A ENCARNAÇÃO DO DEMÔNIO



Quarenta e um anos separam o último filme de José Mojica Marins, o popular Zé do Caixão – hoje com 70 anos – A Encarnação do Demônio do segundo filme da trilogia, a obra-prima Esta Noite Encarnarei teu Cadáver, de 1967. Justificado no longa como o tempo da prisão de Zé do Caixão, ele é solto e o terror está de volta às ruas paulistanas.

O filme pode sofrer por interpretações de quem não encara o longa como um filme tradicionalmente de gênero. Um filme de terror, sem um roteiro bem trabalhado, com conflitos realmente profundos. Até nisso Mojica pensou, quando coloca seu alterego Josefel Zanatas com perturbações do passado que o levaram a morte (Sim, morte) e a prisão. Aliado a costumes brasileiros e religiões e sem maquiar a cidade cinza, usando até o bizarro castelo dos horrores de um parque de diversões como locação, Encarnação é um clássico instantanêo do gênero, mas é realmente necessário lembrar que é um filme trash, daqueles que podem nos remeter a Evil Dead, de Sam Raimi. Mulheres nuas, escatologia, atuações bem medianas presas a estereótipos, muito sangue e pouco roteiro.
 A história é a mesma: Zé do Caixão continua a procura de uma mulher que considere perfeita para ter seu filho, de seu “imortal sangue” e continuar seu legado pela terra, mas agora vive em um mundo mais violento e tem que se adaptar. Logo ele vira alvo da polícia novamente e a busca por Zé do Caixão vira a história paralela, já que o prato principal, logicamente é a carnificina e uma visitinha ao purgatório, muito bem feito por sinal. Alguns flashes dos outros filmes da trilogia são colocados no longa para situar o espectador que não assistiu as antigas “fitas”, como diria Mojica. Mesmo com o estigma de “trash” ele possui elementos muito bem elaborados, não só fotográficos e uma boa direção de arte.

Se você pretende assistir algo como um suspense quebra-cabeça comandado por Jigsaw, esqueça. Mas os efeitos visuais não devem nada a nenhum filme americano, pelo contrário. A ousadia de Mojica é louvável, encerrando uma trilogia que foi conquistada no suor, depois de tantos problemas. O longa é para poucos, mas confirma que o gênero ainda existe no país, já que os poucos filmes feitos do gênero no país não conseguem espaço. Mas repito, se você encarar o longa como um suspense que está acostumado a assistir na TV, vai odiar mesmo a obra de Mojica.

★★

A Encarnação do Demônio (Idem, Brasil, 2008) de José Mojica Marins

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