ILHA DO MEDO

ilha do medo 

O cinema é fonte de entretenimento e também serve como válvula de escape para mensagens e pontos de vista sobre situações particulares. Enquanto o fantasma da guerra do Iraque (ou "Operação Liberdade do Iraque", como preferir) não se afastar de vez dos Estados Unidos, veremos obras que refletem sobre tal fato. Alguns vão direto ao ponto como Guerra ao Terror e Guerra Sem Cortes. Outros são mais subjetivos como Avatar e agora, Ilha do Medo, de Martin Scorsese.

Travestido como um thriller (como deveria ser, pois se trata da adaptação do livro de Dennis Lehane), o filme narra a busca de um ex-enviado de guerra que atua como detetive para a polícia pelo suposto assassino de sua esposa dentro de um manicômio. Aos poucos, Scorsese dá uma nova concepção para o medo e a insanidade, sintomas comuns de quem esteve ou está em uma guerra, seja ela qual for. Teddy Daniels, vivido por Leonardo DiCaprio se imerge em uma vertiginosa saga, onde sua maior certeza é uma dúvida. Para construir o clima de suspense, Scorsese não esconde as influencias de Hitchcock, principalmente no início do longa. Aos poucos, o filme ganha marcas autorais e toma um viés esquizofrênico para metralhar alusões à situação vivida pelos Estados Unidos e muda o ritmo de sua narrativa, para melhor.

Nesse momento é quando o filme nos faz duvidar da índole de todos os personagens e consegue com êxito usar antigas artimanhas do suspense, como instigar a curiosidade do espectador e também novos macetes como a sugestiva inserção do sobrenatural, mas não se afasta de um mal comum do cinema americano: o herói individualista. Por outro lado, não menos interessante, está a subjetividade na direção de Scorsese para dar ênfase a uma mensagem anti-guerra sem patriotismo ou radicalismos ao prender em seus fios narrativos ao terror psicológico e colocar a instabilidade emocional como catalisador da trama.

★★★★
Ilha do Medo (Shutter Island, EUA, 2009) de Martin Scorsese

CORAÇÃO LOUCO

 

Adaptado do livro homônimo de Thomas Cobb, Coração Louco é um filme de detalhes, que apresenta seus conflitos de maneira clara, mas os desenvolve de forma abstrata. A coluna da trama é a frustração. Dela surgem diversos nichos sentimentais do tal coração de Bad Blake, um músico de pequeno porte na cena country, interpretado com maestria por Jeff Bridges.

Como um diário de turnê, o filme se assume como um road movie que enquanto registra a dança dos dias, também exibe a consciente autodestruição de Blake. A direção do estreante de Scott Cooper surpreende por ser minimalista. Cooper se limita até em usar elementos de cena justificáveis, uma sabia decisão para salientar a explosão sentimental em momentos decisivos para a trama.

Sem verborragias ou insinuações maiores, o filme de Cooper prefere mostrar como Blake mantém uma aparência tranqüila, mesmo que sua vida seja decadente. A incansável mente do músico é desconstruída com grande sensibilidade pelo o que existe em seu envolto.

A mente de Blake é explosiva, pois 57 anos se passaram e ele se vê sem um porto seguro. A incapacidade de lidar com suas frustrações deixou rastros pela vida do músico e de quem está por perto. O alarme havia tocado na sua casa, ou seja, na estrada. Nela, foram deixados sonhos, humilhações, a saúde e até um filho. Coração Louco também é sobre redenção; sobre dar alguns passos para trás e recomeçar.

★★★★
Coração Louco  (Crazy Heart, EUA, 2009) de Scott Cooper

O SEGREDO DE SEUS OLHOS

 

Alguns eventos são devastadores em nossas vidas. Deixam tantos rastros que por vezes é impossível viver o presente. Mas para deixarmos o passado literalmente para trás, enfrentar seus fantasmas seja a melhor maneira. A premissa que O Segredo de Seus Olhos carregava era de um filme sobre um acerto de contas, mas ao fragmentar o tempo na narrativa não apenas para registrar a redenção de um homem, mas para discutir leis e valores dentro de um thriller, a adaptação do romance de Eduardo Sacheri ganha novas interpretações.

