Alex Cox

Escrevi para o Cineplayers, mas acho que vale postar aqui também. Eis o caso de um diretor que escolheu o caminho mais difícil pela sinceridade. Infelizmente o mercado o transformou em desconhecido para o grande público. Com vocês, Alex Cox.


O pensamento dicotômico que representa a carreira de Alex Cox como diretor de filmes produzidos pela Paramount de certa forma norteia o eterno conflito de demanda e produto no cinema. Cox, que dirigiu filmes transgressores para os padrões do cinema pop com o monstruoso aparato hollywoodiano – seguranças, ruas fechadas, dublês, dezenas de trailers e muitos walkie-talkies –, como Repo Man – A Onda Punk (Repo Man, 1984) e Sid & Nancy - O Amor Mata (Sid & Nancy, 1986), aos poucos desbravou, não por vontade própria, o outro lado do cinema. Mais precisamente, quando o mercado engole a linguagem.

Há muito que falar sobre motivações, conflitos envolvendo princípios e necessidades de um artista, mas a intenção deste texto é fazer um rápido panorama, como um convite a conhecer – e principalmente, assistir – a obra do diretor. Nascido em Liverpool, Reino Unido, criador da série Videodrome da BBC, Cox teve apenas três de seus filmes lançados no Brasil – no qual ganhou o prêmio da crítica da Mostra de São Paulo em 1986 por Sid & Nancy. Repo Man e A Caminho do Inferno (Straight to Hell, 1987) completam a lista.

Fruto da cinefilia, Alex Cox dialoga com gêneros extintos ou marginais de forma aguda. O contrato inicial com a Paramount nunca garantiu segurança ou êxito, seja na finalização quanto na distribuição de seus filmes. Apesar do status de hoje, Repo Man e Sid & Nancy não tiveram relevância para a crítica e público, mesmo com exibições nos festivais de Berlim e Cannes, respectivamente. Walker (1987), seu último filme com distribuição do estúdio americano e sua obra-prima, menos ainda.

O embate começa neste ponto. Alex Cox mantivera sua postura em relação à identidade de seus filmes – o que logicamente gerou atritos com empresários. Todos os filmes do diretor passaram por horas em mesas de edição para chegar a um ponto que agradasse ao estúdio e ao realizador. A tendência, em todos eles, por coragem e insistência, era que Cox saísse satisfeito. Porém, o estúdio respondia com nula distribuição do produto. Mesmo assim, Repo Man, para exemplificar, ficou cerca de um ano e meio em cartaz nos Estados Unidos.

Outro ponto é a insistência de Cox em se relacionar com a forma independente de fazer filmes. Na busca de locações para Walker – que no fim foi filmado na Nicarágua e desenvolveu forte envolvimento político do diretor com o país -, Cox escreveu o roteiro do western Straight to Hell, protagonizado por músicos como Joe Strummer, Elvis Costello e Courtney Love e diretores como Jim Jarmusch e Dennis Hopper. Straight to Hell foi finalizado e lançado antes de Walker sem qualquer envolvimento da Paramount.

Foi o retorno à forma no qual se apaixonara em Edge City (idem, 1980), filme de conclusão de curso feito para a Universidade de Los Angeles. A experiência terrível que foi filmar Walker ao menos trouxe bons frutos. Após a morte de um contracenante, dirigir dezenas de pessoas, coordenar uma estrutura gigantesca, aturar o calor intenso durante o dia e o frio à noite, Alex Cox se permitiu lembrar-se de Kurosawa e Buñuel. Era o que precisava para seguir. Descartando a possibilidade de abreviar sua carreira, Cox usou seus dias em terras distantes para escrever O Herói Corrompido (El Patrullero, 1991).

El Patrullero, por acaso, é financiado por produtores do México e do Japão. Era o fim do diálogo com estúdios – ao menos por enquanto. Lançado em 1992, o road-movie dialoga diretamente com o cinema dos diretores que o salvaram da aposentadoria. Era o momento de reaprendizado, afinal, paga-se pela liberdade com o tempo. O processo é demorado e exige tanto do corpo quanto da alma. Por outro lado, criam-se laços além do profissionalismo. A lição foi colocada em prática durante Death and the Compass, série produzida para a BBC baseada na obra homônima do argentino Jorge Luis Borges. O cinema noir foi o parâmetro, e o desejo em ampliar a série em filme, iminente. Para tal feito, era preciso dinheiro e neste ponto há o que muitos chamam de “queda”.

