Melhores Filmes de 2020


Ar Condicionado de Fradique

 
 
 Um ano atípico que pude me resguardar de certa forma nos filmes. Portanto, produzir esta lista foi um ato menos mecânico e a subjetividade me parece mais pulsante. O critério é o de sempre, da única regra ser de filmes lançados entre 2018 e 2020. Espero que gostem e deixem seus comentários.
 
 
100. Lulu Faustine (Stephen Broomer, 2020)
Esquematismo: conceito vs. imagem.


99. Undine (Christian Petzold, 2020)
Falseado como certeza de reanimação do amor.


98. A Casa de Plástico (Allison Chhorn, 2019)
Nostalgia disfarçada de ação.

97. The Half of it (Alice Wu, 2020)
Rashomon Netflix.
 
96. Fauna (Nicolás Pereda, 2020)
Todos os tipos de representação.

95. Belonging (Burak Çevik, 2019)
Ode ao narrador.
 
 
94. Alone (John Hyams, 2020)
Da atualização de Duel ao esteticismo dos corpos.
 
 93. Pig (Mani Haghighi, 2018)
O espelho para o autoritarismo e para o autor de cinema.
 
92. The Lovebirds (Michael Showalter, 2020)
O feel good movie do ano.
 
91. The Golden Age (Jean-Baptiste Alazard, 2020)
Brakhage dá forma a um filme de Reichardt.
 
 
90. You Have the Night (Ivan Salatić, 2018)
O sequestro da alma na ressaca moral.
 
89. Oferenda (Juan Mónaco cagni, 2020)
Tempo em medida.

88. Fatal Pulse (Damon Packard, 2018) 
À nostalgia de um fã de horror dos anos 90.

87. The Sky Socialist: The Environs (Ken Jacobs, 2019)
Nova Iorque a ferro e fogo.
 

86. Who Laughs in Hell (Liam Bilsky, 2020)
Korine finalmente vai ao inferno. 
 
85.Shiva Baby (Emma Seligman, 2020)
Todos os tipos de tensão.

 
84. We Are Little Zombies (Makoto Nagahisa, 2019)
Sion Sono para iniciantes.
 
83. Um Animal Amarelo (Felipe Bragança, 2020)
Macunaíma sucumbe ao golpe.
 
82. Cabeça de Nêgo (Déo Cardoso, 2020)
Brasil e seu necessário didatismo.
 
81. Le Pays (Lucien Monot, 2019)
Encenações sobre o separatismo francês.
 
80. Magic Lantern (Amir Naderi, 2018)
Tempo e amor: dois fantasmas de cinema.
 
79. It Feels So Good (Haruhiko Arai, 2019)
Corpos em erupção.

78. O Tango do Viúvo e seu Espelho Deformador (Raul Ruiz, 2020) 
Sombras do tempo como eixo para o horror.

77. Para Onde Voam as Feiticeiras (Carla Caffé, Eliane Caffé, Beto Amaral, 2020)
Intenso desajuste.
 
76. CidadeFantasma (Jon Cates, 2020)
Western e glitch art se encontram como meios possíveis. 
 
75. Luz nos Trópicos (Paula Gaitán, 2020)
De Pialat a Khalik Allah: entre a alvorada e o crepúsculo, a História.

74. Esperando Magrão (Fernando Costa, 2018)
Não há outro filme que emule Tarantino com tamanho sucesso.
 
73.Un Soupçon d'amour (Paul Vecchiali, 2020)
Gêneros cinematográficos e suas enganações.