O diretor Juan José Campanella bebe da decadência característica dos personagens dos filmes noir e do ritmo de filmes de ação americanos para traçar uma trama completa e claustrofóbica. Nela, a pena de morte é citada em alguns momentos, mas é atrelada a cada quadro do filme que também discute o abismo entre as palavras “existência” e “vivência” com bons diálogos e movimentos de câmera precisos.

Mas Campanella se importou apenas com o lado ativo. Por isso, O Segredo de Seus Olhos é um filme que se preocupa em condensar ritmo e intensidade dramática, com subtexto pesado, mas não menos instigante que o thriller que digerimos. Para viver, passamos por momentos extremos, intensos, onde tomamos decisões precipitadas e colhemos seus frutos. Existe o tempo para o arrependimento e a busca de um novo caminho, para outros, a existência torna-se um martírio por viver cativo das conseqüências de seus atos.

Em certo momento do filme, a torcida grita “academia” diversas vezes em um estádio de futebol, já profetizando a indicação do filme ao prêmio de melhor filme estrangeiro na cerimônia do Oscar. Coincidência ou não, o filme tem tudo que a academia gosta: é um filme que agrada a quem digere uma obra aos poucos de forma contemplativa (por enriquecer o subtexto e suas tramas paralelas) e também aqueles que procuram um filme como uma diversão escapista (um thriller bem amarrado e romanceado). Pena, que no meio do caminho, havia uma fita branca...

★★★★
O Segredo de Seus Olhos (El Secreto de Sus Ojos, Argentina/Espanha, 2009) de Juan José Campanella

UM HOMEM SÉRIO


Dizer que o trabalho dos irmãos Coen é sinônimo de qualidade chega a ser óbvio, mas em Um Homem Sério arrisco a dizer que os diretores chegaram ao auge de suas carreiras. Neste conto sobre a passividade totalmente revestido de deboches, Joel e Ethan Coen conduzem o longa com tamanha maestria que fica impossível não se impressionar com a plástica do filme. Sim, a plástica é incrível, mas o que me levou a fazer tal afirmação no início do texto é como eles conseguiram amarrar a beleza e o texto e justificá-los para logo depois tirar sarro da linguagem do cinema.

Joel e Ethan podem gozar de tais mecanismos, mas o alvo principal é de quem consome esta linguagem. Eles fragmentam conflitos e até desistem de contar histórias, pois se for preciso, eles darão uma justificativa aleatória para lembrar que eles podem fazer o que bem entendem. O mais incrível dessa gigantesca alfinetada é que ela é elaborada e executada no silêncio e usam o protagonista Larry Gopnik, intepretado por Michael Stuhlbarg, como um espelho de nossa passividade.

Gopnik é um judeu que tenta seguir normas e manter a paz ao seu redor, mas serve como um receptor de desgraças ao se relacionar com manipuladores a todo instante. Se Gopnik propositalmente lembra a jornada de Jesus Cristo, os irmãos Coen usam a manipulação para representar o princípio básico da linguagem audiovisual. A história de Gopnik dá margem para uma narrativa dinâmica, que não deixa imunes valores e costumes da sociedade que são exaltados pela direção de Joel e Ethan. É assustadora a composição de quadros e movimentos de câmera para acentuar emoções.

Toda beleza e sarcasmo de Um Homem Sério são necessários para uma contemplação livre, pois metáforas são freqüentes na trama. A maior e mais brilhante delas, na última cena do filme, é para lembrar que no cinema, Deus está sentado na cadeira de diretor.

★★★★★
Um Homem Sério (A Serious Man, EUA, 2009) de  Joel e Ethan Coen

EDUCAÇÃO

 

Não é de hoje que o cinema questiona os moldes da vida ideal imposta pela sociedade. A diretora Lone Scherfig não coloca explosivos conflitos para buscar uma óbvia lição de moral em Educação, pelo contrário, ao longo do filme ela faz um caminho oposto e deixa claro que sua intenção é de mostrar com certa indiferença um momento específico da vida que pode trazer consequências para a protagonista Jenny por tomar uma decisão na qual os jovens não têm maturidade necessária para tal e mostrar o desvio de um caminho aparentemente perfeito.

