Maldita Realidade: O ponto em comum dos filmes do Indie

"O Rio era um Homem"
Conhecido por trazer em sua programação uma vasta quantidade de assuntos e abordagens em sua mostra mundial, a décima segunda edição da Mostra de Cinema Indie traz, curiosamente, o diagnóstico do sentimento de frustração que os novos tempos trouxeram. É possível analisar em filmes de diversos países, gêneros e linguagens que em comum, todos eles possuem o grito de desespero; o fim precede o reinício (o que adormece a idéia de história edificante), realidades paralelas, desespero e carência são consequências de um sintoma comum.

Decepção é o ponto de partida para muitos filmes da Mostra Mundial do Indie; se não está lá no primeiro plano, ela se desenvolverá como um monstro conforme a narrativa em diversos tons. Prova disto é a comédia americana O Círculo Cromático, comédia fortemente influenciada pela geração indie dos anos 80 e 90 que conta a história de dois irmãos beirando os trinta anos frustrados com a vida profissional e amorosa que pegam a estrada para um recomeço forçado e Ovo e Pedra, denso drama chinês vencedor do Tigar Awards no Festival de Roterdã. O longa dirigido por Huang Ji de apenas 28 anos buscou a sua própria essência – protagonista Honggui, deslocada, culpada, que toma a aparência de um vulto pelas câmeras aprende a lidar com os fantasmas da vida na força e no sangue.

A discrepância de gêneros com o assunto em comum continua – a comédia de humor negro Los Chidos, dirigida por Omar Rodriguez Lopez, conta a história de uma família desonesta que cuida de um ferro-velho que tem sua rotina transformada com a chegada de um americano disposto a ajudá-los. A metáfora da relação entre EUA e México amplifica a sensação de desespero por um futuro próspero. Já o belo Nunca é Tarde Demais relata a volta forçada de um homem a Israel ainda indisposto em relação a um acerto com o passado. Crônicas Sexuais de uma Família Francesa dispensa comentários. Os fantasiosos Baikonur e Uma Nuvem em um Copo D’Água e o cru O Rio era um Homem flertam com a existência e o espiritual, sempre desmembrados pelas decepções, sejam elas imediatas ou não.

É interessante, mesmo que de forma acidental, a mostra faça o panorama de um sintoma realista em seus argumentos. O Indie traz em sua programação filmes de nomes contemplados em Cannes como Brillante Mendoza (Em Nome de Deus) e Apichatpong Weerasethakul (Hotel Mekong) e consagrados como Raya Martin (A Grande Festa do Cinema) e Naomi Kawase (Vestígio), o vencedor do Urso de Prata do Festival de Berlim Apenas o Vento e 3.11 – Sentir-se em Casa, filme produzido a partir de curtas de três minutos e onze segundos com diretores como os já citados Mendoza, Weerasethakul e Kawase, além de Jia Zhang Ke e Patti Smith.

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