SE BEBER, NÃO CASE! - PARTE II


Se Beber, Não Case – Parte II já entra em campo com o jogo ganho. No primeiro capítulo da franquia, o diretor Todd Philips angariou personagens que marcassem por comportamento e psique distintas, o que lhe permitiu criar uma relação de intimidade entre eles e a platéia. Boa parte das melhores gags do filme são construídas e executadas dentro desta visão, onde a persona domina a situação, substituindo a ação pelo diálogo.

Philips não pisa no freio e escracha nas consequências da acidental noite de bebedeira. Por mais que Se Beber, Não Case – Parte II se encontre exclusivamente na esfera do escapismo, o longa se faz eloquente como afronta às falsas idéias norte-americanas em relação aos costumes asiáticos – incluindo crenças e conceitos de vida; no mesmo raciocínio, estão o duvidoso moralismo ocidental e a sustentabilidade passiva de pré-conceitos. Aqui, tais temas são apenas fontes de prazer através do riso, porém sutilmente abordados na narrativa.

Para resgatar o jovem Teddy, Phil (Bradley Cooper), Stu (Ed Helms) e Alan (Zach Galifianakis) desta vez passam pelas mais absurdas situações, como o envolvimento com o tráfico, prostitutas suspeitas, um macaco que fuma, tatuagem na face e membros amputados; tudo isso para curar uma amnésia alcoólica. Fora o perigo de vida que seu cunhado passa, Stu vê seu casamento prestes a ser cancelado.
Se a corrida contra o tempo é o termômetro do desenvolvimento narrativo, Philips não é pragmático e a história vira uma bagunça na metade final. Com o excesso de informações e a sensação decorativa criada ao decorrer do filme em torno dos protagonistas, o “jogo” que parecia tão fácil acaba virando uma vitória magra.

Se Beber, Não Case - Parte II (The Hangover Part II, EUA, 2011) de Todd Philips

ESTRADA PARA YTHACA


Se para Glauber Rocha o cinema novo tinha a motivação de unir características do “terceiro mundo” com a desconstrução de grandes movimentos cinematográficos como a Nouvelle Vague francesa e o Neorrealismo italiano para o protesto, para o grupo de diretores-atores de Estrada Para Ythaca, o entusiamo vem de utilizar as mesmas ferramentas para homenagear pioneiros do que chamamos de cinema marginal.

O próprio Glauber Rocha e Jean-Luc Godard ganham metáforas em forma de homenagem e agradecimento. A viagem de amigos para Ythaca a fim de relembrar um falecido companheiro, no fim, junto ao pulgente estado de luto onde o silêncio roga o incômodo e as frustrantes tentativas de reviver bons momentos de quem já se foi, vira um pedido de socorro ao cinema.

Cinema que permite que a magia os leve para Ythaca e escolha qual tipo de arte seguir, representado por uma bifurcação no meio do caminho. O mesmo cinema pode representar um espírito através de um tropeção no tripé da câmera ou simplesmente outra abordagem: a experimental. O caminho escolhido está explícito na primeira sequência do filme, quando cantam e recusam a morte entre um brinde e outro; o abstrato pode ser tão sublime em sua mensagem que é possível abraçar a plástica de momentos inusitados e nos levar para diversos debates, aqui, representado por Ythaca.


Estrada Para Ythaca (Idem, Brasil, 2010) de Guto Parente, Luiz Pretti, Ricardo Pretti e Pedro Diógenes

TRANSCENDENDO LYNCH


Apresentado como diário de turnê de divulgação do livro Em Águas Profundas, o documentário Transcendendo Lynch aborda de maneira dicotômica a exposição do cineasta David Lynch durante sua passagem pelo Brasil. Em suas palestras, o diretor de Cidade dos Sonhos e Veludo Azul mostra-se interessado em pregar uma nova interpretação de nossas rotinas através da meditação transcendental. Por outro lado, ele inevitavelmente passa por um teste de fogo contra seu estilo de vida ao repetir infinitamente ações como assinar livros, cumprimentar e tirar fotos com seus fãs. Lynch rapidamente se torna objeto de estudo no confronto da representação contra o conteúdo.