Até onde um jovem pode alimentar-se de desejos que vão além dos costumes de um cidadão padrão? As incógnitas tão batidas em filmes deste segmento são logo eliminadas por Lone, que novamente usa a indiferença à conflitos e resoluções surpreendentes, pois Educação é exatamente sobre isso: subverter valores da dramatização. O filme não impõe um crescente envolvimento do espectador. No lugar de macetes comuns do cinema, ficam as sugestões dentro de uma história linear, mas que ainda se agarra em clichês narrativos para caminhar.

Dentro desses clichês, a trama desbrava um novo mundo para Jenny e deixa brechas desnecessárias para que a previsibilidade transpareça mais que transição da adolescência para a vida adulta. Lone Scherfig conseguiu mesmo com tropeços exaltar sua intenção maior: manifestar-se sobre os limites de idade e maturidade para se aventurar e se “educar” por conta própria, de colher e plantar e saber as consequências de cada ato. De aprender pela dor e pelo amor.

★★★
Educação (An Education, Inglaterra, 2009) de Lone Scherfig

UM OLHAR DO PARAÍSO

 

Provavelmente nenhum outro tema dê tantas opções para sua desconstrução quanto a morte. Em Um Olhar do Paraíso, Peter Jackson explora a ligação sobrenatural de Susie, uma menina brutalmente assassinada e sua família, mas não sabe bem por qual via seguir para concretizar uma visão sobre o luto e a perda na adaptação da obra de Alice Sebold.

Jackson separa sua trama em dois núcleos de maneira tão brutal que ambos perdem forças. O drama psicológico vivido pela família de Susie tem seus fios narrativos presos à tensão, no qual o diretor chega a criar sequências que remetem ao velho Peter Jackson de Fome Animal. Quando as câmeras se aproximam de Susie, a trama ganha plástica fantasiosa para apresentar o óbvio, que é um novo, mas nada convincente mundo. Dessa vez, nos aproximamos de Jackson conhecido pela trilogia Senhor dos Anéis.

A equivalência desses dois extremos é irregular. Buracos são deixados propositalmente para que esses mundos se completem de forma lírica, mas não evita a pieguice, pois logo onde o filme teria sua força maior - que é a de explorar o desconhecido -, é onde o filme tem suas maiores falhas. A força que a trama onde Mark Wahlberg e Rachel Weisz protagonizam possui é absurdamente superior à tentativa de Jackson de fazer um paralelo da vida e a morte para desconstruir-las de forma contemplativa com toda ajuda da pós-produção.

Mas seria um exagero dizer que Um Olhar do Paraíso é uma sucessão de erros. O filme levanta a discussão sobre males contemporâneos e o valor da vida. Sendo mais claro, o filme acerta justamente quando Jackson resolve largar as amarras do peso de seu passado e busca inovar na sua maneira de fazer cinema.

★★
Um Olhar do Paraíso (The Lovely Bones, EUA/Inglaterra/Nova Zelândia, 2009) de Peter Jackson

BRILHO DE UMA PAIXÃO

 

Em algum momento da sua vida você assistiu alguma novela que enclausurava lições de moral em relação aos valores familiares, um amor impossível e uma história de mocinho e bandido num mesmo roteiro. Brilho de Uma Paixão é exatamente isso, uma trama novelesca, com a vantagem de se resolver em duas horas e não cair num labirinto que tem compromisso com a popularidade de cada personagem. A história do poeta John Keats reúne elementos básicos na construção de roteiros e por eles, tenta resgatar diretrizes lacrimosas do melodrama. Mas o resultado é desastroso.

O ponto de partida logicamente é o amor impossível, que curiosamente a diretora Jane Campion mantém certa distância para não exacerbar suas intenções sentimentais. Dificuldades financeiras e a abstrata (e ótima) figura de um vilão são os maiores contratempos para esse caso acontecer. Talvez por quebrar esse paradigma de um romance, Campion impede a total imersão na história, mas utiliza todos os clichês possíveis do gênero para construir seu roteiro.