72. Gloria Mundi (Robert Guédiguian, 2019)
Sitcom noir.
 
71. Saint-Narcisse (Bruce LaBruce, 2020)
O filme frances de LaBruce.
 
70. Estratos Fantasmas (Ben Rivers, 2019)
Crise de tempos em tempos.
 
69. A Densa Nuve, o Seio (Vinícius Romero, 2020)
O gameplay de Solomon.
 
68. Talking About Trees (Suhaib Gasmelbari, 2019)
Magia para contornar a morte.
 
67. Mapping Lessons (Philip Rizk, 2020)
Pelos arquivos, a implosão do sistema.
 
66. On Paradise Road (James Benning, 2020)
Autocitações.
 
65. Private Life (Tamara Jenkins, 2018)
Atualização dinâmica do cinema clássico.
 
64. The White Storm 2: Drug Lords (Herman Yau, 2019)
Yau e a consciência do formalismo.
 
63. All the Light We Can See (Pablo Escoto, 2020)
Deformidades no Straubfilme do ano.
 
62. Ghost Tropic (Bas Devos, 2019)
Delinear a solidão.
 
61. Dawn Breaking (Yang Fudong, 2018)
Narrativa de texturas e sobreposições.
 
60. Ordem Moral (Mário Barroso, 2020)
Bellocchio e a novela das efermidades.
 
59. The Man in the Woods (Noah Buschel, 2020)
Cinema político e o filme noir.
 
58. On the Rocks (Sofia Coppola, 2020)
Detective Story do ano.
 
57. Spring Blossom (Suzanne Lindon, 2020)
O impossível amor entre a dança jovial e a estagnação adulta.
 
56. Sertânia (Geraldo Sarno, 2019)
O cinema novo como análise e o princípio da milícia.
 
55. Victoria (Liesbeth De Ceulaer, Sofie Benoot, Isabelle Tollenaere, 2020)
Fé no deslocamento.
 
54. Rodson ou (Onde o Sol Não tem Dó) (Cleyton Xavier, Clara Chroma, Orlok Sombra, 2020)
Nick Zedd adapta William Gibson (ou o Brasil de 2020 é a distopia ideal).
 
53. Na Cabine de Exibição (Ra'anan Alexandrowicz, 2019)
Golpear a imagem para forjá-la.
 
52. Bottled Songs 1-4 (Kevin B. Lee, Chloé Galibert-Lâiné, 2020)
No espaço entre as imagens.
 
51. Never Rarely Sometimes Always (Eliza Hittman, 2020)
Onde a opressão opera silenciosamente.
 
50. O Índio Cor de Rosa Contra a Fera Invisível: A Peleja de Noel Nutels (Tiago Carvalho, 2020)
Humberto Mauro narra um extermínio.
 
49. Icemeltland Park (Liliana Colombo, 2020)
Aplaudir o fim do mundo.
 
48. The American Sector (Pacho Velez, Courtney Stephens, 2020)
Como o capital compra a história.
 
47. Lobster Cop (Li Xinyun, 2018)
Olhar afiado para a comicidade num filme de ação (e vice-versa).
 
46. Crime Sem Saída (Brian Kirk, 2019)
Na ponta da faca.
 
45. Sofá (Bruno Safadi, 2019)
Narrativa das artificialidades na rotina de colagens e política.
 
44. The Nightingale (Jennifer Kent, 2018)
Entre Ford e Reichardt.
 
43. The Assistant (Kitty Green, 2019)
Jeanne Dielmann e o cinema popular americano.
 
42. Forensickness (Chloé Galibert-Lâiné, 2020)
Todos os lados de uma imagem.
 
41. O Paraíso Deve Ser Aqui (Elia Suleiman, 2019)
Jacques Tati observa o mundo.
 
40. L. Cohen (James Benning, 2018)
À potencia da imagem e do som.
 
39. Crazy Samurai Musashi (Yoji Shimomura, 2020)
Samurai gameplay ou exercício de tensão e coreografias.
 
38. Canto dos Ossos (Jorge Polo, Petrus de Bairros, 2020)
O filme de vampiros de Sganzerla.
 
37. Ar Condicionado (Fradique, 2020)
Memórias de um país em queda livre.
 
36. The Head Hunter (Jordan Downey, 2018)
Tensão em contra-planos.
 
35. 1982 (Lucas Gallo, 2019)
Como a tela molda a História.
 