O Vencedor (The Winner), lançado em 1996, é um filme encomendado, com o modelo tradicional de produção, com a equipe acompanhando o processo de roteirização, incluindo Alex Cox, contratado para dirigir o filme. É natural que um realizador contratado para “apenas” dirigir perca as rédeas e tome o processo para si. Portanto, Cox fez um filme e o estúdio outro completamente diferente. A mesa de edição determinou a separação e desistência do projeto por parte do diretor. Apesar de o filme ter sido lançado posteriormente com créditos fictícios, é sabido que Cox foi boicotado. Apossar de criações alheias é uma forma de isolamento. Este é um exemplar de como o cinema é guiado por jogos políticos e diplomacia. A mesma cartilha de poder que derrubara Cox anos antes.

E esta não foi a última vez. Mesmo sem apoio, Alex Cox adaptou a obra de Hunter S. Thompson Medo e Delírio em Las Vegas. Thompson odiou o roteiro de Cox que continha inserções de animação e outras comparações ao teor lisérgico do livro. Terry Gilliam acabou dirigindo o filme, e Cox ficou sem créditos. Loucura maior foi que no mesmo ano, um fã ligou oferecendo dinheiro para produzir um filme. Nascia aí Three Businessmen (1998).

A história de três homens solitários em visita a uma cidade fantasma nada mais é que uma dura crítica à perda de identidade e particularidades que a globalização oferece. Afinal, a cada quarteirão haverá um restaurante japonês, um Mc Donald’s e pessoas vestidas com as mesmas roupas e marcas. É, de longe, o filme com mais referencias à cinefilia, citando de várias formas Samuel Fuller, John Ford e Yazujirô Ozu, para lembrar alguns diretores. Para este filme, Cox contou com a parceria do Festival de Rotterdam, que projetava o crescimento do mercado no país. Fora integrantes holandeses na equipe, o filme teve distribuição garantida em alguns países da Europa, além de première exclusiva no festival.

Na mesma época, Cox idealizou e apresentou na BBC o programa Videodrome. Nele, apresentava filmes e diretores desconhecidos do grande público. Fellini, Visconti, Leone, Kurosawa e claro, Cronenberg, foram exibidos nas noites de domingo. O serviço ao consumo de filmes é notório em rápida busca no YouTube. Muitos são os comentários sobre a “iniciação” no cinema através do programa. O caminho pavimentado pela série seguiu com os documentários Kurosawa: The Last Emperor (1999) e A Hard Look (2000), sobre o impacto dos filmes da série Emmanuelle.

Nos anos seguintes Cox precisou dar um passo à frente. O cinema, portanto, era tão frívolo quanto sua potência em reverberar pensamentos. Revengers Tragedy (2002), baseado na peça homônima de Thomas Middleton, já encarava a era da internet, dos downloads e compartilhamentos de arquivos. Tudo era novo e atraente. Feito com atores em início de carreira e com fundos de estrangeiros mais uma vez, Cox distorceu por completo a história original, provando de sua postura de indagação e protesto numa história rica em detalhes, onde o Reino Unido é o foco principal. O longa foi nomeado ao Leopardo de Ouro no festival de Locarno. Mas talvez seja pouco em comparação à ousadia de fazer um filme chamado Rastros de Ódio 2.0 (Searchers 2.0, 2007) usando câmeras mini DV para contar a história de dois atores de western aposentados.

Responsável por uma das sequências mais singelas dos últimos anos, onde o famoso “duelo” dos westerns é revestido de um quiz sobre o gênero, Searchers 2.0 tem no elenco nomes como Roger Corman, vivendo um produtor de filmes, e Leonard Maltin, vivendo um crítico de cinema. O filme foi lançado em DVD apenas no Japão e teve duas exibições sem cortes na BBC. Esta versão é a que circula pela internet.  

Talvez o fracasso de Rastros de Ódio 2.0 tenha tirado a reputação do diretor, mas a criatividade vai além. Repo Chick (2009) foi filmado usando chromakey. Era a licença que Cox precisava, pois além de passear por locações inimagináveis por conta do orçamento, Repo Chick dialoga com o mundo dos animes e parte de extrema coragem para criticar de forma desenfreada as convenções cinematográficas.  Esta versão pessoal contra os procedimentos da indústria foi exibida no Festival de Veneza e recepcionada com frieza e indiferença.

Entre master classes e vídeos comentando filmes postados em seu canal no YouTube, Cox foi o primeiro diretor a ter êxito em campanhas de crowdfunding para financiar um longa-metragem. Via Kickstarter, Cox conseguiu com ajuda dos fãs os fundos necessários para filmar a versão cinematográfica de Bill the Galactic Hero, prevista para o segundo semestre de 2014. É esperar para ver qual será o próximo passo de um diretor que tem como norte a fuga de convencionalismos.

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