Sendo assim, a trama cai na armadilha da pieguice romântica: entre poesias e momentos de desespero pela ausência de sua alma gêmea, a única coisa que Campion arranca de seu público é a vergonha alheia. Ela ensaia um novo caminho para o filme em sua segunda metade quando faz pequenas metáforas à materialização do amor, mas que logo são esquecidas. Infelizmente, as intenções da diretora alimentaram irregularidades irreversíveis para a trama que só desce a ladeira conforme o tempo passa.

A coibição da natural evolução de um sentimento transparente como o amor poderia se transformar numa angustiante e envolvente história, mesmo num molde melodramático, mas toda a distância sugerida serve como uma catapulta para a atenção do espectador.

★
Brilho de Uma Paixão (Bright Star, Inglaterra/Austrália/França, 2009) de Jane Campion

PRECIOSA - UMA HISTÓRIA DE ESPERANÇA

 

Em um plano geral, Preciosa - Uma história de Esperança, segundo filme da carreira de Lee Daniels é sobre um mal comum que assola países considerados de primeiro mundo: a deturpada escolha de prioridades. Se a idéia principal na narrativa de Lee Daniels tem foco no inevitável inconformismo gerado por situações extremas na vida de Clareece Precious, o diretor não se priva em adotar o cunho social e deixar claro que o filme carrega uma bandeira panfletária.

A assistência social dos EUA não está num pedestal, mas aparece de uma nova forma para o público ao ajudar aqueles que têm como prioridade o marasmo – comer, ver TV e dormir. Neste solene quadro, os demônios são exaltados pelo vasto tempo livre. Clareece Precious é vítima deste modelo de vida. E o pior, não por iniciativa dela. Ela é violentada de diversas maneiras e sobra a inconsciente conseqüência de ver a vida com um olhar rústico, pessimista. Ela guarda respostas grosseiras para qualquer situação como defesa, com aval de um radical pré-julgamento.

Por trás do escudo, Precious guarda um sentimento primordial para sua vida no meio de tantas tragédias: o amor. Nele, ela tem poder para sonhar, mesmo que a realidade a interrompa bruscamente. Este conto de perseverança vem em forma linear e de certa forma, óbvia, criando uma dormência perante as fatalidades emocionais e físicas de Precious. Mas Daniels tem um afiado elenco jogando a favor, que aos poucos ganham a materialização de um sentimento em relação à protagonista.

Quando o filme assume uma estética artesanal, com correções de foco e planos enquanto a cena acontece, a proximidade com a realidade é natural e uma força bruta é adicionada à Preciosa - Uma história de Esperança. São nesses momentos que o filme tem suas emoções alavancadas, debates sugeridos e ganha momentos memoráveis.

★★★
Preciosa - Uma história de Esperança  (Precious: Based on the novel "Push" by Sapphire, EUA, 2009) de Lee Daniel

ZUMBILÂNDIA

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Se a palavra de ordem é diversão, Zumbilândia é um prato cheio. Rodeado de clichês do gênero "terrir" e caminhando pelo legado de Edgar Wright (Todo Mundo Quase Morto), o que o diretor Ruben Fleischer faz é um trabalho com extrema excelência, pelo menos nos elementos estéticos. Preso a dois personagens estereotipados, o filme cria suas dobraduras quando Wichita (Emma Simpson) e Little Rock (Abigail Breslin) entram em cena e conseguem fugir um pouco da previsibilidade do texto, mesmo que seja por pouco tempo.

A história é a de sempre: Narrado em primeira pessoa por Columbus (Jesse Einsenberg), que é um dos poucos sobreviventes ao ataque de zumbis nos EUA. Ele encontra Tallahassee (Woody Harrelson) e segue para um lugar que até então é imune à presença dos mortos-vivos. Fleischer doma não só a narrativa muito bem, mas aspectos de som, maquiagem, cenografia, fotografia e timing dando a impressão de Zumbilândia ser um filme completo em sua proposta.