34. s01e03 (Kurt Walker, 2020)
O mundo das imagens não rejeita o mundo da lógica.
 
33. Jay and Silent Bob Reboot (Kevin Smith, 2019)
Um divertido "Kevin-meta-Smith".
 
32. Frankie (Ira Sachs, 2019)
O filme português de Sang-Soo.
 
31. Meu Pretzel Mexicano (Núria Gimenez, 2019)
Controle sobre imagens, narrativas e fantasmas.
 
30. Lovers Rock (Steve McQueen, 2020)
Potência nos corpos, vozes e músicas.
 

29. Isabella (Matías Piñeiro, 2020)
Deslocamentos em Shakespeare. 
 
28. A Vastidão da Noite (Andrew Patterson, 2019)
Imaginação de Spielberg e voz de Shyamalan.
 
27. The Berlin Bride (Michael Barlett, 2020)
Aos fantasmas do cinema mudo.
 
26. Ontem Havia Coisas Estranhas no Céu (Bruno Risas, 2020)
Jeanne Dielman pela Filmes de Plástico.
 
25. Light From Light (Paul Harrill, 2019)
O romance de Shyamalan.

24. The Tree House (Truong Minh Quy, 2019)
Um lugar como identidade.

23. The Whistlers (Corneliu Porumboiu, 2019)
Um filme de emboscada à distância.
 
22. I Wish I Was Like You (Luca Onorati, Francesco Gargamelli, 2019)
Nostalgia palpável.
 
21. White Noise (Antoine D'Agata, 2019)
A morte na moldura.

20. É Rocha e Rio, Negro Leo (Paula Gaitán, 2020)
Brasil, 2020.

19. Fanny Lye Deliver'd (Thomas Clay, 2019)
A vingança de Cristo.
 
18. I Was at Home, But... (Angela Schnalec, 2019)
Para os que devoram e não observam (e vice--versa).

17. Ariadne (Jacky Connolly, 2019) 
Uma crise de pânico por David Lynch.

16. O Sal das Lágrimas (Philippe Garrel, 2020)
Rohmer narra a solidão do cafajeste.
 
15. Gênero Pan (Lav Diaz, 2020)
Capital belicoso na saga da morte.
 
14. Dias (Tsai Ming-Liang, 2020)
Dois corpos: um filme tão frio quanto o mundo que registra.

13. Atarrabi & Mikelats (Eugène Green, 2020) 
Culpa para Cristo e alegorias para o diabo.


12. Red Moon Tide (Lois Patiño, 2020)
Entre o barroco e o cyberpunk, um sci-fi polido por adereços.
 
11. Siberia (Abel Ferrara, 2020)
Divã no inferno.
 

10. Love Poem (Xiaozhen Wang, 2020)
114 minutos dedicados ao rigor e à performance.
 
09. First Cow (Kelly Reichardt, 2019)
Subverter princípios do velho oeste.
 
08. Her Socialist Smile (John Gianvito, 2020)
Rejeitando a lógica no mundo das imagens.
 
07. A Metamorfose dos Pássaros (Catarina Vasconcelos, 2020)
Relendo cartas de Straub e Huillet.
 
06. The Woman Who Ran (Hong Sang-Soo, 2020)
Mulher-gato.
 
05. Blood Machines (Seth Ickerman, 2019)
Homem dúvida vs. Máquina certeza no mundo do frame-porn.
 
04. Love Affair(s) (Emmanuel Mouret, 2020)
Aprimoramentos na alma.
 

03. Telemundo (James Benning, 2018)
Um filme pré-histórico. O fim da prosa e o início da representação.
 
02. Não Haverá Mais Noite (Éléonore Weber, 2020)
Um sorriso para Paul Virílio.
 
01. City Hall (Frederick Wiseman, 2020)
A cidade se locomove subterraneamente.

On the Rocks (Sofia Coppola, 2020)

