Festival do Rio 2014 (Parte 1)

Prestes a começar, o Festival do Rio traz cerca de 350 filmes este ano, incluindo retrospectivas de Roberto Rosselini, Michael Cimino e Hugo Carvana, além da cópia restaurada em 4K de O Massacre da Serra Elétrica. No Panorama Mundial estão os novos de Abel Ferrara, Sergei Lonitza, Richard Linklater, Frederick Wiseman, Eugène Green, Kim Ki-Duk, entre outros. Nomes como Sion Sono, Takashi Miike e Joe Dante também figuram  a lista de filmes do evento. Abaixo a primeira rodada de comentários sobre os filmes da programação do Festival.

Cold in July (Idem, EUA, 2014) de Jim Mickle

Mickle volta a flertar com o cinema noir, desta vez pelo pessimismo. Quando  mais se aproxima de um caso, pior ele fica. Desta forma, o filme toma outro viés, o de  conto moral por essência, no qual a paternidade é o pilar. Como Somos O que Somos, filme anterior de Mickle, a atmosfera é impactante, mas se esvazia pelo roteiro fragilizado.

Stations of the Cross (Idem, Kreuzweg, Alemanha, 2014)  de Dietrich Bruggemann

A releitura do caminho de Jesus até a cruz trazida para os dias de hoje espelha a morte sob os mesmos aspectos de 2014 anos atrás. O filme de Dietrich Bruggemann analisa com fluidez a sociedade como um plano maior enquanto exibe a religiosidade no qual Jesus combateu através de uma família católica fervorosa no qual Maria, uma jovem que decide sacrificar sua vida pelo bem do irmão, diminui a cada desejo adolescente. A escolha de Bruggemann de construir o filme em planos estáticos e com uso frequente da profundidade de campo sinaliza a ideia de um mundo perdido, frio e sem esperanças, perfeito para a redenção de Maria.

 Jornada ao Oeste (Xi You, França/Taiwan, 2014) de Tsai Ming-Liang

A suposta despedida de Tsai Ming-Liang do cinema se faz no desafio outrora iniciado em Walker (2012) e que atravessa os meandros de filmes como Adeus, Dragon Inn e Cães Errantes. Reinterpretar o espaço e o tempo dedicados à rotina apressada na construção de um filme de poucos planos, com a câmera estática, dedicada às (a)feições de um mundo em colapso.

Top Girl ou Deformação Profissional (Top Girl oder la déformation professionnelle, Alemanha, 2014) de Tatjana Turanskyj

Segunda parte da trilogia da mulher e trabalho, o filme de Tatjana Turanskyj parte de um extremo para dialogar com seu oposto, como se a câmera fosse um dispositivo em favor de ideologias antes mesmo da imagem. O longa registra a rotina nada monótona de uma prostituta que reluta contra sua condição de atriz fracassada e que precisa criar a filha e enfrentar a mãe. Em outro oposto, Turanskyj faz dela um criativo manifesto feminista, onde a mulher, mesmo com suas conquistas, ainda possui restrições quando o assunto é liberdade.

Stereo (Idem, Alemanha, 2014) de Maximilian Erlenwein

O debut diretorial de Maxilimian Erlenwein se resume a inibir a força de uma narrativa simples com uma teia conspiratória cosmetizada, onde o remorso é o pilar principal e seu grande tropeço. Tudo é demasiadamente calculado para a percepção do choque de cada sequência, sem senso de unidade.  

O Ciúme (La Jalousie, França, 2013) de Philippe Garrel

Garrel, ainda que em modo econômico - planos, tempos e abordagem -, consegue entregar um soco no estômago na sua interminável análise sobre o amor. Em O Ciúme Garrel parte da trivialidade para construir conflitos tão profundos que fazem deste um estado de espírito permanente. Trata-se de uma angústia silenciosa, maquiada por obrigações rotineiras que nos fazem seguir, mesmo que isso não signifique enfrentar nossos monstros.

Os Ausentes (Los Ausentes, Argentina, 2014) de Nicolás Pereda

A princípio o que se nota em Os Ausentes é que o filme desfruta da mesma intenção que Jornada ao Oeste, de Tsai Ming Liang: a interpretação de espaço e tempo através das locações e como elas impregnam a narrativa. Quando um homem está prestes a ser despejado por conta de mais um empreitada governamental, Nicolás Pereda afirma sua intenção de fazer um filme sensorial ao mandar o drama às favas e colocar seu personagem entregue à bebedeira em uma mesa de bar com um silencioso plano de vingança. 

