COBERTURA: FESTIVAL DO RIO 2013 (PARTE 1)

Começa a maratona. Neste post, 28 filmes da programação em ordem de "preferência". Serve como sugestão para os (poucos e fiéis) leitores.

A Garota de Lugar Nenhum (La Fille De Nulle Part, França, 2012)

A arte como forma empírica. Jean-Claude Brisseau usa as cativas aparições fantasmagóricas, o regular erotismo e as questões filosóficas de seus filmes para traçar diálogo com a arte em diferentes formas. Através da noção que viver oferece percepções distintas e livres, a expressão artística não deve seguir padrões e sim exigir caminhos diferentes de interpretação de quem a consome - aquele que o apetece ou o que o desafie diretamente. Leopardo de Ouro no Festival de Locarno 2012.
★★★★★
 A Gatinha Esquisita (Das merkwürdige Kätzchen, Alemanha, 2013) de Ramon Zürcher

No encontro para um jantar, nas conversas triviais - sempre interrompidas -, ou até mesmo nas interferências do acaso, Ramon Zürcher analisa os requintes de crueldade e amor de uma família. A maneira que o paralelo entre passado e futuro e legado familiar são colocados impressiona, mas a forma como a casa serve de personagem principal, a direção de atores, os espaços preenchidos fazem de A Gatinha Esquisita um filme cheio de detalhes, que cresce a cada segundo e exige revisão. Prêmio de Novo Talento no CPH Pix.
★★
O Ato de Matar (The Act of Killing, Dinamarca/Noruega/Reino Unido, 2012) de Joshua Oppenheimer e Christine Cynn


Joshua Oppenheimer oferece a dois integrantes da "milícia oficial" da Indonésia a troca implícita entre o desejo e a verdade. A barbárie justificada por um conceito - oposição e cinema, vem da reconstituição de assassinatos que culminaram num dos maiores banhos de sangue da história. Oppenheimer desafia a vaidade e a consciência de seus "personagens" e de seu público através da linguagem como redenção e também banalização e contradições na figura do vilão.
 ★★★★★
Algumas Garotas (Algunas Chicas, Argentina, 2013) de Santiago Palavecino

Convenções do cinema de gênero a serviço do tempo. A morte simbólica - ou o constante flerte com a literalidade - dialogam de forma ingênua com o abismo criado pelo fim da juventude e a vida adulta. E neste espaço as personagens usam a inconsequência como fuga e a dor, enfim, como terror. Seleção do Festival de Veneza.
★★★★


Educação Sentimental (Idem, Brasil, 2013) de Júlio Bressane



Bressane declara o fim da rotina. Principalmente do olhar. Se ao redor deste manifesto encenado está o cinema e seus efeitos, ele aos poucos desaparece até o não-filme que transparece por completo a profundidade e inconformismo de um autor que nega rótulos ou convenções. Nos meandros de Educação Sentimental é possível identificar a nostalgia iniciada em Rua Aperana 52, mas longe de saudações; ela serve como motivação para seguir firme ideologicamente. Seleção do Festival de Locarno 2013.
 ★★★★
Vic+Flo Viram um Urso (Vic et Flo ont vu Ours, Canadá, 2013) de Denis Coté

Não há princípios quanto à consciência crítica de Denis Coté; portanto, a narrativa de Vic+Flo Viram um Urso é aberta o suficiente para engendrar gêneros e traçar um panorama extremamente severo sobre o Canadá, nação que exerce função de suporte a países vizinhos - em especial os EUA - e pouco recebe de volta. Confeccionado por boa parte em planos fixos, Coté dialoga ironicamente com tradicionalismos de um conto de fadas: mágica e terror. Urso de prata no Festival de Berlim.
 ★★★★

The Canyons (Idem, EUA, 2013) de Paul Schrader 
 
Paul Scharader exibe Hollywood como terra de herdeiros e principalmente refém de interesses, chantagens e perdição de empresários. Como conceito, eis uma trama complexa montada de forma superficial com intuito perverso de diálogo com a linguagem cinematográfica. É possível notar erros de continuidade e uso de planos e movimentos de câmera de forma incessante como total dependencia dos personagens aos novos dispositivos de comunicação. Eis a escória do cinema, o privé, como princípio básico de manipulação.
★★★
 ★★★
Spring Breakers - Garotas Perigosas (Spring Breakers, EUA, 2012) de Harmony Korine
★★★
A Dança da Realidade (La Danza da Realidad, Chile, 2013) de Alejandro Jodorowsky
★★★
 Apenas Deus Perdoa (Only God Forgives, França/Dinamarca, 2013) de Nicolas Winding Refn
Adaptação cosmetizada de filmes de arte marciais. Ao modernizar certos meandros, o filme se enfraquece, mas é coeso e rico em referências e segue padrão estético belíssimo, este que domina a história, até mais que o fiapo narrativo que o longa necessita para dialogar com as convenções do gênero homenageado.
★★★
 Pussy Riot: A Prece Punk (Pokazatelnyy protsess: Istoriya Pussy Riot, Rússia/Reino Unido, 2013) de Mike Lerner e Maxim Pozdorovkin 