  


É interessante notar que o novo trabalho de Sofia Coppola é o que mais se apega aos personagens e concomitantemente se distancia de insinuações ao redor de uma definição concreta sobre a trama e sua moral. As comparações a Woody Allen são pertinentes, mas a versão Detective Story de Coppola para uma crise conjugal tem bases diferentes comparados aos mais recentes trabalhos de Allen. Negar a base criada em Felix, um playboy inconsequente antes de ser um pai, interpretado por Bill Murray, é contrariar todo o filme. É neste personagem e sua postura que pode criar confusão com relação ao sentido aguçado que Coppola nega à trama, pois quem está no divã é Laura, a protagonista, vivida por Rashida Jones. É dela o conflito com relação à produtividade, a vida moderna e o papel de mãe, mas é no pai, Felix, que o julgamento é implementado e serve como o motor para a segunda camada de On the Rocks. É na falsa harmonia que impera em absoluto em cada plano - há uma única cena que esta harmonia é quebrada, quando um restaurante tipicamente nova iorquino oferece um caos sonoro que tira do ar esta zona de conforto. Em suma, o filme é travestido de uma divertida narrativa de detetive em conluio à espécie de confronto à amenidade da vida moderna baseada em produção e relações descartáveis.

Estou Pensando em Acabar com Tudo (Charlie Kaufman, 2020)


 

Basicamente um filme de enganações. Vai da construção argumentativa como dialética a uma visão filosófica apresentada por códigos muito baratos ao completo embaraço. A prisão no tempo ou o mesmo tempo corrido dolorosamente necessitam do apelo que a historicidade da imagem possui, a lembrar que Kaufman usa literalmente Zemeckis e Cassavetes para se justificar. É curioso esse reducionismo do conflito mais extremo da mente humana à alegoria do verbo. Toda funcionalidade do primeiro ato, quando seus personagens seguem presos em um carro, com planos que dividem seus espaços geometricamente, se dá em como os pensamentos atravessam todo tipo de conversa e na ilustração mais simplória a confusão mental é didaticamente sacramentada. No mais, um vórtice muito superficial de tentativas mais gradativas de esgarçar a existência como um processo de envelhecimento doloroso a ponto de ser celebrada - provavelmente dos momentos mais toscos do cinema em 2020.

ECRÃ 2020

Prazeres Circunstanciais de Lewis Klahr
Prazeres Circunstanciais de Lewis Klahr

Aproveitando que o ECRÃ esse ano será online por circunstâncias que nos deixam trancados em casa há meses para escrever um pouco sobre os longas e médias do festival no qual sou curador. Obviamente indico todos os 26 filmes da seleção, mas aqui pretendo resumir rapidamente caso o espectador precise de um norte para escolher. Como a proposta inicial era fazer o nosso tradicional panorama mundial de experimentações audiovisuais na Cinemateca do MAM, com a mudança de cenário, eu e Gabriel, curador dos curtas, decidimos seguir com ela via streaming e sugerirmos alguma sessões duplas através das redes sociais. Nessa lista tem filmes de Rotterdam, Berlim, Locarno, Tiradentes e Cinéma Du Reel, para citar alguns festivais, mas acredito a grife é o que menos interessa na hora de indicar ou falar sobre os filmes, mesmo que rapidamente.

Seguindo somente com os longas e médias, a primeira complementação óbvia é o de Telemundo do James Benning, figura carimbada no ECRÃ, com o filme da Sofia Brito, A Verdade Interior. Dá uma linda sessão, a começar com o filme da Sofia e o do Benning como produto final. Outra sessão interessante é A Densa Nuve, o Seio do Vinicius Romero com Estático Após o Verão do Eli Hayes. Os dois juntos dão uma espécie de tempestade e bonança de atmosfera e imagens, entre o caos e a melancolia.  O mesmo posso dizer de Sono de Outono e Viagem Fantasma de Michael Higgins e Stephen Broomer, respectivamente. Neste caso, são filmes monocórdicos que intrinsecamente provocam um caos interno e a relação dos dois com a película é muito interessante. 

