O Lobo Atrás da Porta (Fernando Coimbra, 2013)


Temos em O Lobo Atrás da Porta mais um caso raro no cinema brasileiro no qual o roteiro se sobrepõe à direção e escolhas estéticas quando falamos de gênero. Por mais que se trate de um filme baseado em fatos reais, o roteiro assinado por Fernando Coimbra traz um panorama social riquíssimo e vaga entre a autenticidade e o crível, passeando entre a reconstituição  - narrativa -  e depoimentos dos suspeitos de um sequestro ocorrido nos anos sessenta no subúrbio carioca. Este desenho de tipos de Coimbra vai ao coração da trama e, até onde lhe convém, rodeia-o com artifícios e alegorias nem sempre necessárias.

Por se passar em um ambiente inóspito e ensolarado - rendendo comparações ao mundo de Nelson Rodrigues - O Lobo Atrás da Porta delineia o caminho para o espectador, baseando-se nas dicotomias que um mundo de infidelidade, em todos aspectos, oferece. Vemos, por  mais pulsante que a trama possa ser, um retrato social dos mais assombrosos por trás do gênero. E o grande trunfo do filme de Fernando Coimbra é saber administrar estes extremos, sabendo como eles se amplificam quando se cruzam. O que torna um jogo com as possibilidades para o filme e um pensamento pessimista para o real. Portanto, é possível utilizar analogias das mais simples usadas no filme para salientar o restauro do cinema narrativo brasileiro que há muito circulou através de fatos populares, pilares culturais e panfletagem política.

Partindo deste ponto, o trabalho de Coimbra é o de  fazer um filme que se desenvolve sobre a esfera de terror - social e existencial - através de planos de rostos. As sequências fundamentais de O Lobo Atrás da Porta são construídas com precisão em closes ou planos-americanos, com a câmera estática com a função de observador e nada mais que isso. A escolha de Coimbra de raramente se intrometer na história que carrega força natural é acertada. A distância costura este mundo onde a culpa é mera consequência.

Esta praticidade está inclusive no arco dramático que o filme exige. Mesmo com a fluidez da mise en scène e a montagem que privilegia a frouxidão, o tempo presente e o respiro em uma história extremamente aguda. São nos momentos de utopia, de planos para o futuro e até mesmo nos conflitos matrimoniais que o tal lobo se esconde. E nesses momentos Coimbra permite o envolvimento total do público emitindo o prazer da implícita ação da trama, antes mesmo de qualquer consideração acerca do lado psicológico, que se revela no momento apropriado.

O Lobo Atrás da Porta (Idem, Brasil, 2013) de Fernando Coimbra

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