Bem-Vindo a Nova York (Abel Ferrara, 2014)




Bem, há muito o que perceber e dizer sobre Bem-Vindo a Nova York, mas em uma primeira visão do filme é notório o caminho contrário de Abel Ferrara na suposição de dirigir um filme-escândalo. Seria, sim um filme de potencial gritante em relação ao tema, o escândalo sexual envolvendo o potencial candidato à presidência da França Dominique Strauss-Kahn. 


Impressiona como Abel Ferrara se apropria das locações registradas, como se fosse dono de um olhar extra ao do que está de fato registrando – a ação. Dele é oriundo o título do filme e a fixação de Ferrara em afirmar que não se trata de um caso e sim, de um filme das mais variadas percepções. Junto a esse registro, Ferrara volta ao domínio do tempo e do espaço como uma reconstituição, sem a preocupação do tempo de corte e sim da precisão de cada ação e da força descomunal que o tempo morto tem em Bem-Vindo a Nova York. Fica claro a partir da primeira sequência que Ferrara tenciona seu conflito ao lado poético como forma de investigação, sem qualquer preocupação acerca de um possível conto moral e de carga sensacionalista.


Afinal, estamos diante de diversos paralelos, o principal deles a questão do que é real, onde Devereaux (Gerard Depardieu) vaga entre a percepção de seus atos como prazer e vício. Cabe ao filme, pela simples escolha de acompanhar o cotidiano do magnata em terras norte-americanas, sob regalias e autoindulgência, analisar a posição do que é, de fato, real. Esta é uma questão que permeia a carreira de Ferrara das mais diversas formas, algumas de forma soturna, outras mais óbvias, mas é evidente que Ferrara volta aos seus alicerces de início de carreira, o lado mais obscuro e que volta à importância a formas difusas de dramaturgia, potencializando pela postura de Ferrara em conceber seu filme pela associação, em primeira instância, ao espectador, como um convite à análise em cada dobra do filme, a cada encontro de Devereaux com uma mulher, para o ambiente que cerca, para o que leva o homem ter atitudes que o incrimina e sua essência real. É como se Ferrara virasse um espelho para a plateia da forma mais cínica possível.


Este tipo de humor negro, sempre presente nos filmes de Ferrara, encontra o lado obscuro que pouca fora exibido nos  últimos filmes do diretor, amplifica a inclinação do diretor, que sim, julga seu personagem com a mesma motivação que filme - através do corte, da manipulação da imagem, da inserção de representações externas. Não há arma melhor.

Bem-Vindo a Nova York (Welcome to New York, EUA, 2014) de Abel Ferrara

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