COBERTURA: FESTIVAL DO RIO (PARTE 2)

 
Gerontophilia  (Idem, EUA, 2013) de Bruce LaBruce

Bruce LaBruce aponta interesse às narrativas  nesta versão gay de Ensina-me a Viver. Com o tradicional cinismo e fetiche estético, o grande trunfo do filme está mesmo no desprendimento do diretor às formas direcionadas como manifesto relacionado aos direitos LBGT. Além de ampliar o alcance da mensagem, Gerontophilia é LaBruce saindo do lugar comum, sem fios narrativos para justificar o diálogo com o erotismo. 
★★★

 Nós Somos os Melhores! (Vi är bäst!, Suécia, 2013) de Lukas Moodysson

A pré-adolescência e suas utopias permeadas pela rebeldia comum, aqui justificadas pelo punk rock. Moodysson adapta uma série de HQ's escrita por sua esposa e retorna ao formato bruto de filmar, com correções de plano, movimentos bruscos de câmera e, principalmente, reata o convívio com a ternura, deixado para trás no início dos anos 00.
★★★

 Sozinha (Gu du, França/Hong Kong, 2013) de Wang Bing

Wang Bing documenta de forma avassaladora a rotina de uma família destruída pela miséria e suas consequências - o abandono da mãe e a ausência do pai, justificada pelo trabalho. Apesar do conforto que as crianças exibem diante da câmera, o filme é sobre a figura da mãe, que não saberemos nem ao menos o nome. E é dela que vem a sequência mais singela do filme.
★★
Sapi (Idem, Filipinas, 2013) de Brillante Mendoza

Revestido de sátira ao cinema de gênero, Sapi aponta o terror que infringir certos códigos morais podem trazer consequências graves. A TV, maior alvo de Mendoza, além de causar impacto incalculável na sociedade e moldar o gosto do povo de acordo com seus interesses, também é campo de graves infrações éticas. A escolha de usar um gênero como justificativa para denuncia em tempo esquizofrênico de montagem potencializa o efeito da mensagem.
★★★
Mar Negro (Idem, Brasil, 2013) de Rodrigo Aragão

O reencontro do cinema de gênero com os tradicionalismos nacionais iniciado em Mangue Negro e A Noite do Chupacabras vem através de uma epidemia numa vila de pescadores. É o campo necessário para Rodrigo Aragão inundar a tela de sangue e tripas, conforme manda a cartilha. Se este é o fim da "trilogia da natureza" como é considerado, ótimo. Diversão garantida e que venham novos ventos. Do contrário, é o tempo de reinvenção para continuar usando o terror como eixo principal de seus filmes.
★★★
Michael Haneke - Profissão: Diretor (Michael Haneke - Porträt eines Film-Handwerkers, Áustria/França, 2013) de Yves Montmayeur

É interessante conhecer o modus operandi do cinema de Michael Haneke, conhecido por sua forma aguda de lidar com diversas contradições humanas. Yves Montmayeur, amigo de Haneke, intercala alguns depoimentos do realizador com cenas de bastidores dos filmes, dedicando-se aos últimos títulos. O ar é de extra de DVD, sem grandes novidades.
★★

O Uivo da Gaita (Idem, Brasil, 2013) de Bruno Safadi

Parte do projeto "Operação Sonia Silk", que busca reviver os tempos da produtora Belair, chefiada por Julio Bressane e Rogério Sganzerla nos anos 60, O Uivo da Gaita confirma toda hipótese de proximidade entre o "Novíssimo Cinema" e o Cinema Novo. É um filme de poucas chances e amarras, sem reforço ou norte para conflitos e raciocínios. Uma história de amor solta - talvez o  elemento que mais dialoga com a liberdade do cinema proposto. Por outro lado, o dialogo fica apenas na releitura e no embate de performances, sem inventividade ou novas questões a estudar.
★★

Quando a Noite Cai em Bucareste ou Metabolismo (Când se lasă seara peste Bucureşti sau metabolism, Romênia/França, 2013) de Corneliu Porumboiu

A cena que abre o filme condiciona qualquer analogia e apara as asas da liberdade para um só pensamento. Eis um filme sobre cinema e limite em sequências longas e câmera estática. Nelas, Porumboiu revela suas inseguranças como realizador, cinéfilo e roteirista, sempre colocando fronteiras como maior ponto de crise. O filme é um exercício hermético, evocando Antonioni (literalmente) na observação e na falsificação do real, quebrando qualquer ponta de discurso.
★★
Carne de Cão (Carne de Perro, Chile, 2012) de Fernando Guzzoni

Um país que ainda sente os efeitos da ditadura, que se autoboicota, com a impossibilidade de se reinventar. O sufoco - e o exagero de close-ups - de Carne de Cão faz um mapa da vida e sua luta direta contra diversas ideias de regras em tom pessimista. A formação crítica de Fernando Guzzoni é solta, incoerente, e o mais importante, pulsante, mesmo dentro da forma popular (e impessoal) de narrar  angústias e lamentos. Prêmio "New Directors" no festival de San Sebástian. 
★★
 Eu Sou Divine (I am Divine, EUA, 2013) de Jeffrey Schwarz
Apesar de todo tradicionalismo em sua forma, o conteúdo transcende a mesmice deste documento. A vida de Harris Glenn Milstead, que virou referência para o cinema de John Waters e imagem do cinema underground através da personagem Divine é analisada por amigos, familiares e, claro, o próprio Waters, que oferece depoimentos bem humorados. Serve como gás para revisão dos trabalhos da performer e justa homenagem.
★★

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