O LOBO DE WALL STREET






Ao longo de sua carreira Martin Scorsese foi de Travis Bickle a Rubert Pupkin passando por Jesus Cristo e Dalai Lama com a intenção de aguçar um ponto de vista sobre histórias extraordinárias. E do maior circo de horrores americano surge Jordan Belfort. Dono do mesmo deus na barriga que Guido Anselmi em 8 ½ de Fellini, proprietário do mesmo circo, e refém da mesma ilusão.  E com ela Belfort adentra ao palco (ou escritório) diversas vezes, sob aplausos e com um microfone na mão. Wall Street é o picadeiro para o abismo moral em um país que a exalta.

O Lobo de Wall Street se divide em duas partes de maneira singela; monta a lona deste circo bizarro na primeira metade, onde apresenta os personagens e conta como Belfort virou o famoso “lobo”. Como John Ford, Scorsese, a sua maneira, filma a experiência americana. Suga o que há de melhor de Leonardo Di Caprio, Jonah Hill e até Matthew McConaughey em rápida aparição, porém marcante o suficiente para o que há de vir. Não há qualquer preocupação maior nesta montagem de lona há não ser conta-la com o maior número de detalhes possíveis. Desta maneira vem a posição multiforme do narrador, onde Belfort ganha outros meios de dialogar com o espectador e reforça sua identidade.
O protagonista é poderoso o bastante para se equiparar com o próprio Scorsese, tomando um conhecimento fantástico sobre a existência da narrativa – a interrompendo algumas vezes, inclusive. E de detalhes como este o filme tem abordagem amplificada enquanto ilustra a cada quadro como um abismo puxa outro. Afinal, a crueldade com que este frenético giro de capital acontece exige nervos adormecidos até mesmo para o mais preparado dos homens. 

Belfort reina em todos os mundos. Do céu ao inferno. Do mais luxuoso restaurante a nada glamurosa vida white trash. Como variação sobre o mesmo tema, Belfort contornou e lucrou de diversas formas e sem concessões. Geralmente as justificando como trâmites legais – embora este conceito seja altamente questionável, afinal os Estados Unidos sempre apoiarão formas de “reescrever” uma história após queda iminente. Elas também são lucrativas. 

E sobre esta queda que a segunda metade trata. A espécie de anti-herói do capital americano desenvolve pilares enfraquecidos. Scorsese tenta ilustrá-los com clara intenção de manter o tom ácido da primeira hora. O Lobo de Wall Street torna-se então uma simples história de causa e efeito. Como a simples escolha de investir e lucrar ou simplesmente perder tudo.  Belfort vai e volta dezenas de vezes com seu microfone, em pé, pronto para ser louvado e para motivar, ainda que não exista nada de genuíno em algo impalpável como os números de ações bancárias. Eis uma equipe fantasma que se revela humana através de necessidades. Financeiras, sexuais ou por vícios. E dela sai a mais representativa cena do filme, onde o protagonista se esforça em ser humano, se vangloriando de uma boa ação. 

Belfort liderou uma equipe que nuca permitiu se conhecer, apenas mergulhar de cabeça no desbunde. Os resultados permitiram que o mundo fosse deles, mesmo que desgovernado e com as vistas turvas graças a qualquer alucinógeno. E pela trivialidade que qualquer abordagem sobre consequências traz, O Lobo de Wall Street carece de sensibilidade não no encadeamento de seus dois polos, mas por perpetuar-se  com pulso onde a maior empreitada seria a de novamente compreender um mito e seus conflitos. 

O Lobo de Wall Street (Wolf of Wall Street, EUA, 2013) de Martin Scorsese

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