A abordagem dos fãs é de intimidade, bruscamente interrompida por um segurança ou agente. O que de fato interessa a eles e agora aos espectadores na sala de cinema é a relação de Lynch com os enigmas e abordagens líricas sempre presente em seus filmes. O diretor Marcos Andrade soube como inserir tal conteúdo dentro da proposta por questão de ritmo, já que automaticamente Lynch contorna estas questões e quase sempre volta ao tema que lhe interessa, o usando como suporte e espelho para boa parte das perguntas sobre sua filmografia.

Transcendendo Lynch mostra-se um trabalho preocupado com a estética. Se a decupagem mergulha nos gestos do diretor americano e de seus assessores, Andrade não utiliza imagens de arquivo ou cenas de filmes e adota citações imagéticas com alguns cacoetes característicos de Lynch em seus filmes, incluindo uma cena em que o protagonista vira cobaia de uma reconstituição. Nesta aposta, algumas sequências saturam pela duração, porém não interferem na experiência que não se apóia unicamente na cativante figura de seu protagonista, mas que ousa lírica e esticamente.

Transcendendo Lynch (Idem, Brasil, 2009) de Marcos Andrade

OS AGENTES DO DESTINO


O provérbio que é melhor não trocar o certo pelo duvidoso cabe ao diretor debutante George Nolfi, que se apega ao modelo constituído a levar grandes públicos às salas de cinema. Baseada na obra Adjustment Team de Philip K. Dick, Os Agentes do Destino, apesar de ensaiar imersões em analogias, se resume ao que se vê. Um filme de ação literal.

Sob o ritmo frenético da edição – se possível, atente ao intervalo entre os cortes, não há Mark Neveldine ou Brian Taylor que aguente –, Nolfi rege a história do deputado David Norris (Matt Damon) que é impedido de viver a paixão pela dançarina Elise Sellas (Emily Blunt) por conta do destino, aqui, personificado por agentes que zelam pela vida de um possível futuro presidente. Por trás da alusão religiosa e a lobotomia política, a engrenagem está mesmo na ação que Norris aos poucos cria para furar os bloqueios do “destino”.

Nolfi consiste seu trabalho à criação da aura fantástica ao protocolado thriller, baseado num imaginário coletivo, e que funciona muito bem. Damon e Blunt repetem os maneirismos que o modelo pede. A aventura segue linear e funcional até seu último ato, quando escorrega na maior obrigação do cinemão americano. Aparar horizontes pela cartilha neste caso também rende fraquezas ao roteiro. Porém, Os Agentes do Destino se impõe como escapismo e não como entusiasta da analise de conspirações.


Os Agentes do Destino (The Adjustment Bureau, EUA, 2011) de George Nolfi

CAMINHO DA LIBERDADE


Em sua filmografia, Peter Weir tem a característica de levar personagens a extremos para, então, estudar e exibir seus conflitos internos. Caminho da Liberdade mostra uma nova abordagem dentro desta logística de Weir: traçar um paralelo entre seus limites na adaptação da obra de Slavomir Rawicz.

Para reconstituir a história de fugitivos de Stalin que foram a pé da Sibéria até a Índia, Weir expõe seus personagens a cada minuto. Neste caso, a força do longa não está no martírio. O discurso libertário é silencioso. Através da luta pela sobrevivência destes homens – pestes, tempestades, fome, sede, calor, frio são alguns contratempos abordados –, fora o lado humano no qual a narrativa envolve até o mais duro dos corações, Weir passa do dogma de histórias de perseverança e superação.
A variável está nas elipses, que apresentam o desgaste físico e emocional, além da crescente empatia entre os personagens, que imediatamente se espelha no espectador. Neste momento, o fio político dá lugar ao existencial, onde o longa se sustenta pela força dos personagens.

