COMPRAMOS UM ZOOLÓGICO


Revestido da aura noventista que consagrou a carreira de Cameron Crowe com filmes como Say Anything e Singles – Vida de Solteiro, Compramos um Zoológico transpassa para as telas o livro homônimo de Benjamin Mee onde o próprio autor conta o escapismo de algumas fases do luto pela morte de sua esposa ao associar o trabalho de revitalização de um zoológico na Califórnia.

Edificante, o longa é preciso ao abordar a negação à morte e a intensidade das lembranças que logo se tornam conflitos entre Benjamim (Matt Damon) e seu filho Dylan (Colin Ford). A leveza da descoberta de um mundo de múltiplas oportunidades – remetente direto ao ideal americano que entroniza o trabalho como uma aventura em sua essência e alusória ao tom do reencontro com o patriotismo após 11/09 -, ganha perspectivas dicotômicas que pautam, no fim das contas, a maturidade e o amor fraterno.

A fuga do caos de uma metrópole se espelha na metafórica doença de um tigre no zoológico batem de frente à organicidade do filme de Crowe, que está mais preocupado em arrancar o melhor de seu elenco; desde a pequena e ótima Maggie Elizabeth Jones aos calejados Scarlett Johansson e Matt Damon. Esta irregularidade é vista por toda a duração de Compramos um Zoológico, que imprime à Crowe uma gama de sequências que desembocam na idéia de otimismo em relação ao recomeço. Um ode aos velhos em legitimidade.

★★★
Compramos um Zoológico (We Bought a Zoo, EUA, 2011) de Cameron Crowe

TUDO PELO PODER

Na sequência que representa a ambiguidade do poder – onde o governador Mike Morris (George Clooney) enfrenta uma turbulência no vôo a caminho de mais um debate político, o também diretor George Clooney dilui a representação do candidato à eleição presidencial: Morris se transforma ali numa figura frágil e substituível para o comitê do partido. Tudo pelo Poder coloca em pauta a luta pelo controle. Afinal, este é o ingrediente que sustenta as campanhas políticas. E ele é totalmente abstrato em época de eleições.

A partir desta idéia, uma teia é construída – sempre pelos diálogos reforçados que sintetizam diversas tonalidades de persona – envolvendo dignidade e integridade na disputa. Cada personagem, num elenco com nomes de porte como Philip Seymour Hoffman, Marisa Tomei, Evan Rachel Wood e Paul Giamatti, é esquadrinhado e padronizado no sentido de referência e representação.

Como pilar da história está Stephen Myers (Ryan Gosling), que serve como peça-chave para desconstrução imagética da lealdade em tempos de interesses exclusivamente políticos. Nesta situação, um erro pode tomar proporções gigantescas, envolvendo a imprensa, renúncias de cargos e sumiços de bodes expiatórios a partir de um jogo de chantagens e escândalos – com o reforço da interação de elementos plásticos que transparecem o estado emocional de cada personagem em pequenos detalhes, como o desatar do nó de uma gravata e o desvio de um olhar.

Clooney desenha com ritmo e riqueza de detalhes um filme que segue o estatuto de sua temática, o que em nenhum momento implica que Tudo pelo Poder fuja da originalidade e inovação de perspectiva de convicções e referências.

★★★★
Tudo Pelo Poder (The Ides of March, EUA, 2011) de George Clooney

As melhores cenas do cinema em 2011

É dada a largada para as nossas listas de fim de ano. As dez cenas inesquecíveis no cinema em 2011 (de filme produzidos entre 2010 e 2011) estão listadas abaixo (sem ordem preferencial e sim, Melancolia e A Árvore da Vida estão fora!), mas utilizando critérios técnicos e líricos para composição. Alguns filmes foram exibidos apenas em festivais pelo Brasil, portanto, caso você não conheça algum, clique no link, leia a crítica e procure-o!

 
O tsunami em ALÉM DA VIDA

 
O jantar em HOMENS E DEUSES

 
O show em OS MONSTROS

 
A transformação em CISNE NEGRO

 
Bianca e a parede em RISCADO
 
A primeira tempestade em O CAVALO DE TURIM

 
O encontro com o homem sem nome em RANGO

 
A vingança em BELLFLOWER

 
A primeira fuga em DRIVE

 
Salvador Dalí e Luis Buñuel em MEIA NOITE EM PARIS

Na próxima semana (para ser exato no dia 26/12) divulgaremos nossa lista com os melhores do ano (incluindo Melhor Ator, Atriz, Coadjuvantes, Roteiro, Filme, etc.) Aguardamos os seus comentários!

