INCÊNDIOS


Em pauta, a guerra sem fim entre cristãos e muçulmanos. Esqueça qualquer inserção temática tendencionalista ou a utilização do mesmo para elevar impactos melodramáticos. Incêndios é visceral e aposta na crueza ao cruzar décadas deste conflito, fragmentando a narrativa baseada na peça de Wajdi Mouawad e criando uma dinâmica muito interessante com o público quando expõe a história de irmãos à procura da verdade sobre a formação e desfragmentação de sua família.

Em pequenos capítulos, que servem mais como dicas para o espectador montar o quebra-cabeça sugerido por Dennis Villeneuve, a história/martírio se dissolve em cortes secos e na ausência de elementos extra tela. O caos emocional que espelha interesses políticos e religiosos não é confundido pelo diretor, que outrora fez o fraquíssimo Polytechnique.

Incêndios é um daqueles filmes gostosos de acompanhar não só pela composição dramática do texto e da excelência exercida nas atuações, mas pela fragmentação – nada pretensiosa vale dizer, que ressalta a potência da resolução de cada ato e resgata um costume perdido há um bom tempo no cinema: o de dialogar com o público e saber a potência ilusionista que a arte tem.

 
Incêndios (Incendies, Canadá/França, 2010) de Denis Villeneuve

BRUNA SURFISTINHA

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A estreia de Marcus Baldini como diretor de cinema o coloca como mediador de uma problemática do cinema nacional: Bruna Surfistinha parece ser um catalisador de saídas e soluções para um conceito moldado no início da década passada. Porém, o filme de Baldini vai até onde pode. Flerta algumas vezes com o lírico, quando seu texto o permite, mas por boa parte de sua narrativa, procura, na verdade, é ser o mais direto possível sem adotar conceitos estilísticos ou institucionalizar personagens e a própria vida de Bruna, garota de classe média alta que sai de casa por conta do desgaste na relação com seus pais e irmão.

A impressão é que existe pressa para compactar todas as informações do livro em que o filme foi baseado. Para aprofundar em qualquer assunto além do queda-ascensão-queda da vida profissional de Bruna, precisaria de muito mais tempo que talvez deixasse tal ritmo narrativo irregular. Bruna Surfistinha carrega em seu desenvolvimento – realçado pela entrega de Deborah Secco - algo que pouco há no cinema nacional quando o assunto é mercado: a necessidade de abordar um tema e desenvolvê-lo sem pretensiosismos técnicos ou subestimar sua platéia.  Não coloca a possível delicadeza do assunto como fonte de sensacionalismo ou conservadorismo, apenas como reconstituição dramática de fatos. Convenhamos, por mais óbvio que pareça, é comum que idéias como essa se esmaeçam em visões maiores que a obra.

E por manter-se linear em senso, ritmo e análise, o longa dilui silenciosamente formas e critérios de desenvolvimento de arte como entretenimento, como a protagonista diz em total licença poética em algum momento do filme. Seja intencional ou por puro acidente, a verdade é que Bruna Surfistinha é um filme que cativa os requisitos da cartilha comercial sem tornar-se pedante.

Bruna Surfistinha (Idem, Brasil, 2011) de Marcus Baldini

SEPARADOS PELO DESTINO


A recepção calorosa da crítica a Separados pelo Destino durante o Festival de Cinema de Torono traduzia a euforia à escassez de filmes além da temática marcial na China. E o calor deve parar por ai. Pois o filme de Feng Xiaogang (baseado na obra de Ling Zhang) é a síntese da má realização dramatúrgica e composição melodramática de um longa. Nos primeiros minutos, onde Xiaogang procura o seu ponto de desenvolvimento narrativo – no caso, o terremoto que destruiu a cidade de Tangshan em 1976 e que separou dois irmãos gêmeos – naquilo que conhecemos como filme-desastre numa sequência longuíssima e de estética chocante e igualmente duvidosa, questionei-me se assistiria uma obra megalomaníaca calçada no ideal do cinema-espetáculo ou um capítulo estendido de alguma novela mexicana.

A partir daí, qualquer esperança de nuances narrativos pode ser anulada. Desenvolvimento e resoluções de conflitos são tão pobres que o filme se sustenta apenas pelo ritmo. É claro que a história chega ao limite do apelo melodramático e que pode conquistar corações mais sensíveis, mas a linha entre tributo e apelo em certo momento deixa de ser tênue, principalmente por escolhas tão óbvias para ilustrar a proximidade dos irmãos que viveram sob a sombra desta tragédia.