Pela duração demasiadamente longa, Caminho da Liberdade soa redundante na abordagem dos conflitos. A narrativa intensifica as relações sem esbarrar em clichês deste subgênero e sai-se de forma articulada, com bom ritmo, e sabe medir as doses panfletárias.


Caminho da Liberdade (The Way Back, EUA, 2010) de Peter Weir

UMA MULHER, UMA ARMA E UMA LOJA DE MACARRÃO


Baseado em Gosto de Sangue de Joel e Ethan Coen, Uma Mulher, Uma Arma e Uma Loja de Macarrão é a transposição de referências ao longa de 1984 para o universo de Zhang Yimou em uma China de época.

Sob o contraste imagético da escuridão do longa dos Coen e a indecisão de Yimou em adotar cores ou acinzentar de vez a tela, o texto é irregular e dicotômico; abraçar, no lugar do humor negro – provavelmente a grande força do filme original ao lado da construção dos personagens –, o pastelão causa um choque difícil de ser recuperado. Quando o filme parece se firmar neste raciocínio, Yimou se distância da trama, escolhendo o silêncio como engrenagem narrativa.

Folclórico, o exercício plástico de Yimou dá margem a personagens vazios que não sustentam a história. Em planos abertos e com frequente uso de grua e planos-sequência, Uma Mulher, Uma Arma e Uma Loja de Macarrão é anti-climático e contemplativo, dispensando toda força narrativa presente em sua referência.


Uma Mulher, Uma Arma e Uma Loja de Macarrão (San qiang pai an jing qi, China, 2009) de Zhang Yimou

O RETORNO DE TAMARA


Abordar seu público com as respostas do fim e as motivações do princípio. O desenvolvimento de O Retorno de Tamara é o que interessa ao diretor Stephen Frears (A Rainha) como a fuga de uma retórica. Invertendo elementos básicos de uma comédia romântica, os personagens viram base para uma tese de lamentação – ou deboche – de nossa pobreza de espírito na adaptação da obra de Posy Simmonds.

Torpes, odiáveis e sempre desconfiados, os habitantes de um condado referenciado por um retiro de escritores vêem a chegada de Tamara como a inevitável catarse para tamanho conformismo; a beleza da protagonista é explorada como a óbvia dicotomia entre aparência e conteúdo, conflitando as facilidades que a beleza proporciona e a prepotência intelectual.

Frears é direto e ácido em suas críticas a partir do modelo escolhido e torna suas intenções mais explícitas com duas coadjuvantes que representam uma licença lisérgica ao texto – explorando a fragilidade e o desgaste de relações pela ironia, moldando o filme aos clichês e às reações exageradas que os leva de volta à dormência e ao conformismo.

O Retorno de Tamara é uma comédia de erros, onde a postura é carregada de indulgência culpável maquiada pela falácia. Como manda a cartilha, o fim é florido e encantado, mas o recado foi dado.


O Retorno de Tamara (Tamara Drewe, Reino Unido, 2010) de Stephen Frears

REENCONTRANDO A FELICIDADE


Rabbit Hole (título original do filme) é o termo utilizado para o uso de drogas ou para o túnel que levava Alice para um universo paralelo em Alice no País das Maravilhas. A metáfora usada por John Cameron Mitchell no filme adaptado da peça teatral de David Lindsay-Abaire é a da dimensão da dor.

Mergulhando no martírio emocional de um casal após a perda do filho, Mitchell vai, gradualmente, construindo a ambígua relação de Becca (Nicole Kidman em sua melhor atuação em anos) com o luto. Ela representa a ausência em todos os sentidos, gerando cenas memoráveis, onde o incômodo é pulgente. Com a recusa de enfrentar a dor, Becca suga o pessimismo e o transforma em conforto e egoísmo, vivendo em outra realidade confrontada por elementos externos: a gravidez da irmã, a precoce morte do irmão.