TRIÂNGULO AMOROSO


O amor como antagonista em Triângulo Amoroso esfria as motivações castradas pela saturação do tema e colocam o filme de Tom Tykwer (Corra, Lola, Corra) na invariável pauta existencialista. Seus protagonistas vivem silenciosamente as frustrações de uma relação fria que desenvolve carências e pessimismo em relação ao futuro.

Com referências a Uma Mulher para Dois de François Truffaut a sua própria filmografia, Tykwer mostra que o processo é natural: encontrar o oposto, completar um ciclo, mesmo que para isso tenhamos que correr riscos. O que está no gene nos matará de alguma forma.

Tykwer faz questão de transformar o âmago de sua história em cartada estilística, o que após alguns filmes faz a característica se tornar obviedade. A falta de sobriedade distancia os personagens mais que o permitido. O prazer carnal cria conflitos flutuantes, que cercam o cerne da história, mas nunca encontram o real – representado pela figura de Adam, um homem que não sabe o que quer da vida, fora se relacionar com o maior número de pessoas que puder. E Triângulo Amoroso pode ser sintetizado pela quase ditatorial e fetichista estética de Tykwer com a falsa idéia de bem-estar que o casal Simon e Hanna vive: da frivolidade à profundidade que as obrigações matrimoniais e até mesmo fraternais exigem, por um choque, colocam livre arbítrio e destino em harmonia.

★★★
Triângulo Amoroso (3, Alemanha, 2010) de Tom Tykwer

ISTO NÃO É UM FILME


Sentenciado a seis anos de prisão pelo governo iraniano – acusado pela suposta intenção de cometer crimes contra a segurança nacional do país e propaganda contra a República Islâmica, Jafar Panahi (O Balão Branco, Offside) conta com a ajuda do documentarista e amigo Mojtaba Mirtahmasb para registrar um dia de sua vida em prisão domiciliar.

Isto Não é um Filme parte do dispositivo da censura por qual Panahi passa neste momento e aos poucos se revela como um panorama sobre a vida no Irã. O diretor vende sua imagem como referência – tentar contar em detalhes o que seria o seu próximo filme e exibe conversas com sua advogada, mas em nenhum momento é o alicerce entre tema e imagem. A era que possibilita a realização de filmes com a câmera de um celular é a mesma que ainda tem a ditadura como centralidade destas obras.

Mirtahmasb, no momento mais eloquente do filme, dirige Panahi, que assim chega mais perto da representação do cotidiano – afinal, é sempre pertinente dentro da improvisação de Panahi e Mirtahmasb questionar o que era pré-estabelecido – para grande parcela da população iraniana. Flagras da intolerância no país invadem o conforto da casa do diretor, que através da linguagem cinematográfica direciona sua dedicação pela arte – e questões para artistas, seus consumidores e teóricos. Nada mais que a releitura do cinema iraniano dos últimos anos, sempre aberto às interferências da realidade.

★★★★
Isto Não É Um Filme (In Film Nist, Irã, 2010) de Jafar Panahi, Mojtaba Mirtahamsb

OS NOMES DO AMOR


Michel Leclerc concebeu Os Nomes do Amor como contraponto à discussão etno-política que insere na mesma receita a imigração, religião e a intolerância. Tal ideal vem da abordagem lúdica do tema, quebrando a dimensão do tempo, apresentando passado e presente na mise-en-scene.

Se Leclerc aborda a postura radical da política de direita francesa, ela é mero pano de fundo da trama de Bahia (Sara Fostier), esquerdista fervorosa que utiliza o sexo como arma política. Se ação e reação de conflitos religiosos estão em pauta, logo viram trampolim para o sarcasmo sobre a relação dos franceses com a guerra da Argélia. Essa ousadia teve reconhecimento, rendendo o César 2011 de melhor roteiro original e melhor atriz para Fostier.

