ESTADO DE SÍTIO


A justificativa que rege o exercício batizado de Estado de Sítio, onde oito amigos se refugiam em uma casa em Minas Gerais à espera do fim do mundo se sustenta pelo fato de testar e levar a ironia ao extremo, abordando todas as possibilidades de desenvolvimento, prolongando as cenas e fugindo de transformação do conteúdo em um conjunto de gags. O filme dirigido e atuado pelos oito amigos coloca o roteiro a encarar o cotidiano como uma espécie de deboche ao falatório e sensacionalismo imposto pelo cinema americano ao “fim dos tempos”.

O baixo orçamento alimenta a retórica da abertura ao improviso e o pouco cuidado estético. Porém, é perceptível que os integrantes do grupo procuram dentro deste estado anárquico o exercício cinematográfico, explorando o espaço cênico e deixando por boa parte do tempo a câmera estática, aproveitando a profundidade de campo e travellings nos poucos momentos em que o dispositivo se move.

Estado de Sítio aborda à ruptura de um grupo de homens acostumados ao que é digital, de fácil conquista para a busca por alimentos e da luta contra o crescente tédio, onde o resgate da infância (corridas na piscina, jogo de futebol, pique – esconde) se revela com a melhor saída. Não que isso seja um revés para a relação dos personagens, pelo contrário, é apenas a motivação perfeita para o escracho e relacionar a realização do filme à uma festa. Algo totalmente justo quando estamos falando de cinema no Brasil.

★★★
Estado de Sítio (Idem, Brasil, 2011) de  André Novais Oliveira, Gabriel Martins, Flávio C. von Sperling, João Toledo, Leonardo Amaral, Leo Pyrata, Maurílio Martins, Samuel Marotta

SUBMARINO


Como Ondas do Destino e Dançando no Escuro de Lars Von Trier, Submarino é uma obra que parece uma avalanche de tristeza. Por mais claro que pareça, aos poucos se revela na confusa relação entre mente e alma. Usando a pureza das crianças e a irresponsabilidade de adultos como trampolim de discussão, Thomas Vinterberg (o eterno diretor de Festa de Família) dá um soco no estômago de seu público a cada sequência.

A falta de maturidade ao colocar uma criança no mundo e a fraqueza que repousa em diversas formas de dependência motiva Vinterberg a levantar um leque enorme de subtextos no roteiro escrito em parceria com Jonas T. Bengtsson e Tobias Lindholm, desta vez sem afetações e regras – pelo contrário, o diretor praticamente se anula, seguindo, desta vez, uma cartilha muito mais acessível de cinema.

E fragmentando sua história – perceptível após muito tempo de filme -, Submarino além da questão social e comportamental, mergulha na relação de seus personagens e cria uma catarse silenciosa, uma (sim, de novo) avalanche emocional. Vai além do contraste entre a inocência e a maldade. Faz concomitantemente um paralelo entre essas forças. E o final, por mais previsível que pareça, consegue manter uma sinergia caótica.

★★★★
Submarino (Idem, Dinamarca/Suécia, 2010) de Thomas Vinterberg

O HOMEM DO FUTURO


1991. Fernando Collor afundava o Brasil. Kurt Cobain, Krist Novoselic e Dave Grohl mudavam os rumos da música com “Smells Like Teen Spirit”. A Legião Urbana era a banda mais lembrada e executada em saraus e festas colegiais. Para João (Wagner Moura), foi o ano em que sua vida foi arruinada. Para ele, a forma de mudar o presente é voltando para o fatídico ano.

Colocar o Homem do Futuro de frente à trilogia De Volta Para o Futuro é uma idéia nada intrínseca, mesmo que seus protagonistas dividam das mesmas motivações para viajar pelo tempo. O longa de Claudio Torres – provavelmente o diretor que mais aposta em temáticas fantásticas e na fuga da metodologia do cinema comercial brasileiro em filmes como Redentor e A Mulher Invisível -, antes de tudo é uma deliciosa e nostálgica viagem.

