Melhores Filmes de 2021

Os Primeiros Soldados de Rodrigo de Oliveira

 Um bom ano para o cinema apesar do caos que nos cerca. O critério para produzir esta lista é o mesmo de sempre: filmes lançados entre 2019 e 2021 vistos pela primeira vez. Espero que gostem e deixem seus comentários. 

English version here.

                                  100. Bad Luck Banging or Loony Porn (Radu Jude, 2021)                                                                                                        O apocalipse como sitcom na pandemia.

 
99. Playdurizm (Gem Derger, 2020) 
O filme de  horror de Gregg Araki.
 
 
98. Friends and Strangers (James Vaughn, 2021) 
Comédia mumblecore interpelada por um filme estrutural.
 
 
97. Piedra Noche (Iván Fund, 2021) 
O luto em Shyamalan.
 
 
96. The Restless (Joachim Lafosse, 2021) 
Esvaziar e preencher a dramaticidade.
 
 
95. A River Runs, Turns, Erases, Replaces (Zhu Shengze, 2021) 
O tempo no cinema estrutural.
 
 
94. Article 15 (Marie Reinert, 2021) 
Narrativa coletiva sugerida por uma bodycam.
 
 
93. Nature (Artavazd Peleshian, 2019) 
A beleza do início e o esplendor do fim.
 
 
92. For Roger (Aaron Bartuska, 2021) 
Vilania em questão.
 
 
91. Com Amor - Volume 1: 1987-1996 (Michael Pilz, 2021) 
Cartografia para Mekas.
 
 
90. Historia de lo Oculto (Cristian Ponce, 2020) 
O embrião e a transmissão do horror.
 
 
89. Summer (Vadim Kostrov, 2021) 
Proposta estrutural como ode ao cinema artesanal.
 
 
88. Barb & Star Go to Vista Del Mar (Josh Greenbaum, 2021) 
O mais próximo que chegamos de John Waters em muitos anos.
 
 
87. Coming Soon Last Days (Miguel Eek, 2021) 
Padecer em nome do cinema.
 
 
86. Madres Paralelas (Pedro Almodóvar, 2021) 
Almodóvar em extremos.
 
 
85. Ghosts From the Past (How History Got into Me) (Boris Lehman, 2021) 
Alma do autor atravessa o século das imagens.
 
 
84. Mia Misses Her Revenge (Bogdan Theodor Olteanu, 2020) 
É tudo verdade (versão mumblecore).
 
 
83. Smiley Face Killers (Tim Hunter, 2020) 
Anacronismo enquanto narrativa sobre um gênero cinematógrafico.
 
 
82. If I Were The Winter Itself (Jazmín López, 2020) 
Falência humana e a sobrevida do cinema.
 
 
81. Rock Bottom Riser (Fern Silva, 2021) 
Aparatos de um sci-fi.
 
 
80. The Scary of Sixty-First (Dasha Nekrasova, 2021) 
Polanski em todas as frestas.
 
 
79. The Girl and the Spider (Ramon Zürcher, Silvan Zürcher, 2021) 
Requintes de crueldade no processo de distanciamento em uma peça teatral.
 
 
78. Volume Morto (Kauê Telloli, 2019) 
Quando a simplicidade é muito eficaz.
 
 
77. Cow (Andrea Arnold, 2021) 
Objeto fantasma e voyeurismo.
 
 
76. The August Virgin (Jonás Trueba, 2019) 
Um verão francês em Madrid.
 
 
75. Castle Falls (Dolph Lundgren, 2021) 
Expansão de limites para um filme B.

 
74. The Voyeurs (Michael Mohan, 2021) 
O midnight movie de 2021.

 
73.The Philosophy of Horror: A Symphony of Film Theory (Péter Lichter, Bori Máté, 2020) 
O horror das imagens em decomposição.
 