Outro grande acerto do filme está na construção dos personagens, com características valiosas para definição de distintas visões e índoles políticas, e assim, moldá-los para, paralelamente, escrever um caso de amor. Leclerc foi por outro caminho, onde conteúdo e bom humor também são possíveis de despertar a passionalidade. Um conto que traz na medida conteúdo e diversão.

★★★★
Os Nomes do Amor (Le Nom des gens, França, 2010) de Michel Leclerc

O GAROTO DA BICICLETA


Não há inocência ou necessidade que habite em Cyril (o excelente e estreante Thomas Doret), garoto que coloca sua esperança na figura paterna que lentamente é desenhada de forma abstrata em O Garoto da Bicicleta por Jean-Pierre e Luc Dardenne. Se nos primeiros minutos de filme (vencedor do Grande Prêmio do Júri do Festival de Cannes deste ano), a bicicleta é a referência que destroça silenciosamente a relação de Cyril com seu distante pai, no ato final vemos uma reação comum em casos de abandono paterno sem gerar fatalismos melancólicos.

A figura da mãe postiça Samantha (Cécile de France em ótima atuação) de nada intervém às urgências do garoto; ter alguém para ser submisso, algo tão comum nesta idade, transformaria sua infância para melhor. Neste momento a narrativa dos Dardenne ganha novo corpo. Ainda que ritmada, ela é menos pungente; se dilui com a gradual contenção da ação e da igualmente crescente esperança – ainda que dicotômica – de Cyril finalmente encontrar algo semelhante ao amor paterno. O Garoto da Bicicleta ressoa A Criança, sugestão personificada por Jérémie Renier, o pai perdido no longa que rendeu a segunda Palma D’Ouro para os diretores durante o Festival de Cannes de 2005.

A simplicidade técnica característica dos diretores continua presente e a dura análise está na paixão no qual Cyril busca – o pai ou uma representação – e suas consequentes e sistemáticas rejeições. E como os Dardenne desta vez usam na base alegórica, o protagonista dessa vez permite uma aproximação ao que é lhe é de agradável e leve; as roupas coloridas, o passeio de bicicleta num dia de verão e um possível churrasco com os amigos. Aparentemente, pois o  lirismo acinzentado continua intenso e ambiguo o suficiente para duvidarmos de um futuro brilhante para o garoto.

★★★★
O Garoto da Bicicleta (Le Gamin au vélo, Bélgica/França/Itália, 2011) Direção: Jean-Pierre e Luc Dardenne

FESTIVAL 4+1

Aconteceu durante o mês de outubro no Rio de Janeiro o Festival 4+1, responsável por levar às telas do Centro Cultural Banco do Brasil filmes autorais premiados que não ganharam distribuição por aqui. Portanto, nomes como Takeshi Kitano, Naomi Kawase e Kelly Reichardt tiveram filmes exibidos. Nós conferimos alguns filmes da programação:

MEEK’S CUTOFF (Idem, EUA, 2010) de Kelly Reichardt

No momento em que os Estados Unidos chegam ao ápice da intolerância, Kelly Reichardt (Wendy e Lucy) volta no tempo para analisar o desenvolvimento desta chaga social. Amedrontados pela figura de um índio, um grupo de cristãos atrás de água no deserto logo se tornam metáforas ambulantes de Reichardt. O delírio oriundo do calor, a posição pastoral de Meek e a dependência do índio para chegar ao destino desejado refletem a imparcialidade do diretor ao analisar a contemporaneidade. Mesmo derrapando em diversos clichês melodramáticos, o filme guarda sua pungência em sua narrativa silenciosa.
★★★★


MINHA FELICIDADE (Scatje Mojo, Ucrânia, 2010) de Sergei Loztnitsa

O paralelo entre o martírio – aqui transparecido para o vigor físico de Georgy (Viktor Nemets) – vivido pela Rússia e seu protagonista, vítima de abuso de autoridade e do azedume de moradores de um vilarejo marcados pela guerra sintetizam a escolha de Sergei Loznitsa em seguir um método que se distancia dos personagens para realçar a angústia de um tempo difícil. My Joy é um exercício contemplativo, duro e necessário.
★★★★