Cheio de referências que realçam o lado cômico e saudoso, como jogos de futebol, músicas e programas de TV, O Homem do Futuro personifica o desencargo de consciência de um homem supostamente fracassado através das possibilidades da física. Torres situa causa e consequência por diversas vezes no mesmo quadro e analisa, mesmo com uma abordagem leve, a forma e impacto abstrato do tempo.

Com personagens que servem como pilares para todas as analogias inseridas na narrativa e que também agregam à leveza do filme sendo completos clichês, Torres tem a liberdade para criar diversos nichos dentro da proposta do filme; romance, aventura, comédia. Tudo isso sem deixar de ser hermético e autoral e fazer que seu filme seja de Wagner Moura, como outrora fez com Pedro Cardoso e Selton Mello.

João (Moura), em todo caso, está para a trama como ilustração de um envolto pungente, intenso e criativo que para Torres dilui a austeridade do passar dos dias.

★★★★
O Homem do Futuro (Idem, Brasil, 2011) de Claudio Torres

PACIFIC


Segundo a cartela que abre o longa Pacific, os registros exibidos foram feitos por turistas em uma viagem de fim de ano no cruzeiro que batiza o filme.  Na virada de 2008 para 2009, pesquisadores escolheram alguns hóspedes que filmavam a viagem e partir deste material, escolheram momentos mais relevantes para exibí-los.

Pacific, natural e justificadamente, alimenta a estética da imagem sem refinamento, de bruscos movimentos, onde a plástica não é motivo para de prazer. A edição, com fragmentos de gravações de cada câmera, constrói o fio narrativo necessário para localizar o espectador no contexto, mesmo que de forma não linear.

Porém, o que o diretor Marcelo Pedroso discretamente aborda é a quebra da naturalidade em frente às câmeras. Na frente do dispositivo, todos têm algo a dizer, todos escondem seu estado de espírito atrás de sorrisos amarelados e a tentadora oportunidade de exibir dotes artísticos. Maior do que qualquer coisa, esta é a domesticada idéia que a mentira sobressai à verdade na tela.
Além desta interessantíssima observação comportamental, o longa de Pedroso, com o material disponível, constrói personagens cativantes e que ilustram que viagens de férias, mesmo com todo aquele clima obrigatoriamente festivo, podem render momentos de frustração e saturação.

★★★★
Pacific (Idem, Brasil, 2009) de Marcelo Pedroso

A ALEGRIA


Através da referência confusa que é a adolescência, Felipe Bragança e Marina Meliande criaram uma íntima e lírica relação com o Rio de Janeiro em A Alegria. Lirismo este que gradualmente toma conta do roteiro, como reflexo caótico que é a vida urbana, dominada por relações frias e pela violência.

A catarse está no que parece comum aos nossos olhos; nas descobertas nada pudorizadas pela câmera, nas promessas de amizade eterna ou na fuga de alguma aula – como contrapeso estão diálogos que fogem a regra da simplicidade dialética. Não funcionam bem, mas servem de justificativa às licenças no qual Bragança e Meliande utilizam no último ato, quando o filme está imerso no simbolismo.

A fuga é o cerne da trama que é aberta a dezenas de paralelos arrojados, meticulosamente profundos para analisar a (i)maturidade de jovens expostos à traumas e a forma fantasiosa de enfrentar contratempos nada habituais para esta faixa etária.

★★★
A Alegria (Idem, Brasil, 2010) de Felipe Bragança e Marina Meliande

BALADA DO AMOR E DO ÓDIO


Uma sangrenta fábula sobre redenção aliada ao retrospecto histórico de um país intensamente movido a literal dieta do pão e circo. Balada do Amor e do Ódio caminha pela medida fantasiosa e igualmente violenta proposta de Álex de la Iglesia com toques de humor e ativismo político. O resultado é uma obra caricata.