 
72. Everywhere at the End of Time (Eden Poag, 2020) 
Arquivo e saúde mental em consonância. 
 
 
71. Freaky (Christopher Landon, 2020) 
Mediação entre gêneros.
 
 
70. The Death of a Home (Aaron Dylan Kearns, 2020) 
O despejo como um filme-pesadelo feito de sombras e texturas.
 
 
69. Wood and Water (Jonas Bak, 2021) 
Notar o mundo em movimento.
 
 
68. Taste (Bao Le, 2021) 
Pedro Costa dá um novo purgatório para Ventura.
 
 
67. One Shot (James Nunn, 2021) 
Ótima coreografia entre corpos e câmera.
 
 
66. Centro (Peter Azen, 2021) 
Inventário de memórias.
 
 
65. Strawberry Mansion (Kentucker Audley, Albert Birney, 2021) 
Um abraço em Joe Dante.
 
 
64. A Cidade dos Abismos (Pryscila Bettim, Renato Coelho, 2021) 
São Paulo caos.
 
 
63. El Cielo está Rojo (Francina Carbonell, 2020) 
Ao poder das imagens.
 
 
62. De Bakersfield para Mojave (James Benning, 2021) 
Precisão matemática.

 
61. Ste. Anne (Rhayne Vermette, 2021) 
A subversão está no dispositivo.
 
60. Drive My Car (Ryusuke Hamaguchi, 2021)
Emoções em conta gotas.

59. A Crônica Francesa (Wes Anderson, 2020) 
O musical do Sr. Hulot.

 
58. Lake Forest Park (Kersti Jan Werdal, 2021) 
A versão estrutural de Elefante de Gus Van Sant.
 
 
57. Întegralde (Radu Muntean, 2021) 
Horrores possíveis.
 
 
56. The Card Counter (Paul Schrader, 2021) 
Um filme-farsa para a nação da mentira.
 
 
55. Sombra (João Pedro Faro, 2021) 
Melancolia no grão.
 
 
54. The Brilliant Biograph: Earliest Moving Images of Europe (1897-1902) (William K.L. Dickson Emile Lauste Frank Roumen, 2020) 
Guia histórico.
 
