GLORIA




Gloria é um conto sobre a definição de ninho vazio que passa às margens da origem de seu principal conflito. Apesar da distância entre a protagonista que batiza o filme e seus filhos, o que permeia sua duração é a incessante tendência de Sebastián Lelio em manter a cordialidade entre seus dois polos (fim e recomeço) com certa ingenuidade. A tendência é, portanto, óbvia – escrever um filme rico em ternura e consequentemente de eixos dormentes. 


Certo de que não é preciso análise sobre os ensejos de Gloria e o que há ao seu redor – seja o vizinho ou o próprio Chile -, Sebastián Lelio vai ao cerne e apresenta Gloria com a necessidade de viver no polo que seus filhos deveriam estar. No tempo de realizações, os filhos refletem um desejo implícito de Gloria, que inverte os papéis por um comportamento infantil e perdido segundo a ultrapassada cartilha da terceira idade. A subversão neste caso é o grande trunfo do filme para sua superfície.


E é no modo que Lelio embala o filme que suas intenções são reveladas. Agridoce, repleto de referências temporais através de canções traduzidas em catarses de pura nostalgia e a aproximação de um tempo que não voltará. Tempo este que é abstrato o suficiente para Lelio construir antíteses através da esperança de novos ares, como uma silenciosa afirmação de um direito comum. 


Gloria torna-se o contrapeso de um mundo sem identidade, sem rumo, sem nenhuma certeza do que pode acontecer no próximo minuto. E curiosamente neste viés, Lelio adormece toda intenção de Gloria em crescer por ela mesma como brecha para o conflito que outrora faltara. O encontro com as chances de mudança é diário e nem sempre partirá da sua própria vida, pois ninguém será muleta para outra pessoa por muito tempo. É o suficiente para saber que Lelio escreveu um conto duro demais para sua casca fina.

Gloria (Idem, Chile/Espanha, 2013) de Sebastián Lelio

Comentários

Postagens mais visitadas