Ariadne de Jacky Connolly e Pressão Atmosférica de Peter Treherne são dois médias que usam a tensão estética como o mote de seu desenvolvimento - seguem por caminhos diferentes, mas costumo dizer nas reuniões de curadoria que, se visto primeiro, o filme de Treherne é uma espécie de bad trip para a crise de pânico que é filme de Jacky Connolly. Feito majoritariamente em machinima com o jogo The Sims, o filme de Connolly tem uma sugestão ao horror muito interessante. Já o de Peter é um filme melancólico e mais próximo do que gostam de chamar de slow cinema - que tem sua parcela bem representada com A Casa de Plástico de Alisson Chhorn. Talvez uma sessão tripla com os três médias caia bem. 

A união de experimentações e o discurso do pertencimento está em filmes como Calidris de Peter Azen, Cavalo de Rafhael Barbosa e Werner Salles, Estratos Fantasmas de Ben Rivers, O Documento Giverny (Canal Único) de Ja'Tovia Gary, É Rocha e Rio, Negro Leo de Paula Gaitán e A Forma do que Está por Vir de J.P Sniadecki e Lisa Malloy. Todos assumem o tom documental para debater questões raciais, imigratórias e espirituais. Diria que em comum todos eles tem uma força descomunal e têm ao menos uma sequência a levar por muito tempo na mente.

Outra tradição do ECRÃ é o diálogo direto com gêneros formalistas do cinema e que geralmente tem suas regras subvertidas: CidadeFantasma de Jon Cates, um filme narrativo feito majoritariamente de sobreposições e glitches e Sertânia de Geraldo Sarno, certamente o filme mais afiado da seleção. Filmes de imagens encontradas também são tradicionais no festival e sugiro a sessão dupla de Meu Pretzel Americano da Nuria Gimenez, uma espécie de carta-drama com imagens encontradas e 4lgunxs Pibxs do Raul Perrone, que usou seus arquivos para montar um filme sobre a juventude durante a quarentena. O filme do Erik Negro, Não Há Lado Sombrio eu recomendo que seja assistido sozinho, não pelo alto de seus 206 minutos, mas pela grande camada de informações que o filme oferece, com imagens do arquivo do próprio Erik, imagens de terceiros, músicas de diversas épocas, uma parabólica sensorial muito potente. E Eléonore Weber usa imagens de guerra para mostrar seus despropósitos em Não Haverá Mais Noite, um dos filmes mais fortes da seleção.

Gerações de Lynne Siefert é um filme estrutural apocalíptico que dá uma sessão interessante com Prazeres Circunstanciais de Lewis Klahr, quase uma antítese do filme de Siefert mas que colocam vida e morte em soslaio. 

 Encerro falando sobre os filmes narrativos com intervenções experimentais como Sofá de Bruno Safadi, Passou de Felipe André Silva e Revolução Lavanderia de Mark Chua e Lam Li Shuen, que sugiro como sessões de sábado à noite. 

Torço para que aproveitem e vejam o máximo de filmes no ECRÃ.