Mesmo com a intensidade da desconstrução do conflito do protagonista, o palhaço triste Javier (Carlos Areces) - que viu seu pai preso e torturado durante a guerra civil espanhola, o filme não consegue a sustentação necessária para aproximar o espectador para seu desenvolvimento. Tudo graças à duplicidade nas intenções do diretor; se por um lado este conto violento enriquecido pela estética é inflamado pela força psicológica que as origens de um país se espelham em Javier, por outro, as inserções cômicas insólitas dão um tom abstrato ao que o filme realmente se refere. Esta idéia abre a possibilidade de histórias paralelas com o mesmo elenco.

Para provar que físico e emocional podem se equivaler, la Iglesia tenta de tudo num mosaico de referências do gênero marginalizado do cinema (o terror): a subversão do herói, o banho de sangue, a ironia e claro, a união da linguagem pop à violência. Balada do Amor e do Ódio é funcional em alguns pontos, mas sofre da falta de autenticidade.

★★
Balada do Amor e do Ódio (Balada Triste de Trompeta, Espanha/França, 2010) de Álex de la Iglesia

SUPER 8


Em síntese, o legado de J.J. Abrams (Lost, Star Trek) – agora confortado pelo aval de Steven Spielberg – foi construído pela costura de referências. Super 8, escrito e dirigido por Abrams e produzido por Spielberg, leva este exercício ao extremo. Tributo e plágio neste caso podem vestir a mesma camisa, afinal o resultado será o mesmo.

Para criticar indiretamente a postura evasiva do governo e do exército americano que mudaram o foco da caça a Bin Laden de diversas maneiras, Abrams cria um mosaico de referências a longas oitentistas e constrói um típico disaster movie onde momentos da carreira do próprio Spielberg servem como sustentação. Lá estão citações, seja na idealização dos personagens ou na narrativa, a E.T – O Extraterrestre, Os Goonies, de Richard Donner, Conta Comigo de Rob Reiner, Contatos Imediatos de Terceiro Grau e Guerra dos Mundos, para citar alguns. O modelo narrativo se encaixa na proposta, afinal, o longa se passa no fim da década de 70 e nada mais é que a transposição dos primórdios da carreira de Abrams e Spielberg, no qual produziam filmes em super 8 durante a infância.

Abrams não vende seu filme como uma obra de espírito jovial feito por diretores experientes e que tem todo aparato tecnológico para levar a brincadeira a sério – e assim, invertendo o propósito da história. Neste ponto mora o grande tropeço do longa, que ao adotar os mesmos macetes de roteiros consagrados, implica total dependência da interpretação do público. E assim, aos poucos, Super 8 torna-se uma caricatura do que realmente deveria ser.

★★
Super 8 (Idem, EUA, 2011) de J.J. Abrams

A ÁRVORE DA VIDA


O que tem forma pode ser deformado. O que é real pode ser manipulado. Separando o comportamento humano pela graça do Criador – Deus – e a natureza da criatura – homem –, Terrence Malick (O Novo Mundo) utiliza artifícios conhecidos de sua filmografia para estreitar a relação de soberania entre os dois extremos apurados, usando o livro bíblico de como parâmetro.

Através de um fio narrativo – a perda de um filho -, Malick vai para o início dos tempos, literalmente; utiliza sequências de plasticidade perturbadora, que ao passar do filme tornam-se redundantes para representar as contradições humanas – acostumadas a se transformar em louvor ou em saídas instintivas. Ao analisar as criações de Deus - que com o tempo se tornaram a ilusão do poder do homem, ilustradas por carros e fábricas, Malick dilui a fraqueza na construção de cenas fortíssimas no qual Mr. O’Brien (Brad Pitt) transforma o convívio com sua família em martírio.