OUTRAGE (Autoreiji, Japão, 2010) de Takeshi Kitano

Quando diversas facetas da máfia japonesa resolvem lidar com negócios paralelos como tráfico de drogas e prostituição, uma sequência de mal entendidos gradualmente transformam o pacto de irmandade em violência. A direção de Kitano privilegia planos médios e edição em plano/contra-plano. Quando Otomo (o próprio Kitano), ex-integrante da Yakuza resolve fazer o trabalho sujo entre as gangues, a história é levada para uma sequência de cerca de quarenta e cinco minutos de assassinatos – que marca a volta de Kitano para o cinema de gênero. Perde o ritmo, porém engloba o lado cômico característico do diretor.
★★★


CURLING (Idem,  Canadá, 2010) de  Denis Côté

O esporte que batiza o filme de Denis Côté serve de parâmetro para a análise subjetiva da vitória impressa na vida de Moustache (Emmanuel Blodeau), que cria sua filha em regime fechado e que deixa o medo dominar sua vida. Medo este sem motivo aparente. Com frequentes mudanças de tom – sem perder seu foco de abordar o vazio das vidas de uma região castigada pela neve, no Canadá, a direção de Côté privilegia planos abertos e ação cadenciada, cautelosa. No lugar que nuances tomam proporções gigantescas, Curling consegue ser direto neste sentimento sem precisar de macetes narrativos.
★★★


KING OF THE DEVIL'S ISLAND (Kongen Av Bastoy, Noruega, 2010) de Marius Holst

Morno em todas suas tentativas – a reconstituição do momento mais dramático da história da Noruega que une alegorias políticas e a dicotômica lealdade de jovens encarcerados pelo julgamento direitista cristão e a transformação romanceada do gênero em explosivos conflitos moldurados pela neve – King of the Devil’s Island abafa qualquer hipótese de análise aprofundada com aspectos melodramáticos, aproximando muito aos filmes americanos que angariam público e cifras pela “beleza” da persistência, explicitada na primeira sequência do filme – o único motivo plausível para este filme levar o grande prêmio do 4+1. A direção de Marius Holst é contida, concentrada no ideal citado acima.

 ★★★

AMORES IMAGINÁRIOS


O cinema de Xavier Dolan é conceito e não conteúdo. Já tomava essa forma em seu debut em Eu Matei Minha Mãe, e agora em Amores Imaginários o diretor debanda em referências em diversos elementos de seu filme. Elas passeiam pela trilha sonora, nos figurinos, na arte, na decupagem… e lá estão Almodóvar, Truffaut e até Tarantino. Enfim, a possibilidade de reconhecimento de um nicho social que justifique o citado conceito é enorme já nos primeiros minutos do filme.

Como o nome entrega, Dolan conta uma história moderna, uma disputa pelo coração de Nicholas, um garoto mimado pelos pais e super cult. Os candidatos são os amigos Francis e Marie, que tem o acaso como maior inimigo. O filme acerta em seu desenvolvimento narrativo, cheio de elipses e bons momentos de humor (principalmente com os personagens ilustrativos, dando a idéia que o filme é uma reconstituição) e dão força extrema ao filme para não cair em suas próprias armadilhas.

O compromisso de ser prafrentex que o diretor tem com seu conceito, elimina qualquer chance de profundidade na construção de personagens. Eles gostam de escritores, bandas, diretores, enfim, artistas em geral, fumam até os pulmões explodirem, evitam falar sobre opções sexuais e é isso. Não saberemos nunca qual era o objetivo da conquista de Nicholas, afinal. Se essa necessidade era comandada pelo ego ou pela carência.


★★★
Amores Imaginários (Les Amours Imaginaires, Canadá, 2010) de Xavier Dolan

POTICHE - ESPOSA TROFÉU


François Ozon (O Refúgio, Swimming Pool, 8 Mulheres) pegou sua câmera, sentou na cadeira de diretor e por lá ficou. Potiche – Esposa Troféu é Ozon em sua zona de conforto – ou o exercício de resgate de sua essência. Cenários de cores cítricas, personagens pitorescos, relação intensa dos personagens com a música e o tradicional sarcasmo costuram uma comédia agridoce sobre a luta pelos direitos femininos no fim dos anos setenta que é baseada na peça de Pierre Barillet e Jean-Pierre Grédy.