 

Da 5 Bloods (Spike Lee, 2020)




Como um filme de resgate, referências e reverências, é importante notar que Da 5 Bloods começa com o mesmo mecanismo que Infiltrado na Klan se encerra. As imagens como argumento que dão ao novo filme de Spike Lee a ideia de uma sequência e revisita. A revisita pode ser literal quando ex-combatentes da guerra dos EUA no Vietnã voltam ao local do confronto e frontal como um impaciente suspiro que leva o diretor a contar mais uma vez uma história de intolerância pela ciência em ser um assunto, infelizmente, ainda atual. Mais frontal, obviamente, com o raciocínio que o passado respinga no presente de forma mais incisiva quando assim deseja, e por outro lado, orquestra um tipo de relação que está mais para um filme do Linklater que do próprio Lee que tanto narrou histórias nas ruas de Nova York. A evidência mais clara da contemporaneidade deste discurso está no protagonista Paul, representação de concomitância de interesses do eleitor de Donald Trump. Enquanto esta relação mais fluída entre personagens se emparelha às brechas que Spike Lee utiliza como discurso e imagem - são diversas as referências e passam longe da inovação em sua filmografia, ficam os momentos realmente diretos à câmera. Por lógica, a diluição deles se encontra em todos os cantos do filme, mas o que realmente empolga são os momentos-reflexo que Lee encurrala seu filme no quadro, esquece o jogo de passado e presente e as trocas de janelas de exibição para jogar seus enunciados de maneira cristalina. Da 5 Bloods pode ser mera justificativa para momentos como este - e que valem muito.

Atirem no Pianista (François Truffaut, 1960)



Texto originalmente publicado no catálogo da mostra "François Truffaut em 35mm - Uma semana de cinefilia". 

A marca da maldade
Por Pedro Tavares

Atirem no Pianista abre com uma perseguição fantasma no qual um homem se choca com um poste e é salvo por um transeunte. O encerramento abrupto da noção de uma narrativa que se construiria se choca com um novo córrego, transferido para este homem que ajuda o fujão a se levantar. Um rápido papo entre eles sobre vida matrimonial até o virar da esquina. Aqui está o cerne do filme de Truffaut. A fuga e a questão moral.

A cena que abre o filme facilmente remete ao longa que batiza este texto, dirigido por Orson Welles dois anos antes de Atirem no Pianista. O diretor francês curiosamente armava aqui uma dicotomia entre diferentes formalismos. Atirem no Pianista, que é baseado na obra homônima do autor noir David Goodis, na mesma medida em que impulsiona o diálogo com o que viria a ser chamado de grande referência da nouvelle vague com Jules e Jim em 1962, usa a matéria-prima do film noir, na construção da dúbia relação mocinho-vilão e principalmente pela latente questão moral que permeia cada cena. Nela, o princípio da dúvida toma proporções crescentes, aqui numa economia atroz de elementos do gênero – das sombras às armas – como se Truffaut estivesse realmente interessado na transposição da aura de um sentido que lhe é comum ao noir como gênero literário e cinematográfico. 

As regras do jogo não são totalmente violadas quando estamos diante de alicerces muito importantes para o film noir como o desejo, a traição e a chantagem. Enquanto este córrego é extremamente funcional, é importante lembrar que Truffaut tinha um filme “de montagem” a ser feito e usa este artefato como contraprova tenaz a seus personagens como um simples comentário irônico ou como um corte que não simboliza apenas o “passar do tempo” e sim a solução de um caso policial. 

François Truffaut estava na equipe da revista Cahiers du Cinéma quando a chamada “política dos autores” foi debatida e defendida por nomes como Jean-Luc Godard, Jacques Rivette e Eric Rohmer, indo contra a opinião de um dos fundadores da revista, o crítico e editor-chefe André Bazin. Nesta leva de defesa de diretores como Howard Hawks, John Ford e Alfred Hitchcock, um filme como Atirem no Pianista serve como um encaixe-argumento muito curioso por parte de Truffaut. Afinal, aqui temos um filme de “gênero” que tanto se questionava e feito nos moldes do “real”, do possível para estes realizadores ainda na ressaca do pós-guerra. Esta duplicidade de formas e como o filme justifica uma terceira imagem a partir de um debate que perdura até os dias de hoje sobre o autor no cinema, coloca Atirem no Pianista como um filme ímpar na carreira de Truffaut, ainda que esteja sempre sobre certa sombra de outros grandes filmes como Os Incompreendidos e Domicílio Conjugal.

