Roma (Alfonso Cuarón, 2018)
Como um filme de suposta observação do cotidiano, Roma é um filme de acúmulo de aparências. Quando Bazin abordou o respeito ao real ao falar sobre o neorrealismo italiano, o crítico francês usou a ausência de aparência como espinha dorsal de seu argumento. Acredito que Roma siga o caminho contrário, de uma observação interpelada pelas mãos pesadas de Cuarón, implorando por comentários sociais nada despojados dentro da narrativa proposta - a da força da rotina. Fica evidente, portanto, a força da segunda metade do filme, quando a câmera se inclina às sequências de cunho exclusivamente dramáticos, como uma espécie de consequência geral do que foi exposto na primeira metade. A noção de ciclo parece o desfecho ideal para Roma, um filme basicamente feito de truques e que coloca o espectador em cheque sobre entrar ou não nesta grande artimanha.
Top 10 - Festival do Rio 2018
71 filmes depois, meu top 10 do festival:
01. Amanda (Mikhael Hers)
02. A Árvore (André Gil Mata)
03. Amor Até as Cinzas (Jia Zhang-Ke)
04. Morto Não Fala (Dennison Ramalho)
05. Grass (Hong Sang-Soo)
06. Monrovia, Indiana (Frederick Wiseman)
07. Ilha (Glenda Nicácio, Ary Rosa)
08. Em Chamas (Lee Chang Dong)
09. Asako I & II (Ryusuke Hamaguchi)
10. Seu Rosto (Tsai Ming-Liang)
Ferrugem (Aly Muritiba, 2018)
Como principal recurso de Ferrugem, o argumento da urgência de debate sobre o assunto tratado acaba por sufocar o filme. Dividido em duas partes, o filme sugere o amplo alcance na primeira parte, numa trama novelesca com apoio de estereótipos - sempre com a ideia que quanto mais se alcançar, melhor. Relevada a escolha e com a histeria que o caráter popular demanda para criar o mínimo de atenção além da primeira camada, sobra um filme que se amarra com competência, apesar dos pesares. Na segunda parte, Ferrugem tem vislumbres introspectivos - ainda que nunca se foque em um só personagem por muito tempo. Vale citar o plano-sequencia no qual pai e mãe discutem seus percursos de criação e como chegaram até aquele momento com a câmera que remete à uma criança escorada no banco de trás do carro. No mais, Ferrugem é um comentário geral muito apressado sobre bullying. Por toda essa pressa e histeria num plano superficial, cabe a questão de abordagem e atmosfera, visto que Aly Muritiba tem êxito neste trabalho com Agente e Para Minha Amada Morta. Aqui, o resultado está mais para um produto publicitário que para cinema propriamente dito.
Benzinho (Gustavo Pizzi, 2018)
Mais um filme assertivo que ronda seus argumentos que propriamente um filme sobre eles. Benzinho é um panorama apressado sobre a queda de uma família de classe média que usa símbolos desgastados pelo cinema latino, em especial a figura da morada. Vê-la desmoronar reverbera na síndrome de ninho vazio, na violência doméstica, na crise financeira e principalmente na caricatura da família brasileira, que tem seus momentos para a histeria e para sua afirmação terna. E é neste ponto que Benzinho parece suprir necessidades para um alcance maior: larga a posição de um filme agridoce próximo aos filmes argentinos de apelo mais popular - em especial os que chegam às salas brasileiras - e abre mão de todo drama possível. Não a toa seu sucesso em Sundance passa por esta escolha, pois pouco vemos uma família além de seu lado básico ou caricato - refeições à mesa, ida à praia, a briga generalizada; vale aqui a visão afetuosa e superficial da coisa em um mundo com fissuras suficientes para imersão leal aos personagens.
Leste Oeste (Rodrigo Grota, 2016)
Nas
entranhas de Leste Oeste há uma
ressaca moral avassaladora. Mais uma constatação de um estado de espírito que
uma verdadeira tentativa de reverter um quadro emocional. Em Leste Oeste o luto é formalizado. É
desta convenção silenciosa que se trata o filme, de um incomodo que poucos
assumem e tornam o senso de justiça como caminho para apostas, redenções e
autodestruição.
Esta
feição morta-viva que os personagens tomam pra si como a saturação emocional está
para o contraponto de toda ação sugerida pelo filme – em destaque as corridas
de kart – é o esvaziamento total da vida. Dela, curiosamente, não se captura
melancolia e sim uma falsa ideia de esperança, que todos os personagens ali podem
achar alternativas para seus caminhos propícios.