É de fato completo, mas também não tem o temor em mergulhar em clichês e parecer como uma releitura de outros filmes. Fleischer sabe aproveitar bem as situações para recriá-las com bom uso da tecnologia. Até mesmo uma pequena homenagem à Os Caça Fantasmas existe, com a presença de Bill Murray.

Zumbilândia não tem a intenção de satisfazer fãs de terror, pelo contrário, com a escassez de brutalidade, a epidemia que se dilacera pelos EUA toma outro rumo. Na fuga para o lugar onde os zumbis não existem, a trama evita em encaixar temas em seu subtexto ou diálogos subjetivos, pois o que Fleischer quer mesmo é incentivar o riso com personagens caricatos, boas piadas e boa técnica.

★★★
Zumbilândia (Zombieland, EUA, 2009) de Ruben Fleischer

INVICTUS

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Numa pesquisa recente, Clint Eastwood foi considerado o cineasta  mais popular pelos americanos. Não é a toa que o diretor tenha toda essa confiança do público. Ele tem a noção de quando ou não deve ter cautela para costurar os conflitos em seus personagens e como construir seus filmes sem manter cacoetes. Em Invictus, seu trigésimo filme na direção, Eastwood se abstém de maiores macetes para deixar implícita a manipulação do cinema, mas sabe bem usá-las em momentos oportunos.

Por exemplo, o diretor usa uma artimanha nostálgica para nos convencer de que Nelson Mandela é aquele que vemos na tela, quando se trata de Morgan Freeman (brilhante, por sinal). Estamos falando primeira sequência do filme. E funciona. Mandela saiu da prisão pronto para disseminar a luta pela igualdade num invejável exercício de perdão. Após 27 anos dentro de uma cela, ele achou a saída certa para ao menos trazer esperança para um país dividido pelo Apartheid. Eastwood sabia a força que a história carregava, por isso escolheu que suas câmeras servissem apenas de testemunhas, só as libertando para tornar o filme em um espetáculo visual quando fosse conveniente para a narrativa.

A ousadia do então novo presidente foi de se aproximar de um esporte trazido pelos colonizadores ingleses, onde os brancos eram soberanos em sua prática e para piorar o quadro, não apresentavam bons resultados. Invictus é sobre uma jogada social e psicológica de Mandela. Só dele. Por isso Eastwood tem essa postura de se esconder atrás da grandiosidade dos fatos, com a tarefa de narrar apenas, abandonando a construção de personagens e conflitos maiores para se focar apenas na aura que ronda a tensão do momento.

A marca autoral está em poucas, porém antológicas cenas em que Eastwood nos lembra que estamos à mercê de surtos emocionais a qualquer momento. Na verdade, isso não importa, pois a esta altura já estamos totalmente vencidos pelo impacto sugerido pela história que Eastwood comanda com louvor: simples, direta, e emocionante.

★★★★
Invictus (Idem, EUA, 2009) de Clint Eastwood

CHÉRI

 

Baseado no romance da escritora francesa Colette, Chéri trás o diretor Stephen Frears com mãos leves e com uma sobriedade descomunal para registrar uma visão tragicômica sobre um amor impossível. Seja lá qual tenha sido a intenção de Frears, o que o diretor conseguiu foi se afastar de uma linguagem batida dentro de um gênero.

Aos olhos de qualquer um, o romance entre uma ex-prostituta que vive de fortunas deixadas pelos seus falecidos amantes e um jovem mulherengo era impossível. Guiado por uma narração bem humorada, os boicotes ao casal parecem conseqüências ordinárias de um tempo onde a posição social valeria mais que a própria felicidade.

Seja pela própria mãe de Chéri ou de seus vizinhos, a constante dúvida que o casal levava mesmo com seis anos de relação vem à tona com tal pressão, colocando valores em cheque e dando à Frears a abertura necessária para explorar uma linguagem peculiar, focado no humor, com diálogos que apostam no descaso ou no deboche. Esse é o grande trunfo do filme, que faz a via contrária do que estamos acostumados a ver. O diretor questiona as motivações do casal para cultivar o romance estruturando seu filme entre a tragédia e o total escracho.

