O cinema é fonte de entretenimento e também serve como válvula de escape para mensagens e pontos de vista sobre situações particulares. Enquanto o fantasma da guerra do Iraque (ou "Operação Liberdade do Iraque", como preferir) não se afastar de vez dos Estados Unidos, veremos obras que refletem sobre tal fato. Alguns vão direto ao ponto como Guerra ao Terror e Guerra Sem Cortes. Outros são mais subjetivos como Avatar e agora, Ilha do Medo, de Martin Scorsese.
Travestido como um thriller (como deveria ser, pois se trata da adaptação do livro de Dennis Lehane), o filme narra a busca de um ex-enviado de guerra que atua como detetive para a polícia pelo suposto assassino de sua esposa dentro de um manicômio. Aos poucos, Scorsese dá uma nova concepção para o medo e a insanidade, sintomas comuns de quem esteve ou está em uma guerra, seja ela qual for. Teddy Daniels, vivido por Leonardo DiCaprio se imerge em uma vertiginosa saga, onde sua maior certeza é uma dúvida. Para construir o clima de suspense, Scorsese não esconde as influencias de Hitchcock, principalmente no início do longa. Aos poucos, o filme ganha marcas autorais e toma um viés esquizofrênico para metralhar alusões à situação vivida pelos Estados Unidos e muda o ritmo de sua narrativa, para melhor.
Nesse momento é quando o filme nos faz duvidar da índole de todos os personagens e consegue com êxito usar antigas artimanhas do suspense, como instigar a curiosidade do espectador e também novos macetes como a sugestiva inserção do sobrenatural, mas não se afasta de um mal comum do cinema americano: o herói individualista. Por outro lado, não menos interessante, está a subjetividade na direção de Scorsese para dar ênfase a uma mensagem anti-guerra sem patriotismo ou radicalismos ao prender em seus fios narrativos ao terror psicológico e colocar a instabilidade emocional como catalisador da trama.
★★★★
Ilha do Medo (Shutter Island, EUA, 2009) de Martin Scorsese