Howie (Aaron Eckhart em ótimo momento) representa a maior engrenagem da narrativa; Fora do Rabbit Hole, ele é resignado a passar pela dicotômica situação de tirar sua mulher desta imersão e o inevitável sofrimento pela ausência do filho. As cenas mais intensas estão nos conflitos indiretos do casal. As explosões são previsíveis, mas Mitchell sabiamente coloca o silêncio ou diálogos torpes como demonstração de insatisfação por parte de Howie, que também procura outras maneiras de descarregar – principalmente quando o tormento ganha personificação.

O título em português vem do reflexo natural de lutar e seguir em frente. Porém, o que o filme explora intensamente é o desconforto gerado por uma situação extrema e a relação de quem está próximo de um casal em luto em situações cotidianas.


Reecontrando a Felicidade (Rabbit Hole, EUA, 2010) de John Cameron Mitchell

NÃO SE PODE VIVER SEM AMOR


Em Não se Pode Viver sem Amor, Jorge Duran (Proibido Proibir) desbrava um Rio de Janeiro diferente da utopia de Carlos Saldanha e de campanhas publicitárias. Vemos uma cidade cinza, encardida e vazia, justificada pela proximidade do Natal, época que fragilidades emocionais são mais aparentes.

De narrativa fragmentada que levam ao previsível encontro dos núcleos no fim da trama – método popularizado por Alejandro González Iñárritu no ínicio da década passada, Duran procura o que lhe parece brusco: muitos closes, câmera trêmula e cortes secos, principalmente no primeiro ato, quando apresenta tortuosamente seus personagens. Em Não Se Pode Viver Sem Amor, a motivação vem entrelaçada aos atos de desespero (procurar o ex-marido em uma cidade desconhecida, se tornar um bandido para fugir com o grande amor ou largar a vida por um emprego na Suíça). O amor é coadjuvante e abstrato, tão qual a saída de Duran para desenvolver sua história.

Para suprir a explícita deficiência do texto, inserções lúdicas são atiradas ao espectador e mínguam o ritmo narrativo. Não existe lapidação no filme. A relação com os personagens é desgastada com inúmeros cortes. Neles, está uma poesia sem inspiração, ora de cunho social, ora existencial, como o espelho do personagem maior que é a cidade.  Declaração de experimentalismo ou fuga de dogmas a parte, nenhuma idéia se sustenta se não há um bom argumento. A última sequência serve como resumo do filme: anti-climático e nada eloquente.


Não se Pode Viver sem Amor (Idem, Brasil, 2010) de Jorge Duran

THOR


Kenneth Branagh dirigiu um filme domesticado metido a transgressor. Depois dos fios narrativos sobrepostos à densidade sugeridos por Christopher Nolan (Batman Begins e Batman – O Cavaleiro das Trevas) e Zack Snyder (Watchmen) e o descompromisso de Jon Favreau (Homem de Ferro e Homem de Ferro 2) e Matthew Vaughn (Kick-Ass – Quebrando Tudo), o subgênero que os filmes de heróis se tornou é cercado pela expectativa de abordagens não convencionais.

Thor dá um passo para trás neste aspecto;  Branagh preocupa-se em atolar todas as características que um blockbuster deve ter sob ordinária abordagem: a aproximação da estética ao espetáculo (produzida com excelência), a previsibilidade do texto, o respiro (aqui, transpondo a saga do deus do trovão à contemporaneidade, citando Ipod, Facebook, etc) e o romance, que insinua estranheza da colisão de dois mundos, sem tanto sucesso.

Thor é uma obra que se sustenta exclusivamente pelo visual quase lisérgico do CGI. É, de fato, um belo espetáculo plástico e fiel às origens da HQ da Marvel. Porém, o desenvolvimento é raso, sem articulações para suprir toda desconfiança e saturação às imagens, como disse, domesticadas.