Ao invadir a Catedral Cristo Salvador para uma performance relâmpago, o grupo Pussy Riot foi condenado a dois anos de prisão. Mike Lerner e Maxim Pozdorovkin transparecem entre a identidade de cada integrante e o polêmico julgamento, o espírito libertário do grupo, que mescla a atitude punk com o ideal anárquico da arte. O documento serve como afirmação filosófica, mas o poder que a intolerância causa no filme é muito maior. Prêmio Especial do Júri no Festival de Sundance 2013.
★★★
A Piscina (La Piscina, Cuba/Espanha/Venezuela, 2012) de Carlos Machado Quintela
Em caráter observacional, Quintela faz da rotina de jovens com necessidades especiais e outro em voto de silêncio um bom caminho para traçar paralelos não só entre os anseios e desejos de qualquer jovem, mas do que há à frente através da figura do professor de natação. Ele, além de bom amigo representa outros fantasmas que hão de vir. Seleção oficial do BAFICI 2012.
★★★
 Eu Era Mais Sombrio (I Used to be Darker, EUA, 2013) de Matthew Porterfield

No processo de separação de seus pais, Abby recebe a visita da prima Taryn e encontra um mundo de indefinições; Eu era Mais Dark tem em seu eixo principal o incômodo de Abby ao perceber que sua vida não está mais em zona de conforto. Matthew Porterfield usa diversas representações de refúgio para transparecer o fim. Um filme delicado, preso ao cotidiano deste rastro de família e completamente solto de convenções dramatúrgicas. Prêmio de melhor direção no BAFICI.
★★
Outrage Beyond (Autoreiji Biyondo, Japão, 2012) de Takeshi Kitano

O xadrez que envolve máfia, imprensa e a polícia japonesa coleciona brutas sequências de extrema beleza orquestradas por Takeshi Kitano. O filme passeia por diversas questões acerca da idoneidade e faz da câmera mero objeto observacional. Introduzi-la à história sem que a narrativa seja engolida por qualquer proposta estética é o tempero da sequência de Outrage. Seleção oficial do Festival de Veneza 2012. 
★★
Taboor (Idem, Irã, 2013) de Vahid Vakilifar

A imaginação como arma de sobrevivência. É interessante como Taboor dialoga com o cinema de gênero a partir do imaginário infantil - acessórios situam a distorção na rotina de um homem engolido por seu emprego. Nos momentos de escapismo, o encontro com sua verdade. Vahid Vakilifar prolonga planos afim de alimentar ideias e analogias, talvez o único  ponto em que demonstra incertezas em relação ao filme.
★★

Meia Sombra (Halbschatten, Alemanha/França, 2013) de Nicolas Wackerbarth

Eis um austero conto sobre adaptações à monotonia. Nele há entrega, contenção e submissão. A rotina que traz pequenas sensações de vitória e derrota dentro da condenação de esperar. Assim, Nicolas Wackerbarth faz um filme sobre limites imediatos. Dormente aos olhos e agudo para a alma. Seleção do Fórum do Festival de Berlim. 
 ★★
 Diego Star (Idem, Canadá/Bélgica, 2013) de Frédérick Pelletier 

O encontro de almas solitárias e de comportamentos idôneos pode parecer obra do acaso, mas o que Frédérick Pelletier aponta em Diego Star está além da quebra da embarcação e das formas diversas de traição que Traoré e Fanny preferem atropelar por obrigações familiares. Seguros sobre tetos e cercados por pesadelos quando o mundo os enfrenta - a neve como melhor representação visual -, a lição é dada pela sensação de inércia oferecida por valores opostos ao dos cheques de pagamento. Seleção da mostra Bright Future do Festival de Berlim.

O Comediante (The  Comedian, Reino Unido, 2013) de Tom Shkolnik

O filme de Tom Shkolnik é simples: planos médios, cortes específicos, poucos movimentos de câmera e foco na crise dos trinta, representada pelo aspirante a comediante Ed. Fugir da constante crise envolvendo o clássico embate entre vocação e profissão, sua vida amorosa e o relacionamento com os amigos. Forma direta para analisar um tempo complexo.
 ★★★
Sonar (Echolot, Alemanha, 2013) de Athanasios Karanikolas

Um ano se passou desde o suicídio de um jovem. Como homenagem, seus amigos unem-se com o propósito de relembrar os bons tempos de amizade e companheirismo. Porém, o que se vê é o flerte constante com a inconsequência, o sentimento intenso de insatisfação e a nostalgia como eixo para revolta. Athanasios Karanikolas envolve este quadro em longos planos e o som cru de uma sessão de improviso musical - uma maneira convicente de ilustrar o caos emocional no local. Mostra Fórum do Festival de Berlim 2013.
★★★ 
As Lágrimas (Las Lágrimas, México, 2013) de Pablo Delgado Sánchez