 
53. Hold Me Back (Akiko Ohku, 2020) 
Solidão e ansiedade enfim inseridos à cultura.
 
 
52. Goodbye Mister Wong (Kiyé Simon Luang, 2020) 
Amor e relações de poder.
 
 
51. Free Time (Manfred Kirchheimer, 2019) 
As ruas de NY como campo para um filme-diário.
 
 
50. Os Diários de Otsoga (Miguel Gomes, Maureen Fazendeiro, 2021) 
Filme-processo e um novo mês a adorar.
 
 
49. Bronx (Olivier Marchal, 2020) 
A festa da queima de arquivos.
 
 
48. Voices in the Wind (Nobuhiro Suwa, 2020) 
Redenção emocional de um país.
 
47. Bergman Island (Mia Hansen-Løve, 2021) 
Ser corpo até virar filme.
 
 
46. A Dark, Dark Man (Adilkhan Yerzhanov, 2019) 
Representações em epítomes.
 
 
45. Wife of a Spy (Kiyoshi Kurosawa, 2020) 
Imagens de cinema como prova, entretenimento e salvação.
 
 
44. La Verónica (Leo Medel, 2020) 
A importância do primeiro plano para a geração Instagram.
 
 
43. Careless Crime (Shahram Mokri, 2020) 
Contemplar o futuro pela repetição do horror.
 
 
42. No Táxi de Jack (Susana Nobre, 2021) 
Memórias de uma vítima do capital.
 
 
41. Red Rocket (Sean Baker, 2021) 
Dialética da  malandragem em versão white trash.
 
 
40. Selfish Son (Aniello de Angelis, 2021) 
Um apartamento e muitos palcos para uma peça muito íntima.
 
 
39. Beyond the Infinite Two Minutes (Junta Yamaguchi, 2021) 
Comicidade em vórtex.
 
 
38. Os Primeiros Soldados (Rodrigo de Oliveira, 2021) 
Angústia permanente.
 
 
37. What do We See When We Look at the Sky? (Alexandre Koberidze, 2021) 
Elasticidade e anti-cerne num filme de amor. 
 
 
36. Mr.Bachmann and His Class (Maria Speth, 2021) 
Construção de uma nação.
 
 
35. It's a Summer Film! (Soushi Matsumoto, 2020)  
Por amor ao cinema. 
 
 
34. Bob Cuspe - Nós Não Gostamos de Gente (Cesar Cabral, 2021) 
Angeli no divã e os punks seguem vivos.
 
 
33. Higiene Social (Denis Côté, 2021) 
Um filme a dedicar-se às posições no quadro.
 
 
32. Petite Solange (Axelle Ropert, 2021) 
Rohmerism.
 
 
31. Piranhas (Claudio Giovannesi, 2019) 
Neogangsterism.
 
 
30. Liam Does Stuff: The Movie (Liam Bilsky, 2019) 
O filme-ensaio dos irmãos Farrelly.
 
 
29. Tempo (M.Night Shyamalan, 2021) 
Vida como matéria agenciadora de um exercício crítico.
 
 
28. Limbo (Soi Cheang, 2021) 
A cidade é um corpo que apodrece no lixo.
 
 
27. Esquí (Manque La Banca, 2021) 
Filme-OVNI: filme esportivo, documentário, horror.
 
 
26. Ataque dos Cães (Jane Campion, 2021) 
Sobre todos os tipos de fraqueza.
 
 
25. Four Seasons in a Day (Annabel Verbeke, 2021) 
Um pedaço de terra e o mundo lá fora.
 
 
24. Atlantis (Valentyn Vasyanovych, 2019)
 O poço da guerra.
 
 
23. The Velvet Underground (Todd Haynes, 2021) 
Rua 42 como ecossistema.
 
22. All Eyes of Me (Hadas ben Aroya, 2021) 
Breve encontro entre moral e natureza.
 
 
21. Matrix: Resurrections (Lana Wachowski, 2021) 
Atlas Mnemosyne para Neo; autoanálise e legado para Wachowski.
 
 
20. Accidental Luxuriance of the Translucent Watery Rebus (Dalibor Barić, 2020) 
O noir de Lewis Klahr.
 
 
19. Petite Maman (Céline Sciamma. 2021) 
Ingênuo medo da morte.
 
 
18. Annette (Leos Carax, 2021) 
Colocar a própria filmografia em contraste.
 
 
17.There Are Not Thirty-Six Ways of Showing a Man Getting on a Horse (Nicolás Zukerfeld, 2020) 
Pilares da cinefilia.
 
 
16. Alice and the Mayor (Nicolas Pariser, 2019) 
Precisão ao narrar a burocracia de uma rotina de trabalho. 
 
 
15. The Tale of King Crab (Alessio Rigo de Righi, Matteo Zoppis, 2021) 
Um western para o cavaleiro ébrio e o mito fantasma.
 
 
14. Capitú e o Capítulo (Júlio Bressane, 2021) 
Corpos raros, almas ordinárias e o édipo bressaniano.
 
 
13. Short Vacation (Kwon Min-pyo, Seo Han-sol, 2020) 
Um belo conto sobre amizade e férias.
 
 
12. Subterrânea (Pedro Urano, 2021) 
Um grande filme de detetive sobre a história do Rio de Janeiro.
 
 
11. Wheel of Fortune and Fantasy (Ryusuke Hamaguchi, 2021) 
O perfil da representação nas desestabilizações emocionais.
 
 
10. Azor (Andreas Fontana, 2021) 
O horror reside nas palavras.
 
 
09. Twelve Seasonal Films (Jorge Suárez-Quiñones Rivas, 2020) 
Um ano de experimentações.
 
 
08. Zero and Ones (Abel Ferrara, 2021) 
Apocalipse como alegoria.
 
 
07. Cry Macho (Clint Eastwood, 2021) 
O sacro e o político num coming of age de um nonagenário.
 
 
06. In Front of Your Face (Hong Sang-Soo, 2021) 
Estar vivo é demasiadamente literal.
 
 
05. Saxifraga, Quatro Noites Brancas (Nicolas Klotz, Elisabeth Perceval, 2021) 
Performances em um filme-cataclisma.
 
 
04. Monster Hunter (Paul W.S Anderson, 2020) 
Artificialidade, filosofia e mitologia.
 
 
03. Come Here (Anocha Suwichakornpong, 2021) 
Espírito mutante.
 
 
02. Memória (Apichatpong Weerasethakul, 2021) 
Pré e pós-ficção: o reencontro com Tio Boonmee.
 
 
01. Benedetta (Paul Verhoeven, 2021) 
Jesus abandona a autoria.

Pedro Tavares é integrante da Abraccine (Associação Brasileira de Críticos de Cinema) e da FIPRESCI, diretor e curador do Festival ECRÃ e mestrando em estudos contemporâneos das artes pela UFF-RJ. Dirigiu os filmes "Cena do Crime", "Escuro Horizonte", "Não se pode abraçar uma memória", "Protocolo Spikes", entre outros.

A Crônica Francesa (Wes Anderson, 2020)

 


A Crônica Francesa traz um desafio narrativo para Wes Anderson e o que ele faz com isso é uma boa surpresa. Dividido em três partes, o filme é um musical do Sr.Hulot como narrador. Um filme feito de interlúdios que flerta com diversos gêneros e abordagens do cinema e que de certa maneira não tira o ar cartunesco característico de Anderson dos últimos anos – menos infantil e caminhando para o amadurecimento, porém. Me chama atenção como Anderson aborda a nouvelle vague aqui. Com isso há o melhor uso de seu tradicional elenco estelar e gigantesco em muito tempo, com cada um claramente carregando um signo sobre arte e escrita. Da arte moderna ao comércio literário, Anderson não contesta e opta por apenas narrar – sábia decisão.  