Thor (Idem, EUA, 2011) de Kenneth Branagh

A GAROTA DA CAPA VERMELHA


Um conto em tom sombrio regido por dilemas adolescentes dirigido por Catherine Hardwicke. Não é Crepúsculo, mas uma pseudo-releitura do filme-evento produzido em 2008. A Garota da Capa Vermelha adapta livremente o conto de Chapeuzinho Vermelho regida pela analogia do terror psicológico em uma comunidade dentro de uma floresta.

Catherine Hardwicke insere neste contexto bruxas, lobos, lua cheia, lua sangrenta, padres e um caso de amor. O texto, raso, frágil e previsível torna-se neurastênico em questão de minutos. Basta passar a apresentação de personagens e trama que tudo se torna redundante. Em A Garota da Capa Vermelha tudo parece requentado. Personagens, diálogos, decupagem, roteiro.

É perceptível a motivação da diretora de filmes como Aos Treze e Os Reis de Dogtown em produzir uma obra que cative o fervor adolescente. É notável a despreocupação em contar uma boa história e sim reconstituir, sem plagiar, um conceito fadado ao sucesso por conta da saga de Edward e Bella Swan. Subestimar seu público-alvo talvez não seja uma boa idéia. Só o tempo dirá.


A Garota da Capa Vermelha (Red Riding Hood, EUA/Canadá, 2011) de Catherine Hardwicke

A MINHA VERSÃO DO AMOR


A Minha Versão do Amor, como a maioria das comédias contemporâneas, se atrela a elementos dramáticos como contrapeso do lado cômico do texto para criar identificação maior com os personagens. O longa dirigido por Richard J. Lewis e protagonizado por Paul Giamatti (vencedor do Globo de Ouro deste ano pela atuação) peca justamente na irregularidade dentro da relação entre os gêneros. A imprevisibilidade do amor é o tema que rege a narrativa do longa que acompanha a vida de Barney (Giamatti), um homem vulnerável, casado três vezes – sem sucesso em nenhum deles, todos marcados por experiências traumatizantes.

Em retrospectiva, a vida de Barney toma forma de uma comédia baseada em bons diálogos, cheia de referências (Woody Allen talvez seja a maior delas) e ótimo ritmo. Giamatti rouba a cena e só a divide com Dustin Hoffman, em atuação memorável, vivendo o pai fanfarrão do protagonista.

Na segunda metade, o filme escrito por Michael Konyves baseada na obra de Mordecai Richler torna-se um ensaio dramático, manipulando o envolvimento da platéia. Muda-se a postura, o ritmo, a trilha. Menos a entrega de Giamatti a seu personagem e a eloquência do texto. Como epítome, A Minha Versão do Amor é uma obra irregular, que mantém a platéia atenta graças a seu leve desenvolvimento.

A Minha Versão do Amor (Barney's Version, Canadá/Itália, 2010) de Richard J. Lewis

10 ÓTIMOS FILMES QUE VOCÊ NÃO VERÁ NOS CINEMAS

Agradeça aos festivais, mostras, distribuidoras alternativas ou aos torrents. Só assim eles apareceram (ou aparecerão) por perto.

O ASSASSINO SENTIMENTAL DE MÁQUINAS (The Sentimental Engine Slayer, EUA/México, 2010) de Omar Rodriguez-Lopez

A narrativa de O Assassino Sentimental de Máquinas é fragmentada ao extremo a ponto do último ato completo exija atenção redobrada. Mas não é o aspecto mais importante do debut de Omar Rodriguez-Lopez, líder do grupo The Mars Volta na direção. O Assassino Sentimental de Máquinas é uma experiência sensorial, onde figuras de linguagem, unem-se para criar as possibilidades do sonho e traumas, acopladas a já citada frenética edição transformam a grande crise existencial de Barlam, um jovem que não suporta o peso de uma cartilha comportamental adolescente numa viagem abstrata e extremamente envolvente. [LER RESENHA COMPLETA]


ENTER THE VOID (Idem, França/Alemanha/Itália, 2009) de Gaspar Noé
Belíssimo conceito, idéias abstratas e cinematografia absurda. Uma obra ousada, forte que analisa breve espaço entre a vida e a morte.

