FESTIVAL 4+1

Em sua terceira edição brasileira, o Festival 4+1 se hospeda pela segunda vez consecutiva no CCBB do Rio de Janeiro. Trazendo filmes que ganharam destaque em festivais como Sundance, Cannes, Berlim e Veneza, o festival também presta homenagem ao realizador alemão Werner Herzog que estará presente no evento para aula magna especial e para apresentar o longa The Wild Blue Wonder, de 2005, ainda inédito no país. Abaixo você confere comentários sobre (quase) todos os filmes da mostra competitiva e outros que terão exibição, por exemplo, a coletânea de curtas 3.11 - Sense of Home. A programação completa do evento está disponível neste link.

Nana (Idem, França, 2011) de Valérie Massadian

Vencedor do prêmio de debut diretorial no Festival de Locarno de 2011, Nana se suporta pela sequência inicial do filme, onde a pequena menina que batiza o filme vê a morte brutal de um porco. Ela está diante da frieza do mundo e da displicência humana que se desenvolverá durante o filme. Contemplativo, o longa de Valérie Massadian coloca a protagonista à revelia do mundo e usa a inocência como eixo para questionamentos sobre amor e natalidade sem tanta criatividade.


Bellflower (Idem, EUA, 2011) de Evan Glodell

A transformação do cinema em vida. Esteticamente rico, Bellflower une o espírito nostálgico ao jovial – assim como suas fontes de inspiração no cinema -, a extremidade de cenas fortes imagética e liricamente e o contraponto do conteúdo denso à freneticidade da montagem e da narrativa. Mais um bom exemplo da funcionalidade deste modelo cinematográfico. Leia a crítica completa.
Crazy Horse (Idem, França/EUA, 2011) de Frederick Wiseman

Longe da eterna questão do real e dos tradicionais talking headsFrederick Wiseman construiu sua carreira como diretor de documentários analisando o cotidiano de instituições americanas. Em Crazy Horse, a metodologia segue intacta, mas não foge da questão sobre a inventividade do diretor. Leia a crítica completa.
Ao Abismo, Um Conto de Morte, Um conto de Vida (Into the Abyss, EUA/Reino Unido/Alemanha, 2011) de Werner Herzog

Ainda que o documentário de Herzog flerte com o formato de reportagem – mesmo longe de sensacionalismos, a potência está em como o realizador molda suas perguntas: muitas desconcertantes, outras que revestidas do acaso disfarçam o mal estar da situação e outras que ganham o silêncio como simbolismo para o lamento, independente da situação que o entrevistado esteja, todos ali tem motivo para estarem insatisfeitos levando a questão maior que é a necessidade da pena de morte em múltiplas abordagens. Leia a crítica completa.

Terri (Idem, EUA, 2011) de Azazel Jacobs
Azazel Jacobs leva a derrota – termômetro mais usado nas comédias independentes americanas contemporâneas – ao seu extremo e questiona se a imagem condiz com a verdade. Como a sequência chefe do filme representa, Terri está ali para todos. Um amigo de todos. Basta aprender a ser amigo dele mesmo. Leia a crítica completa.
3.11 - Sense of Home (Idem, Japão, 2012) de Apichatong Weerasethakul, Ariel Rotter, Catherine Cadou, Isaki Lacuesta, Jia Zhang-Ke Bong Joon-ho, Jonas Mekas, Kaori Momoi, Kazuhiro Soda, Leslie Kee, Mohd Naguib Razak, Naomi Kawase, Pedro Gonzalez Rubio, Shunji Dodo, So Yong Kim, Steven Sebring, Patti Smith, Takushi Nishinaka, Toyoko Yamasaki, Victor Erice, Wisut Ponnimit e Zhao Ye

Usando o tsunami causado por um terremoto no dia 3 de março de 2011 como ponto de partida, esta série de curtas dirigidos por nomes relevantes como Jia Zhang-Ke, Bong Joon-ho, Apichatpong Weerasethakul e Naomi Kawase (organizadora do projeto) busca a representação do desamparo de uma nação.  Movidos pelo experimentalismo, alguns conseguem tocar no assunto pela alusão, outros de forma direta como Patti Smith e Bong Joon-ho, porém o que desconecta todos estes filmes é justamente a liberdade. A variedade de linguagens e formatos solta a rédea e leva alguns a simplesmente esquecer o tema - ou impossibilitar o diálogo entre imagem e texto. O produto final é completamente irregular.
The Ballad of Genesis and Lady Jaye (Idem, EUA/França/Bélgica/Alemanha/Países Baixos, 2011) de Marie Losier

Este documentário evoca os anos sessenta e a arte de Andy Warhol, Lou Reed e David Bowie, para citar alguns. Da androginia que aponta a igualdade entre Genesis, nome dado para o garoto Neil após o trauma envolvendo a igreja e sua escolha sexual e seu eterno amor, Lady Jaye, às colagens e reconstituições, o filme de Marie Losier é livre para utilizar diversos aspectos de modelos distintos de documentário. Das narrações - que mais soam como declarações de amor - ao tour diary do grupo liderado pelo casal, está a aura desta época, mesmo que Marie Losier tenha filmado em 2006. E para coroar, acompanhamos uma legítima história de amor, aquele que se doa, que espera e tudo supera.