Topsy-Turvy (Mike Leigh, 1999)

 Texto escrito para o catálogo online da Mostra 1999 que aconteceu em Agosto de 2019.



Corpos em crise 

Em 1999 o realizador britânico Mike Leigh chega ao apogeu de seus métodos: como diretor de cinema e de teatro, Leigh concatena conflitos e corpos com o espaço munido de olhar cirúrgico. Também costuma ornamentar, em filmes específicos, o mundo de um olhar barroco. Topsy-Turvy (1999) é uma espécie de alicerce geral de sua filmografia. Daí a importância de se considerar o filme numa retrospectiva de filmes do último ano do século. 

Em Topsy-Turvy, estes corpos que mais parecem perdidos em seu espaço cênico têm funções distintas: há, para Leigh, um peso fundamental no pensamento da autoria – o diretor e o compositor como opositores e também como duplos em prol do funcionamento de um mundo impossível – aqui numa bizarra leitura ocidental sobre o oriente. É dela que o suporte maior do filme reside.  

Topsy-Turvy é um desencadeamento monocórdico de eventos ao redor do mundo do teatro, mas que engloba tantas outras artes que entroniza o cinema como a única possível de uni-las de forma orgânica, capaz de oferecer unidade às informações visuais, o segundo grande eixo da filmografia de Leigh. Ao cinema também é dado o poder de pontuar, desta vez de forma mais complexa, de um sintoma geral que possui estes corpos a caminhar, ensaiar e ansiar pela realização. Gerar, para Leigh, é o norte, a espinha-dorsal deste mundo sempre abraçado por quatro paredes, que curiosamente é respeitado à risca como no cinema clássico. A câmera nunca será maior que seus objetos de estudo e tampouco de sua matéria-prima.

 Portanto, este encontro do formalismo e do objeto, ou seja, de dois efeitos notáveis do cinema e do teatro, respectivamente, é um sinal muito particular para Leigh; dele que se justifica a observação feroz dos gestos e dos anseios como um anticlímax geral e contraste às cartilhas narrativas do cinema dito de “grande alcance”, no qual Leigh se encontrava pela sequência notável de filmes feita na década de 90 com títulos como Segredos e Mentiras (1996), Naked (1993), A Vida é Doce (1990), entre outros. Há de se notar que os dois métodos utilizados por Leigh foram afiados com o tempo e assim continuam até o momento. Exemplos recentes como Mr. Turner (2014) e Another Year (2010) exibem estas diferentes vertentes que tem como encontro destacado justamente em Topsy-Turvy. É uma espécie de celebração das escolas adotadas por Leigh como autor. O controle do espaço e da força visual, e há de se notar o talento de Leigh para as duas bordas – e Topsy-Turvy sempre será a definição principal.

Never Rarely Sometimes Always (Eliza Hittman, 2020)


A primeira reação diante de Never Rarely Sometimes Always por parte de crítica foi a de comparação ao olhar mundo-cão dos Dardennes. Porém, no filme de Hittman há um equilíbrio muito interessante sobre ser uma adolescente enquanto se costura um discurso sobre o silenciamento feminino na sociedade contemporânea. Ainda que o filme se agigante quando as meninas colocam os pés em Nova York, tanto pela força dos dois caminhos narrativos como pelas imagens filmadas em 16mm, Hittman se mostra interessada no conto de uma jovem que esboça maturidade para decisões árduas como exibe uma imaturidade atroz para escrever sua história. Ao redor, prédios gigantes como fantasmas financeiros, masculinos e que manterão Autumn sempre desperta pelo tempo que precisar.

NOVO ENDEREÇO

 Amigos, agora estou neste endereço: hellocinephilia.substack.com Deixarei este blog aqui como arquivo de quase 20 anos de blogs, sites e re...