De “potiche” (jarro, em francês) à diretora da maior fábrica de guarda-chuvas do país, Suzanne Pujol (Catherine Deneuve) cria um acirrado embate de poder com seu marido, Robert Pujol (Fabrice Luchini), pautando relações extraconjugais, o marasmo da rotina e a influência que o dinheiro exerce sobre a política. Ao desenvolver estes temas, Ozon raramente ousa e quando o faz, cria momentos memoráveis e engajados dentro de uma narrativa apoiada em sua margem por estereótipos.

Estes momentos - boa parte deles com o típico sarcasmo francês - sustentam o filme, que no geral alimenta uma relação morna com seus coadjuvantes e satura a identidade da protagonista, que no último ato personifica toda força que habitara ao seu redor na mesma intensidade que o filme perde ritmo. Potiche – Esposa Troféu é imerso em irregularidades, porém tem em sua base macetes funcionais de um diretor consagrado. E isso conta muito.

Potiche - Esposa Troféu (Potiche, França, 2010) de François Ozon

O GUARDA


The Guard é um daqueles filmes que podem ganhar relevância daqui a alguns anos por sua ótica debochada sobre os dias de hoje. O humor negro inglês é utilizado por John Michael McDonagh num argumento ordinário e personagens caricatos  justamente para subverter as convenções do gênero policial.

Desta premissa (um sargento descompromissado com sua função se infiltra na investigação do sumiço de seu companheiro de trabalho que culmina num esquema de transporte de cocaína), saem piadas ácidas sobre o cinema – diretores, gêneros e mise en scène, corrupção política e policial e a cultura inglesa em geral.
Gerry Boyle (Brendan Gleeson) é a representação do senso de humor de McDonagh. Distorce regras e estereótipos dentro de uma narrativa que pode tomar qualquer rumo. A figura de Gerry é estudada conforme a ironia é injetada em paralelo à investigação. E como seu protagonista, McDonagh não está se importando muito com as consequências. O que importa é se divertir e nada mais.


O Guarda (Idem, Irlanda/Inglaterra/Argentina, 2011) de John Michael McDonagh

O PALHAÇO


Se existe alguma preocupação no sentido de construção narrativa em O Palhaço ela está no conflito parcialmente físico de Benjamim (Selton Mello) em relação à profissão de palhaço e diretor do circo Esperança. Acompanhamos a estadia da trupe circense por vilarejos do interior de Minas Gerais, onde a submissão ao acaso e contratempos realçam a insatisfação de seu protagonista.

Porém, a sutileza incrustada na narrativa está no conjunto de gags que ilustram a rotina de apresentações e ciladas no qual o grupo entra através das estradas e não por envolvimento com seus personagens. Podemos aí incluir as memórias de infância e inevitáveis comparações à Fellini pela incansável busca por cumplicidade neste grupo cheio de figuras emblemáticas, mas não reconhecíveis. O conflito de Benjamim é silencioso e forçado – com raras exposições envolvendo frases curtas e a materialização dele através da figura de um ventilador e de seu documento de identidade.

Essas gags configuram-se nas participações de grandes nomes do gênero como Moacyr Franco e Ferrugem, dicotômicos sob a ótica da vida – um disposto a brincar com o que é sério, já o outro deseja ser sério dentro de uma brincadeira – e simbolizam bem a questão da vocação profissional e de como ser feliz. O Palhaço acha sua resposta com ajuda dos coadjuvantes representativos e distanciamento de seu protagonista. Mas, como se trata de uma viagem, não importa como você vai chegar. O que importa é desembarcar são e salvo.

★★
O Palhaço (Idem, Brasil, 2011) de Selton Mello

O GERENTE


Antes de uma homenagem ao poeta Carlos Drummond de Andrade, citado e exibido em O Gerente, a volta de Paulo Cezar Saraceni ao cinema após dez anos se apresenta como uma obra anárquica às convenções do cinema. Da narradora que “atrapalha” o espaço da ação e interage diretamente com o protagonista Samuel (Ney Latorraca), até a possibilidade de audição da voz do próprio Saraceni na cena que encerra o filme, o diretor insere a história que se passa nos anos cinquenta no contexto atual – apesar de seus personagens e contracenantes estarem a caráter, nada ao redor é maquiado. É possível ver carros, lojas e roupas dos dias atuais sem que isso interfira diretamente no filme. Para Saraceni, o que implica o pensamento de despreocupação nada mais é que um trampolim de questionamentos sobre a liberdade.