 O Samurai (Der Samurai, Alemanha, 2014) de Till Kleinert

O que domina o filme de Till Kleinert é como o flerte com o cinema fantástico amplifica a espécie de "glória" que a narrativa carrega enquanto utiliza da caça de gato e rato entre um policial e a representação de vilão mais criativa dos últimos anos. Dinâmico como um thriller mais interessado em resultados, a força do filme está na subjetividade que o ambiente traz: tédio, passividade e claro, crimes.

National Gallery (Idem, França, 2014) de Frederick Wiseman

Wiseman segue sua peregrinação da rotina com um documento que subverte a relação homem-arte. Do processo de restauração das obras às discussões e planos para a Galeria Nacional de Londres e os passeios turísticos, Wiseman continua a esmiuçar os bastidores de um local que é dominado pelo imaginário de seus visitantes do mesmo modo dos recentes Crazy Horse e Em Berkeley. 


A Distancia (La Distancia, Espanha, 2014) de Sergio Caballero

Com a mesma estranheza de seu filme anterior Finisterrae, o filme de Caballero mescla o humor vindo do espanto e a percepção da metáfora da formação de uma ideia e o funcionamento do cérebro. A forma pessimista para um mundo sem divindades, apoiado no ego e cálculos matemáticos.


E Agora? Lembra-Me (Idem, Portugal, 2013) de Joaquim Pinto

Entre os filmes-carta de Jonas Mekas e a autoficção, Joaquim Pinto faz um filme que derruba limites e constrói uma espécie de relação com a vida tão abstrata e inalcançável quanto a cura que o diretor procura. 

Ida (Idem, Polônia, 2013) de Pawel Pawlikowski

Um simples e eficiente resgate de pilares de formas e filosofias cinematográficas; Pawlikowski faz uma espécie de antítese do cinema de Ozu com rostos e tetos em longos planos de câmera fixa e aborda o paralelo entre verdade e mentira novamente em oposição, desta vez à postura de Dreyer utilizando  guerra e religião como pêndulos para a vida e a morte.

Frank (Idem, EUA, 2014) de Lenny Abrahamson

Curioso como Frank tem seu clímax passado no Festival South by Southwest, epítome do cenário independente musical e cinematográfico americano. E Frank tem todos os meios utilizados pelas comédias independentes da última década. Esta espécie de "catalogação" de clichês tem ao redor um curioso desenho de persona e o alarde sobre a necessidade de aprovação em um mundo dominado por redes sociais.

La Sapienza (Idem, França, 2014) de Eugène Green

Os métodos são os que consagraram Green em filmes como A Religiosa Portuguesa e O Mundo dos Vivos. Em La Sapienza o diretor abaixa a cabeça do homem, destitui o conhecimento e esvazia a postura de dono do mundo apontando para a real sabedoria com a simplicidade que lhe é característica. Mais uma obra de força descomunal munida de articulações fabulosas.

Ela Perdeu o Controle (She´s Lost Control, EUA, 2014) de Anja Marquardt

O filme que nasceu de um projeto do Kickstarter e premiado em Berlim traduz o perigo que as relações modernas que confundem o lado pessoal com o profissional. O caminho utilizado por Anja Marquardt é o mais plausível para justificar um drama agridoce, de tempos espaçados e força dramática diluída em uma espécie de "esquetes" muito bem amarradas. 

 Blind (Idem, Noruega, 2014) de Eskil Vogt

O que faz com que Ingrid (Ellen Dorrit Petersen) busque a segurança de sua casa após ficar cega abrange as possibilidades de desenvolvimento do filme pela normatização. Ingrid cria sua realidade -  como espectadora e interceptora - ou seja, há um parâmetro muito simples composto por narrador e narrativa. A partir deste ponto, Eskil Vogt insere as questões que envolvem a cegueira ao reforçar o raciocínio que Ingrid possui as mesmas motivações para  compreender o mundo.

