12 ANOS DE ESCRAVIDÃO




Solomon Forthup (Chiwetel Ejiofor) seguiu a via crucis por doze anos no país que até hoje intensamente prega o evangelho de Cristo Jesus. Conforme Aguirre, a Cólera dos Deuses (1972) de Werner Herzog, a denuncia é tão clara desta posição hipócrita e de soberba gratuita, contrária à palavra pregada – ou intencionada. A ótica de 12 Anos de Escravidão segue esta linha, ainda que pareça fragilizado entre a denúncia e o melodrama.  McQueen coloca uma vírgula em um assunto que seu destino – o grande público – opta por esquecer, esconder ou encerrá-lo sem conclusão digna. 

Enaltecer a subversão de um assunto tão espinhoso seria redundância, mas ao tomar o caminho explícito contra a espetacularização dos tempos de escravidão declarada em especial ao cinema contemporâneo onde este assunto reverbera discussões sobre o orgulho e segregação racial, é o principal posto de 12 Anos de Escravidão. Este feito toma forma quando o diretor vai à inversão da moral, inclusive a de Solomon, homem livre conforme a lei.  

São nos momentos onde McQueen sugere o oposto, ou seja, a dormência em todos os aspectos que divergem da imagem, deixando que a mesma tome o tempo determinado pela liberdade, sem a presença do som ou até mesmo de corpos em certos momentos, é que o filme se faz forte. Neles, onde a simplicidade é genuína, como um simples plano de uma árvore ofuscando a visão do pôr-do-sol, McQueen contraria outra máxima do mercado que o premia no início de 2014: não há apenas um olhar e uma interpretação. 

E assim se faz a correlação de um martírio que se expande conforme Solomon muda. São mutações silenciosas, conforme seus “patrões”, em diferentes níveis de inconformismo, amplificados pelas relações com novos companheiros. Este sofrimento não se expõe graças aos malfeitores, mas por poucos segundos, em momentos de contemplação que McQueen delicadamente aumenta conforme o desenvolvimento narrativo. Num adeus, na descoberta da real identidade acima de status ou no grito que o ambiente ao redor solta. O suspiro de vida insistente que 12 Anos solta ali está. 

12 Anos de Escravidão (12 Years a Slave, EUA, 2013) de Steve McQueen

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