Xiaogang parece perdido; ilustra o óbvio e dispensa os conflitos, sempre com a intenção de entregar uma obra agridoce, sem ferir sentimentos de sua audiência, numa inevitável comparação - novamente - a uma novela, que segue um padrão máximo de frieza e acomodação referente ao seu público. Assim, elimina-se clímax e a calidez necessária para aproximar personagens e desenvolvimento narrativo para identificação ou total interação com o filme.


Separados Pelo Destino (Tangshan Dadizhen, China, 2010) de Feng Xiaogang

127 HORAS


Era de se imaginar que a história de um homem preso a uma pedra por 127 horas levasse a um caminho que sua narrativa sustentasse elementos de suspense. Danny Boyle não elimina por completo essa proposta, mas opta por um tour de force louvável ao analisar a perda de lucidez de um homem através de uma desconstrução ilustrativa.

127 Horas guarda resquícios narrativos dentro da dinâmica da linguagem de vídeo-clipe que mantém o ritmo do longa intacto. Para abordar todos os pesos da mente de Aron Ralston (James Franco), Boyle abusa de todas as idéias que tal saída lhe proporciona: tela dividida, fragmentação do tempo e o encontro imagético com seus conflitos, justificados pelo estado físico do protagonista. Como forma de exorcismo e aproximação ao público, lá está uma filmadora portátil.

Ainda sim, o filme possui forças para ser claustrofóbico por analisar a situação como um todo, não apenas no sofrimento do escalador. Mas, por priorizar o monstro interior de Aron, a necessidade de inserir elementos melodramáticos (reforçada pela trilha de A.R. Rahman) desequilibra o epílogo e dá margem ao desfecho brusco e demasiadamente manipulado, visualmente falando.

127 Horas (127 Hours, EUA/Reino Unido, 2010) de Danny Boyle

O DISCURSO DO REI


O grande trunfo de O Discurso do Rei é o seu desenvolvimento narrativo unido a pertinência de elementos imagéticos para representar o estado emocional de seus personagens. Tom Hooper (Maldito Futebol Clube) os solta na junção de um roteiro bem resolvido e separa seu filme em três atos e em distintas formas de análise pela escolha de quadros. Eles vão, aos poucos, dominando a tela. No ínicio, quando estão inseguros e incômodos, os personagens se espremem no canto da tela. No último ato, o excesso de planos fechados sinaliza a segurança e elimina a sensação decorativa sugerida pelo diretor.

Outro grande aposta - com êxito -  do filme de Hooper é a segurança para brincar com fatos históricos, que mesmo usados como pano de fundo, não assumem um papel intocável ou entronizado. Assim, toques de humor são inseridos junto à sua manipulação e impedem que o filme perca ritmo e tome o caminho melodramático.

Fora o perfeito conjunto de elementos funcionais, O Discurso do Rei conta com um elenco em sintonia, que preenche requisitos obrigatórios para este gênero, ao mesmo tempo em que é trivial na hora de desconstruir estereótipos.

O Discurso do Rei (The King's Speech, Reino Unido/Austrália/EUA, 2010) de Tom Hooper

O VENCEDOR

Christian Bale Mark Wahlberg

O fato de O Vencedor ser baseado em uma história verídica não o tira de um conceito. O velho conto da superação, unido ao indigesto olhar direitista maquiado pela dupla nacionalidade de Micky é o elemento que impulsiona a narrativa. Como Rocky – Um Lutador fez na segunda metade dos anos 70, O Vencedor exige as mesmas motivações do espectador, mas desta vez sem a sinceridade da obra de baixo orçamento que consagrou Sylvester Stallone.

David O. Russel dá dinâmica à história de uma família em cacos que depende financeiramente de Micky (Mark Wahlberg, boxer  que vê sua carreira em queda prematura) e Dicky(Christian Bale, ex-boxeador e  entregue às drogas) através de conflitos densos. A contemporaneidade e a forma com que o diretor aborda assuntos delicados são virtudes do roteiro, realçados e sustentados por atuações primorosas de  Bale, Melissa Leo e Amy Adams. Sem subtramas, limitado sempre à geografia das cenas e a um só núcleo, O. Russel destroça o efeito causa-consequência nas diversas esferas que cercam Micky.

O clímax, obviamente passado dentro de um ringue, parece truncado, forçado demais. Sua existência é questionada dentro da diegese. O desleixo com sua decupagem é perceptível e não enfrenta a onisciência e pulgência da relação conturbada dos personagens. Por outro lado, a sequência é a epítome do que o cinema americano sempre pregou e vai de encontro com o caminho tortuoso que o diretor criou para imprimir a realidade de um país nem tão perfeito assim.