A Princesa da França (La Princesa de Francia, Argentina, 2014) de Matías Piñeiro

Ao observar atos do dia a dia como uma simples de aula de futebol, Piñeiro aponta para a força da coreografia. Deste polo, vai ao outro extremo, na adaptação de Shakespeare sem pontos de convergência entre drama e narrativa. Priorizando o elo entre diversos dispositivos de comunicação - exceto a televisão -, o filme se suporta graças a sua finalidade básica: imaginar as possibilidades a partir dos intervalos desta história. Aguçar a função de cada meio para a cultura geral em boa parte construídos por planos fechados.

Bem Perto de Buenos Aires (Historia del Miedo, Argentina, 2014) de Benjamín Naishtat

É comum que cinéfilos e críticos tenham o reflexo de catalogar e colocar filmes sobre um mesmo espectro ou nomeá-los como movimentos e ondas, mas é impossível não aglutinar Bem Perto de Buenos Aires a filmes sul-americanos recentes que analisam o aspecto social em gêneros cinematográficos. Não só pela ótica de um cinema colaborativo, mas o filme de Benjamín Naishtat utiliza a gangorra social como eixo principal de um verão severo, no qual o desespero desenha o encontro de classes. O terror é identificado sob um tom adormecido outrora utilizado em O Som ao Redor (Brasil) e O Dia Trouxe a Escuridão (Argentina), para citar alguns de seus contemporâneos. 

Eles Fugiram (He Ovat Paennet, Finlândia, 2013) de J.P. Valkeapää

A aposta de desenvolver o pensamento que a vida está na ilusão faz de Eles Fugiram um filme truncado, pois J.P Valkeapää o desenvolve sobre convencionalismos narrativos e esvazia a proposta inicial. O que se vê é um emaranhado de propostas seguidas por uma e outra sequência com certo impacto visual.

Gente de Bem (Gente de Bien, México/Colômbia, 2014) de Franco Lolli

Franco Lolli não foge da pauta que cerca o cinema mexicano nos últimos anos - o aspecto social -, porém o desenha da seguinte forma: primeiro a relação de pai e filho como corpos estranhos em uma realidade distinta. O pai se nega a ser contaminado, já o filho tenta aproveitar o que lhe é de direito. São muitos fantasmas, planos abertos e diálogos diagonais, referentes aos filmes seminais da nouvelle vague, em especial Os Incompreendidos, de Truffaut. Em outro extremo, Franco Lolli isola os personagens em planos fechados que refletem o sufoco que a situação que esta família passa.

Os Inimigos da Dor (Los Enemigos del Dolor, Uruguai/Brasil, 2014) de Arauco Hernández

De um lugar inóspito e apocalíptico que reverbera a aura dos filmes oitentistas de John Carpenter, o longa de Arauco Hernández aponta para um enganoso manifesto político no feitio dos contemporâneos O Deserto e O Dia Trouxe a Escuridão. O filme ultrapassa este discurso apoiado no cinema de gênero próximo ao ato final, quando analisa as formas de liberdade e revela as representações de cada personagem - os julgando a partir de males sociais. Até lá, Arauco disponibiliza apenas o caminho da submissão para o público em um filme entregue à atmosfera.

Cinco Estrelas (Five Star, EUA, 2014) de Keith Miller

A simplicidade de Keith Miller se repete, mas ao contrário de Welcome to Pine Hill (2012), este é centralizado em uma trama estritamente urbana, onde conflitos atuais servem de pilar para  tradicional "honestidade versus crime" na periferia nova iorquina sem grandes momentos . 

Canções do Norte (Songs from the North, EUA, 2014) de Soon-Mi Yoo

Em certo ponto de Canções do Norte a questão "Como é viver em um país que só conhece mitos?" vem à tona. Dela se faz os pilares do filme onde Soon-Mi Yoo utiliza imagens de arquivo da  TV norte-coreana e filmes (que se supõe a carga marginal por simplesmente existirem) enquanto desenha o contraponto em uma visita ao país, onde se vê a consequência de uma utopia regida por tragédias. Prêmio de filme de estreia em Locarno.

Coma Seus Mortos (Monge tes Morts, França, 2014) de Jean-Charles Hue

O filme de Jean-Charles Hue tem por início a missão de traçar algo semelhante a ideia do cinema slacker, que é a noção de que o mundo pertence ao personagem. Depois o filme toma um caminho diferente, onde cada rua de poeira e lama que protege um acampamento cigano - dominado por cristãos (!) - serve de caminho para a redenção de uma família que está prestes a morrer para um novo início.

Comentários

Postagens mais visitadas