O GERENTE


Antes de uma homenagem ao poeta Carlos Drummond de Andrade, citado e exibido em O Gerente, a volta de Paulo Cezar Saraceni ao cinema após dez anos se apresenta como uma obra anárquica às convenções do cinema. Da narradora que “atrapalha” o espaço da ação e interage diretamente com o protagonista Samuel (Ney Latorraca), até a possibilidade de audição da voz do próprio Saraceni na cena que encerra o filme, o diretor insere a história que se passa nos anos cinquenta no contexto atual – apesar de seus personagens e contracenantes estarem a caráter, nada ao redor é maquiado. É possível ver carros, lojas e roupas dos dias atuais sem que isso interfira diretamente no filme. Para Saraceni, o que implica o pensamento de despreocupação nada mais é que um trampolim de questionamentos sobre a liberdade.

Enquanto a história de um gerente de banco que alimenta a tara por mãos femininas ganha a tela, paralelamente e sem altruísmo algum, brotam críticas ao sistema de incentivo a cultura, a pureza de trocas de planos e polimento de imagens e a prisão de gêneros. Em O Gerente é possível alinhar a mise en scene opositora à dramaticidade – deliciosa, por sinal – a troca de lentes de câmera e atemporalidade.

O vigor de O Gerente está nesta idéia de articular as possibilidades que se justificam pelo cinema que, nesse caso, livra-se da nostalgia da época, encontra passado e presente (essencial para o tom fabuloso do filme), faz seu público lembrar-se da presença da câmera e de um diretor, que se proclama dono de um cinema corajoso e vital com uma só frase, dispensando signos e enigmas. Para Saraceni, um nauseante bom humor é o carro chefe de seu filme.

★★★★
O Gerente (Idem, Brasil, 2011) de Paulo Cezar Saraceni

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