 
O Vencedor (The Fighter, EUA, 2010) de David O. Russel

CISNE NEGRO


A intensidade com que Darren Aronofsky rege a transformação do belo em trágico através da literal metamorfose do artista em arte utilizando aspectos distintos e aparentemente sem encaixe coroam o choque em Cisne Negro.

Aronofsky está à procura da representação do abstrato, do caótico, da interminável guerra da autodestrutiva mente de Nina (Natalie Portman), seja nas imagéticas metáforas - onde boa parte delas acopla elementos do suspense e até mesmo do gore – ou na decupagem de seus planos, que praticamente coreografa sequências de câmera na mão e planos mais abertos, como se cada cena guardasse seu momento de bonança e tempestade.

O balé, fonte de inspiração do roteiro originalmente escrito por Andrez Heinz, justifica tamanha distinção de elementos usados pelo diretor. É possível compilar cenas tensas, fortes com a sutileza dos passos de “O Lago dos Cisnes”. O rito de passagem do cisne branco para o cisne negro requer calos, dor, descobertas, decepções e a chance para o recomeço.

Justamente neste ponto que Cisne Negro se transforma em campo de qualquer possibilidade, do belo, do grotesco, de saídas tacanhas ou geniais dependendo de sua interpretação. A graça é essa. Interagir dinamicamente com o improvável.

Cisne Negro (Black Swan, EUA, 2010) de Darren Aronofsky

INVERNO DA ALMA

debra granik

A incessante busca da personagem vivida com excelência por Jennifer Lawrence (coroada com uma indicação ao Oscar na última terça-feira) por seu pai é uma redenção mítica e silenciosa junto ao autoconhecimento por trás de tamanha segurança exposta após uma brusca mudança no curso de sua vida. Questionamentos sobre o valor da dignidade e de diferentes formas de submissão estão presentes no desenvolvimento narrativo de Inverno da Alma.

A profundidade do subtexto existencialista é bruta. Os personagens são complexos – possuem defeitos e qualidades suficientes para deixar que o espectador decida o que parece ser conveniente para a protagonista e para qual caminho seguir. Mas Debra Granik lembra que o comando é dela.

A diretora está segura na lapidação do roteiro baseado na obra de Daniel Woodrell, dando informações complementares à história no momento exato, e também se distância de seus personagens optando por analisá-los fria e densamente. Um grande acerto.

Inverno da Alma (Winter's Bone, EUA, 2010) de Debra Granik

UM LUGAR QUALQUER


Imagine uma tela branca. Imaginou? Ok. Agora imagine Sofia Coppola, com um pincel e tinta, fazendo vários traços coloridos e aleatórios pela tela. No espaço em branco, ela resolve contar a história de um ator em decadência emocional e ascensão profissional, que tem sua rotina autodestrutiva interrompida pela presença da filha de onze anos. Poderíamos batizar esta obra de Hollywood ou Fazendo um Filme com os Amigos (só assim pra justificar o prêmio em Veneza), mas a diretora preferiu batizá-lo de Um Lugar Qualquer.

Coppola acerta bem no alvo. Sabe exatamente com quem ela cria diálogos. Com um público que se agradará ao assistir a versão italiana de Friends, ouvir um remix lounge de uma canção superestimada dos Strokes ou até mesmo invejar a camiseta da Sub Pop do protagonista. Um nicho específico,  que claramente divide do mesmo gosto e personalidade que os amigos da diretora. Um Lugar Qualquer é um esboço de história, talvez para fazer o paralelo com o vazio que a classe vive na rotina entre regalias e obrigações profissionais.

O uso da câmera estática com lentos movimentos de zoom reforça tal idéia, que é coroada pelo silêncio do protagonista Johnny Marco (vivido por Stephen Dorff). O choque interior com a mudança da rotina e da forma de se enxergar o mundo calham numa sutileza maior que a diretora procurou por todo seu filme. Consegue emocionar. Por acidente, mas consegue.

 
Um Lugar Qualquer (Somewhere, EUA, 2010) de Sofia Coppola

BIUTIFUL


Em seu primeiro trabalho sem a parceria com Guillermo Ariaga como roteirista, Alejandro González Iñárritu entrega um trabalho que transcende qualquer intenção imagética ou subterfúgio estilístico. Biutiful é uma espécie de epopéia autobiográfica (que fica mais evidente ao longo do filme) que segue no caminho oposto de tudo que já fez em aspectos narrativos. Sem fragmentações – e mesmo assim bastante engajado -, Iñárritu traz para a atualidade e acoplando a atemporalidade um roteiro restrito, bastante particular.

