
99. Undine (Christian Petzold, 2020)
Falseado como certeza de reanimação do amor. 
98. A Casa de Plástico (Allison Chhorn, 2019)
Nostalgia disfarçada de ação.
Melhores Filmes de 2020
On the Rocks (Sofia Coppola, 2020)
É interessante notar que o novo trabalho de Sofia Coppola é o que mais se apega aos personagens e concomitantemente se distancia de insinuações ao redor de uma definição concreta sobre a trama e sua moral. As comparações a Woody Allen são pertinentes, mas a versão Detective Story de Coppola para uma crise conjugal tem bases diferentes comparados aos mais recentes trabalhos de Allen. Negar a base criada em Felix, um playboy inconsequente antes de ser um pai, interpretado por Bill Murray, é contrariar todo o filme. É neste personagem e sua postura que pode criar confusão com relação ao sentido aguçado que Coppola nega à trama, pois quem está no divã é Laura, a protagonista, vivida por Rashida Jones. É dela o conflito com relação à produtividade, a vida moderna e o papel de mãe, mas é no pai, Felix, que o julgamento é implementado e serve como o motor para a segunda camada de On the Rocks. É na falsa harmonia que impera em absoluto em cada plano - há uma única cena que esta harmonia é quebrada, quando um restaurante tipicamente nova iorquino oferece um caos sonoro que tira do ar esta zona de conforto. Em suma, o filme é travestido de uma divertida narrativa de detetive em conluio à espécie de confronto à amenidade da vida moderna baseada em produção e relações descartáveis.
Estou Pensando em Acabar com Tudo (Charlie Kaufman, 2020)
Basicamente um filme de enganações. Vai da construção argumentativa como dialética a uma visão filosófica apresentada por códigos muito baratos ao completo embaraço. A prisão no tempo ou o mesmo tempo corrido dolorosamente necessitam do apelo que a historicidade da imagem possui, a lembrar que Kaufman usa literalmente Zemeckis e Cassavetes para se justificar. É curioso esse reducionismo do conflito mais extremo da mente humana à alegoria do verbo. Toda funcionalidade do primeiro ato, quando seus personagens seguem presos em um carro, com planos que dividem seus espaços geometricamente, se dá em como os pensamentos atravessam todo tipo de conversa e na ilustração mais simplória a confusão mental é didaticamente sacramentada. No mais, um vórtice muito superficial de tentativas mais gradativas de esgarçar a existência como um processo de envelhecimento doloroso a ponto de ser celebrada - provavelmente dos momentos mais toscos do cinema em 2020.
ECRÃ 2020
![]() |
| Prazeres Circunstanciais de Lewis Klahr |
Aproveitando que o ECRÃ esse ano será online por circunstâncias que nos deixam trancados em casa há meses para escrever um pouco sobre os longas e médias do festival no qual sou curador. Obviamente indico todos os 26 filmes da seleção, mas aqui pretendo resumir rapidamente caso o espectador precise de um norte para escolher. Como a proposta inicial era fazer o nosso tradicional panorama mundial de experimentações audiovisuais na Cinemateca do MAM, com a mudança de cenário, eu e Gabriel, curador dos curtas, decidimos seguir com ela via streaming e sugerirmos alguma sessões duplas através das redes sociais. Nessa lista tem filmes de Rotterdam, Berlim, Locarno, Tiradentes e Cinéma Du Reel, para citar alguns festivais, mas acredito a grife é o que menos interessa na hora de indicar ou falar sobre os filmes, mesmo que rapidamente.
Seguindo somente com os longas e médias, a primeira complementação óbvia é o de Telemundo do James Benning, figura carimbada no ECRÃ, com o filme da Sofia Brito, A Verdade Interior. Dá uma linda sessão, a começar com o filme da Sofia e o do Benning como produto final. Outra sessão interessante é A Densa Nuve, o Seio do Vinicius Romero com Estático Após o Verão do Eli Hayes. Os dois juntos dão uma espécie de tempestade e bonança de atmosfera e imagens, entre o caos e a melancolia. O mesmo posso dizer de Sono de Outono e Viagem Fantasma de Michael Higgins e Stephen Broomer, respectivamente. Neste caso, são filmes monocórdicos que intrinsecamente provocam um caos interno e a relação dos dois com a película é muito interessante.