Filme de graduação de Pablo Delgado Sánchez no Centro de Capacitación Cinematográfica, As Lágrimas desbrava sentimentos comuns de irmãos em relação a separação dos pais a partir da diferença de idade entre eles. A ausência do pai e o luto da mãe são motivos para a divisão implícita da angústia. É um conto terno ambientado em zona de conforto plástica e principalmente nas representações deste abismo emocional.
★★
Heli (Idem, México, 2013) de Amat Escalante

Prêmio de melhor direção no último Festival de Cannes, Heli oferece um dos plano-sequência mais interessantes dos últimos anos. Porém tal inventividade apresentada no início do filme não perdura até o fim. Partindo do vácuo moral tão presente no cinema mexicano contemporâneo, Amat Escalante escolhe o terror vivido por moradores de Guanajuato - vindo da constante presença de traficantes e policiais corruptos no local. O terreno infértil que circunda os personagens, tão enigmático quanto depreciativo, acentua o lado panfletário do filme que está sempre em função da tragédia.
 ★★

La Paz (Idem, Argentina, 2013) de Santiago Loza

É interessante como Santiago Loza faz do ato de contemplar o principal eixo no diálogo entre os conflitos internos de seu protagonista com a aparente paz ao redor. A depressão, enfim, é abordada de forma crua, sem cosmetização e qualquer porto seguro à vista não é suficiente para o personagem. Porém, La Paz entra no caminho da análise social em paralelo ao drama e perde muito. Berlinale 2013.
 ★★
Behind the Candelabra (Idem, EUA, 2013) de Steven Soderbergh

Baseado no livro homônimo de Scott Thorson, que foi amante do pianista Valentino Liberace por quatro anos, Behind the Candelabra conta em monocórdio a história do casal. O maior atrativo está nas excentricidades do protagonista, mas o que mantém o filme é a entrega do elenco, em especial a de Michael Douglas. Seleção Oficial do Festival de Cannes.
★★
 Eu e Você (Io e Te, Itália, 2012) de Bernardo Bertolucci

Após nove anos longe das câmeras, Bernardo Bertolucci volta ao cinema utilizando a matéria-prima de seu último longa, Os Sonhadores, mas com diferente abordagem em Eu e Você, filme exibido no Festival de Cannes de 2012. A inquietude juvenil desta vez não parte de nenhum princípio político explícito para ser estudado. Em certo ponto de Eu e Você, Bertolucci ultrapassa os limites de sua forma e se vê obrigado a explicar sua intenção máxima através de um discurso, diluindo a força do filme, notoriamente debilitada pela mesmice na forma de causa e consequência. O momento é de fuga para os dois protagonistas em óticas distintas e este é o grande acerto do filme. Pois, no restante não há habilidade para dialogar com o “conflito de gerações” como símbolo da rápida mudança de hábitos e modelo de tempo entre os personagens.
★★
O ABC da Morte (The ABCs of Death, EUA/Nova Zelândia, 2012) de Vários Diretores
Seguindo o modelo de compilação de curtas de cinema fantástico como VHS e The Profane Exhibit, esta antologia conta com nomes conhecidos como Ti West (Hotel da Morte), Ben Wheatley (Turistas), Hélène Cattet e Bruno Forzani (Amargo) e Srdjan Spasojevic (A Serbian Film). Do terrir à ficção científica, a liberdade dada pelo projeto traz irregularidades e momentos memoráveis, como o curta que fecha o projeto, Z is for Zetsumetsu de Yoshihiro Nishimura. Hugo de Ouro  no Festival de Chicago.
★★
Os Encontros da Meia-Noite (Les Rencontres d’apres Minuit, França, 2012) de Yann Gonzalez
Ao reunir personagens distintos sobre o  mesmo teto, Yann Gonzalez sinaliza um diagnóstico ironico sobre valores como O Anjo Exterminador de Buñuel ou o recente Deus da Carnificina, de Polanski. Mas este curso é interrompido bruscamente por uma parábola onírica sobre os desejos da carne até o contato direto com a alma. Seleção da Semana da Crítica no Festival de Cannes.  
★★

7 Caixas Paraguayas (7 Cajas, Paraguai, 2012) de  Juan Carlos Maneglia e Tana Schembori 

Ambientado no maior mercado popular do Paraguai, 7 Caixas Paraguayas tem elementos possíveis para diversas análises sociais, mas prioriza atender à demanda de modelos narrativos relacionados ao cinema de resultados. Portanto, vemos uma aventura superficial, cosmetizada e referente ao mundo cão  norteada por exemplos como Cidade de Deus e Miss Bala. Nomeado ao Goya de melhor filme.
★ 
Uma Noite de Crime (The Purge, EUA, 2013) de  James DeMonaco

Um exemplo de como boas ideias não suportam um filme por inteiro. Uma Noite de Crime  almeja retóricas sobre a questão da violência em relação ao bem estar da sociedade justificadas pelo suspense, mas não coloca seus personagens como questão, e sim, suas atitudes em um só dia do ano. Há pontos que dialogam de forma simplória com a rotina e a cultura do terror sem abertura suficiente para discussões. Feito este caminho, o resultado é um filme mal resolvido e previsível.
 

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