A sempre inquieta câmera de Iñárritu acompanha Uxbal (Javier Bardem em atuação impecável) após o descobrimento da posse de poucos dias de vida por conta de um câncer na próstata. A partir de uma relação abstrata com a morte e o eixo caótico de uma Barcelona encardida, claustrofóbica e inquieta que aspira vícios, doenças, preconceitos e relações quase inconcebíveis, Uxbal demonstra viver numa dicotomia constante.

Entre a fraqueza de seu corpo e a mente poderosa de um homem que cuida de negócios ilegais, está a instabilidade emocional referente aos filhos e a esposa. O grande porém de Biutiful está na composição deste estado. Sem Arriaga, o diretor parece perdido, mais interessado em criar complexos visuais e acidentalmente iguais aos de O Assassino Sentimental de Máquinas do conterrâneo Omar Rodriguez-Lopez. Esta aposta vai de encontro com o oposto de sua narrativa, mais intimista, implícita para contar a agonia de um homem e sua já saudosa relação com a família.

Biutiful (Idem, Espanha/México, 2010) de Alejandro González Iñárritu

TIO BOONMEE QUE PODE RECORDAR SUAS VIDAS PASSADAS

Apichatpong Weerasethakul

Para quem conhece Mal dos Trópicos e Síndromes e um Século, principais obras de Apichatpong Weerasethakul, sabe a importância que o diretor dá a relação homem/natureza/espiritualidade. Tio Boonmee volta à analise onírica, desta vez de forma mais acessível. O filme, vencedor da Palma de Ouro em Cannes, pauta a relação de uma família com a morte quando entes falecidos resolvem reaparecer para cuidar de Boonmee, que tem sérios problemas nos rins.

A viagem é menos hermética e mais abrangente que a da força da natureza de Mal dos Trópicos e da homenagem do diretor aos seus pais em Síndromes e um Século, mas ainda tem sabor de requentado ao unir os dois extremos destes filmes em Tio Boonmee. A crença do diretor mais uma vez é o pilar da história, que em menor quantidade dá abertura às múltiplas interpretações ao discutir a fragilidade humana.

O roteiro, sem originalidade, dá pano para a sempre impressionante plástica e os sempre belos planos elaborados pelo diretor, que na última sequência sai de seu conforto para investigar a causa mortis do mundo. Bonito, mas avulso em relação ao resto do filme, que consegue respirar graças aos instigantes personagens e a lírica construção de diversos paralelos espirituais e sociais.

Tio Boonmee Que Pode Recordar Suas Vidas Passadas (Loong Boonmee raleuk chat, Thailanda/Inglaterra/França/Alemanha/Espanha/Holanda, 2010) de Apichatpong Weerasethakul

O MÁGICO


Muito se fala do resgate de uma linguagem particular, mas essa não é a palavra certa para definir O Mágico, homenagem de Sylvain Chomet ao falecido diretor Jacques Tati, que escreveu o roteiro original do filme. Chomet ordena seu espectador a brigar com sentidos mais inquietos. É preciso desligar-se de um mundo caótico, barulhento, ligeiro e muitas vezes dispensável. Referências à Tati estão por todo canto do filme, visuais ou não, apesar do diretor não perder em nenhum momento traços autorais.

Comprimida na proposta imaginária da elegância francesa, Chomet narra lentamente uma dúbia história de amor. Nela está o fracasso profissional, a decadência econômica, a amizade e a falsa ilusão de eternidade. As múltiplas possibilidades de interpretação casam ao objetivo de anular a gratuidade dos diálogos no cinema e alinhar o que Tati e Chaplin tinham de comum na forma de expressão.

Portanto, reverenciar um modelo, uma época praticamente perdida para o dinamismo que o mundo moderno pede é o que O Mágico faz. Onde se aproveita cada momento oferecido pelo acaso, pela  almejada liberdade, onde a paixão é consumida até o seu fim.
 
O Mágico (L'Illusioniste, Reino Unido/França, 2010) de Sylvain Chomet

ALÉM DA VIDA


À procura de quadros semelhantes às pinturas, como fazia o diretor italiano Michelangelo Antonioni, Além da Vida encoraja-se para tratar de um assunto delicado – a desconstrução da fé além dogmas - sem dilacerar a dicotomia do roteiro escrito por Peter Morgan (Maldito Futebol Clube), que tende em momentos chave da trama a cair em pieguices baratas. Comum, afinal trata-se de um tema onde a naturalidade pode ser confundida com pretensão.