 

4:44 Last Day on Earth (Idem, EUA/Itália/França,2011) de Abel Ferrara

A constante análise de causa e efeito neste conto apocalíptico de Abel Ferrara não cria senso de unidade entre suas fontes. Na Nova Iorque igualmente decadente a de O Assassino da Furadeira - também com os mesmos enigmas envolvendo arte e libertação, 4:44 ensaia discursos para um novo tempo - ditatorial e intolerante com alternativas; haverá alienação, dependências, vaidade e traições até o fim e a redenção está na interpretação da vida. Ferrara, porém, confunde o propósito do filme ao limitá-lo ao pragmatismo de uma pregação redundante: verborrágico e artificial.

Verano (Idem, Chile, 2011) de José Luis Terra Leiva

Sensorial e contemplativo, Verano explora o instinto feminino num vilarejo afastado da capital. Lá, um grupo de mulheres deseja, se repreendem e, claro, falham. Um exercício que cresce conforme a proposta aflorece. Se afastar, no caso, é a ação correta para transformar personagens em objetos de identificação. Verano é remetente ao cinema de Naomi Kawase, filmado em Super 8 e integrante do 68º Festival de Veneza.
La Demora (Idem, Uruguai/México/França, 2012) de Rodrigo Plá

O que cerca La Demora é a questão da vilania; a câmera estática de Rodrigo Plá acompanha o cotidiano de María (Roxana Blanco), que além da obrigação de manter uma casa e três filhos,  é responsável pelo pai, vítima de Alzheimer. A intenção do filme, vencedor do prêmio do  júri ecumênico no Festival de Berlim, é aproximar a idéia da banalização do trágico através das sombras de sua fotografia. Nela, é possível desencadear idéias e identificar histórias similares, onde o desespero e o desamparo são dominantes.
Photographic Memory (Idem, EUA/França, 2011) de Ross McElwee

Utilizando a relação com seu filho adolescente Adrian, o cultuado documentarista Ross McElwee pretende, à priori, estudar a evolução da película e a maneira de filmar e fotografar - o fim do romantismo, o pragmatismo e o imediatismo que o tempo pede. Porém, o que vemos é uma lenta transição de propostas; a arte - matéria-prima - invade a vida do realizador, que aos poucos domina a tela, tornando o filme em um bloco de notas aberto ao público. Paralelo à relação de pai e filho, o passado ganha importância máxima para se discutir o futuro. Matemática simples feita com alma.
Life without Principle (Dyut Meng Gam, Hong Kong, 2011) de Johnnie To

Esqueça os tiroteios e cenas de ação em locais improváveis, características do cinema de Johnnie To. Em Life Without Principle, vemos um thriller expositivo sobre a teia natural que o capitalismo forma. Entre a necessidade e a ganância moram a violência, impostos e personagens vítimas do sistema das mais variadas formas. Nada que não tenha sido abordado anteriormente em óticas (e gêneros) diferentes. A sensação é de que o filme aponta a reinvenção de um realizador, porém, com efeito contrário.
Fragments (Les Éclats (Ma Guele, Ma Révolte, Ma Nom, França, 2011) de Sylvain George

O desafio de Sylvain George neste documento experimental sobre a luta de imigrantes ganeses para voltar ao seu país enquanto vivem à revelia, em um local fantasma onde só os policiais dividem o espaço é dominar a monotonia. Funcional quando analogias são criadas ou o caráter contemplativo é dado ao dispositivo e completamente entediante quando assume o modelo de documentário com depoimentos e denúncias, o filme não escapa da irregularidade.
Land of Oblivion (La Terre Outrageé, França/Alemanha/Polônia/Ucrânia, 2011) de Michale Boganim

O embolado criado por Michale Boganim a partir de Chernobil, que muitos consideram o ponto de partida do apocalipse, em 1986, é o sustento para Land of Oblivion ser um espectro antes mesmo de uma análise social. O filme busca a relação de identidade com os locais afetados e a sensação de ausência após a tragédia. Acompanhando três personagens, Boganim adormece o sensacionalismo e o drama. Seu filme é um documento frio, remetente ao cinema de Sergei Loznitsa ou Aleksey Balabanov e focado na complexidade do conformismo e no sentimento abstrato que é a saudade. Ainda que tenha norte, o filme parece perdido por não ter uma média clara entre os tópicos analisados e, principalmente, entre os personagens. 

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