Se a postura do casal é de manter um jogo de sedução ou uma aula de amor, não importa para Frears que alimenta uma posição fria em relação à eternidade de um casamento. Com uma direção de arte deslumbrante e boas atuações, inclusive Michelle Pfeiffer que parece voltar à forma, Chéri é um delicioso conto sobre o desespero de quem ama, mas não tem base e muito menos maturidade para conviver com as responsabilidades que o amor exige.

★★★★
Chéri(Idem, Inglaterra/França/Alemanha, 2009) de Stephen Frears

AMOR SEM ESCALAS

 

Agendas lotadas, pressa, ostentação e muitos voos. Some a isso comidas artificiais, distanciamento e responsabilidades. Jason Reitman resolveu colocar a contemporaneidade em uma balança de forma bem humorada, sem apelar para um escape romântico ou um núcleo especialmente cômico em Amor Sem Escalas. Por outro lado, Reitman esnoba a natural maturidade de quem dirige seu terceiro filme para seguir uma “descolada” e já senil fórmula ao apresentar seus personagens longe de uma imunidade emocional.

Se eles mantêm relações plastificadas com a desculpa de não distorcer suas rotinas ou o que preferem chamar de “vida real”, lá está o posicionamento da autodefesa sob um cínico olhar, principalmente de Ryan Bingham, vivido por George Clooney que ganha seu salário para demitir funcionários de empresas afetadas pela crise que massacra os Estados Unidos. Por outro lado, existe a eminência de se viver bem acompanhado e usufruir o que a vida oferece de melhor, mesmo que tal realização seja assumidamente falsa.

A montagem eficaz mostra como Ryan exerce com louvor sua função, viajando e colecionando milhas aéreas como se fosse levá-las para uma próxima vida. Toda essa fidelidade de Ryan à sua empresa carrega uma profundidade interessante para discutir esse desapego a valores comuns para adotar uma vida afogada em compromissos profissionais. Por outro lado, quando Reitman trata de assuntos emocionais, o diretor aposta em saídas batidas e diálogos frouxos.

Essa separação brutal em dois núcleos cria uma irregular equivalência de valores sentimentais e profissionais, que o diretor espera para uni-los em um momento apropriado – nada mais clichê que isso – deixando gritante a intenção principal do roteiro. Amor Sem Escalas não inova ao que diz respeito à filmografia de Reitman, mas possui ótimas idéias para ser um bem humorado alerta sobre a cartilha do bon vivant dos dias atuais.

★★★
Amor Sem Escalas (Up in the Air, EUA, 2009) de Jason Reitman

ONDE VIVEM OS MONSTROS

 

Tente se lembrar de quando você tinha oito ou nove anos de idade. Toda aquela excitação de constantemente mergulhar em um mundo novo que raramente era entendido no primeiro contato. Aliás, entender é algo nada comum nesta idade; seja com seus pais, com o próprio corpo e muito menos com o que acontece fora de sua própria bolha, ou seja, sua própria imaginação. E é para dentro do imaginário do menino Max que Spike Jonze nos leva em Onde Vivem os Monstros, filme baseado na obra de Maurice Sendak.

Dono de seu próprio mundo, Max pode dormir na hora em que quiser e até mesmo fazer construções mirabolantes com a ajuda de seus amigos monstros, estes que guardam em si sentimentos em ebulição para materializar conflitos da vida adulta, pois Onde Vivem os Monstros é justamente sobre isso: crescer. Mesmo que não se compreenda o que esteja acontecendo no fim das contas. Jonze tem a sensibilidade aguçada para não afastar sua trama de uma fantasia palatável para o público mais novo, provavelmente atraído pela figura dos simpáticos monstrinhos.

Entre brutais conflitos sem nenhuma lição de moral para os adultos, o filme guarda momentos singelos que podem capturar atenção dos mais novos e aflorar um espírito nostálgico para os mais velhos. A imaginação de Max nos convida a um mergulho contemplativo, onde solidão, família, amor e amizade conduzem fios narrativos sob a sempre bem humorada e ao mesmo tempo rigorosa visão do diretor.