Cry Macho (Clint Eastwood, 2021)

 Eu não sei como curar a velhice. 

É impressionante como Clint Eastwood no alto de seus 91 anos de idade faz de Cry Macho um filme coming of age. Certamente um filme de amadurecimento em via dupla e de múltiplas camadas a partir de visões filosóficas e políticas envolvendo o ex-cowboy Mike e o jovem Rafo, porém o que ganha destaque no filme é como sua abordagem quase protestante - nada realmente novo na filmografia de Eastwood - ganha novos contornos. Principalmente quando o realizador usa a delinquência, de modo geral, a colocar Mike como um Messias que ensina (e também aprende) como um norte ao livre arbítrio. É deste mesmo ponto que Clint permite que seu corpo sugira cenas de ação ou se apaixonar e até mesmo conformar-se com suas tragédias no espaço que o pede para não se conformar com o mundo. Cry Macho transporta o sacro para seus lugares mais políticos - é na divisa do México com os EUA que a ruptura se faz clara para outros fins. E nessas duas vias Cry Macho se faz como um filme de simbolismos e reversões pungentes sobre o agora.

Tempo (M.Night Shyamalan, 2021)

 

A História do Olho

Enquanto Tempo se faz o filme mais incisivo como análise social por seu escopo mais amplo diferentemente de filmes como A Vila, Fim dos Tempos e Depois da Terra, o que me parece mais pulsante é a posição do olhar na narrativa. O gênero novamente serve como uma casca para concepções intrigantes a cerca do cotidiano social - que vai da vida em família à sociedade como um todo. Um escopo colossal porém palatável quando o tempo age como matéria agenciadora de um exercício crítico que se publiciza através do horror, ou seja, do lado expositivo. Para isso é contundente a posição que Shyamalan dá ao olhar e como reforça, ao contrário dos outros filmes citados, como uma obra de autor, de sua intromissão explícita na sensorialidade  que alerta sobre Tempo ser um manifesto e também um filme, antes de tudo, aberto para artifícios e inventividade. Afinal, sua matemática sobre o maior de nossos recursos existenciais e suas incontáveis metáforas e dissoluções resumem a como utilizá-lo. E sempre com o olho, o mais manipulável dos sentidos.


ECRÃ 2021

 

Canções Engarrafadas 1-4 de Chloé Galibert-Laîné e Kevin B. Lee



Certamente estamos cansados de resumir nossas vidas às telas durante a pandemia. O que era novidade há um ano atrás hoje já parece um terreno defasado. No entanto, creio que o pensamento que me incentivou na construção da lista de longas e médias do ECRÃ foi de um conceito em movimento com interesse antropológico inerente ao momento que vivemos. Desta maneira sugiro algumas sessões duplas ou triplas com os longas e médias selecionados para o ECRÃ 2021. 

A começar, obviamente, por Ken Jacobs e seus filmes dO Céu Socialista. É interessante notar que em 2019 Jacobs revisita um ensaio sobre uma cidade a mudar de cara com um sentimento de luto. Sugiro assistir os dois em sequência e o segundo é bem curtinho, é possível ver sem grandes problemas. Uma sessão tripla interessante daria com o novo de James Benning, em estreia mundial no ECRÃ, De Bakersfield Para Mojave, Centro de Peter Azen e Natalis de Raquel Monteiro. São filmes que utilizam do mecanismo da observação para arquitetar a noção de um espaço a compartilhar, porém, todos eles, com pouca ou nenhuma presença humana, logicamente uma relação com o momentos que passamos. O filme de Peter e o de Raquel juntos não dão 2h, ou seja, dá pra acompanhar com o do Benning sem grandes problemas também.

Filmes que se especificam por exercícios de textura, ruídos e experimentações unidos à linguagem como 52 Filmes Curtos de Frances Arpaia, Benjamin Zambraia e Autopanóptico de Felipe Cataldo, Imagem da Percepção de Guli Silberstein e Mudando de Sonhos de Mariana Dianela Torres casam e são filmes curtos. O maior deles, o de Arpaia, tem pouco mais de 90 minutos. 