Para os filhos de O’Brien, a relação com o Criador é ambígua. Afinal, quem é Deus dentro de casa? Devemos segui-lo? É declarado o fim da inocência. Como Jack (Hunter McCracken / Sean Penn), invertendo o sentido de uma das mais citadas passagens da bíblia, diz: “Não gosto do que eu faço. O que eu gostaria de fazer, não faço.”

Dominado pelo onirismo, A Árvore da Vida não esconde sua constatação pessimista às fraquezas da humanidade e compartilha do mesmo gênero narrativo de pilares cinematográficos como 2001 – Uma Odisséia no Espaço e THX 1138. Regido por fades e elipses, o vencedor da Palma de Ouro em Cannes deste ano é irônico com seu feitio: enquanto permeia o citado fio narrativo por todo o filme, sem permitir a dispersão, faz questão de se manter inconclusivo e aberto a múltiplas interpretações com uma única função: derrubar nossas certezas.

★★★★
A Árvore da Vida (The Tree of Life, EUA, 2011) de Terrence Malick

MELANCOLIA


A analogia da colisão de dois mundos à relação dos amantes incrustada na primeira metade de Melancolia, novo longa do polêmico - e agora persona non grata em Cannes - Lars Von Trier , se desenvolve a ponto de tornar-se mutante dentro da narrativa, sustentada pela contagem regressiva do suposto fim do mundo. Mas a tensão que rege o longa tem intenções abrangentes.

Sempre implícito, Von Trier desdenha das premiações, do mercado cinematográfico e justifica: “É difícil seguir com estas amarras nas minhas pernas”. Para o diretor, a dança da morte (nome que batiza a colisão da Terra com o planeta que dá nome ao filme) supre a mesma temática de seu antecessor, Anticristo, de 2009, e profetiza a reação negativa da crítica. Como escudo está Justine, personagem de Kirsten Dunst, uma boa intérprete, mas de técnica perceptível. Se o filme protagonizado por William Dafoe e Charlotte Gainsbourg era catapultado pela religião e a origem dos tempos, Melancolia é exatamente o oposto (ciência e o fim), seguindo a fórmula impetuosa que nos acostumamos a ver em filmes como Ondas do Destino e Dogville.

A metáfora também cabe à análise da obra do diretor dinamarquês, que sempre atrela arte ao caos – representados explicitamente pela sequência inicial do filme – e que se desenvolvem na estética crua – herança do Dogma 95 - e nos cacoetes técnicos. A aura pessimista evoca paradoxos existenciais como a , fidelidade, saúde e dinheiro e a violência com intensidade necessária para acelerar o ritmo narrativo. Von Trier pode ter apostado e profetizado, mas está longe de ser representado por Justine. Melancolia mostra um autor interessado em seguir o curso natural pós Anticristo, um filme rico em detalhes líricos e estéticos que está na margem do onirismo e abre diversas possibilidades de interpretação.

★★★★
Melancolia (Melancholia, Dinamarca/Suécia/Alemanha/França, 2011) de Lars Von Trier

ATERRORIZADA


Dez anos após Os Fantasmas de Marte, John Carpenter resolveu voltar à cadeira de diretor. E mostra que não perdeu a majestade. Aterrorizada se passa em um centro psiquiátrico e acompanha Kristen (Amber Heard), jovem recentemente internada após atear fogo em uma casa sem motivo aparente.

Na relação de Kristen com as internas, Carpenter cria a atmosfera de suspense. Abstrata, a representação de cada personagem é mutante. Entre o ativismo e a total submissão ao tratamento, uma teia conspiratória ganha forças sobrenaturais para relatar o caos que a reabilitação implanta às pacientes. Carpenter não se atreve em posicioná-las como heroínas ou vilãs, dando força maior para o mistério.

Aterrorizada marca o retorno ao básico, longe das pretensões de criar ícones, e sim a de reunir o suprassumo das invenções que o terror passou nas últimas décadas, em especial a de setenta. A de unir o impacto imagético à crescente atmosfera de suspense sem gratuidade e ser visceral, à priori.

