ele se destitui a partir de certo ponto do filme de uma exumação do cinema, sua matéria-prima, e o utiliza muito mais como um suporte legítimo. Um filme que se resume a transformar seu exercício de performances como o simples ato da contemplação, da passividade exigida ao sentar-se em uma poltrona de cinema. As construções paralelas - de quem faz e de quem vê - aqui ganham valores equacionais e o filme ganha noções sobre o cinema muito interessantes. Talvez a mais válida e simplista delas é que Era uma vez...em Hollywood é uma observação da apoteose do cinema feita por gruas, como a máxima do olhar de Deus e como esta arte é a que mais se aproxima de Seu poder. Tarantino segue seu olhar fetichista mas dá a eles novos signos e o mais potente é como a forma aqui é inerente ao rigor sugerido, que só é mutável nos minutos finais como uma celebração geral à narrativa.

NOVO ENDEREÇO

 Amigos, agora estou neste endereço: www.7a1filmes.com/blog Deixarei este blog aqui como arquivo de quase 20 anos de blogs, sites e revistas...