FESTIVAL DO RIO - PARTE 6

ESSENTIAL KILLING (Idem, Polônia/Noruega/Irlanda/Hungria, 2010) de Jerzy Skolimowski
O mestre do cinema polonês Jerzy Skolimowski vai no âmago da necessidade instintiva para analisar a relação entre o homem e a religião em Essential Killing. Com pouquíssimos diálogos, o filme destroça em nuances a posição de um terrorista afegão às promessas de uma vida próspera. Ele, alvo do exército americano, passa por situações extremas de sobrevivência em um local desconhecido. Skolimowski não procura o drama em seu roteiro para entronizar o protagonista. O sofrimento é visível, está lá para quem conseguir ver. A necessidade de viver para o diretor é muito mais importante que a tentativa de construir um elo de sua não-narrativa (no sentido Griffithiano da coisa) e saídas melodramáticas. A mesma ausência narrativa (novamente, em comparação ao cinema clássico americano) às vezes se sobrepõe à esta história, oferecendo momentos avulsos (que em certa altura do filme tomam forma de delírios, devido ao estado debilitado do personagem, vivido por Vincent Gallo), mas não é nada comparado ao olhar poético da relação entre carne e espírito.

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CARLOS (Idem, França/Alemanha, 2010) de Olivier Assayas

Carlos é uma epopéia dirigida por Olivier Assayas que dura nada menos que 330 minutos e segue uma cartilha narrativa de filmes de máfia. Muitos personagens, alguns entrelaces e um silencioso conflito interno do protagonista que batiza o filme, um marxista que lutava por qualquer causa ou ideal político e religioso que lhe fosse pertinente. O mais interessante da cinebiografia - que deve ser encarada paradoxalmente como uma obra cem por cento ficcional, segundo o próprio diretor - do militante é como o ego, silenciosamente, domina a personalidade de Carlos. Aparentemente ele nunca deixou de ser um comunista fervoroso, mas inconscientemente buscava uma nova glória, aquela que grandes políticos e sistemas de segurança poderiam lhe dar, representada por fugas grandiosas após ataques nem sempre bem sucedidos. Durante as cinco horas e meia Assayas tem grande domínio sobre o ritmo narrativo e não cansa, no geral. Chega até apelar para elipses para não nos encher de informações desnecessárias. Em tese, o filme é sobre um período de ascensão e queda de um mito, um suposto herói que poderia ser confundido como um baderneiro por não seguir um só ideal. Lógico que existem tropeços dentro da grandiosidade do projeto (que foi dividido pelo Canal+ da França em cinco capítulos para virar uma mini-série ou uma trilogia cinematográfica). Assayas não consegue transparecer e enaltecer a equivalência emocional entre o espírito de liderança de Carlos e a sua falta de coragem para exercer tal cargo verdadeiramente. No epílogo, quando o diretor analisa as consequências de uma vida regada a decisões urgentes e sempre em estado de atenção, se distancia mais ainda de seu protagonista. Talvez para reforçar a postura de homem imbatível, mas para nós espectadores, fica a sensação de que não mergulhamos de fato no íntimo do personagem.

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