Animais Noturnos (Tom Ford, 2016)




Animais Noturnos abre com a sequência de mulheres dançando em um suposto júbilo do mundo artístico: são corpos disformes, suficientes e funcionais para satisfação dos convidados de uma vernissage. São corpos completamente ignorados e o protocolo social é cumprido. Essa é apenas uma das infinitas ilustrações do filme de Tom Ford, que resume seu segundo filme à luta contra o estigma de fashionista - pelo qual é conhecido mundialmente. E falha, pois, Animais Noturnos leva o cinema à função primária da representatividade da imagem.

São ilustrações que se encaixam uma dentro da outra, onde a principal delas, a espinha dorsal do filme, é uma trama de crime e investigação na forma contemporânea de exibir a cultura white trash texana (vítimas + jovens loucos + xerife). Nas margens, espelhos em relação à trama principal, justificados como a leitura de um livro que batiza o filme e que reflete uma espécie de depressão social. Desse reflexo Tom Ford faz críticas ao mundo que tanto conhece - do narcisismo, culto à imagem e futilidade, onde a morte está como centro de todas as representatividades imagéticas - nos quadros,  estátuas e pinturas. 

Divididos em uma espécie de chiaroscuro - o claro e quente do Texas versus o frio e escuro inverno Nova Iorquino -, o filme abraça uma gama de gêneros - do romance barato ao thriller e até mesmo o terror no estilo found footage. Mas nada disso chega a um objetivo no sentido de associação com a narrativa. O que se vê em Animais Noturnos são maneirismos e manipulações da imagem (destaco a sequência com os personagens principais em um restaurante, feita apenas com super closes, como em um comercial da Nespresso ou qualquer coisa do tipo). E antes fosse da maneira explícita como Nicolas Winding Refn pavimenta sua carreira para um diretor de campanhas publicitárias. Tom Ford luta pelo oposto porém usando a mesma estrada. 

O jogo da culpa que permeia os dois extremos do filme trata de construir alicerces sobre a falência geral - da família, da arte, do estado. Mas se na única experiência que campo e contra-campo dialogam (duas formas, enfim) é o da abertura, sobra ao filme o referido poder do que é exibido, somente. Pois Animais Noturnos não é um filme sobre o infinito retorno do caos (a exemplo do recente Elle) e sim sobre a passividade e amargura geradas pela falta de controle. Há a necessidade de se controlar a empresa, a família, uma discussão e a vida dos outros. E este é o ponto que converge a narrativa em uma só: Tony (Jake Gyllenhaal) e Susan (Amy Adams) perderam o controle em situações extremas e Ford transforma toda ajuda em fantasmas.

Na simbiose controle-justiça, estes fantasmas - xerife e o próprio livro - o jogo de percepções que Animais Noturnos enfim transparece, é óbvio: o fracasso por trás de qualquer tentativa de dominar o mundo e consequências vistas já no primeiro quadro. Para Tom Ford, estamos fadados ao fracasso e para fugir disso, é preciso diminuir o próximo. Sempre.         

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