FANTASPOA 2014

Rápidos comentários sobre filmes vistos no Fantaspoa 2014:

 O Dia Trouxe a Escuridão (El Día Trajo la Oscuridad, Argentina, 2013) de Martín de Salvo

Filme suspendido, desenvolvido através de artifícios e representações. A decisão de fugir do sensacionalismo que o tema traz há muitos anos, usando o vampirismo como justificativa para a tentativa de entronizar personagens é acertada. Tudo aqui é dormente. E de propósito. Usar a iminência de um ataque e ambiência como sinalizadores de um filme de horror é suficiente.

O Samurai (Der Samurai, Alemanha, 2014) de Till Kleinert

O que domina o filme de Till Kleinert é como o flerte com o cinema fantástico amplifica uma espécie de "glória" que a narrativa carrega enquanto curiosamente utiliza a trivialidade da caça de gato e rato entre um  policial e uma representação de vilão das mais criativas dos últimos anos. Dinâmico como um thriller mais interessado em resultados, a força do filme está na subjetividade que o ambiente traz - tédio, passividade e, claro, crimes.  

O Beijo dos Amaldiçoados (Kiss of the Damned, EUA, 2012) de Xan Cassavetes

Tudo em O Beijo dos Amaldiçoados parte do convencionalismo e do controle. Talvez para não ultrapassar barreiras que os vampiros ganharam nos últimos anos e ficar entre o pastiche e um filme extremamente violento. O trabalho de Xan Cassavetes se resume em equilibrar pilares do tema às novas representações visuais e a descentralização da ação a partir de um triângulo amoroso e as necessidades vampirescas. 

Gerontofilia (Gerontophilia, EUA, 2013) de Bruce LaBruce

Bruce LaBruce aponta interesse às narrativas nesta versão gay de Ensina-me a Viver. Com o tradicional cinismo e fetiche estético, o grande trunfo do filme está mesmo no desprendimento do diretor às formas direcionadas como manifesto relacionado aos direitos LGBT. Além de ampliar o alcance da mensagem, Gerontofilia é LaBruce saindo do lugar comum, sem fios narrativos para justificar o diálogo com o erotismo.


Camaleão (Buqälämun, Azerbaijão/França/Rússia, 2013) de Elvin Adigozel e Ru Hasanov
Em análise superficial pós-sessão a questão da necessidade de Camaleão integrar a seleção de filmes de um festival como o Fantaspoa veio à mente. Principalmente por se tratar de um filme que opta pela distância dos personagens, sem eixos e de um silêncio esmagador. Porém, é interessante ligar o filme de Elvin Adigozel e Ru Hasanov ao formato do cinema fantástico. Camaleão é um estudo intrínseco acerca da sobrevivência e da ética sob olhar misantropo - logicamente seguida da ironia que esta ótica traz.  

O Deserto (El Desierto, Argentina, 2013) de Christoph Behl

O fato de Christoph Behl estruturar seu filme conforme a iminência de um ataque de zumbis faz de O Deserto um filme de intromissões. Se o muro separa os personagens do "mundo fantasioso", Behl usufrui deste norte e constrói a tensão dentro da casa e lá exibe as diversas formas de intervenção do real e principalmente de linguagem sem perder a meada de um filme de suspense. 

The Dirties (Idem, Canadá, 2013) de Matthew Johnson

Kevin Smith escreveu no ano passado sobre a importância de The Dirties pela facilidade de justificá-lo como narrativa e torná-lo em produto. Ainda que o filme seja um objeto pra lá de estranho que aborda a cultura pop e o mercado cinematográfico - e seus respectivos legados negativos -, Johnson entrelaça sem pudor a comédia de humor negro estudantil à história de jovens vítimas de bullying que desejam produzir um filme.

Mulher Coelho (Mujer Conejo, Espanha/Argentina/Venezuela, 2013) de Verónica Chen

Por se revelar um filme-denúncia no primeiro ato - o que é de extrema coragem e ambição por unir tal postura à trama fantasiosa -, a estrutura de Mulher Coelho transparece certa inocência por parte de Verónica Chen em ligar suas partes através do ponto de vista de imigrantes sobre a corrupção em um país estrangeiro.

Jug Face (Idem,  EUA, 2013) de Chad Crawford Kinkle

Provavelmente o filme mais convencional da programação do Fantaspoa, Jug Face se configura como uma simples metáfora acerca da opressão religiosa e o fim da compaixão. Serve de contraponto à ótica moderna do gênero e um resgate às tramas oitentistas.


A Estranha Cor das Lágrimas do Seu Corpo (L'étrange couleur des larmes de ton corps, Bélgica/França/Luxemburgo) de Hélène Cattet e Bruno Forzani

A imagem em seu embrião e função básica - a de encadear códigos; A Estranha Cor das Lágrimas do Seu Corpo possui sequências que dobram, desdobram, manipulam resultados e a orientação do espectador que nutre a experiência de um jogo sensorial justificado pelo terror. Experiência válida, ainda que Hélène Cattet e Bruno Forzani não saiam do ponto onde seu filme anterior, Amargo, parou.


Raze (Idem, EUA, 2013) de Josh C. Waller

Um dos  mais divertidos e legítimos discursos acerca de assuntos tão sérios como a opressão  e a margem para discutir a violência doméstica, machismo e a representação da instituição familiar na sociedade. Waller parte de um cinema tão desgastado como prático para circular estes assuntos com humor e coreografia invejável. 

 Ruína (Ruin, Austrália/Camboja, 2013) de Michael Cody e Amiel Courtin-Wilson
 
Prêmio do júri no Festival de Veneza, o filme de Michael Cody e Amiel Courtin-Wilson exibe um exorcismo desenvolvido na base um drama muito consciente de seus eixos. Trata-se de um filme que não faz questão de exibir problemas e sim consequências, como um sintoma universal que pede uma discussão aprofundada. Logicamente estamos falando de corrupção e violência em um filme apropriado por corpos.

Algumas Garotas (Algunas Chicas, Argentina, 2013) de Santiago Palavecino

Convenções do cinema de gênero a serviço do tempo. A morte simbólica - ou o constante flerte com a literalidade - dialogam de forma ingênua com o abismo criado pelo fim da juventude e a vida adulta. E neste espaço as personagens usam a inconsequência como fuga e a dor, enfim, como terror.


Return to Nuke'Em High - Parte 1 (Idem, EUA, 2013) de Lloyd Kaufman
Contra o tédio das comédias contemporâneas, Lloyd Kaufman usa os tradicionalismos de "Tromaville" para criticar as rédeas usadas nos filmes de hoje e a anemia social americana neste retorno ao centro "educacional" de Kaufman. A base parece ser coesa no primeiro ato, mas não sustenta a gratuidade que vem a seguir.

 A Terra das Cartas (Tasher Desh, Índia, 2012) de Qaushiq Mukherjee

Entre as super produções de Bollywood e o cinema indiano de baixíssimo orçamento, Qaushiq Mukherjee produz um híbrido de lisergia e ode ao intervalo entre ações na teatralidade. É possível notar fortes influências do cinema independente americano dos anos 90 quando livre da narrativa, e em especial a tendência de transformar o filme em objeto de decifração, o que esvazia e muito a proposta inicial de A Terra das Cartas.

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