São
mentes exaustas em corpos supostamente renovados, prontos para outra. Porém,
esse fantasma que se agarra em cada ombro aqui é raramente reproduzido com
alguma preocupação realmente plástica – Grota, que construiu uma carreira
respeitável como diretor de curtas-metragens parece mais econômico e rigoroso
em seu debut. Assim, Leste Oeste é, ao todo, um filme sobre
deslocamentos de formas, que pouco se encaixam, de um incomodo geral. Articular
o desconforto sem que estes mundos (ou cacos) não tenham defasagens narrativas,
inclusive em suas forças é uma tentativa louvável, mas pouco eficiente afinal o
que está no extracampo é tão poderoso quanto o que Grota filma.
Por
mais que se reforce a dramaturgia – conforme o tempo passa, Leste Oeste é mais objetivo em suas
intenções, principalmente sobre o sentido e o sentimento de uma derrota -, Leste Oeste é um filme sobre adormecer o
que é bárbaro, o lado mais primitivo do homem, da frustração que esta
impossibilidade gera e articular com estes extremos é um risco louvável por
parte de Grota e também uma jogada delicada.
Conforme
o abismo é lentamente apresentado – profetizado desde o início do filme – há o
estreitamento dessas histórias. E as restrições, colocando essas vidas
alinhadas pelo consentimento silencioso de um futuro trevoso é uma espécie de
conformismo formalista em Leste Oeste,
de uma dinâmica passível ao fim do vigor, como se os personagens fossem
deliquentes, dignos do tratamento básico que a câmera os oferece. Cria-se,
portanto, uma dualidade poderosa: o filme possível que não veremos e o que há
de concreto; uma espécie de crueldade consciente que de encontro à trama
invariavelmente os julga, nos julga e é impiedoso na resposta.
Tropykaos (Daniel Lisboa, 2015)
Eis um filme de reflexos constantes. Tropykaos encena,
a cada sequência, a ideia de isolamento, de um microcosmo como
comentário direto ao “mundo alheio”. É a analogia mais prática à vida de
um artista no Brasil, principalmente aos que fogem dos padrões impostos
pela indústria. Como um delírio – talvez não exista colocação melhor
para essa escolha -, Guima, poeta assolado pela tempestade solar numa
Salvador prestes a receber o carnaval, precisa de seu ar-condicionado
para trabalhar.
Embora
as abas deste tema sejam infinitas, principalmente as impossibilidades
de realização e a tentativa em vão do diretor Daniel Lisboa de
abraça-las a todo custo, Tropykaos é mais interessante quando
constrói uma neurose descompromissada, apoiada no cotidiano da cidade e
sua cultura incompatível ao gosto e à realidade de Guima. São nesses
momentos que Lisboa remete a filmes-símbolos dessa discordância como SuperOutro de Edgard Navarro (que está presente no filme com três personagens hilários) e Depois de Horas de Martin Scorsese.
À
medida que esse contexto alucinado caminha para soluções assombrosas –
muito utilizadas para justificar a realização possível no Brasil, como
uma ilha de pedras e sem uma saída definida – Guima carrega uma
melancolia, um lamento; desconta em escapismos e na autodestruição que
Lisboa contrasta com a beleza da cidade. São monumentos a serviço do
outro, do folclore e daqueles que compram camarotes e que estragam
aparelhos de ar-condicionado. É desta revolta silenciosa e ao mesmo
tempo impossível que o protagonista toma suas escolhas – encolher-se
como um vampiro ao sol, saber da sua condição de antagonista em sua
própria casa.
Como
um crescente frenesi para lidar com o calor e o quadro de saúde de
Guima, da luta contra a “ultra violência solar” e sua incompatibilidade
aos padrões de uma cidade “solar” vem a solução: se influenciar pela
urgência serve como a saída crítica mais palpável. É a forma de unificar
tantos problemas a citar – em certos momentos Tropykaos parece
mais um conjunto de alegorias que um discurso sobre o que exibe – e
criar assim a noção de uma jornada. A noção de identidade do outro,
sobretudo àqueles que não se adequam às regras básicas de sociabilidade e
até mesmo artísticas – produzir com as amarras do governo é um ótimo
exemplo.
É importante lembrar que Tropykaos é
o registro de uma circunstância histórica acima de qualquer jogo
delirante; mesmo que desequilibrado pela mesma urgência registrada (que o
faz correr atrás de inúmeras justificativas). É do impossível que
Lisboa tira sua melhor saída, uma contestação tão pertinente quanto
infantil. É importante ser infantil neste momento, a não ser esquecida
pelo seu lado inusitado e inconsequente. É da imprevisibilidade que o
filme grita sua revolta e diagnostica o país do samba, suor e feridas.
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