FESTIVAL DO RiO - PARTE 3


buraco negro
 BURACO NEGRO (L'Autre Monde, França/Bélgica, 2010) Direção: Gilles Marchand

Não me surpreenderia se em pouco tempo Buraco Negro ganhasse um remake americano. O roteiro é redondo, passeia por gêneros e ainda tem a clássica “moral da história”. Embora guiado pelo suspense, o filme é tratado inteiramente pela superficialidade de relacionamentos adolescentes (talvez o público alvo do filme) e mergulha no universo lúdico dos games para levantar questões existenciais.Gilles Marchand consegue unir três pilares narrativos sem que nenhum deles pareça avulso à proposta; dá pé à delicada inserção de uma história num mundo paralelo, numa espécie de Second Life com a reunião secreta de De Olhos Bem Fechados. Os méritos vão para a decupagem que não deixa que essa ousadia não caia no ridículo. Por outro lado, consegue momentos que beiram a vergonha alheia pela ausência de profundidade na relação de seus estereotipados personagens. Buraco Negro é o típico caso de filmes com boa execução, mas com o excesso de cautela para não rebuscar o roteiro, que possa estragar a intenção principal do diretor, que, obviamente, é dar um clima específico ao filme. Sobra aura, mas falta conteúdo.

lstationrev 
A ÚLTIMA ESTAÇÃO (The Last Station, Alemanha/Rússia/Inglaterra, 2009) de Michael Hoffman

O paradoxo que o escritor Leo Tolstoi sustentava ao buscar edificação espiritual longe da filosofia inventada pelo próprio fica em segundo lugar em A Última Estação, novo filme de Michael Hoffman. Ele analisa uma briga de egos usando o escritor como pilar através do ponto de vista de um personagem, no fim das contas, aleatório para a trama. A concentração do roteiro na ambígua visão de Sofya Tolstoi, a mulher do escritor (a ótima Helen Mirren). Ao mesmo tempo, ela lutava pelo lucro da família através da obra de Tolstoi – indo contra a ideologia pregada por ele - e levar uma vida tranquila no retiro em que ele vive com seus seguidores. Uma visão conflituosa com a do protagonista Valentin Bulgakov (James McAvoy), admirador do escritor e novato no retiro e principalmente com a de Vladimir Chertkov (Paul Giamatti), homem que acreditava que a obra do escritor deveria ser levada aos quatro cantos do mundo. Esta questão nada trivial para o escritor só é deixada de lado para acompanharmos um romance que serve mais como conto moralista. Hoffman acerta quando não deixa seus personagens estereotipados numa trama que implicitamente trata do duelo entre razão e emoção. Mas não consegue organizar um raciocínio para construir um conceito relevante à história de Tolstoi, que no fim, mergulha de cabeça num melodrama de segunda.

QUEBRA-CABEÇA (Rompecabezas, Argentina, 2009) de Maria Smirnoff

Quebra-Cabeça é um daqueles filmes que despacham a nós a empatia à sua protagonista com a aposta de uma identificação imediata e de grande pilar da narrativo. Este talvez seja o grande tropeço do filme que adota elucubrações para assuntos tão corriqueiros. Representados por Maria, uma dona de casa, que ao descobrir o passatempo de montar quebra-cabeças salienta a importância de ser seu tempo, suas particularidades na mesma medida em que se dedica à família. Evitando grandes ensejos melodramáticos, incluindo cortes grosseiros em cenas que só ilustrariam um sentimento, Maria Smirnoff exalta questões existenciais neste exercício. A relação sempre pacífica com filhos e marido (sempre em segundo plano para a diretora) e o sufoco natural de quem se dedica por inteiro a eles bate de frente ao encontro com Roberto, homem que procura alguém para ser par no próximo campeonato de quebra-cabeças. No desenrolar da trama, vemos o óbvio. Por outro lado, no processo de maturidade de uma mulher que sempre esteve escondida atrás de seu instinto materno, Smirnoff destroça implicitamente um monstro, que se entrega e se descarrega com o reconhecimento alheio e com o aval de sua família. Esta que, no momento certo, lhe ajuda a buscar a sensatez.

Comentários

  1. Bom post. Não sei pq, mas me deixou motivado a fazer um parecido.

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