Canções Engarrafadas 1-4 de Chloé Galibert-Laîné e Kevin B. Lee me remete aos primeiros minutos de Videogramas de uma Revolução e fica evidente a influência que a dupla tem de Harun Farocki. Como é um filme pesado sobre o contemporâneo sugiro um alívio com Edição de Vídeos Digitais com Adobe Première Pro: Guia do Mundo Moderno Para Configurações e Fluxo de Trabalho, um desktop movie de horror muito interessante sobre linguagem, sobretudo. 

Sombra de João Pedro Faro, Saxifraga, Quatro Noites Brancas de Nicolas Klotz e Elisabeth Perceval e Ste. Anne de Rhayne Vermette dão bons filmes para um sábado à noite, cada um a sua maneira. O filme de João Pedro é livre em sua essência, algo entre O Anjo Nasceu e Trash Humpers versão juventude black metal. O filme de Klotz e Perceval é uma declaração distópica sobre o passado e um (in)consequente futuro. O filme de Rhayne utiliza muito bem de seus métodos e da bitola para narrar uma deslocamento familiar - no emocional e na espacialidade. 

Toda Luz que Podemos Ver de Pablo Escoto e S4D3 de Raúl Perrone usam do barroco como córrego para o pesadelo. O filme de Escoto através do analógico e o de Perrone pelo digital, dialogam com a fantasmagoria e de alguma maneira se completam no diálogo do vazio que o poder, no fim das contas, nos entrega. Outros dois filmes que me parecem complementares são o de Gustavo Vinagre, Desaprendendo a Dormir e o de Caetano Gotardo, Você Nos Queima. Dois filmes paulistas que dialogam com o estático e com o movimento, com a poesia e o rudimentar. 

Existem os filmes que precisam de um espaço exclusivo independente de suas durações. É o caso de Apyawã (Tapirapé) Iraxao Rarywa, um filme-ritual de pouco mais de 40 minutos que guarda muito sobre resistência e força. Outro caso é o de Eu Ando Sobre a Água de Khalik Allah, uma epopéia de 3h20 sobre a amizade do diretor com o morador de rua Frenchie, um filme muito abrangente e que serve também como um confessionário do diretor. O novo filme de Michael Pilz, Como Amor Volume 1: 1987-1996 é um filme-tributo a Mekas e principalmente ao ato de debruçarmos sobre os filmes com tamanha paixão. Talvez um filme para encerrar o domingo. Liminal, a coletânea de curtas de Philippe Grandrieux, Lav Diaz, Óscar Henriquez e Manuela De LaBorde, por serem tão díspares, exige seu próprio lugar. Já Icemeltland Park de Liliana Colombo é como uma reação nervosa à uma reportagem que estabelece o nosso fim. 

Termino com três filmes que dialogam diretamente com os corpos e espaços e cada um aborda filosoficamente e que cabem numa sessão tripla: A Última Imagem de Benedito Ferreira, Um Gato Sonha com o Norte de Diogo Oliveira e Venha Aqui de Anocha Suwichakornpong, filmes muito fortes sobre processo e arte. 

O ECRÃ acontecerá online e gratuitamente entre os dias 15 e 25 de julho em www.festivalecra.com.br. 

Bom festival a todos!




Monster Hunter (Paul W.S Anderson, 2020)

 

 

Paul W.S Anderson geralmente me derruba quando nivela mitologia e filosofia e não só exercita seu lado estético sempre artificial e rarefeito e que muitas vezes beira a cafonice com grande arrojo. São nos filmes notáveis da filmografia de Paul W.S Anderson como Pompéia, Alien Vs. Predador e Resident Evil: Retribution que este equilíbrio se mostra mais latente. Em Monster Hunter, logicamente há um peso forte de justificativas a partir do jogo que se adapta, mas é possível notar como a ideia de um novo mundo exigirá funções ainda básicas da filosofia do "nosso mundo". Na destruição e na possibilidade de (re)construção, na notável efemeridade da vida (não são poucos os planos que apequenam Artemis no quadro), na intercomunicação e na preservação de espaço que se designam ao próximo - aqui como contraponto ao inferno. Nesta ordem parece um filme presunçoso, mas a verdade é que este é o filme que W.S Anderson exibe mais suas influências de Tsui Hark e leva o espaço fantástico a um jogo criativo nada moderado de possibilidades no corte, nos simbolismos destes mundos e como eles funcionam, antes de tudo, como um filme de batalha.

NOVO ENDEREÇO

 Amigos, agora estou neste endereço: hellocinephilia.substack.com Deixarei este blog aqui como arquivo de quase 20 anos de blogs, sites e re...