Eastwood cria núcleos com personagens que tiveram relações distintas com o que chamamos “quase morte” e, sob diferentes perspectivas, a imersão melodramática e desconstrutiva do sobrenatural como epítome de uma trilogia. A experiência do diretor está na ousadia, explícita na incrível sequência de abertura do filme, no aspecto artesanal de ilustrar o contato com o “além” e a segura e contida direção, sem afetações visuais ou inserção de reviravoltas surpreendentes.

Além da Vida aborda o ceticismo que se apresenta como hostilidade pelo poder de grandes empresas, sem esquecer de que a fé é uma boa fonte de renda e que também pode destruir relações. Ignorando o subtexto por completo, encara-se a decisão de Eastwood como ousada, que se atenta à mensagem direta ao público, delimitando seu filme à definição.



Além da Vida (Hereafter, EUA/Reino Unido, 2010) de Clint Eastwood

O MELHORES E PIORES DE 2010

E mais um ano chega ao fim. Hora de fazer planos para o próximo e também a já tradicional lista dos melhores e piores filmes do ano. Ao contrário dos últimos anos, tive mais dificuldade para montar a lista dos piores. Acho que me esquivei dos filmes certos. Como parâmetro, usei filmes exibidos no Brasil (festivais, mostras, circuito ou lançados diretamente em DVD), com data de produção entre 2009 e 2010. Filmes vistos em festivais anteriormente e que entraram em cartaz neste ano ficam de fora. Sabemos também que gosto é uma coisa muito particular e que alguns filmes ficaram de fora e podem causar certa, digamos, revolta.

Sem mais delongas, vamos aos filmes:

OS PIORES FILMES DE 2010

10. MINHA MÃE É UMA PUTA (Mother is a Whore, Coréia do Sul, 2009) de Lee Sang Woo

Não é só no título de seu filme que Lee Sang Woo (que também escreve e protagoniza o longa) pretende instigar o público. Sua câmera registra a inversão de valores numa sociedade que cresceu com o peso da doutrina cristã. Mas para posicionar a religião em nosso tempo, o diretor se perde com o desenvolvimento narrativo, fazendo contraponto com as desconstruções de planos da cartilha do cinema clássico americano. O grande problema do filme é como o diretor coloca suas mensagens imbuídas em situações que buscam denegrir classes, gostos e escolhas pessoais. Se não fosse isso apenas, a ladeira desce um pouco mais por conta da bagunça narrativa. Exibido no Indie – Mostra de Cinema Mundial.[LER RESENHA]

 09. NINE (Idem, EUA/Itália, 2009) de Rob Marshall

A famigerada homenagem a 8 ½ de Federico Fellini dirigida por Rob Marshall falha feio por usar os personagens do diretor italiano de forma tão caricata afim de adaptá-los para um musical. As inserções musicais são feitas apenas para martelar na mente do espectador, de forma tendenciosa, o mais óbvio: a crise de um diretor para escrever seu novo filme enquanto é amedrontado por todas as mulheres de sua vida. Sem muitos desdobramentos e longe da brilhante forma que Fellini realizou 8 ½ , o filme de Marshall sobrevive graças as atuações de Daniel Day-Lewis e Penélope Cruz. Exibido em circuito.[LER RESENHA]

08.ASSALTO AO CARRO BLINDADO (Armored, EUA, 2009) de Nimród Antal

Tenho a curiosidade em saber o que passou pela cabeça de Nimród Antal para dirigir um roteiro tão fraco e previsível como o de Assalto ao Carro Blindado.  E também o motivo para ele figurar na Blacklist (lista dos melhores roteiros que não saíram do papel) de 2008. O filme aborda a corrupção policial de forma tão desleixada e com um elenco onde todos tomam posição de coadjuvante, a coisa só piora. Por mais que o esforço de Antal seja perceptível, o longa não consegue formar um posicionamento concreto, mesmo que seja o de se assumir como puro entretenimento. Lançado diretamente em DVD. [LER RESENHA]

07.O GOLPISTA DO ANO (I Love You Phillip Morris, França/EUA, 2009) de Glenn Ficarra e John Requa

O humor de O Golpista do Ano é justificado pela opção sexual de seus protagonistas e troca os pés pelas mãos; tudo é motivo para cair em escatologia, para falar de pênis ou brincar com formatos de objetos. A carência da desconstrução de personagens para dar algum sentido às intenções dos diretores é grande. Ela  abordaria um humor mais refinado e daria uma nova faceta ao filme, que no fim das contas parece gratuito, caricato e sem inspiração alguma, mesmo cheio de boas opções a seguir. Exibido em circuito.[LER RESENHA]
06. O ESTUDANTE (El Estudiante, México, 2009) de Roberto Girault

O Estudante foge de uma total catástrofe graças ao dinamismo de suas cenas e por não oscilar por outros caminhos; Girault assume a identidade de seu filme nos primeiros minutos e a mantém intacta até o fim. Por outro lado, fica em aberto diversas possibilidades no roteiro e pesa a insegurança do elenco (exceto o inspirado Jorge Lavat) e da direção. A conclusão é que estamos diante de um capítulo de novela mexicana com duração estendida. Exibido em circuito.