Se cada monstro é um ser composto por sentimentos tortos, o que eles fazem  de melhor é proteger um tempo que fica guardado em nós para sempre - a infância, provavelmente a melhor fase de nossas vidas. O importante é lembrar onde os monstros vivem diariamente: dentro de nós, protegendo essa fase tão bonita.

★★★★
Onde Vivem os Monstros (Where The Wild Things Are, EUA, 2009) de Spike Jonze

VÍCIO FRENÉTICO

 

Em um tempo que seqüências e remakes dominam o mercado cinematográfico, o que levaria um mestre como Werner Herzog a entrar nesse time? A chance de fazer uma irônica desconstrução da decadência americana. Herzog arruma um meio de deixar o filme com marcas autorais, como movimentos de câmera nada sutis e planos criativos.

A decadência pode ser explicitamente americana, mas as críticas pingam em todos nós. A releitura de Vício Frenético (1992) é um retrato fiel de uma sociedade que arruma problemas para conseguir viver, que é viciada em vícios e que para se sentir livre tem que ser refém de algo ou alguém. Essa é a vida do policial corrupto Terence McDonagh, vivido por Nicolas Cage em forma que há muito tempo não se via. Terence tem em sua consciência o alerta de que vive no extremo, mas é fraco o bastante para lutar contra suas fraquezas.

Essa é a chance de Herzog colocar em cheque a hipocrisia e a integridade de uma nação sob a pele de um homem, sem fazer disso um dramalhão ou adotar as características de um thriller; O diretor prefere a linearidade, utilizando a câmera como voyeur de um triste cotidiano, aproveitando as aventuras lisérgicas do policial de forma surreal.

Mesmo com todos os anseios de fuga de linguagem e aspectos técnicos batidos, Vício Frenético tem em suas entranhas todos os clichês de filmes de ação. Seja lá qual for a intenção de Herzog em mantê-los, o frescor de uma releitura é trocada por redundantes e previsíveis seqüências em certos momentos.

★★★★
Vício Frenético (The Bad Lieutenant: Port of Call - New Orleans, EUA, 2009) de Werner Herzog

LULA, O FILHO DO BRASIL

 

Depois de acusações de oportunismo eleitoreiro e distorção de visões e motivações políticas, Lula enfim chega aos cinemas. Chega e não arremata grandes marcas, pois a visão dos fatos que Fábio Barreto entrega vem com os dois pés fincados em aspectos melodramáticos pobres.

Lula, o Filho do Brasil é a história de um homem comum. Da infância sofrida até a luta pelos direitos da classe operária, toda a intenção de desbravar o homem que hoje nos representa vem mastigada para o espectador sob a imposição de uma trilha sonora quase fúnebre. Barreto o mostra em momentos de descontração e de tristeza, mas nunca muda seu ponto de vista e muito menos se afasta de Lula, talvez para não deixar nosso inconsciente trabalhar, pois o peso da obra vem de sabermos quem é, de fato, o tal Luiz Inácio. A narrativa, por se aproximar demais do protagonista, inibe diálogos maiores de coadjuvantes, como Lindu, personagem vivida por Glória Pires de forma primorosa.

Tal escolha leva Barreto a um bem necessário: O endosso e posicionamento de bons diálogos. Mas seu proceder é falho, pois volta e meia eles caem na previsibilidade ou num jogo de cintura para cumprir obrigações contratuais, sem se importar muito em acumular os fatos e sim comprar uma indulgente  corrida contra o tempo.

No geral, Lula, o Filho do Brasil consiste em uma série de elipses que registram momentos mais relevantes da vida do presidente – alguns desconhecidos e delicados o bastante para não ganhar um aprofundamento maior para evitar discussões políticas – carregados significativamente de elementos cinematográficos manipuladores, mas sem conseguir fugir da pieguice de um frágil melodrama.

★★
Lula, o Filho do Brasil (Idem, Brasil, 2010) de Fábio Barreto

NOVO ENDEREÇO

 Amigos, agora estou neste endereço: hellocinephilia.substack.com Deixarei este blog aqui como arquivo de quase 20 anos de blogs, sites e re...