CATERPILLAR (Kyatapirâ, Japão, 2010) de Kôji Wakamatsu

A explosiva combinação de vingança e remorso com inteligentes inserções sobre a segunda guerra mundial entrega um filme melancólico que superfície já é chocante, mas em suas entranhas é um contemplativo filme sobre traumas.

ÁGUAS TURVAS (DeUsynlige, Noruega, 2008) de Erik Poppe

A igreja é o palco do encontro para um desenrolar incrivelmente denso. O espectador não sabe quem é vilão e quem é mocinho. Se deve julgar ou ser julgado, o que é certo ou o que é errado. Crie suas respostas após os créditos finais. [LER RESENHA COMPLETA]
DENTE CANINO (Kynodontas, Grécia, 2009) de Giorgios Lanthimos

Talvez pelo fato de ser desconcertante e tocar em assuntos delicados demais, Dente Canino recebeu comparações às obras de Michael Haneke após as exibições no Festival de Cannes (o filme ganhou o prêmio da mostra "Um Certo Olhar"). Mas a experiência de assistir ao filme de Giorgios Lanthimos se iguala mesmo aos de Haneke por utilizar um silêncio incômodo e por dar um passo a mais nas convenções de moral da arte. Recentemente, Dente Canino foi indicado ao Oscar, concorrendo por Melhor Filme Estrangeiro.

RUBBER (Idem, França, 2010) de Quentin Dupieux

A sequência inicial de Rubber já justifica sua existência. O cinema é terreno de todas as possiblidades e da ausência delas também. Quentin Dupieux faz o espectador criar empatia por um pneu assassino para fazer alusões à relação entre filme e espectador. Sempre que possível, debocha de quem está do outro lado da tela, representado por um público esmaecido no meio do deserto. Mas o alvo principal do diretor é o cinema enlatado, em cenas que o surrealismo é gradativo na mesma equivalência que a genialidade.
HAHAHA (HaHaHa, Coréia do Sul, 2010) de Hong Sangsoo 

Sangsoo aborda a inocência e sua ausência em momentos paradoxais. Já e o bastante para o diretor nos remeter à Monty Python, Chaplin e claro, o humor oriental sem cair no ativismo contemporâneo das “homenagens”. A equivalência destas possibilidades surgem sem escadas para o riso por sabedoria de Sangsoo; A câmera é o maior condutor desta linguagem. Ela nos sugere o riso. Seus personagens estão na tela para serem objeto do ridículo, expostos às fraquezas sem pudor. Vencedor do prêmio da mostra "Um Certo Olhar" no Festival de Cannes 2010. [LER RESENHA COMPLETA]



KINATAY (Idem, Filipinas/França, 2009) de Brillante Mendoza

Mesmo com uma trama concentrada num brutal crime, a tensão sugerida por Kinatay (filme que deu a Brillante Mendoza o prêmio de melhor diretor no Festival de Cannes em 2009) é absolutamente sensorial graças à ótima direção. Longas sequências, fotografia escura, uma sufocante proximidade do protagonista (que vai de bom moço a vilão em poucos minutos) e a simultânea distância à discussão de motivações para o assassinato realçam esta intenção. A preocupação está em realizar a imersão nas emoções de seu personagem principal, que paga por dizer “sim”. Seja na hora de casar ou de ser espectador de atos perversos. O caos dessa vez é interno, mas pode ser representado igualmente pelo cotidiano sempre captado pelas câmeras de Mendoza.