★★★★
Aterrorizada (The Ward, EUA, 2010) de John Carpenter

COMANDANTE TREHOLT E SUA TROPA DE NINJAS


Inspirado pelos filmes de samurais, Thomas Cappelen é direto em suas intenções em Comandante Treholt e sua Tropa de Ninjas: equivaler o tributo - que naturalmente leva ao humor pela escassez de estrutura técnica, levada à última potência neste caso - à narrativa frenética apoiada na idéia de um filme exploitation.

Baseado na verídica história de Arne Treholt, um diplomata norueguês que defendia o seu país através de um plano direitista pra lá de duvidoso, o longa subverte o subtexto político como alavanca narrativa - e a partir dai, revisa e  escracha condutas políticas com sequências de ação hilárias. E são nelas que Cappelen guarda a força maior para a representação de cada personagem.

Na duplicidade das atitudes de Treholt, o diretor não poupa críticas às tendências aparentemente pacifistas. Se o ideal é rico em intensidade, o engajamento logo satura seu formato - as piadas são incessantemente repetidas, atrapalhando o desenvolvimento da história, esta que, no último ato, volta aos bons momentos criados em seus primeiros minutos - idealizado como uma epítome do que há de melhor na ironia, utilizando a escória do mundo como inspiração.

★★★
Comandante Treholt e Sua Tropa de Ninjas  (Kommandør Treholt & ninjatroppen, Noruega, 2010) de Thomas Cappelen

A RAÇA VIOLENTA



O terror talvez seja o gênero menos egoísta do cinema. Faz-se o necessário para o filme confrontar o espectador; seus medos e reações ao que a tela exibe. O terror nada mais é que uma abordagem ao efeito do olhar. A Raça Violenta é um caso atípico. É um filme feito para ele. Naturalmente desdenha o espectador e o autor, no caso, os irmãos Butcher.

A Raça Violenta atrela o vazio à gratuidade das atrocidades - a construção de um mito - de uma gangue de motoqueiros do norte da Califórnia. A reviravolta - em todos os sentidos, incluindo a estética - acontece no meio do filme. Nela se justifica a idéia de egoísmo. De uma proposta inteiramente imagética e conceitualmente pobre, o longa ganha aura fantástica e engajada para questionar a intolerância e sua pungência nos dias de hoje.

Na cena mais interessante do filme - onde uma gangue de roqueiros tortura os motoqueiros para achar Michelle, uma garota possuída - os irmãos Butcher deixam claro o desdém pela humanidade e traçam nosso futuro com bastante pessimismo, remetente ao longa de Frank Darabont, O Nevoeiro. Apesar das intenções, A Raça Violenta é um filme que não traça nenhum tipo de diálogo com o espectador. Apenas tropeça e passa o restante de sua duração se corrigindo. E consegue.

★★★
A Raça Violenta (The Violent Kind, EUA, 2010) de The Butchers Brothers

SATANÁS TE ODEIA



O artíficio e seu reverso. Com esta base, Satanás te Odeia pode ser considerado um filme de terror cristão. O longa é inspirado em filmes religiosos da década 70 e os usa como fonte de deboche. Nele, a representação do mal ganha nova perspectiva com o pretexto de estabelecer uma relação do gênero – e o diabo como símbolo da dor – com a proposta do diretor James Felix.

Todas as características que identificam o gênero estão presentes: a artificialidade e exagero, o humor e principalmente a ousadia para realizar um filme de baixo orçamento. O longa acompanha paralelamente a história de Marc, um alcoólatra homicida e Wendy, garota que vive no mundo das drogas. Ambos são objetos de desejo de dois demônios – hilários, por sinal. Conforme a desgraça dos dois aumenta, James Felix aborda o lado espiritual da história sem esquecer do sangue e dos vômitos.