Enquanto a história de um gerente de banco que alimenta a tara por mãos femininas ganha a tela, paralelamente e sem altruísmo algum, brotam críticas ao sistema de incentivo a cultura, a pureza de trocas de planos e polimento de imagens e a prisão de gêneros. Em O Gerente é possível alinhar a mise en scene opositora à dramaticidade – deliciosa, por sinal – a troca de lentes de câmera e atemporalidade.

O vigor de O Gerente está nesta idéia de articular as possibilidades que se justificam pelo cinema que, nesse caso, livra-se da nostalgia da época, encontra passado e presente (essencial para o tom fabuloso do filme), faz seu público lembrar-se da presença da câmera e de um diretor, que se proclama dono de um cinema corajoso e vital com uma só frase, dispensando signos e enigmas. Para Saraceni, um nauseante bom humor é o carro chefe de seu filme.

★★★★
O Gerente (Idem, Brasil, 2011) de Paulo Cezar Saraceni

CORPO PRESENTE


 Uma noite sem dormir. Um dia ruim. O trabalho que não te completa. A ríspida sensação de existência. Um sintoma dominante na rotina das grandes cidades. Corpo Presente é um filme sufocante, como a longa espera para o fim do dia, o fim da semana, o desatar do nó da gravata – o encontro do coletivo com o indivíduo.

O longa dirigido por Marcelo Toledo e Paolo Gregori se sustenta à criação de uma segunda vida, a literal busca pela realização do sonho. Dividido em três segmentos (Alberto, um agente funerário, viciado e fugitivo de agiotas; Cynthia, manicure e garota de programa que sonha em ser dançarina e Beatriz, peoa que deseja viver de um estilo alternativo, fora do comum “8 às 17”), cada um deles tem uma forma diferente de fuga do real e claro, de morte. Afinal, é necessário que o real volte a dominar – representada por uma tradicional tempestade de fim do dia na capital paulista.

E Toledo e Gregori sabem como transportar a sensação de pequeneza que os personagens assumem para si; a megalópole os engole, como as obrigações e a vontade de viver no que é paralelo. A tela envolve Alberto, a maquiagem protege Cynthia, a chuva afasta Beatriz. A pungente duplicidade que rege o “horário comercial”.

 ★★★
Corpo Presente (Idem, Brasil, 2010) de Marcelo Toledo e Paolo Gregori

A NOITE DO CHUPACABRAS


A receita que transformou Mangue Negro, primeiro longa-metragem dirigido por Rodrigo Aragão, instantaneamente num filme cultuado nos circuitos de festivais se repete em A Noite do Chupacabras: brasilidade, sangue e diversão.

O longa se apoia na aura novelesca – traduzida na rivalidade entre duas famílias por um vasto terreno em uma floresta – para justificar o banho de sangue em cenas memoráveis, mesclando tradicionalismos do gênero: tosqueira, palavrões, humor e miolos. Rodrigo Aragão desta vez se mostra mais preocupado com a concepção do projeto: planos, sequências, efeitos e a congruência entre violência e humor estão mais uniformes na inevitável comparação com seu antecessor.

A figura do Chupacabras representa a justiça feita na base da violência – impedida por uma trégua entre as famílias.  O bichano não aparece no filme como fonte gratuita de terror, tanto que suas aparições são raras. O roteiro, assinado pelo próprio Aragão, não é tão bem transportado para a tela quanto é resolvido. O excesso de fades e as sequências de ação construídas com os mesmos aspectos (incluindo a trilha sonora) aos poucos se desgastam, transparecendo na narrativa - principalmente no último ato, quando o protagonista Douglas (Joel Caetano) ganha desconstrução de seu lado emocional.

Tropeços à parte, A Noite do Chupacabras é um filme divertidíssimo e resgata a despretensão do terror, hoje tão moldado para o sucesso. É questão de tempo para o longa ser tão reconhecido quanto Mangue Negro.

★★★
A Noite do Chupacabras (Idem, Brasil, 2011) de Rodrigo Aragão

NOVO ENDEREÇO

 Amigos, agora estou neste endereço: www.7a1filmes.com/blog Deixarei este blog aqui como arquivo de quase 20 anos de blogs, sites e revistas...