ESSENTIAL KILLING (Idem, Polônia/Hungria/Irlanda/Noruega, 2010) de Jerzy Skolimowski

O mestre do cinema polonês Jerzy Skolimowski vai no âmago da necessidade instintiva para analisar a relação entre o homem e a religião em Essential Killing. Com pouquíssimos diálogos, o filme destroça em nuances a posição de um terrorista afegão às promessas de uma vida próspera. Ele, alvo do exército americano, passa por situações extremas de sobrevivência em um local desconhecido. [LER RESENHA COMPLETA]
ZONA SUL (Zona Sur, Bolívia, 2009) de Juan Carlos Valdivia

O terreno pelo qual o diretor Juan Carlos Valdivia caminha em Zona Sul é perigoso. Em pouquíssimas variações de movimentos de câmera – em boa parte deles desenhando a mis en scène em todo o cenário lentamente, ele analisa a situação social do país através do cotidiano de uma família rica de La Paz. Aparentemente estereotipados, os personagens, aos poucos, desenvolvem seus conflitos usando a mãe – coluna da casa – como ponto de partida. [LER RESENHA COMPLETA]

HOMENS E DEUSES


Baseado em fatos reais, Homens e Deuses (Grande prêmio do júri no último Festival de Cannes) é uma poderosa análise do sacrifício do homem pela fé sem interferências teológicas ou políticas. Xavier Beauvois constrói nos primeiros minutos de filme o cotidiano de uma aldeia na Argélia que cresceu com ajuda de monges missionários. Quando muçulmanos atacam trabalhadores croatas, os monges franceses logo viram o próximo alvo.

Neste momento, Homens e Deuses deixa de ser uma obra meramente contemplativa para abordar com força extrema – imposto ao subtexto – o conformismo do homem às ordens religiosas e a tendência à manipulação da palavra de Deus e justificá-la com saídas radicais e violentas. Entre o cumprimento de seus chamados ou a preservação, os monges reforçam seus lados afetivos em cenas memoráveis, onde muitas vezes o silêncio substitui um discurso óbvio. Sob raciocínios e motivações diferentes, eles passam pela mesma crise; a de questionar a si e a Deus.

Mesmo com toda força em seu subtexto e muitas vezes utilizando o Evangelho como referência da situação, o diretor se aproxima de cada monge, explorando conflitos e necessidades, frequentemente utilizando a linguagem corporal – uma espécie de represália (in)consciente de homens que a partir da imposição do terror passaram a viver em um paradoxo.


Homens e Deuses (Des Hommes Et Des Dieux, França, 2010) de Xavier Beauvois

AMOR?


Na sustentação da catarse dos depoimentos que formam o novo longa de João Jardim (Lixo Extraordinário), estão cenas onde os personagens de Amor? criam uma peculiar relação com a água. No banho, na piscina ou no mar. De encontro com a dura realidade - o close nas mãos nos dentes serrados, na escolha de não encarar a câmera. Louvada seja a decupagem - está o momento da fuga, do descarrego, do alívio.

Amor? bebe da fonte do diretor Eduardo Coutinho, que por necessidade de se aproximar física e psicologicamente de seus personagens e tornar a entrevista em conversa – método que anos depois o próprio Coutinho subverteu ao escalar atrizes para interpretar suas depoentes em Jogo de Cena –, expunha sua imagem e equipe para os espectadores. Jardim faz o mesmo, unindo as duas metodologias do diretor de Edíficio Master. Amor? aborda contratempos, contrapontos e extremos das relações amorosas com bastante naturalidade – resultado de uma ótima direção de atores. Temas delicados como a violência doméstica, a fuga no uso de entorpecentes e a vida cômoda e submissa são pautados sem rodeios, sempre justificando a escolha de reconstituir com atores os depoimentos dados por pessoas que protegidas pelo anonimato podem expor, com detalhes, suas intimidades.

Por conta de sua forma, o longa pode passar longe da originalidade, mas domina o espectador pela força de seus depoimentos e primorosas atuações. Entre questões freudianas, no amor, sem a interrogação, vivemos em constante identificação, por menor que ela seja. E não seria diferente neste caso, mesmo questionando sua existência.

 
Amor? (Idem, Brasil, 2010) de João Jardim

NOVO ENDEREÇO

 Amigos, agora estou neste endereço: www.7a1filmes.com/blog Deixarei este blog aqui como arquivo de quase 20 anos de blogs, sites e revistas...