Bem ritmado até o último ato, o longa destoa de sua proposta narrativa no escorregão de levar o drama de seus protagonistas a sério. Neste momento, Felix deixa sua intenção explícita: pregar. Nem que seja na base da gozação e de forma ambígua. E dela, o diretor arranca uma das cenas finais mais inteligentes e simplistas dos últimos anos.

★★★
Satanás Te Odeia (Satan Hates You, Alemanha/EUA, 2010) de James Felix

VEJO VOCÊ NO PRÓXIMO VERÃO


O dito cinema independente americano, agora dono de um modelo de fácil identificação e reformulação para o mainstream, ainda suspira dentro de pequenas variações. Vejo Você no Próximo Verão, debut diretorial de Philip Seymour Hofman adota o subgênero para narrar a história de Jack (Hofman), motorista de limousines  que se prepara durante o outono para um encontro no verão com Connie (Amy Ryan).

Como a cartilha pede, os personagens – ambos integrantes da chamada  classe trabalhadora de Nova Iorque - são cercados pela derrota, dominados pelo pessimismo e reféns da passividade; o raciocínio é para realçar a idéia do fracasso de relações conjugais através do tempo. Hofman economiza na análise dos personagens e parte para ação; motivados pelo abstrato bem-estar, eles viram uma representação sociológica na busca do imediatismo. Pela silenciosa obsessão por atividades físicas ou pelo uso de drogas.

Com um roteiro irregular - escrito por Robert Glaudini, também roteirista da peça em que o longa é baseado -  Vejo Você no Próximo Verão tem seus momentos, principalmente quando resolve ironizar a previsibilidade do gênero. O encontro – a priori o foco da história -, aos poucos dá lugar à crise do casal coadjuvante, construindo sequências intensas e igualmente surreais, onde a música é fonte da força narrativa. Lamenta-se que esses momentos aconteçam apenas no último ato, e que todo seu resto seja apenas desgastado com o conto da expectativa para um encontro adaptado para um formato saturado.


Vejo Você No Próximo Verão (Jack Goes Boating, EUA, 2010) de Philip Seymour Hofman

CORAÇÕES PERDIDOS


Longe da autenticidade, Corações Perdidos é construído numa idéia utópica da bondade e sua imediata oposição. O diretor Jake Scott (De volta à direção após Plunkett e Macleane – Os Saqueadores, de 1999) elabora reações intrínsecas no choque de um casal em crise após o grande trauma de uma perda e uma prostituta ofegante, atrás de um suspiro de vida.

Os Rileys (James Gandolfini e Melissa Leo) estão mortos. Reagem instintivamente a dor de forma solitária, descontando em cigarros, síndromes e casos extraconjugais. Allison (Kristen Stewart) nada mais faz que representar o fundo do poço – ou um grito de socorro reverberado na vida do casal. Nesta relação, Scott opta por conflitos rasos, sugestivos à benevolência do espectador – para ambos os lados. O imediatismo na identificação dos Rileys e Allison se justifica à necessidade de um recomeço, mas em Corações Perdidos, a vida parece a mesma quando se está no céu ou no inferno. Existe concretismo em demasia nas intenções do diretor e nos diálogos não lapidados, que desembocam na infantilidade de Allison como melhor justificativa.

Com o choque do idealismo de Scott à temática dura e suja – representada muito bem pela casa da prostituta -, vemos um filme sem articulações, protagonizado por estereótipos, carregados com louvor por Gandolfini e Leo. Já Stewart mostra a mesma afetação que a consagrou na franquia Crepúsculo. Ficam no ar as boas intenções, principalmente as do primeiro ato, onde Scott acolhe o silêncio para apresentar seus personagens. Um filme truncado como um choro que há muito se espera, mas não tão dolorido quanto suas motivações.

★★
Corações Perdidos (Welcome to the Rileys, Reino Unido/EUA, 2010) de Jake Scott

NOVO ENDEREÇO

 Amigos, agora estou neste endereço: www.7a1filmes.com/blog Deixarei este blog aqui como arquivo de quase 20 anos de blogs, sites e revistas...