Ariadne de Jacky Connolly e Pressão Atmosférica de Peter Treherne são dois médias que usam a tensão estética como o mote de seu desenvolvimento - seguem por caminhos diferentes, mas costumo dizer nas reuniões de curadoria que, se visto primeiro, o filme de Treherne é uma espécie de bad trip para a crise de pânico que é filme de Jacky Connolly. Feito majoritariamente em machinima com o jogo The Sims, o filme de Connolly tem uma sugestão ao horror muito interessante. Já o de Peter é um filme melancólico e mais próximo do que gostam de chamar de slow cinema - que tem sua parcela bem representada com A Casa de Plástico de Alisson Chhorn. Talvez uma sessão tripla com os três médias caia bem.
A união de experimentações e o discurso do pertencimento está em filmes como Calidris de Peter Azen, Cavalo de Rafhael Barbosa e Werner Salles, Estratos Fantasmas de Ben Rivers, O Documento Giverny (Canal Único) de Ja'Tovia Gary, É Rocha e Rio, Negro Leo de Paula Gaitán e A Forma do que Está por Vir de J.P Sniadecki e Lisa Malloy. Todos assumem o tom documental para debater questões raciais, imigratórias e espirituais. Diria que em comum todos eles tem uma força descomunal e têm ao menos uma sequência a levar por muito tempo na mente.
Outra tradição do ECRÃ é o diálogo direto com gêneros formalistas do cinema e que geralmente tem suas regras subvertidas: CidadeFantasma de Jon Cates, um filme narrativo feito majoritariamente de sobreposições e glitches e Sertânia de Geraldo Sarno, certamente o filme mais afiado da seleção. Filmes de imagens encontradas também são tradicionais no festival e sugiro a sessão dupla de Meu Pretzel Americano da Nuria Gimenez, uma espécie de carta-drama com imagens encontradas e 4lgunxs Pibxs do Raul Perrone, que usou seus arquivos para montar um filme sobre a juventude durante a quarentena. O filme do Erik Negro, Não Há Lado Sombrio eu recomendo que seja assistido sozinho, não pelo alto de seus 206 minutos, mas pela grande camada de informações que o filme oferece, com imagens do arquivo do próprio Erik, imagens de terceiros, músicas de diversas épocas, uma parabólica sensorial muito potente. E Eléonore Weber usa imagens de guerra para mostrar seus despropósitos em Não Haverá Mais Noite, um dos filmes mais fortes da seleção.
Gerações de Lynne Siefert é um filme estrutural apocalíptico que dá uma sessão interessante com Prazeres Circunstanciais de Lewis Klahr, quase uma antítese do filme de Siefert mas que colocam vida e morte em soslaio.
Encerro falando sobre os filmes narrativos com intervenções experimentais como Sofá de Bruno Safadi, Passou de Felipe André Silva e Revolução Lavanderia de Mark Chua e Lam Li Shuen, que sugiro como sessões de sábado à noite.
Torço para que aproveitem e vejam o máximo de filmes no ECRÃ.
Da 5 Bloods (Spike Lee, 2020)
Atirem no Pianista (François Truffaut, 1960)
Topsy-Turvy (Mike Leigh, 1999)
Never Rarely Sometimes Always (Eliza Hittman, 2020)
NOVO ENDEREÇO
Amigos, agora estou neste endereço: hellocinephilia.substack.com Deixarei este blog aqui como arquivo de quase 20 anos de blogs, sites e re...
-
O passado como conduíte da inevitável abordagem alegórica sobre sua resolução. Enquanto houver seus resquícios seguir adiante será uma a...
-
O tempo passa rápido. Ultimamente, mais rápido do que estamos acostumados. O réveillon foi anteontem, não? Enfim, é chegada a hora de divu...








































































