05. A INVENÇÃO DA CARNE (La Invencion de la Carne, Argentina, 2009) de Santiago Loza

O grande problema de A Invenção da Carne é a redundância que Santiago Loza expõe com o tempo. Sua mensagem é passada logo nos primeiros minutos de filme e de resto, vemos um diretor desesperado para achar um sentido plausível para continuar sua narrativa, repetindo o mesmo raciocínio de formas diferentes. O médico com síndromes. A prostituta carente. Chega a ser ordinário. Até o epílogo, acompanhar os personagens, sempre em estado de ebulição emocional, é um sofrimento. Exibido no Festival do Rio 2010.
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04.400 CONTRA 1 – UMA HISTÓRIA DO CRIME ORGANIZADO (Idem, Brasil, 2010) de Caco Souza

A intenção de 400 Contra 1 é humanizar os personagens. Não elevá-los a status de herói ou de bandido.  E em cada época retratada, uma fórmula. E não pense que esta saída organiza o roteiro. A edição – exageradamente picotada e sem senso narrativo, não coopera. A mesma edição esmaece a veracidade dos fatos por não tratar estes mesmos personagens com a proximidade necessária para criar uma identificação. Eles não possuem conflitos e não é possível assimilar o tempo com os fatos. Em certa altura do filme fica impossível acompanhar esses relatos abstratos e ainda buscar alguma formação conflituosa para os milhares de personagens que pipocam na tela. Exibido em circuito.[LER RESENHA]


03. FÚRIA DE TITÃS (Clash of Titans, Inglaterra/EUA, 2010) de Louis Leterrier

Economizando em informações, o filme de Louis Leterrier apenas aponta um caminho para seu protagonista vestir a camisa de herói e partir para a batalha, levando tal pratica egoísta ao seu extremo. Os coadjuvantes ganham personalidades tão rasas que fica impossível criar empatia por qualquer um deles. Sem brechas para momentos contemplativos, a trama consiste em um bloco de cenas de ação que preza pelo apelo visual – sem sucesso, pois elas ficam entre o total retrocesso tecnológico (mesmo com a inclusão do 3D de última hora) e uma estética ordinária em filmes deste gênero. Exibido em circuito.[LER RESENHA]

02. A SAGA CREPÚSCULO: ECLIPSE (The Twilight Saga: Eclipse, EUA, 2010) de David Slade
Em certo ponto de Eclipse cria-se a necessidade de uma interpretação que represente o filme de uma forma justificável; compreende-se que os personagens dirigidos por David Slade (30 Dias de Noite) estão com os hormônios à flor da pele e uma sequência de gags sobre o constrangimento gerado sobre esta situação guiam a narrativa ou que este mesmo constrangimento vem até o espectador por uma trama vazia que se sustenta em detalhes desnecessários. Exibido em circuito.[LER RESENHA]

01. SEGURANÇA NACIONAL (Idem, Brasil, 2010) de Roberto Carminati 

Por que fazer um filme de ação se o diretor não sabe conduzir as cenas que o texto exige? Como domar a audiência se o mau gosto está em todas as cenas desse filme? Como levar a sério um protagonista em nível máximo de canastrice como Tiago Lacerda? Como aturar uma história que se agarra em aspectos saturados pelo cinema americano e com qualidade infinitamente inferior?

MENÇÕES DESONROSAS 
Alice no País das Maravilhas de Tim Burton, 8 Vezes de Pé de Xabi Molia,Insolação de Daniela Thomas e Felipe Hirsch, Lembranças de Allen Coulter e Brilho de Uma Paixão de Jane Campion

OS MELHORES FILMES DE 2010
 
10. TROPA DE ELITE 2 - O INIMIGO AGORA É OUTRO (Idem, Brasil, 2010) de José Padilha

O dinamismo do roteiro impressiona. Os diálogos de tão despretensiosos chegam a impactar. Entretanto, é impossível não entrar na imparcialidade que Tropa 2 sustenta. O cunho social que o filme traz deixa toda amarra do roteiro ficar pequena. A fidelidade com que Padilha a violência no Rio de Janeiro coloca em cheque o que é ficção ou o que reconstituição de algum fato, além de demolir um suposto discurso fascista tão levantado após o lançamento de Tropa de Elite. Seja lá em qual lado seu pensamento reside, ele será novamente impactado. Exibido em circuito.[LER RESENHA]

