A ESPUMA DOS DIAS




Ao condensar o processo de produção do livro A Espuma dos Dias de Boris Vian à adaptação cinematográfica propriamente dita, Michel Gondry subverte seus métodos; o tradicional e folclórico papel da estética toma as rédeas da história, outrora coadjuvante em filmes como Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças e Rebobine, Por Favor.


Ambivalente, o longa une com sobriedade esta espécie de onirismo obrigatório, seja pela obra original – de natureza psicodélica – ou pela influência de Michel Gondry. A Espuma dos Dias exibe um conto primordialmente ilustrativo com o intuito de se opor às regras de composição. Porém, falta lucidez no uso das imagens aliadas à tipologia que a narrativa sugere.


Apesar de seguir uma história de amor, A Espuma dos Dias é um filme romântico por outros meios; trata-se de uma escolha acertada para evitar diatribes acerca do sistema capitalista e tópicos políticos, já que o filme é repleto de informações visuais. De forma sensível, Gondry pauta assuntos infiltrados no filme, que logo se mostra como um espetáculo – os familiarizados ao cinema de Gondry compreenderão que nada passa de fetiche – e nele segue até o fim. 


Pois depois do trágico Besouro Verde e o mais corajoso de seus filmes, o ainda inédito no país Nós e Eu, Gondry ensaia o retorno ao mundo que o consagrou, desta vez usando a história a favor da imagem. Configura-se, portanto, uma obra figurativa, que se justifica por caminhos que geram afirmações frontais de Gondry à marca de autor. Desta forma, é visível a eloquência do discurso de planos e movimentos de câmera; por outro lado está a saturação breve do diálogo com o próprio filme. Como diagnóstico, parece infinita a luta de Gondry para inibir a autonomia entre narrativa e estética, independente de enredos.

 ★★
A Espuma dos Dias (L'Écume des Jours, França/Bélgica, 2013) de Michel Gondry

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