 09. O ASSASSINO SENTIMENTAL DE MÁQUINAS (The Sentimental Engine Slayer, EUA/México, 2010) de Omar Rodriguez Lopez

A narrativa de O Assassino Sentimental de Máquinas é fragmentada ao extremo a ponto do último ato completo exija atenção redobrada. Mas não é o aspecto mais importante do debut de Omar Rodriguez-Lopez, líder do grupo The Mars Volta na direção. O Assassino Sentimental de Máquinas é uma experiência sensorial, onde figuras de linguagem, unem-se para criar as possibilidades do sonho e traumas, acopladas a já citada frenética edição transformam a grande crise existencial de Barlam, um jovem que não suporta o peso de uma cartilha comportamental adolescente numa viagem abstrata e extremamente envolvente. Exibido no Indie – Mostra de Cinema Mundial [LER RESENHA]

 08. KICK-ASS – QUEBRANDO TUDO (Kick-Ass, EUA, 2010) Matthew Vaughn

Filmes de heróis chegaram às telas aos borbotões na última década. Muitos com diretores com cacife suficiente para justificar a compra de ingresso como o caso de Zack Snyder (Watchmen) e Sam Raimi (a trilogia Homem-Aranha), mas poucos realmente se aventuraram em um terreno que desconstrua super-heróis além de um formato acessível a grandes públicos. É o que acontece em Kick-Ass – Quebrando Tudo. A adaptação da graphic novel de Mark Millar e John Romita Jr. para os cinemas consiste na inovação na desmistificação de heróis e em interessantes fragmentos de referências – e isto deve ser visto com bons olhos. É divertimento, é comédia adolescente, incorreto e extremamente violento, mas o que chama mais atenção da obra é como o filme de Matthew Vaughn é composto por caminhos tortuosos para o que chamamos de “blockbuster”. Exibido em circuito.[LER RESENHA]

07. AS MELHORES COISAS DO MUNDO (Idem, Brasil, 2010) de Laís Bodanzky

Em certo ponto do longa fica impossível não associar a obra de Bodanzky aos filmes de John Hughes (principalmente Clube dos Cinco), que ao mesmo tempo que usava sua trama à um viés despretensioso, estudava uma geração. A relação dos jovens ao sexo, entorpecentes, imaturidade, novas formas de relacionamento, meios de comunicação e problemas familiares é vista por Laís de uma maneira que foge completamente de um modelo formulado por emissoras de TV, que geralmente utilizam os jovens como meros coadjuvantes ou simplesmente abusam do mau gosto para construir uma realidade distorcida. A idéia da diretora carrega resquícios de uma maneira mais “analógica” de se ver a vida, pois seus personagens prezam pelo contato ao vivo, que aos poucos e naturalmente brinda o espectador mais velho com uma sensação nostálgica. Exibido em circuito.[LER RESENHA]

06. MICMACS – UM PLANO COMPLICADO (MicMacs à tire Larigot, França, 2010) Jean-Pierre Jeunet

Remetente às comédias do cinema mudo (em especial Charles Chaplin) e engajado, o filme de Jeunet é primoroso na linguagem dinâmica e no impactante visual. Brinca com o absurdo e com a (in)competência de nossa raça. Não dá muito tempo para reflexões, mas faz questão de entregar suas intenções nos momentos finais (e geniais). Para apreciar todos os detalhes é preciso ver MicMacs muitas vezes. Farei isto com o maior prazer. Exibido no Festival do Rio e na Mostra de Cinema de São Paulo.[LER RESENHA]

 
05. O GUERREIRO SILENCIOSO (Valhalla Rising, Dinamarca, 2009) de Nicolas Winding Refn

Anti-climático, o filme estuda o exercício da fé e a religiosidade como uma doença. O longa se fantasia de épico, mas tende muito mais às questões existenciais que para as batalhas – que praticamente não existem, mas quando cria embriões, se transformam em sequências brutais de violência. Nicolas Winding Refn (diretor do aclamado Bronson) cria quadros belíssimos para representar a angústia de seus personagens, perdidos, à procura de um sentido numa doutrina abstrata.  Lançado diretamente em DVD.[LER RESENHA]

 
04. FILM SOCIALISME (Film Socialism, França/Suíça, 2010) de Jean-Luc Godard

Fora o lado inovador de representar duas formas de arte praticamente marginalizadas dentro de uma narrativa, Godard esmaece diversos assuntos sem que eles pareçam deslocados dentro da proposta quase descompromissada com seu próprio engajamento. Film Socialisme é sim um filme difícil de assimilar e propositadamente feito para ser visto diversas vezes, junto com novas idéias e posturas. Exibido em circuito.

 
03. UM HOMEM SÉRIO (A Serious Man, EUA, 2009) de Joel e Ethan Coen

Os irmãos Coen usam a manipulação para representar o princípio básico da linguagem audiovisual. A história de Gopnik dá margem para uma narrativa dinâmica, que não deixa imunes valores e costumes da sociedade que são exaltados pela direção de Joel e Ethan. É assustadora a composição de quadros e movimentos de câmera para acentuar emoções. Toda beleza e sarcasmo de Um Homem Sério são necessários para uma contemplação livre, pois metáforas são freqüentes na trama. A maior e mais brilhante delas, na última cena do filme, é para lembrar que no cinema, Deus está sentado na cadeira de diretor. Exibido em circuito.[LER RESENHA]

 
02. O SEGREDO DOS SEUS OLHOS (El Secreto de sus Ojos, Argentina, 2009) de Juan José Campanella
O diretor Juan José Campanella bebe da decadência característica dos personagens dos filmes noir e do ritmo de filmes de ação americanos para traçar uma trama completa e claustrofóbica. Nela, a pena de morte é citada em alguns momentos, mas é atrelada a cada quadro do filme que também discute o abismo entre as palavras “existência” e “vivência” com bons diálogos e movimentos de câmera precisos. Exibido em circuito.
 
 
01. CÓPIA FIEL (Copie Conforme, França/Itália/Irã, 2010) de Abbas Kiarostami

Apesar de remeter a outra obra-prima do diretor, 10, Kiarostami entrega uma obra inventiva. Diálogos se tornam implícitos pelas própria potência. Relações conjugais podem ser o cerne da discussão (filme/platéia) sobre nossa falta de personalidade e os motivos de sermos tão banais, óbvios e cheio de sentimentalismos baratos. Mas, é um leque gigantesco de questões , construído através da metalinguagem. Cabe ao espectador criar sua própria temática. Exibido no Festival do Rio e na Mostra de Cinema de São Paulo.


MENÇÕES HONROSAS
O Escritor Fantasma de Roman Polanski, HaHaHa de Hong Sangsoo, Kaboom de Gregg Araki, The Killer Inside Me de Michael Winterbottom e Caterpillar de Kôji Wakamatsu

Aproveito que este provavelmente será o último post do ano para agradecer a todos que visitam frequentemente o site, o usam como parâmetro para suas idas ao cinema, que comentam e ajudam a divulgar o site pela rede. Desejo boas festas e um ano cheio de bons filmes para todos nós! Até 2011!

O CONCERTO


Radu Mihaileanu (Trem da Vida) resolveu, através de um mosaico de referências emocionais e políticas, fazer seu ode à música. Utilizando-a além de seus costumes escapistas. A arte também pode ser ferramenta para maniqueísmos políticos ou conciliação familiar. Dentro deste ideal, vemos uma bagunça de gêneros que se enfraquecem ao tomar forma de um conto moral.

O grande trunfo de Mihaileanu em O Concerto é manter intacto o senso rítmico (trocadilho inevitável...) de sua narrativa. Vamos do humor pastelão aos destroços do regime socialista do início da década de 80 na União Soviética e do deboche religioso ao melodrama como sua cartilha exige. A consequência natural, apesar da empatia criada e de alguns bons momentos, é que seus personagens se percam – incluindo suas identidades – no meio desta bagunça.

Em seu epílogo, O Concerto finalmente escolhe um caminho a seguir e entrega uma das sequências mais belas do ano: a do concerto em si. Enquanto Andrey e Anne-Marie (os protagonistas da história) se apresentam, aflitos, para uma platéia curiosa, Mihaileanu destrincha e monta o quebra-cabeça exigido pelo texto. E justamente nesta escolha – a de fazer parte de um gênero, o diretor revela outra vulnerabilidade de seu filme, intencionado a criar situações extremas, que beiram o grotesco, que fará rir pelo desconforto e chorar graças ao apelo.
★★
O Concerto  (Le Concert, França/Itália/Romênia/Russa/Bélgica, 2009) de Radu Mihaileanu

NOVO ENDEREÇO

 Amigos, agora estou neste endereço: www.7a1filmes.com/blog Deixarei este blog aqui como arquivo de quase 20 anos de blogs, sites e revistas...